— Bem, vamos testar... – Inferno aperta o botão para ligar o transmissor – Alô, Professor, na escuta? Alô?

— Repete mais uma vez, acho que não entendi muito bem – Plutão olha descrente para Mercúrio e Cobra.

— Mas é isso mesmo o que você ouviu – Cobra responde levemente irritado, era a terceira vez que eles nos contavam o que haviam visto.

Estamos todos na sala, no sofá está Plutão, Hades, Cobra e eu segurando a bebê que acabara de pegar no sono. Na nossa frente, mexendo nos botões e antena do transmissor esta Inferno tentando contato com o Professor, o aparelho encontra-se na mesa de centro, já em pé ao lado dele está Mercúrio de braços cruzados.

— Vimos outro humano, mas não deu tempo de falar com ele ou qualquer coisa do tipo. Já que estávamos sendo perseguidos – Mercúrio encara Cobra que desvia o olhar sabendo que a culpa era dele.

— Não era alienígena, isso eu posso afirmar, era um humano – Cobra conclui.

— Um humano que não é o Professor, na superfície de Marte.... – Penso em voz alta – Seria um policial atrás da gente?

— Se fosse da polícia, teria nos perseguido – Cobra responde — Parecia mais era que tava fugindo mesmo.

— Qualquer um fugiria se visse um carro a mais de 200 por hora fugindo de um alien que cospe fogo — Hades gesticula em língua de sinais e eu resolvo não traduzir, mas rio do comentário.

— De qualquer forma agora sabemos que há outros de nós por aí – Mercúrio encara a bebê – Possivelmente até os familiares dela.

— A família? – Plutão encara a bebê.

— Quem sabe? Talvez os pais dela estão por aí, procurando desesperados pela filha – Cobra responde pensativo.

— Se acharmos a família dela isso seria um-

— Um adeus – Concluo o pensamento de Plutão.

Todos ficam em silêncio. Mesmo embora já soubéssemos que em algum momento teríamos que nos separar dela a ideia de que possivelmente aconteceria mais cedo do que planejamos nos incomoda de alguma forma. No fim, inconscientemente todos nos apegamos a criança.

Alô? Inferno?

Uma voz sai do comunicador chamando a atenção de todos na sala. O objeto é um aparelho antigo, nos livros sobre a Terra-Antiga dizem que esse aparelho era usado em caminhões numa frequência e estação de rádio para caminhoneiros se comunicarem entre si. Qualquer um com um aparelho igual poderia contatar os motoristas.

— Professor é o Inferno, na escuta?

Positivo.

Sorrimos com a resposta. Conseguimos, nós conseguimos contato! Enquanto todos ficam eufóricos com a situação eu lembro da conversa de instantes atrás. Olho a bebê no meu colo, seu peito subia e descia de forma suave demonstrando um sono calmo. Pensei que ela poderia ser adotada pelos meus pais, mas talvez não seja dessa forma. Eu deveria estar feliz que a família dela está em algum lugar na superfície da Marte, não deveria? Por que me sinto triste?

O que está acontecendo? Como conseguiram contato?

— É simples, eu construí uma maquina capaz de transmitir-

— Foda-se a explicação – Cobra interrompe Inferno — O mais importante é, onde você ta?

— É mesmo, já está fora a tempo demais – Inferno ao contrário das outras vezes ignora o jeito que Cobra o interrompeu para concordar com ele.

Está difícil voltar, a passagem para a superfície está bloqueada, policiais montaram guarda a dias, não sei se isso é pra nos impedir de voltar ou para nos impedir de ir.

— Você acha que eles já sabem que estamos aqui? – Mercúrio questiona.

Não tenho certeza, mas pela quantidade de policias, suspeito que de alguma forma eles suspeitavam que o nosso plano era escapar para aí.

— Bem, como não vimos nem um por aqui, acho que eles não devem saber mesmo que já estamos aqui embaixo – Conclui Inferno.

— Professor, quais as chances de terem outros humanos além de nós? – Questiono depois de muito tempo em silêncio apenas ouvindo os rapazes conversando com o nosso líder.

— Por que a pergunta?

Sua voz sai um pouco nervosa, encaro Cobra que me olha igualmente desconfiado.

— Encontramos um humano, e acho que pode haver mais – Responde Cobra – Ah e temos um bebê agora.

— Um bebê? Por quanto tempo eu sai daí? Já fizeram um filho?

— Não é isso – Plutão segura o riso – Estamos com uma criança, a Buttercup encontrou na porta da base.

