De repente, você
24 Decepção
Nunca um voo foi tão longo em toda sua vida. Essa foi a impressão de Charles, até chegarem ao destino e ao hospital, onde o seu pai estava internado, querendo certificar com os próprios olhos, o verdadeiro estado de saúde dele. Assim, foram direto do aeroporto para o hospital, encontrar com Leticia, a mãe deles, na porta do CTI, à espera de mais notícias sobre o pai.
— O que vocês estão fazendo aqui? – Leticia pergunta surpresa, ao ver a pequena trupe se aproximar, apressada, da sala de espera da UTI. A aparência de Letícia demonstrava todo o cansaço das noites mal dormidas, passadas em claro na sala de espera, a palidez da pele acentuava mais a olheiras escuras, que sombreava os olhos azuis.
— Ficar com você e com papai! – Caroline disse a envolvendo em um abraço, os outros filhos fizeram o mesmo depois Tom e, por fim, Dani.
— Não precisavam terem vindo assim rápido. Não há nada que possam fazer. Seu pai está em estado estável, os médicos acreditam que tem um bom prognóstico, se recuperará completamente, mas vai precisar ficar na UTI por mais alguns dias.
— Não podemos entrar para vê-lo? – Louise quis saber, preocupada.
— Não. O médico deve dar alguma notícia a qualquer momento – Letícia respondeu, com a voz desanimada.
— Mãe, por que não vai para o hotel com as meninas? Eu fico aqui para falar com o médico, depois encontrou vocês lá – Charles se prontificou, ao ver o ar de cansaço da mãe.
— Eu não sei – Letícia titubeou, queria ficar, mas estava muito cansada, precisa de um bom banho e dormir um pouco.
— Vamos, mãe! Você precisa descansar. Se você também ficar doente, não ajudará em nada – Caroline insistiu e ela acabou concordando.
— Eu vou ficar aqui e faço companhia para Charles – Dani se prontificou e, finalmente, Letícia aceitou a oferta e os outros partiram, deixando os dois rapazes, sozinhos, no corredor, na frente da porta da UTI.
— Obrigado! – Charles falou, colocando a mão no ombro do amigo – Eu sei como você não gosta de hospital.
— Você faria isso por mim também. Mas, é verdade, eu não entro em um hospital desde a morte do meu pai.
— Como isso pode acontecer logo agora, quando estava tudo tão perfeito para mim – Charles se lamentou.
— Está falando de Joana?
— Sim, aquela noite foi mágica. Eu nunca me senti assim com nenhuma garota. Ela é simplesmente incrível. Acho que é minha alma gêmea, o amor da minha vida.
— E você está completamente apaixonado – Dani concluiu, rindo do amigo. – Como você pode saber isso, na nossa idade? Vocês dois ainda são muitos jovens para acharem isso.
— Sim, eu estou completamente apaixonado por ela, e eu não preciso viver a minha vida toda para saber disso. Pois se eu me arrepender mais tarde, por não ter vivido esse grande amor, não terei como voltar no tempo e poderei tê-la perdido para sempre, e passarei os restos dos meus dias me lamentando. Para mim, foi muito difícil ir embora, sem me despedir.
— Você é mesmo um romântico incorrigível, mas pelo que eu conheci de Joana, ela também é, sendo assim acho que fazem um par perfeito.
— Espero que um dia, você sinta o que eu sinto agora e seja correspondido como eu sou. É a melhor sensação do mundo. Mas, fico receoso que ela não entenda nossa partida tão repentina, sem me despedir, depois, da noite de ontem.
— Mas, ela vai entender. Afinal de contas, seu pai ficou doente de repente. Você não mandou uma mensagem para ela?
— Eu perdi meu telefone, alguém pode ter pego durante a festa. Então, pedi para Caroline, enviar uma mensagem para Joana, explicando tudo. Mas, eu queria tanto falar com ela, não vejo a hora de poder reencontrá-la.
Depois de alguns dias e muita insistência de todos, Joana saiu do quarto, para ir à praia. As irmãs mais novas, também, conseguiram um relaxamento no castigo, depois de muitas súplicas e choro, poderiam ir à praia, mas só acompanhadas com as irmãs mais velhas ou o primo, isso já era melhor do que ficar o dia inteiro dentro de casa, apesar das saídas noturnas continuavam proibidas. O grupo se instalou na areia, tentando animar Joana, sem muito sucesso.
Para surpresa delas, lá estava Enzo, o cada vez mais belo irmão de Carla, que havia regressado de viagem.
— Eu me recordo um pouco de Elisa, mas não consigo me lembrar de você, Joana – Enzo falou, intrigado, puxando pela memória a figura daquela bela loura.
— Porque Joana era gorda – Lídia informou com indiscrição. – Ela emagreceu muito esse último ano.
