Dias depois, uma notícia trágica balançou a pequena vizinhança daquele condomínio, tão carente de novidade. O jovem músico Leo havia fugido com a filha de um conhecido empresário local, que roubou muito dinheiro do pai, e viajaram para um famoso balneário na Ásia, onde acabaram sendo presos por porte de droga, devido as rígidas leis locais para esse tipo de crime, a perspectiva era sombria.

Na monotonia daquele dia acinzentado e chuvoso, as mulheres da casa estavam atiradas pelos sofás e poltronas da sala, em silêncio, todas envolvidas no seu próprio mundo digital.

Ao ouvir o som de uma mensagem sendo recebida, Joana olhou mais uma vez para a tela do seu telefone, na vã esperança de encontrar a tão desejada e ansiada. Infelizmente, ela não perdera esse hábito, desde que Charles foi embora, há algumas semanas atrás. Mesmo desiludida, respondeu a mensagem de uma amiga saudosa. Joana já percebia, que aos poucos, a tristeza já não era tão dolorosa, além de ter a tênue esperança que quando voltasse para casa, começasse a cursar a faculdade, tudo aquela história ficaria para trás como um sonho ruim.

De canto dos olhos, Elisa notou a movimentação da irmã e a tristeza no semblante dela, ao não encontrar o que esperava. Ela mesmo se sentia confusa e triste, pois, ainda não conseguia entender como se deixou enganar daquela maneira por Charles e Leo, que pareciam tão legais, mas, no fim, foram grandes decepções. Então, sem querer, pensou em Dani e como estava errada sobre ele, que parecia ser a única pessoa verdadeira em toda essa história. Não podia negar que aquele cara tinha uma estranha influência sobre ela, desde da primeira vez que se encontraram na sorveteria, ele com aquele seu jeito arrogante, que a desagradou logo à primeira vista. Depois vieram as mentiras de Leo, para esconder a verdadeira razão da sua expulsão da escola, jogando toda a culpa sobre Dani. Porém, em compensação, Dani a havia salvo, quando entrou naquela correnteza, e como foi gentil a ajudando com Lídia no hospital. Mas, por que ela estava pensando nisso agora? Ele havia partido, talvez, nunca mais o veria na vida. Elisa se perguntava, sem conseguir uma resposta, porque seus pensamentos se voltaram para Dani, a todo o momento, por nada. Mesmo querendo negar, ela sentia a sua alta, culpando-se por tê-lo tratado tão mal e com tanta injustiça.

Foi nesse exato instante que a campainha tocou, Lilian levantou e arrastando-se, foi atender, sem saber quem poderia ser em dia como aquele. No instante que abriu a porta, ficou paralisada ali, completamente surpresa com o que viu, depois de algum tempo, para em seguida, virar-se, falando alto, em direção da sala.

— Joana, você tem visita! – Ao mesmo tempo que saía da frente da porta, para permitir a entrada dos recém-chegados.

Joana se levantou em um pulo, quando os dois rapazes entraram na sala, assustada, com a inesperada visita, apesar de ter sonhado tantas vezes com esse momento. E se seguiu um breve silêncio das palavras sendo escolhidas, com cuidado. Lídia foi quem o quebrou o gelo da situação.

— Vocês voltaram? Até que enfim! Quando chegaram? – inquiriu, em um tom acusador, levantando-se do sofá, onde estava deitada, e colocando as mãos na cintura, de um jeito reprovador.

— Hoje, na verdade, ainda a pouco. Podemos conversar, Joana? – Charles perguntou, seus olhos demonstravam o receio e apreensão pela resposta.

Ela apenas sacudiu a cabeça afirmativamente, pois toda aquela raiva que sentia por ele, desapareceu como mágica ao vê-lo, ali diante.

— Vamos para a varanda, podemos conversar com mais calma – ela o convidou, e quando o casal se retirou, Elisa olhou para Dani, sem jeito.

— Vocês vão ficar por aqui, o resto do verão? – Elisa perguntou, um tanto insegura.

— Não, só ficarei só alguns dias, preciso voltar para casa – ele respondeu, e uma pequena ponta de tristeza incomodou a garota.

— Então, o que você tem a me dizer, Charles, por ter desaparecido dessa maneira, sem mandar nenhuma mensagem, e depois, reaparece, como se nada tivesse acontecido? – Na varanda, atrás das portas fechadas, Joana o questionou, tentando manter a atitude altiva, não queria fraquejar na frente dele.

— Eu sei o que pareceu a você, Joana. Que eu, simplesmente, desapareci sem dizer nada, fugi como um covarde. Mas, por favor, me deixa explicar tudo, tenho certeza que entenderá o que, realmente, aconteceu.

