Notas iniciais
Os títulos sempre serão repetidos nos capítulos porque eu sei que tem vez que passa batido :u Espero que gostem! Os primeiros capítulos são mais descritivos porque são a transição (e aí não tem jeito). A ação entra depois, don't worry.

Dia 0

Estou no dormitório quando os gritos ecoam.

Ergo os olhos do notebook – onde jogo campo minado em vez de começar a fazer o enorme trabalho para daqui a uma semana – e os cravo em Gisele. Sei que ela está procrastinando o mesmo trabalho que eu porque nós duas chegamos a um acordo de começar a fazê-lo meia hora atrás. O relógio de gatinho no criado nunca foi tão ignorado.

– O que será que... – começo.

– Deve ser algum trote – ela comenta sem aparentar grandes preocupações. – Provavelmente jogaram ovo no cabelo de alguém.

Não sei. Estudo a porta fechada por alguns instantes. Os gritos foram abafados, distantes até, mas não possuíam o mesmo tom que gritos de trote.

– Eu vou dar uma olhada – digo.

– É claro que vai – Gisele retruca baixo. Resolvo ignorá-la.

Desde que Gisele se tornou minha companheira de quarto, seis meses atrás, sinto que o desprezo silencioso dela pelo colégio interno só cresce. Como se ela estivesse cheia do lugar e de toda alma viva nele. Isso, infelizmente, me inclui; mas, como concordamos facilmente que tem mais gente panaca por aqui do que devia, acho que não estou na lista negra.

De qualquer forma, o horror está quase acabando. Fica menos frio a cada dia; o verão está chegando, e eu mal posso esperar para finalmente me livrar dessa prisão.

Mas, antes, os gritos.

Não sou a única a enfiar a cabeça para fora do próprio quarto. A maioria das garotas do nosso andar parece ter se amontoado na janela do corredor, e falam todas ao mesmo tempo, fazendo ser impossível que eu entenda uma palavra sequer daquela distância. Olho para o lado oposto e consigo parar uma sardenta que, Jesus, não me lembro o nome de jeito nenhum, antes que ela alcance as outras.

– Você sabe o que está acontecendo? – pergunto.

– Estão falando que encontraram um garoto com a gripe no dormitório hoje mais cedo – ela responde rapidamente. – Os pais dele estavam aqui e tudo mais. Será que mais alguém se contaminou? – Seus olhos brilham de nervosismo.

– Eu acho que não... Você sabe quem foi?

– Não...

O assunto morre rápido assim. Ela tira a atenção de mim e volta a correr em direção à janela, para onde, honestamente, não estou tentada a ir. Hesito por alguns momentos. Agora estou preocupada de verdade.

– Gi – chamo –, eu vou ver como estão as coisas com o Ben.

– Vai na fé – ela responde sem nem tirar os olhos do livro em seu colo.

Sei que não vou tirar muito mais dela, então só apanho o livro de biologia para usar de desculpa, visto meu casaco e sigo para fora do dormitório.

Os dormitórios feminino e masculino são separados pelo prédio principal da escola e muito chão – não que isso sinceramente impeça alguém. Nas últimas semanas, desde que houve o aviso da OMS (N/A Organização Mundial da Saúde) a respeito da nova gripe detectada, várias paredes foram cobertas com avisos alaranjados de “mãos limpas salvam vidas!” e instruções de como lavá-las apropriadamente, inclusive embaixo das unhas. Há tantos deles pela escola que algumas paredes parecem mais laranjas do que brancas.

Depois do fiasco da gripe suína, porém, ninguém levou os cartazes muito a sério. A maioria está pichada.

Minhas botas fazem barulho contra o chão coberto de cascalho. Os gritos parecem ter vindo de trás do prédio principal, na direção do ginásio, então não consigo ver muita coisa. Apresso o passo. Um grupo de garotos e um professor saem do dormitório assim que me aproximo o suficiente.

– Hattie! – chama uma voz ofegante.

Ele não está no grupo que acabou de sair; de alguma forma, Ben veio por trás de mim e agarrou meu braço. A urgência em sua voz e a pressão que ele faz enquanto me segura não ajuda com minha preocupação.

– Ah meu Deus, você está bem? – pergunto imediatamente. Meu coração subitamente pula uma batida. – Isso é sangue?

– N-Não é meu. – Ben tenta esconder a camisa manchada com a jaqueta. – Hattie, nós temos que sair daq-qui.

Ele parece prestes a desmaiar. Pego-o pelas axilas bem em tempo e desajeitadamente passo seu braço por meus ombros. O livro de biologia vai parar no chão.

