Notas iniciais
Aloha! Como vão? No meio do capítulo, surge o nome da banda fictícia Intergalatic Space Dance Party. Ela foi inspirada nesse vídeo aqui (https://www.youtube.com/watch?v=a0-T6QsxyVc&src_vid=WLmN1D1P2RI&feature=iv&annotation_id=annotation_3475562229), que são trinta e três segundos de perfeição. Boa leitura!

Dia 2

Ninguém atende durante a madrugada, então desisto, desligo o celular para poupar a bateria e vou dormir. São mais ou menos duas horas da manhã, o que basicamente significa que meus horários de sono estão completamente bagunçados. Sei que não preciso me preocupar em acordar cedo para a escola, mas, ainda assim, algo no fato me irrita. Para ser sincera, muita coisa irrelevante tem me irritado ultimamente.

Para melhorar a situação, apesar de Taylor ter me dito que seriam 25 feridos, ele não contou exatamente quantos não-feridos viriam. Eu digo a resposta. Muitos. O ginásio está atulhado de gente, e, com toda a sinceridade, um bocado delas é chata. A garota ao meu lado tentou me iniciar numa conversa horrível de como tudo aquilo era uma punição de Deus e como era importante que eu me convertesse para não queimar no inferno. Quando ela menciona meus “ancestrais pecadores” indígenas depois de meia hora de sermão, eu quase lhe meto um tapa no meio da fuça.

Em vez disso, só peço que ela vigie meu colchonete, cato minha mochila e vou tomar um ar.

– E aí, Harriet! – chama a voz animada de Ian. Dou uma olhada em volta até encontrá-lo num canto. Não vejo Jonathan por perto. Aceno de volta e me aproximo com cuidado, tentando não pisar em ninguém no caminho.

– Ei, Ian. Cadê o seu irmão?

– Foi falar com os oficiais lá fora. É aparentemente o único jeito de ter notícias por aqui – ele diz no tom bem humorado de sempre. Um único fone de ouvido pende em seu colo. – Vou te dizer, se ele não conhecesse um dos caras, acho que nem tinha conseguido sair do ginásio.

– Eles são barra pesada, mesmo.

– Têm que ser, né. – Ian me observa por alguns segundos com aqueles maravilhosos olhos azuis. – Tudo bem com você?

– Ah, eu vou indo – desvio.

– É que você não é de falar muito e... Eu sei que a gente não se conhece há tanto tempo, mas, se quiser me contar qualquer coisa, minha boca é um túmulo. Temos que manter um estado saudável de mente, sabe.

– Isso foi bem profundo.

– Na verdade, não foi não. – Um sorriso dança em seus lábios enquanto ele enfia a mão na própria mochila. Retira um folheto alaranjado lá de dentro. – É a campanha nova do governo.

– Tá brincando! – exclamo.

– Quem dera! Olha isso.

Ele me entrega o pedaço de papel. “Mantenha um estado saudável de mente”, diz o folheto em letras grandes, maiúsculas e pretas, logo abaixo de uma silhueta masculina parecendo saltitar de felicidade. Solto uma risada nasalada.

– Que horror.

– Eu sei! Pensei que eles fossem parar depois do fiasco das mãos limpas.

– Onde foi que você pegou isso?

– Eles me deram mais ou menos meia hora atrás. Você teria um também, se estivesse com a gente na parte legal do ginásio.

– Ei, a minha parte é legal.

– A sua parte não tem eu. A sua parte não é legal.

Resolvo não discutir essa.

– Você por acaso conseguiu falar com alguém fora daqui? – arrisco. O celular pesa mais no bolso traseiro da minha calça a cada segundo.

– Não tem ninguém com quem falar, na verdade... – Ian responde pensativo. Ele faz uma pausa, como se fosse se explicar, mas acaba completando: – Por quê? Você não está conseguindo?

– Hmm, não. Estou com medo de... Sei lá. Eu estava no colégio interno quando a coisa toda foi por ralo abaixo, então não sei... Como estão meus pais... Nem nada do tipo.

– Tenho certeza de que eles estão bem – Ian diz gentilmente. Mas não há como nenhum de nós afirmar nada, não é? Apenas balanço a cabeça, desvio os olhos de seu rosto e cruzo os braços sobre o peito enquanto tento não parecer frustrada.

– É, devem estar – respondo.

Passamos alguns segundos em silêncio até Ian me estender o fone sobressalente ligado ao seu celular. Hesito em pegá-lo.

– É Intergalatic Space Dance Party – ele acrescenta, lançando um olhar para minha blusa estampada.

Abro um meio sorriso de trégua. Difícil negar quando a capa do álbum menos popular da banda está na sua camisa.

