São quatro horas da madrugada, Plutão passeia pelo nosso quarto sacudindo levemente a bebê nos braços, encaro o teto deitada na cama, meus olhos ardem e lacrimejam.

De forma simples e direta, os rapazes decidiram que nós – as únicas mulheres da equipe – deveríamos ficar com a criança durante a noite por parecermos mais experientes. Grande desculpa esfarrapada, eles apenas queriam dormir em paz, ficariam surpresos com o quanto bebês acordam durante a noite. E por falar em bebê, Plutão e eu decidimos lhe dar um banho antes de colocar para dormir e descobrimos que é uma menininha.

Plutão quis dar um nome, porém achei melhor não, afinal iríamos entregar ela aos pais adotivos em breve. Eu e meus irmãos fomos todos adotados, alguns deles foram tirados de pais abusivos, outros como eu, foram largados pelos pais biológicos. Meu plano era entregar a bebê aos meus pais adotivos, eles com certeza vão cuidar muito bem dela assim como cuidaram de mim e de meus irmãos, consigo imaginar todos reunidos no sofá encarando a bebê, meus irmãos brigando sobre quem tem a melhor ideia de nome e meus pais rindo enquanto ninam ela no colo. De fato, ela vai ficar bem.

— Por favor, dorme! – Plutão resmunga, a bebê totalmente acordada sorri achando graça.

— Não quer deitar com ela? – Pergunto levantando um pouco para observa-las – Talvez ela durma se ficarmos quietas.

— Pode ser... — Plutão sobe no colchão da enorme cama de casal.

Como havia dito antes, na base há quatro quartos, porém todos com camas de casais, afinal, os Primordiais vieram para colonizar Marte – se é que me entendem. Nos separamos em duplas, Mercúrio e Cobra, Hades e Inferno, Plutão e eu. O maldito do Professor ficou com um quarto só para ele.

— Vamos tentar dormir um pouco, não acho que ela vá chorar mais – Digo ao ajeitar a bebê entre nós duas, a pequena me encara curiosa.

Plutão fecha os olhos, lhe imito. Ficamos alguns minutos em silêncio, sinto o colchão no meio de nós mexer um pouco, não demora para sentir mãozinhas no meu rosto, a bebê murmura coisas de bebê, ouço Plutão resmungar bem baixinho.

Abro os olhos e dou de cara com os olhinhos castanhos claros da pequenina. Ela mexe em meus cabelos, meu rosto, puxa minha camisa com força, procura algo para se entreter na madrugada e se apaixona pelo meu colar que logo ela põe na boca. Puxo o colar e ela volta a pôr na boca, ficamos nisso por minutos, Plutão já caiu no sono. Fecho os olhos torcendo para que a pequena nos imite, porém arregalo os olhos quando sou quase enforcada. A criança puxa meu colar com força suficiente para machucar minha garganta. Depois disso fico longos minutos esperando a pequenina pegar no sono, estou com medo dela me enforcar novamente. – Mesmo embora tenha sido sem querer de sua parte — A bebê engatinha e sobe na minha barriga, olho para ela pensando quando finalmente sua energia vai acabar e me surpreendo quando a mesma encosta a cabeça no meu peito e fecha os olhinhos. Respiro aliviada e finalmente consigo dormir.

Acordo de supetão com um grito de Plutão, ao me virar vejo a bebê totalmente desperta com um tufo de cabelo da platinada em mãos. Olho espantada.

— Ela puxou meu cabelo enquanto eu dormia! – Plutão grita enquanto massageia a cabeça.

— Deus é mais! Ainda bem que não foi comigo – Me sento na cama – Que horas são?

— Isso importa? – Plutão se levanta raivosa – Olha o que ela fez comigo!

Lhe ignoro e vejo meu relógio de pulso.

— São quase oito da manhã.

— Fique aí BC, precisamos dormir! – Os olhos de Plutão estão vermelhos e inchados de sono – Os meninos podem tomar conta dela.

Pegando a criança no colo ela sai do quarto às pressas, bate de porta em porta no corredor, ninguém responde, eles já devem ter saído da cama. A platinada anda pela base a procura de alguém, parando assim que vê Mercúrio lendo um livro.

— Ei! É a vez de vocês – Tira os livros da mão do moreno e coloca a bebê sentada em seu colo – Buttercup e eu precisamos dormir! Façam o favor de ficarem com ela.

E sem esperar respostas Plutão volta ao quarto. Mercúrio encara a mulher partir e confuso olha para a pequena.

— Ela?

Mercúrio se levanta e vai até a cozinha, Hades terminava de lavar os pratos do café da manhã. Ele olha confuso para a criança nos braços do homem.

— Plutão e BC estão dormindo – Explica – Parece que ela chorou a noite toda. O que tenho que fazer?