– O que foi que aconteceu, quem é que está sangrando?

Ben não me responde.

Levo nós dois para a sombra de uma árvore afastada da visão dos dormitórios. Ele está quente demais. Quero colocar a mão em sua testa e ver se ele tem febre, mas Ben não aceita se sentar de jeito nenhum.

– Hattie – chama de novo. – Hattie, não é uma gripe.

– Do que é que você está falando?

– Da doença! – Aproveito o momento e forço seu corpo para baixo, finalmente conseguindo que ele se sente. Ben tenta se erguer novamente, mas seguro seus ombros e, depois de isso na verdade não resolver nada, sento-me em seus joelhos.

– Fica quieto, eu acho que você tá com febre! – protesto. Ele desfaz a careta. Seus olhos azuis se arregalam.

– Não. Não, não, não, eu não estou com febre.

– Ben, ai meu Deus, você está ardendo!

– Harriet, escuta...

– Isso é por causa daquele garoto contaminado? – Uma possibilidade me atinge com força e faz com que eu afaste o corpo. – Você acha que pegou a gripe também?

Sua resposta é meramente um olhar suplicante.

Ele está um caco. Cabelo bagunçado, roupas sujas e uma expressão assustada no rosto que me faz querer abraçá-lo e dizer que está tudo bem. Mas não o abraço. Nem digo que está tudo bem. Em vez disso, uso o cachecol para cobrir minhas vias respiratórias. Porque ele tem febre, e seus olhos e nariz estão avermelhados, e seu rosto é pálido, e sua respiração é rasa como se ele tivesse corrido a maratona.

E aí ele tosse.

Ponho-me de pé e me afasto tanto quanto tenho coragem. Isso parece magoá-lo intensamente, porque ele se curva em minha direção com os olhos marejados.

– Não me deixa – ele pede num choramingo, mas é logo interrompido por outro acesso de tosse. Dessa vez eu vejo. Ben tosse sangue.

– Eu vou arranjar ajuda – digo de volta, e, dessa vez, quem está quase choramingando sou eu.

– Não! – Ben se joga para frente e agarra meus pés. Solto um grito surpreso, mas ele se segura com força demais para que qualquer movimento meu o afaste. – Não, Hattie, você não está entendendo, eles vão me dar um tiro nos miolos se souberem que eu estou doente! Foi o que fizeram com o outro garoto!

– O quê? – pergunto assustada.

– Foi o Greg do 32 – ele continua num tom rápido, quase desesperado, e repleto de acessos de tosse pelo caminho. – Hoje de tarde, quando voltamos da aula, o Robert, que dividia o quarto com ele, encontrou o Greg delirante na cama. Febre, tosse, tudo. Hattie – ele chama –, o Greg morreu. Ele não tinha pulso. O enfermeiro disse. E aí, do nada, o Greg levantou da cama e atacou o enfermeiro.

– O enfermeiro deve ter medido errado...

– Mas não foi só ele. O Robert também ficou doente, e um monte de gente do meu dormitório, eles acham que é uma epidemia. Precisaram de mim e mais três caras pra prender o Greg numa maca. Levaram todo mundo pro ginásio e ligaram pro hospital. Só que, em vez de médicos, apareceram militares com máscaras de gás. E atiraram na cabeça do Greg como se ele fosse um cachorro doente.

Não consigo pensar em uma resposta. Ele tosse de novo.

– Eles ainda estão aqui. Disseram que vão testar todos os alunos e evacuar a escola. Se eles me acharem...

– Ah, Ben...

– Eu só queria te ver – ele continua num tom mais contido. Solta meus pés. – Preciso te dizer uma coisa. Antes que eles me encontrem.

Ele ergue o corpo e se senta; eu me ajoelho ao seu lado. Ben ergue as mãos e segura a parte do meu rosto coberta pelo cachecol. Seu toque me faz ter arrepios, talvez por medo de me contaminar, talvez porque é o Ben. O momento inteiro parece se fragmentar, completamente irreal.

– Lembra daquele baile idiota que a escola deu, e eu fiquei tentando falar com você a noite inteira, mas aquela sua colega de quarto maldita não largava do seu pé?

– Lembro, sim – respondo baixinho.

– Eu quero te beijar desde aquele dia.

Não sei o que dizer. Suas mãos estão quentes o suficiente para que ele esteja só delirante de febre, mas quero tanto que seja verdade que meu peito chega a doer.