— Quais as chances de terem outros humanos além de nós? – Volto a perguntar. Um silêncio se faz presente por alguns longos segundos, se não fosse pelo som da sua respiração eu poderia questionar se ele ainda estava na chamada.

Tem coisas que nunca cheguei a contar a vocês. Mas... Há uma cidadezinha, ao norte, alguns dias de caminhada, ela fica escondida entre a passagem de uma caverna. Há alguns humanos e outros seres morando em uma sociedade diferente da que conhecemos.

Fecho a cara no segundo seguinte. O Professor é tachado como nosso líder, mas esconde muitas coisas de nós, a existência deste lugar nunca mencionado me enfurece. Em momento algum ele nos contou que há outros de nós, que existe uma cidade e que poderíamos ter tido ajuda todo esse tempo, não apenas ficar sentados esperando o dia que o Professor vai nos “liberar” para voltarmos as plataformas.

— Então há outros... – Plutão sussurra surpresa.

— Por que caralhos não nos contou antes?! – Elevo o tom de voz e a bebê acorda assustada, logo começa a chorar – Que porra Professor! Você é um babaca de merda!

Me levanto enfurecida, aninho a criança nos meus braços e vou para o quarto ignorando as expressões confusas de alguns e compreensivas de outros. Enquanto conversam sobre as novas descobertas na sala, eu me tranco no quarto e nino a bebê até ela pegar no sono.

O tempo se passa, Plutão já esta do seu lado da cama dormindo tranquilamente, olho o relógio de pulso, passam das 3 da manhã. Não consigo dormir de forma alguma. Coloco alguns travesseiros do meu lado da cama para a bebê continuar protegida no meio, logo após me levanto resolvendo andar um pouco pela base.

Passo pelo corredor dos quartos e tudo está em silêncio, na sala, na cozinha, tudo segue do mesmo modo. Opto por ir a minha garagem improvisada, talvez concertar o carro me ajude a pôr as ideias no lugar. Quando adentro o ambiente me deparo com Cobra, que está sentado limpando sua arma.

— Insônia? – Pergunto ao me aproximar.

— Digamos que sim... – Ele não me encara, fica focado na limpeza do armamento – Veio concertar o carro?

— É...

Vou até minha bancada de trabalho e separo algumas ferramentas para o concerto. Ficamos em silêncio por alguns longos minutos, tempo suficiente para Cobra terminar de polir todas as suas armas.

— Sobre a conversa com o Professor hoje... – Cobra Inicia, mas logo o corto.

— Se você acha que estou errada eu-

— Não acho que esteja errada – Ele me corta – Eu entendo você.

— Entende? – Fico ligeiramente surpresa, Cobra seria a última pessoa na face do planeta Marte que eu acharia que iria me entender sobre qualquer assunto.

— É frustrante o que ele faz com a gente – Cobra inicia seu raciocínio – Quer dizer, ele que teve toda ideia do assalto e principalmente a ideia de pra onde deveríamos fugir. Não é estranho? – Aquilo não era uma pergunta, estava mais pra confirmação.

— Ele nos esconde coisas. Não entendo por que seguimos ele tão fielmente, praticamente como cães treinados.

— De qualquer forma, acho que chegamos em um ponto onde duvidar dele agora, seria inútil. Fizemos coisas demais pra de repente só agora questionar as ideias dele. Sem ele estamos mortos, literalmente. Policias, aliens, realmente conseguimos nos afundar sem nem mesmo perceber.

— O que ele disse a vocês depois que sai?

— Que devemos nos livrar da criança – Reviro os olhos com a resposta – Ele não ta errado. É arriscado demais.

— Eu sei...

— É uma pena, de fato eu estava me apegando a ela.

“Eu também” – Penso em dizer, mas guardo para mim. Ficamos novamente em silêncio por alguns minutos enquanto termino de colocar o novo retrovisor.

— Ele disse sobre alguma chance de sairmos daqui?

— Sim. Mas ela não pode vir junto. Vai ter policiais. Muitos deles – Cobra se levanta guardando suas armas — Vamos nos preparar para as próximas ordens, tenho certeza que em algum momento devemos ir para a tal cidade.

Resolvo não perguntar mais nada. Cobra sai do recinto depois de algum tempo. Passo algumas horas na garagem concertando o automóvel, meus pensamentos são uma bagunça. Não consigo mais confiar naquele que eu achava ser nosso líder e não consigo deixar de me sentir triste por saber que vamos nos separar da bebê. Eu tinha esperanças de que depois de entrega-la aos meus pais, de alguma forma depois que toda essa merda acabasse, eu poderia vê-la mais uma vez.

