— E esse vestido está bom, Elisa? Não me deixa muito gorda? – Joana perguntou outra vez.

— Não, está ótimo, Joana – Elisa respondeu em voz baixa, sem prestar muita atenção na irmã naquele momento, sentada na sua cama, encosta na parede, com as pernas encolhidas e o queixo apoiado nos joelhos, com o pensamento perdido naquela tarde na praia, achando que talvez tivesse sido muito cruel com Dani, fazendo um julgamento precipitado.

— Você nem está olhando! – Joana reclamou, ao notar o olhar desinteressado da irmã. Nesse momento, alguém bate na porta, abrindo logo em seguida e a cabeça de Carla se projeta pela fresta.

— Posso entrar? – Ela pergunta, já entrando, atirando-se na cama ao lado de Elisa.

— E aí, como foi o passeio hoje? – ela perguntou, pegando um dos vestidos em cima da cama e o olhando, com interesse.

— O que você acha desse vestido, Carla? – Joana aproveita a chegada da amiga para pedir sua opinião.

— Não sei! Experimente esse! – respondeu jogando o vestido, que estava na sua mão, para Joana. – Vai sair com Charles hoje?

— Vou! – Joana afirmou com um sorriso radiante.

— E o passeio? Estou curiosa! – insistiu a amiga.

— Pergunte a Elisa – Joana falou, em um tom azedo, enquanto mudava de roupa.

Carla olhou direto para a outra amiga e ergueu as sobrancelhas esperando uma resposta.

— Ela brigou com Dani – Joana se precipitou em dizer.

— Brigou? Como? Por que? – Carla se aprumou, curiosa.

— Por nada –Elisa deu de ombros, pois não queria voltar ao assunto.

— Como por nada, ela falou, na cara do Dani, que não gostava dele – Joana respondeu mais uma vez.

— Não acredito! Direto? Assim na cara dele? – Carla quis saber, abismada.

— Foi! – Continuou Joana, admirando-se no espelho.

— Por que fez isso, Elisa? – Carla ainda não podia acreditar naquele ato de coragem insana.

— Porque ele é um chato, um arrogante e cansei dessa conversa! – Elisa explodiu. – Agora, chega!

Carla e Joana se entreolharam, sem entender o ataque de fúria, mas ficaram quietas.

— Como foi o resto da manhã com o primo Eduardo, Carla? – Joana mudou de assunto.

— Foi legal! Ele é muito engraçado! — Carla respondeu com um sorriso divertido, as duas irmãs olharam para ela, surpresas com a revelação.

— Engraçado? Eduardo? Você deve estar brincando! – Elisa desdenhou o que ouviu.

— É isso mesmo. Ele é muito engraçado, às vezes parece aqueles caras do seriado de TV, aqueles sobre nerds.

— Sei – Elisa disse, incrédula.

— Como estou? – Joana acabou de se arrumar e deu um giro para a aprovação das outras.

— Está linda! – Elisa elogiou, logo em seguida, chega uma mensagem pelo celular de Joana.

— Charles está aí fora. Tchau, meninas! – E saiu correndo pela porta, com a urgência dos apaixonados.

Carla e Elisa ficaram olhando a porta se fechar atrás de Joana.

— Carla, você acha que fui muito dura com Dani? – Elisa criou coragem para perguntar a amiga.

— Bem, na verdade, acho que você está exagerando um pouco. Você nem conhece o cara direito, já veio cheia de opinião sobre ele, sem nenhum motivo.

— Mas, o Leo me contou aquilo tudo na sua casa – Elisa tentou se justificar.

— Olha, aquilo foi muito estranho! O Leo nem conhecia você direito e falou mal de Dani sem motivo nenhum, do nada.

— Porque ele não gosta do Dani.

— Ele pode até ter as razões dele e aquelas histórias podem até ser verdade. Mas, você acreditou em tudo, sem questionar nada. Achou que o cara era um monstro, sem ter motivos ou provas. Além disso, Dani é o melhor amigo do namorado da sua irmã, que parece ser um cara legal e ela gosta bastante de Charles. Você podia ter aliviado um pouco com Dani para criar um clima melhor para todo – Carla ponderou.

— Assim você está me fazendo sentir pior ainda – Elisa confessou, desanimada.

— Olha, Elisa, o que está feito, está feito, não dá para voltar o tempo, mas pelo menos, você pode acalmar mais a situação e pegar mais leve com o cara – Carla falou sério, depois mudou o tom — Eu e Eduardo combinamos tomar um sorvete agora à noite. Vem com a gente, assim você se distrair um pouco.

Depois de tudo que aconteceu, naquela tarde na praia, com Elisa, Dani só queria ficar sozinho, não estava acostumado a dividir seus sentimentos com ninguém, principalmente, suas tristezas e desilusão, por isso entrou no seu quarto fechou a porta, sem acender as luzes, deitou-se na cama, sentindo uma angústia enorme no seu peito, desejou saber chorar novamente, algo que não fazia desde da morte do seu pai, quando prometeu a si mesmo que seria forte. Para isso, construiu uma muralha a sua volta, onde poucos tinha a autorização para se aproximar, mas ninguém podia entrar, através da camada externa, sólida e forte, mas lá dentro Dani vivia sozinho e angustiado, em uma eterna escuridão.

Agora, vinha aquela garota querendo ser a dona da verdade, julgando seus atos, sem conhecer nada sobre ele e a sua vida. Mas, por que se sentia assim tão incomodado em relação a ela e, mesmo assim, precisava tanto ficar junta dela? Elisa o atraía com uma luz na escuridão, como nenhuma garota tinha feito antes, ouvi-la dizer que não gostava dela foi horrível, machucou ainda mais seu coração já tão ferido.

Ele sempre havia sido tão exigente, procurando defeito em todas as garotas que o cercava ou parecia se interessar por ele, porém, no fundo, fugia de algum relacionamento mais sério, não queria e não podia se expor, abaixar a guarda, mostrar se como realmente era, tão cheio de dúvidas e medos.

Portanto, tomou uma decisão, iria embora dali, voltaria para casa, mesmo que isso aborrecesse seu amigo Charles, entretanto, precisava proteger seu coração tão magoado.

Joana saiu correndo pela sala em direção a porta, passando sem perceber a presença do pai, sentando na poltrona lendo um livro.

— Ei! Aonde você vai com tanta pressa, Joana? – Rodrigo perguntou, abaixando o livro sobre o colo e olhando a filha por cima dos óculos de leitura,

Joana parou, surpreendida, e se voltou para o pai, que notou como a filha estava bonita.

— Vou sair com Charles, pai. Ele está aí fora me esperando – Joana respondeu, apreensiva. Naquele instante, Rodrigo sentiu uma pontada no peito, era ciúme, pois sua filhinha havia crescido e estava apaixonada. Ele poderia ter dito muitas coisas, dado vários conselhos para ela como ser prudente com as histórias de amor, não se apaixonar assim tão sem cuidado, que poderia sofrer muito depois, contudo não disse nada disso, não sabia como começar.

— Não chegue muito tarde! – Foi a sua única recomendação.

— Pode deixar, pai! – Ela se virou e saiu rapidamente pela porta, Rodrigo ficou observando a porta se fechar atrás dela.