De repente um bebê
8 Capítulo 8
Segundo meu relógio de pulso eram exatas 8h da manhã. Ainda me encontrava na oficina improvisada, o carro parcialmente concertado – na medida do possível, mas ainda andaria por bastante tempo sem perder potência — Não consegui dormir e não soube definir se era por ter descansado por dois dias inteiros ou se era pelos pensamentos que insistiam em voltar. Talvez fosse pelos dois. Quando me senti satisfeita com meu trabalho no carro eu resolvo comer algo, minha barriga poderia entrar em festa depois de reclamar por horas a fio e só receber água como resposta.
Ao adentrar na cozinha reparei que todos já se encontravam presentes. Mercúrio tinha uma expressão de incomodo ao ver Inferno “amamentando” a bebê ao seu lado na mesa. Cobra já terminava de raspar o prato enquanto Plutão ainda se servia com um pouco da sopa. Ao me ver chegar Hades que estava lavando os pratos me cumprimenta em língua de sinais.
— Desculpa Bc, eu falei para esperarem você chegar, mas começaram a reclamar como sempre e... – Suas mãos se moviam agilmente chamando atenção da bebê que achava divertido como algum tipo de brincadeira— Eu não sabia se você viria, Cobra disse que passou a madrugada concertando o carro, fiquei com receio de que fosse fazer o mesmo de dias atrás... – Seu rosto ganhou um tom preocupado, sorri ao responde-lo em língua de sinais também, atraindo atenção do grupo que estava acostumado comigo lhe respondendo em voz, assim eles tinham uma noção do que era conversado entre nós.
— Não se preocupe, eu não vou mais preocupar ninguém, prometo – Tentei passar confiança sorrindo um pouco mais — E eu já disse que não precisa fazer isso, pedir para que me esperem, sempre vou me atrasar, já deveria estar acostumado – Nós dois rimos levemente— Por tanto que sobre um pouco para mim, já é o suficiente, obrigada.
— Vocês estão flertando? – A voz de Cobra soa pela cozinha quebrando minha conversa com Hades, sinto meu rosto formigar em sinal claro de vergonha.
— Claro que não – Respondo de forma desesperada, vejo os olhares passearem de mim para Hades e ao observa-lo noto que suas orelhas estão vermelhas, denunciando que também se sentia envergonhado.
— Estão vermelhinhos... Hm... Tão namorando né? – Cobra insiste se divertindo com nossas reações.
Eu e Hades tínhamos uma ligação diferente. Quando nos conhecemos meses atrás — depois do Professor ter me arrastado para uma casa de aparência abandonada afirmando ser o lugar onde estariam o restante da equipe – a nossa relação não foi uma das melhores, Hades era muito na dele e ninguém parecia se importar em se aproximar, achavam entediante demais esperar pelas respostas escritas por isso se limitavam em apenas perguntarem coisas com sim ou não. No começo também agi assim, distante e desinteressada, não queria formar laços, mas com o tempo foi inevitável, minha relação com o grupo após alguns meses tinha ido de desconhecidos a amigos e depois para irmãos. Morávamos todos naquela casa abandonada, proibidos de sair ou de ter contato com qualquer pessoa de fora, se não estávamos estudando estratégias do professor para o assalto estávamos conversando, brincando e as vezes até mesmo fazendo um churrasco no quintal – algo que para todos nós era um sonho inalcançável, nunca teríamos dinheiro para aquilo, ter um pão por dia já era luxo suficiente, mas o Professor nos bancava e por um tempo tudo pareceu um sonho, havia dias que esquecíamos que logo entraríamos em um banco fortemente armados.
O fato de Hades não poder falar me lembrava do meu irmãozinho, Carlinhos tinha 4 anos e sofria de perda auditiva, foi adotado quando seus pais biológicos morreram de tuberculose, um verdadeiro milagre não ter passado para ele que tinha apenas 2 anos na época. Depois que descobriram que eu sabia libras eu meio que virei a interprete do Hades e isso o colocou mais em nossas conversas, deixando o grupo mais unido. Ainda assim eu sentia algo diferente pelo ruivo, um apego – que eu culpava o fato dele me lembrar o meu irmão caçula — e curiosidade. Principalmente curiosidade, éramos proibidos de contar sobre qualquer coisa que envolviam nossas vidas antes de entrarmos na equipe de assalto, inclusive nossos nomes, claro. Mas a cicatriz que Hades tinha na garganta – e que ele confessou ser o motivo dele não conseguir falar – me deixava com um arrepio sempre que a via. Nervosismo talvez? Sempre fui fraca ao ver machucados e pensar no que poderia ter acontecido para ocasionar aquilo me fazia estremecer.
Antes que eu percebesse já o tratava como um irmão, eu tinha esse carinho a mais por ele, não poderia dizer qual o motivo principal para isso, nem mesmo saberia dizer se era paixão, mas eu sentia algo diferente – e não importa o que fosse, eu não poderia expressar, era outra das regras, ‘sem relacionamentos “românticos” entre os membros’.
Se é que eu sentia algo romântico.
E com o tempo, Hades tornou-se meu parceiro, alguém que eu poderia confiar e que cuidava de mim como um irmão mais velho, era impossível não me sentir confortável na sua presença e a simples menção a algo entre nós parecia meio surreal. Meu estomago dava voltas e eu já não sabia se era desconforto pelo rumo da conversa ou se era por esperanças de um dia eu de fato ter algo com o ruivo que me tratava com tanto carinho.
— Ela já disse que não Cobra – A voz de Plutão sai levemente irritada, encaro a platinada que mantinha o olhar fixo na sua comida, seu semblante era de tédio como se não se importasse com o que acontecia, embora seu tom de voz denunciasse outra coisa.