– Não podemos. – Minha voz está tão embolada em si própria que me surpreendo por ele sequer parecer entender. – Temos que encontrar ajuda pra você.

– Não, não! – Um acesso de tosse só me faz ter mais certeza da minha decisão.

– Não tem outra alternativa!

– Vamos fugir. Só eu e você.

Balanço a cabeça de um lado para o outro, numa negativa, as lágrimas escorrendo por minhas bochechas. O cachecol ameaça cair. Ajusto-o no rosto e seco os finos caminhos molhados antes de continuar.

– Os professores vão saber o que fazer, Ben, mas precisamos ir logo, antes que você piore.

Ele começa a falar alguma coisa, mas é interrompido pela tosse mais longa e violenta que já teve até agora. Sangue espirra de seus pulmões e cai na grama enquanto seguro seus ombros.

– Hattie – ele chama mais uma vez; a tosse volta imediatamente. Agarro-o com mais força.

– Estou aqui, estou aqui, vai ficar tudo bem – digo aflita. Ergo o corpo o máximo que consigo, tiro o cachecol do caminho e grito em direção aos dormitórios: – Ei! Socorro! Precisamos de ajuda aqui, socorro!

Ben está com a testa apoiada na grama. Mal consigo sentir sua respiração, mas ele parou de tossir, o que, eu espero, é uma boa notícia. Cubro o rosto de novo, só por via das dúvidas.

– Vai ficar tudo bem – digo-lhe enquanto corro os dedos por seu cabelo. Passos ecoam não muito longe de nós. – Já tem ajuda vindo, aguenta firme.

Ben solta um grunhido baixo e vira o rosto em minha direção. Há alguma coisa errada. O grunhido se torna um rosnado.

– Ben? – pergunto e me aproximo, mas é provavelmente a coisa mais estúpida que já fiz.

Ele é atiçado pela minha voz e vira o corpo bruscamente, derrubando-me na grama de costas. Tudo acontece rápido demais. Quando dou por mim, seu rosto paira sobre o meu, olhos tresloucados e sem foco, a boca manchada do sangue da tosse, os dentes perigosamente perto demais. Tento tirá-lo de cima de mim, mas tudo o que consigo é parar com o antebraço fazendo pressão em seu pescoço, ato com o qual ele não parece incomodado. Ben é pesado demais e suas mãos cavam meu casaco fechado; não vou aguentar muito tempo. Meus ouvidos têm um zumbido irritante e agudo que, percebo subitamente, é meu próprio grito aterrorizado.

Então seu peso some.

Mãos agarram-me pelas axilas e me puxam para longe, mas longe do quê? Viro a cabeça só para ver Ben voltando a se arrastar em direção a mim. Grito. Uma das mãos que me agarra cobre meus olhos. Um tiro ecoa.

Silêncio.

Não ouço mais os rosnados de Ben. Paro de gritar. A mão deixa de desobstruir minha visão e finalmente o localizo novamente, completamente imóvel, com um buraco de bala no meio da testa.

Tem tanta adrenalina nas minhas veias que eu podia escalar o muro da escola sem nem piscar. Em vez disso, sinto ânsia de vômito.

– A senhorita está bem? – uma voz feminina abafada pergunta. Sou auxiliada a ficar de pé novamente.

– Eu... – começo, mas é difícil demais organizar meus pensamentos. O mundo todo gira e meus ouvidos ainda parecem apitar.

– A senhorita foi mordida, arranhada ou entrou em contato com secreções do indivíduo contaminado? – a voz prossegue eficientemente.

– Não – respondo com a voz falha. – N-Não, eu, eu usei o cachecol.

Há dois soldados parados diante de mim, ambos usando roupas pretas de operações especiais e máscaras de gás. A mais baixa é a que fala comigo. O mais alto parece ser homem, mas é difícil dizer com tanta proteção.

– Posso pegá-lo? – ela pede.

Assinto devagar. A soldada desenrola o cachecol com cautela, tomando o cuidado de não encostar a parte exposta em mim, e o entrega para o alto. Sem me tocar, ela prossegue:

– Pode me acompanhar, por favor?

Não é bem um pedido. Nós duas saímos da parte arbórea da escola e voltamos para o pátio dos dormitórios. Minhas pernas parecem gelatina e agora, sem o cachecol, estou com frio, então não são trinta segundos muito agradáveis. Ainda assim, consigo reunir a vontade necessária para perguntar:

– O que está acontecendo?

A soldada não me olha de volta.

Notas finais
Nós sabemos o que está acontecendo! E eles estão lascados.