Sob o olhar de perplexo de Joana, Charles lhe contou sobre o infarto do pai, a viagem inesperada às pressas, a perda do seu telefone, a mensagem que pediu para a irmã enviar, mas que não tinha sido aquela recebida. Continuou falando sobre a angústia de não ter conseguido entrar em contato com ela e, finalmente, a surpresa, quando Dani fez Caroline confessar que tinha feito tudo aquilo de propósito, para afastá-los

— Mas, por que ela faria isso? – Joana quis sabe, espantada, ainda sem acreditar que alguém pudesse prejudicar assim o irmão – Ela não gosta de mim?

— Não foi por sua causa nem por mim. Foi pelo Dani – Charles admitiu.

— Dani? Não estou entendendo, o que ele tem a ver com isso?

— Ela queria nos separar para afastar Dani daqui – ele, finalmente confessou.

— Mas por que? – Joana questionou, sem entender.

— Por causa da Elisa – Charles declarou, depois de um longo suspiro.

— Elisa? Eles se detestam – Joana se sentia muito perdida naquela história.

— Pois, Caroline não acha isso, ela notou que Dani está a fim da Elisa e, que ela, de uma certa forma, também está a fim dele. Minha irmã tinha colocado na cabeça que ia ficar com Dani e que não ia perder para Elisa, por isso resolveu nos separar, para que fossemos embora daqui.

— Que absurdo! De onde sua irmã tirou essa ideia?

— Não sei e não me importo, Joana, pois a única coisa que me importa agora, é se você me perdoa e se poderemos ficar juntos de novo.

Joana o olhou com amor, deu um longo suspiro e um sorriso iluminou seu rosto,

— Sim – ela sacudiu a cabeça afirmativamente, e Charles deu um passo à frente, a envolvendo em um abraço, lhe dando um longo beijo.

Na sala, todos esperavam calados e ansiosos, como um tribunal esperando a sentença do júri, quando a porta da varanda se abriu e Joana e Charles passaram por ela de mãos dadas, sorridentes, demonstrando que tudo estava bem, uma aura de felicidade invadia o lugar.

— Vocês ficam para o almoço? – Lilian convidou, aliviada com o desfecho positivo. Charles concordou com um aceno de cabeça, não querendo se afastar da amada.

— Obrigado, eu tenho que ir agora – Porém, Dani se levantou, depressa. – Foi prazer rever todos –despediu-se, seguindo para porta.

— Que rapaz seco! – Lilian observou baixinho para Elisa, depois que fechou a porta, atrás de Dani, enquanto ele partia, mas a garota se levantou e correu atrás dele.

— Dani! – No meio da rua, ela gritou para chamar a sua atenção. Já a uma boa distância, ele parou e se voltou, surpreso, a interrogando com o olhar, quando ela continuava apressada em sua direção.

— Eu precisava me desculpar com você, mais uma vez — ela parou na frente dele, olhando nos seus olhos, falou rápido, atropelando as palavras.

— Por que? – ele perguntou, sem entender, Elisa se aproximou mais ainda.

— Você estava certo sobre Leo. Ele não era o que parecia ser e está preso, agora, por tráfico de drogas.

— Eu sei, ele já era assim no tempo da escola, vendia estimulantes para facilitar os estudos, principalmente, na época de provas, até um dos garotos morrer por isso. Eu descobri e o denunciei e ele foi expulso, não podia deixar continuar fazendo aquilo. Mas, fico feliz por você não achar mais que sou um monstro.

— Eu não acho que você seja um monstro, Dani, apesar de muitas vezes, você tentar parecer um, talvez, para afastar as pessoas, evitar que elas o conheça, realmente como é. Do que você tem medo, Dani? – Ele olhou dentro dos olhos dela.

— Eu tenho medo de sofrer como eu já sofri, depois que me pai morreu e minha mãe começou a agir como uma louca pela culpa do que aconteceu com ele, então, precisei crescer rápido para cuidar da minha irmã. Não quero mais sofrer assim por perder alguém que eu ame – A voz de Dani estava cheia de dor.

— Mas, não dá para ficar fugindo dos sentimentos, escondendo-se das pessoas, pois isso faz parte da vida – ela falava com certeza e continuava o encarando.

— Eu sei, tentei fugir, me esconder, negar, mas não dá para fugir do que a gente sente, fingir que não existe. Desde que eu a vi, não consigo parar de pensar em você, Elisa.

— Dani, de agora em diante, você não vai precisar mais fugir ou negar o que sente, pois eu também me sinto assim. Eu não entendi, porque me sentia tão diferente perto de você, isso me deixava confusa, tentei negar, mas só piorei as coisas. Agora, nós dois podemos aprender juntos como lidar com os nossos sentimentos.

— Acho qu.e não vai ser fácil – Dani ponderou, com um sorriso triste.

— Eu sei que somos dois teimosos, mas eu estou disposta a arriscar, você não?

Em resposta, Dani segurou as mãos de Elisa entre as deles e aproximando-se, lentamente, para um beijo nos seus lábios.

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