Passamos algum tempo ouvindo música e jogando conversa fora. Ian me conta da vez em que foi acampar e acidentalmente atiçou um formigueiro, e eu, por minha vez, conto de como consegui quebrar o cotovelo tão feio que tenho pinos até hoje. Rimos intensamente da desgraça um do outro à medida que as histórias pioram.

Não sei se isso é uma boa, mas Ian me faz sentir bem no meio desse caos. Parece tão estranho fazer amigos por causa do apocalipse.

Não.

Nada de apocalipse. Não vou começar a fazer esse tipo de coisa.

Parece tão estranho fazer amigos por causa... Das circunstâncias.

É, melhorou.

Jonathan aparece depois de mais ou menos meia hora de conversa. A essa altura, Ian está terminando de me contar, em muito drama e detalhes, da vez em que pegou infecção alimentar.

– Jonathan se lembra! Não lembra? Eu fiquei mais empolado que milho de pipoca.

Um sorriso vago se desenha em seu rosto.

– E ainda queria se coçar, pra piorar a situação. – Ele lança um olhar duvidoso para o meu lado, mas ainda assim se ajeita nos colchonetes e passa a revirar sua mochila. Acabo baixando os olhos para o celular, ligeiramente incomodada. Jonathan age esquisito perto de mim. Sinto-me quase invadindo o espaço pessoal dos dois.

– Foi um inferno – Ian comenta saudoso. Ele passa alguns momentos em silêncio. Aproveito para trocar de música e mudar o cabelo de lado. – Como foi lá com os caras? – ele retoma. – Algum bonitinho?

Jonathan parece ligeiramente surpreso. Ele me observa atentamente por alguns momentos, mas, como não falo nada, responde em tom baixo:

– Não... Mas, hm, eles disseram umas coisas. – Uma pausa, na qual ele, de novo, lança um olhar duvidoso para mim. Ian o instiga a continuar com um movimento de cabeça. –... Bom, pra começar, não tem tanta gente assim lá fora. Cinco caras no máximo. Duas sessões de barricadas. Costumava ter mais gente, mas precisaram da galera em outros abrigos. A comunicação está horrível, pra dizer o mínimo, e eles estão com medo de possíveis cortes na energia. A maior defesa daqui é a cerca elétrica, então, se cair, não teriam como mover tanta gente até um lugar seguro. Além disso, a maioria deles não tem muita ideia do que está acontecendo lá fora, só que eles têm ordens pra manter o ginásio todo em quarentena. Isso significa que ninguém sai até ordens contrárias.

Uma pausa.

– Mas, se a comunicação está ruim, como as ordens vão chegar? – pergunto baixinho.

Jonathan dá de ombros, grave. Como se precisássemos de mais perguntas sem resposta.

O assunto, porém, morre ali. Com o desenrolar dos minutos, eu, Ian e Jonathan acabamos começando a jogar pôquer. Pensando em retrospectiva, foi algo bem... Aleatório. Ian puxou um baralho da mochila e brincou com ele nas mãos por mais ou menos cinco minutos, até Jonathan soltar um muxoxo porque “ele nunca teve jeito com essas coisas” e tomar as cartas para si. Duas horas depois, quando finalmente consegui pegar o jeito da coisa, precisamos parar por causa da gritaria que começou na porta do ginásio.

– Mas que merda...? – Jonathan protesta.

Nós três nos levantamos para ver melhor. Um grupo consideravelmente grande se acumulou na frente da porta e briga, em altos brados, com os militares do lado de fora. Saímos acotovelando quem dá para conseguir ouvir direito o fuzuê.

– Eu estou dizendo – diz uma voz feminina claramente irritada – que já faz dois dias que não temos nenhuma notícia do lado de fora. Vocês monopolizam o rádio! E agora não podemos sair?

– Senhora, são ordens oficiais – o soldado responde naquele mesmo tom de quem não quer perder a calma.

– Meu filho precisa de insulina! – alguém na multidão berra de volta, o que só libera o resto da bagunça:

–... roupas, meias...

–... como é que vai ser?! A comida...

–... vocês não têm esse poder! Meu advogado...

–... Queremos saber o que está acontecendo!

Senhores! – os soldados tentam, mas é inútil. A desordem do lado de dentro já está saindo do controle. Se eles não fizerem alguma coisa, o grupo raivoso vai atropelar as barricadas, derrubar a cerca elétrica e fugir.

Então eles fazem.

O tiro ecoa alto pelo ginásio fechado. É insanamente diferente de tudo que eu já vi na TV. Alto demais. Escandaloso demais. Assustador demais. Por um segundo, todos param. Mas um segundo é tudo o que eles precisam para conseguir falar.