— Realmente, você está muito linda – Enzo declarou, enquanto Joana lhe deu um sorriso triste.
— As ondas estão altas – Joana mudou de assunto, pois seu coração ainda estava muito ferido para se interessar por outra pessoa, sem coragem para entrar no mar, já que não era uma boa nadadora.
— Bom para o surf – Elisa disse, e sem querer na sua cabeça veio a imagem de Dani surfando destemido as ondas altas, sem compreender porque havia pensado nele, naquele momento. Tinha que reconhecer que muitas vezes, olhava para longe, como se esperasse que ele visse andando na sua direção.
Naquele momento, um casal que caminhava pela areia, de mãos dada, se aproximou deles, logo reconheceram o rapaz, era Leo, que apresentou a garota muito branca e magra, que parecia insegura e de olhar cabisbaixo e que se agarrava a ele, como se tivesse medo que alguém o roubasse e depois de uma rápida e superficial conversa continuaram o seu caminho.
— Esse Leo é um gato! – Lídia exclamou, animada.
— Você conhece ele? – Elisa perguntou, curiosa.
— Claro! Todo mundo conhece o Leo. Eu o conheci por causa daquele carinha que estava saindo, o Guto, aquele que você espantou, Elisa – Lídia relembrou o incidente do carro quando a irmã chegou bêbada em casa. – Então, por aqui, se você quiser alguma pilulazinha ou outras coisinhas para curtir a noite, intensamente, ficar mais animado, Leo é o cara.
Todos se voltaram para Lídia, surpresos.
— Como assim, Lídia? – Joana perguntou, ainda sem entender.
— Sabe como é, o cara é o fornecedor, ele pode conseguir qualquer coisa que você quiser. É a alegria de muitas festinhas por aí. Estão entendendo? — Lídia explicou.
— Não posso acreditar! Você tem certeza disso, Lídia? Ele é um tipo de traficante de drogas? – Elisa indagou, atônita.
— Claro que é, não é mesmo, Maria? – Lídia confirmou e depois continuou — E tem mais, a Paula me contou que a Silvia contou para ela, que Rafa, o namorado dela, contou que o Leo vendia bolinhas na escola que estudava.
— Como assim bolinha? — Joana se interessou pela conversa.
— Sabe como é, estimulante para os carinhas não ficarem com sono e poderem estudar até tarde para as provas. Aí, um dos garotos exagerou, quase morreu, se não fosse por outro aluno que encontrou ele caído no chão do quarto, e foi esse cara que denunciou o Leo, por isso que ele foi expulso da escola, que abafou o caso, para evitar escândalo, afinal tinha muitos filhos de famílias rica e importante estudando lá. Mas, Leo continua fazendo a mesma coisa, não é, Maria?
— É verdade, aqui todo mundo sabe disso. Mas, agora, ele parece que está se dando bem – Confirmou a irmã. Elisa olhou para Joana, sentindo um aperto no peito, culpada por ter julgado Dani tão mal, sem saber de toda história
— E sabe, aquela garota que está com ele, o pai dela tem um monte de dinheiro e ela está dependente dele para tudo, se é que vocês me entendem? – Lídia continuou a dar as informações, enquanto Elisa sentiu um peso na sua consciência ao lembrar das palavras de Dani, que ela deveria ter cuidado com Leo, para não se decepcionar.
Já havia se passado alguns dias e Charles ainda não conseguiu falar com Joana, por isso estava muito angustiado, quase desesperado. O telefone que Caroline lhe dera nunca completava a chamada, havia conferido com ela uma centena de vezes se estava correto, apesar disso nunca tinha sucesso. Pelo menos, o seu pai estava melhorando, depois do cateterismo e, em alguns dias, teria alta para o quarto.
— Ela vai achar que eu a abandonei! – Charles falava, enquanto andava de um lado para outro no quarto do hotel, que dividia com o amigo – Eu não posso perdê-la por causa de uma bobagem como um número de telefone errado! Eu não entendo porque ela não ligou para Caroline, já que não tem meu número novo.
— Você não vai perder ninguém. Deve ser algum problema de operadora, porque estamos em outro país e ela não deve saber o código. E se ela sabe que seu pai está doente, vai entender. Ela parece ser uma boa pessoa, Charles.
— Ela é um anjo! O meu anjo! Eu nunca estive tão apaixonado como estou agora, Dani.
— Não se preocupe, amigo. Em alguns dias, poderemos voltar para lá e você poderá encontrar seu anjo, novamente – Ele tentava animar o amigo, apesar de saber como seria difícil reencontrar Elisa, outra vez, pois só queria esquecê-la.
Pensar em Elisa, fez com que Dani tivesse uma estranha intuição, achou que precisava conversar com Caroline.
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