As palavras do Professor no dia que nos conhecemos martelam em minha mente:

— Quer mudar de vida?

O Homem que espera seu carro ser concertado me pergunta, ele é alto pele branca, cabelos tão brancos quanto um giz, olhos azuis, usa um terno. Claramente alguém da camada dos Ricos, não era muito comum ver um deles por aqui embora soubéssemos que eles gostam de passear com seus filhos pontuando que eles têm sorte de serem quem são, caso contrário, estariam morando na Ralé.

— E quem não quer senhor? – Respondo com desdém terminando de trocar o olho do motor do carro, um modelo do antigo mundo, incomum de se ver com um Rico.

— E se eu dissesse que tem uma forma?

Lhe encaro notando seu sorriso convencido, seus olhos me transmitem confiança e eu fico atraída por eles, brilham iguais ao céu dos desenhos do antigo mundo que eu via nos poucos livros de história que havia por aqui. Morando na Ralé nosso céu é composto pela Plataforma acima, apenas luzes artificiais que se apagam durante a noite.

— Que forma? – Minha pergunta sai inconscientemente, e me amaldiçoou por demonstrar tanto interesse na sua conversa de Riquinho, provavelmente só está querendo mão de obra barata.

— Um assalto – Solta de forma que seu sorriso fique ainda maior, franzo a testa.

— Um assalto? E o que pretende roubar? Não sei se notou, mas não tem muita coisa de valor por aqui – Reviro os olhos voltando a olhar o carro, verifico se fechei a garrafa de óleo de motor, limpo as peças sujas com uma espuma e logo em seguida minhas mãos – Morrem vários dos nossos todos os dias, não temos hospitais aqui embaixo, não perdemos nossas vidas por besteira como um roubo, não vale a pena.

— Mas quem disse que seria aqui? – Sua voz soa divertida atraindo minha atenção, ele aponta para o teto da minha oficina e rapidamente entendo o que ele fala.

Assalto na camada dos Ricos.

— Não existe formas de fazer isso – Minha expressão sai de curiosa para confusa.

— Com o grupo certo e o líder certo, tudo é possível – Ele vem se aproximando enquanto puxa sua carteira a procura de cards com o valor que combinamos mais cedo, seus olhos me encaram profundamente, me sinto invadida mais uma vez por aquela cor que dizem ser a cor do céu – Você não quer mudar de vida? Ajudar sua família? – Sussurra próximo ao meu ouvido, como se contasse um segredo. Antes de se afastar deixa em minhas mãos dois cards que valiam bem mais do que eu tinha proposto.

Encaro os cards na mão, finos iguais cartões de créditos e que de certa forma funcionavam como eles. Ao colocar um card com certo valor aquisitivo como por exemplo 50 em uma máquina, o valor do produto era descontado e assim ia até aquele card esgotar totalmente. Juntos, os Cards de formato retangular amarelo davam para fazer uma grande compra no supermercado por quase dois meses.

O homem platinado caminha para seu carro que já está pronto. Desço o capô do carro e verifico se está de fato preso. Enquanto o homem da ré lentamente eu penso na minha família. Meus pais, dois homens generosos que não suportam o fato de verem as crianças abandonadas, por isso tenho um monte de irmãos, tantos que não caberiam nos quartos da casa, caso alguns já não tenham morrido por falta de cuidados médicos. Respiro pesado, relembrar dos meus irmãos que partiram por negligencia dos Primordiais sempre me deixa enraivecida. E talvez essa raiva toda tenha me feito fazer o que fiz a seguir.

— Espere! – Grito me jogando na frente do carro antes que ele saia – Tudo bem, eu aceito. Eu tenho um irmão mais novo, ele sofre de perda de audição, se eu puder ao menos comprar um aparelho auditivo já seria suficiente.

O Homem sorri satisfeito.

— Você poderá até comprar o hospital se desejar.

Acho sua afirmação meio desconexa, não poderia haver tanto dinheiro envolvido em sua proposta assim, não é? De alguma forma eu quero confiar que sim, que eu vou conseguir dinheiro suficiente para o tratamento do meu irmãozinho e que minha família não sentirá mais fome. As palavras daquele homem me encantam, pois ninguém nunca havia me dado uma oportunidade de mudar e ali estava ele, dizendo que eu teria tudo e cegamente eu lhe segui sem nem ao menos pensar em quais os planos que ele tinha por trás daquela “bondade”.

Abano a cabeça para afastar os pensamentos, solto um suspiro cansado e volto a dar atenção ao carro decidida a abandonar esses sentimentos e seguir os conselhos de Cobra.