– Senhores, estamos em situação de quarentena – o mesmo soldado retorna, sua voz retumbando pelas paredes. – A não ser que os senhores queiram se expor à gripe e não serem mais permitidos em qualquer instalação do governo, ninguém sai. Até lá, é nosso dever cuidar do bem estar dos senhores. Conversamos com o comando ontem à noite. A situação está sob controle. Por favor, voltem aos seus afazeres.

Ele não parece ter usado o “por favor” para ser educado.

A confusão não dura muito mais depois disso, porque, mesmo que ainda aparente ter gente desconfiada, o tiro parece tê-los assustado. Foi nada mais, nada menos que um lembrete simples de quem estava no comando, e por quê.

É mais ou menos aí que reparo que a machadinha de incêndio, antes pendurada na parede junto de uma caixinha para emergência logo ao meu lado, sumiu. Tenho a impressão de que posso rodar o ginásio o quanto quiser, mas não vou achar nenhuma das outras.

Um arrepio sobe por minha coluna. Sinto-me idiota, mas queria que minha mãe estivesse aqui.

– Eles não me disseram que tinham conseguido falar com o comando – Jonathan então solta, baixo. Puxo a franja para trás da orelha para vê-lo melhor. Suas sobrancelhas estão ligeiramente mais unidas do que o normal e, graças a isso, uma pequena ruga se formou entre elas. – Eu vou ver se consigo falar com eles de novo.

– Beleza – Ian responde. As duas mãos dele repousam nos bolsos, mas ele parece ligeiramente tenso. – Ei, Harriet – diz enquanto o irmão se afasta –, aposto que te humilho nessa mão.

– Tsc, vai esperando – replico no tom mais descontraído que arranjo. – Peguei o jeito do jogo.

E nós dois saímos andando cautelosamente pelo ginásio cheio.

Pôquer a dois é ridiculamente sem graça, então começamos a jogar buraco. Sou melhor nisso – jogava compulsivamente contra meu avô quando era menor –, e estou ganhando dez minutos depois, quando Jonathan volta.

Sua cara não é das melhores. Ele apanha a própria mochila com um olhar agitado.

– Ian, nós estamos indo – diz num tom pausado.

–... Aonde?

– Ao... Banheiro.

– Ah, você pode ir sozinho. Não tem problema. A Harriet está aqui pra ficar de olho em mim – ele responde num tom ligeiramente zombeteiro. – Vou me comport-

– Ian! – Jonathan protesta.

Eu o observo sem entender. Ele parece aflito, como se quisesse pegar o irmão pelo braço e arrastá-lo até o banheiro.

– Cara, Johnny, é só brincadeira! Você quer que eu largue a Harriet aqui sozinha?

– É o banheiro masculino, ela não pode vir! Anda logo!

Não estou entendendo nada, mas, já que eles estão indo, e parece importante, eu vou junto, não quero nem saber. Estou a ponto de abrir a boca quando Ian me impede.

– Não. Não vou a lugar nenhum sem saber o que está rolando – impõe.

Jonathan fecha os olhos por um intervalo maior de tempo, como se estivesse se acalmando. Ele se aproxima e fala num tom rápido e baixo:

– O tiro chamou a atenção dos infectados. Tem centenas deles lá fora, e está pra chegar mais, esse lugar vai cair e aquela cerca elétrica é fraca demais pra aguentar. – Ian arregala os olhos. – Eu sei como a gente pode sair daqui, mas temos que ir agora.

– Mas e as outras pessoas? – pergunto, porque Jonathan não parece exatamente preocupado com o resto do mundo. Ele me lança um olhar como se quisesse me decapitar. Ian, no entanto, vai na minha onda.

– Temos que avisar os outros!

– Eles vão saber – Jonathan assegura rapidamente. – Os caras disseram que vão vir contar daqui a cinco minutos... Bom, agora quatro. Eu pedi um tempo pra gente poder ir. Depois que toda essa gente se desesperar, vão sair pisoteand-

Um único tiro dispara do lado de fora.

Com o ruído, todos param o que estão fazendo. Um burburinho começa e se alastra, aumentando gradativamente de volume, até que algumas pessoas se levantam para ir ver o que está acontecendo. Jonathan parece mais ansioso do que nunca.

– Temos que ir! – sibila.

Nem eu nem Ian discutimos muito mais. Uma saraivada de tiros se segue ao primeiro. Saímos correndo em direção ao banheiro.

Notas finais
E agora, que eles estão soltos no mundo? Piorou ou melhorou?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.