De repente, você
15 Surpresa
Dentro do carro, diante da casa de Joana, Charles se preparava por uma longa espera, já acostumado com as mulheres que o cercavam, como sua mãe, suas irmãs e suas eventuais namoradas, todas já tinham feito ele esperar por elas durante um longo tempo, e assim conformado e distraído, procurava uma música, a escolhida foi “She’s the one”, que combinava bem com os sentimentos naquele momento. Fechou os olhos e começou a viajar na música, mal ouviu a porta do carro se abrir, quando foi trazido de volta por um doce e suave beijo na boca. Assim ele abriu os olhos, surpreendido ao ver o lindo rosto de Joana na sua frente iluminado por um sorriso, tal qual um anjo.
— Demorei muito? – ela perguntou de um jeito inocente.
— Não, só o tempo exato – ele respondeu, realmente, feliz e surpreso.
— Podemos jantar? Estou morrendo de fome.
— Claro, na verdade, também estou morrendo de fome. Podemos ir naquele restaurante italiano, que eu falei outro dia – considerou, esse tipo de atitude era algo que ele adorava em Joana. Ela era tão sem frescura, sincera, uma novidade para Charles, que não estava acostumado com isso, já que as garotas com quem saiu no passado, nunca reconheceria que tinham fome, tão preocupadas em ser magras, se orgulhando de entrarem em roupas cada vez menores, como se ele se importasse com isso.
Já no restaurante, Joana criou coragem para tocar no delicado assunto do ocorrido na praia, naquela tarde entre Daniel e Elisa.
— Charles, eu lamento muito a atitude de Elisa – Joana começa com sinceridade. — Eu não sei o que está acontecendo, ela não é assim desse jeito, normalmente. Não digo, que ela tenha um gênio muito fácil, mas nunca vi ela destratar alguém dessa forma, sem motivo importante – defende a irmã, mas Charles a olhava sem entender.
— Do que você está falando, Joana? – Charles quis saber, confuso.
— Ora!! Do que Elisa disse para Daniel hoje à tarde! Ele não comentou nada com você? – indagou, espantada.
— Não, Dani não comentou nada comigo. Mas o que aconteceu, afinal de contas? – Charles estava curioso, já que seu amigo se fechara ainda mais do que de costume, depois do regresso à casa.
— Elisa disse a Dani que não gostava dele – Joana confessou, sem jeito, e os olhos de Charles se arregalaram com surpresa.
— Por que ela fez isso? – Ele não podia esconder a sua irritação.
— Eu não sei, acho que ela não gosta da arrogância dele, aquele ar de superioridade, como se fosse melhor que todo mundo. E depois tem aquela história do Leo, ela ficou muito irritada com aquilo – Joana queria justificar as atitudes da irmã.
— Sua irmã tem uma ideia completamente errada do meu amigo – Charles admitiu de um modo triste. — E quanto ao Leo... Bem, a história é muito mais complexa do que você pode imaginar, mas não posso contar nada, porque seria uma traição ao meu amigo, eu prometi a ele que não revelaria a ninguém. Porém, posso garantir que Dani é muito mais um salvador do que um criminoso, o que ele fez teve um bom motivo, mas mesmo assim, se sentiu muito mal com toda essa situação.
— Eu lamento muito tudo isso, Charles – Joana olhando nos olhos dele, com sinceridade.
— Eu sei que você não tem nada a ver com isso. Só não queria que meu amigo sofresse ainda mais – Charles falou com pesar, porém mudou para um tom mais leve. – Não vamos deixar que isso estrague a nossa noite, Joana. Vamos mudar de assunto.
Tomar sorvete com Carla e Eduardo não parecia ser o melhor programa para uma noite de verão, mas era melhor que ficar em casa, sozinha, com o pai e a madrasta, então Elisa resolve ir com eles. Aquele era uma situação muito estranha, Eduardo contava histórias intermináveis sobre a faculdade, viagens, coisas que fez e que gostaria de fazer e Carla achava aquilo tudo muito engraçado ou interessante, até o momento que o primo se levantou para comprar outro sorvete de pistache, ela segurou o braço da amiga.
— O que está acontecendo, Carla? – Elisa perguntou, surpresa.
— Como assim? – A amiga levantou as sobrancelhas em interrogação.
— Você não pode estar gostando tanto assim dessa conversa do Eduardo? – Elisa respondeu, com um tom irônico.
— Por quê? – a amiga indagou, sem entender.
— Porque ele é um chato, Carla!
— Na verdade, eu não acho. Eu o acho bem interessante e engraçado. Olha, Elisa! Você que está ficando uma chata! Cheia de ideias preconcebidas a respeito das pessoas.
— Eu? – Elisa ficou atônita com a fala da amiga.
— Sim, você, Elisa. Primeiro, você pegou no pé do Dani, depois santificou o Leo que mal conhecia e, agora, o pobre do Eduardo.
— Eu não sou assim, Carla! – Elisa foi enfática, querendo se defender.
— Você não era, mas agora está ficando. O que está acontecendo com você, Elisa?
— Nada – ela respondeu quase em um sussurro, quando Eduardo voltou e sentou se ao lado de Carla, oferendo sorvete a elas. Elisa recusou, mas Carla aceitou e ele levou a colherzinha a sua boca, demorando mais tempo que o necessário.
Elisa se sentia meio deslocada, para piorar a situação, as gêmeas chegaram com seu grupinho, Lídia abraçada a um novo namorado, trocando beijos demorados e abraços quentes demais, enquanto Maria achando tudo aquilo engraçado, até ver a irmã e abaixar os olhos.
— Eu vou embora – Elisa disse, já cansada dali.
— Vamos com você – Eduardo se levantou, prontamente.
— Não precisa! Não tem perigo. Ainda é cedo e a entrada do condomínio é logo ali pertinho.
Carla e Eduardo se entreolharam, em dúvida, divididos em ficar ou ir, mas o argumento de Elisa e a vontade de ficarem juntos venceu. Entretanto, antes de sair, Elisa deu uma longa olhada de uma maneira dura para as irmãs e Lídia devolveu um olhar desafiador.
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