Hades faz sinal para ele sentar e esperar. Vai até o fogão e esquenta uma papa que ele preparou para a bebê mais cedo, coloca no prato e sinaliza para ele esperar esfriar. Mercúrio tem dificuldades em ajeitar a pequena no colo, a todo momento ela tenta ficar em pé – mesmo embora não saiba ainda nem andar – e subir na mesa.

— Vamos ficar quietinha e abrir a boquinha – Ele pega uma colher e enche de comida, ela abre a boca rapidamente – Muito bem!

Isso acontece por alguns minutos, Mercúrio as vezes se atrapalhava quando ela tentava enfiar as mãozinhas no prato e por isso o moreno acabava se sujando todo de comida. Em certo momento ele se distraiu com Hades que havia escrito para ele o parabenizando por cuidar bem da criança. Enquanto lia o caderno do amigo Mercúrio não notou que ele havia direcionado a colher para outro lado e a bebê mordeu com tudo seu dedo.

O grito assustou Hades que largou o caderno e correu para tentar soltar a criança. Quando se separaram Mercúrio sentiu seus olhos lacrimejarem, as marcas dos dentinhos em seu dedo sangravam levemente.

— Ora sua...!

Ele segurou o choro e a raiva ao olhar a carinha de inocente, até perdoaria se ela não virasse no segundo seguinte a papa em cima de ambos. Enquanto batia as mãozinhas feliz da vida, Mercúrio se segurava para não gritar de raiva, principalmente quando Hades começou a rir acompanhado da criança que não entendia nada.

— Aconteceu uma guerra aqui? – Cobra entra na cozinha segurando o riso ao ver o colega todo sujo – Imagino que o pirralho que fez isso – Apontou para a bebê.

— Ha Ha estou morrendo de rir – Mercúrio levanta-se – Já que gostou tanto dê um banho nela – E entregou a criança coberta de comida a Cobra que segurou ela longe do corpo para não se sujar – Eu vou tomar um banho.

— De um banho você! – Cobra gritou, porém o moreno lhe ignorou – Ele disse ela?

Hades deu de ombros.

— Por que você não dá banho? Você leva muito mais jeito.

Hades fechou o rosto e escreveu algo no caderno.

Isso de levar “jeito” não funciona comigo. Há uma bacia na dispensa use ela, tenho que limpar a cozinha e preparar o almoço — Largou o caderno na mesa e foi terminar de lavar os pratos.

— Droga...

Cobra e a bebê se encararam.

[...]

A bacia foi enchida com água pela metade, a criança se encontrava pelada, Cobra lhe segurando com vergonha.

— Olha só, você é uma menina – A bebê fez uma carinha de confusa e Cobra suspirou – Eu sei, é vergonhoso um homem te dar banho, então... Só vamos logo com isso.

Ao colocar ela sentada na bacia a pequena tentou sair a todo custo, Cobra desesperou-se não sabendo segurar direito e com medo de machucar tirou ela de lá segurando-a com as mãos em baixo dos bracinhos para longe do seu corpo evitando se molhar.

— O que foi agora?! Qual o problema? Não gosta de banho? Melhor assim, menos trabalho para mim – A bebê lhe encarou com os olhinhos cheios d’água – Você vai chorar? Por que essa cara?

Cobra entrou em desespero assim que ela começou a chorar, olhou de cima a baixo procurando algo que tenha lhe machucado, notou Hades passando por ali e sentiu que ele poderia lhe ajudar.

— Hades! Ela ta chorando! O que eu faço?

O homem entrou no ambiente e checou a bebê assim como Cobra fez, por fim foi até a bacia e curioso pois a mão na água, tremendo logo em seguida.

Você é louco! Olha como essa água está congelando, quer matar a criança? — Escreveu rapidamente em seu caderno.

— Gelada? E tem que ser quente a água? Eu tomo banho do jeito que tiver.

Ela é um bebê! O corpo dela é diferente do nosso, não aguenta certas temperaturas. Vou esquentar água, espere aí.

Cobra acompanhou com o olhar Hades sair, enrolou a bebê em uma toalha e aguardou por longos minutos. O homem pôs a água quente tornando o banho da bebê morno. Cobra agradeceu antes dele sair e colou a pequena na banheira. Desta vez ela não pareceu se incomodar.

— Hm... Não é tão difícil – Cobra sorriu levemente.

No segundo seguinte um jato de água espirrou molhando-o completamente, a bebê ria jogando água para todos os lados inundando o ambiente e deixando o homem ensopado.

— É claro que isso tinha que acontecer!

Levou mais de vinte minutos e mesmo assim Cobra não havia conseguido fazer um bom serviço. Apareceu na sala com as roupas pingando, a bebê em seu colo enrolada da cabeça aos pés em uma toalha.

— O que aconteceu? – Plutão e eu que já havíamos acordado olhamos para ele surpresas.

Mercúrio surgiu e assim que viu a situação pôs-se a rir das custas do amigo. Cobra fechou a cara e deixou a criança nos meus braços antes de sair escorregando em sua própria poça d’água.