— Não precisa ficar com ciúmes – Cobra ri se divertindo com tudo aquilo. Mercúrio já nem estava incomodado com Inferno e sua “mamadeira-ceios” e a bebê também nem dava mais atenção ao leite, ela parecia de fato curiosa com o desenrolar da conversa.
— Eu não estou com ciúmes. Só que isso é chato pra caralho – Seu olhar sobe para o rapaz que ainda mantém um sorriso brincalhão na face – Por que não da atenção ao seu namorado e deixa o relacionamento dos outros?
Ouço Mercúrio engasgar com o café que tomava enquanto Cobra arregala os olhos, ele abre a boca algumas vezes, mas parece que a resposta fugiu da sua mente. Finalmente começo a me aproximar da mesa sentando-me ao lado de Inferno que tentava assimilar o que estava acontecendo.
Então quer dizer que Cobra e Mercúrio estavam em um relacionamento? Bem, eu já desconfiava, os dois sempre estavam juntos e algumas trocas de olhares sutis podiam ser vistas aos olhos atentos. Talvez eles dividirem um quarto tenha sido o que precisavam para finalmente engatarem em algo? Eu compreendo eles esconderem, o Professor os “mataria” se soubesse.
— Que namorado? – Inferno pergunta genuinamente confuso, ainda não havia notado as reações de Mercúrio ao seu lado.
— Depois te explico Inferno – Respondo antes de começar a me servir com a sopa.
E então parece que o assunto morreu. O silêncio se instala, cada um perdido em pensamentos. Hades ainda envergonhado com a sugestão de Cobra. Inferno confuso sobre o que acontecia, parecia algo importante para todos estarem tão quietos – o que era algo incomum, sempre estávamos conversando. A bebê terminava seu leite, ignorando o fato de o clima ter ficado levemente tenso no ambiente. Mercúrio olhava fixamente um ponto especifico na parede enquanto Cobra mexia suas mãos nervosamente, ambos envergonhados e pensativos em como que “descobriram”. Já Plutão não mantinha mais uma expressão neutra, parecia incomodada com seu coração que batia de forma estranha após a brincadeira de Cobra. E eu? Bem...Eu tentava entender o motivo de Plutão parecer tão chateada com uma simples brincadeira.
Nós nunca fomos tão próximas, esse foi o motivo para eu ter me assustado quando durante o assalto ela literalmente se jogou de um lugar alto para me salvar. Eu lembro de que um dos guardas que havíamos aprisionado durante o assalto escapou, nos separamos para procura-lo e eu fui pega desprevenida e sozinha. Quando dei por mim estava sendo arremessada para a morte certa do alto da enorme Casa do Ouro da Plataforma dos Ricos.
Plutão não pensou duas vezes antes de se jogar com um skate voador nas mãos e me agarrar em pleno ar. Eu tremia tanto em seus braços, minhas pernas envolta da sua cintura e meu rosto enterrado na curvatura do seu pescoço, olhos fechados pensado que aquilo poderia ter sido meu fim. Por pouco não tocamos o solo, a mulher era habilidosa com o skate e nos últimos segundos conseguiu se ajustar comigo e flutuar para longe enquanto os rapazes capturavam o fugitivo. Quando finalmente paramos já distantes dos demais, ela perguntou se eu estava bem. Sua mão quente entrou em contato com meu corpo gelado pelo susto, eu estava branca igual papel, não raciocinava direito e o choque térmico das temperaturas corporais me causou um choque me alertando que estávamos no solo e seguras. Ao me afastar de seu corpo pude ver que ela parecia tão assustada quanto eu, porém antes mesmo que eu pudesse lhe agradecer Hades me abraça desesperado gesticulando freneticamente se estou bem.
Plutão se afastou após notar que eu não havia me machucado seriamente, não houveram outros momentos em que pudéssemos conversar sobre o ocorrido, o objetivo era sair dali o mais rápido possível. Quando por fim chegamos à superfície eu apenas pude lhe agradecer por ter salvo minha vida, me desculpando por não ter o feito antes e com um sorriso ela me disse que ‘faria de novo caso precisasse’. Logo depois, tivemos que dividir o quarto e nossa relação avançou de modo que falávamos sobre quase tudo, principalmente fofocas sobre os meninos. Mas nunca havia se passado pela minha mente que ela poderia sentir algo além de amizade por mim, e essa possibilidade me deixou um pouco ansiosa.
[...]
Horas depois, um pouco perto do almoço, recebemos uma chamada do Professor.
“Ele sempre conseguiu entrar em contato, mas apenas não o fez todo esse tempo, por que?” – Pensei ao ouvir sua voz saindo do aparelho. O que tanto ele fazia esse tempo que está fora? Resolvo ignorar os pensamentos por enquanto e focar no que conversavam.
— Chegou a hora de vocês saírem da Superfície.
Todos nos entreolhamos surpresos. Após quase dois meses sobrevivendo nesse lugar inóspito, após quase um mês da sua partida, após semanas cuidando de uma bebê que foi deixada sem explicações na nossa porta. Após brigas, reconciliações, pressão, desespero, insegurança, desconfiança, saudades, paixões, medos e incertezas. Após tudo isso, finalmente a frase que tanto esperamos foi proferida. Como fieis cachorrinhos seguimos nosso tutor, e como bem treinados que fomos lhe obedecemos em cada ordem, esperando que ele nos entregue o petisco – liberdade – para podermos saborear por breves segundos e sentir que estamos fazendo o certo. Após tudo o que passamos, depois de quase morrermos inúmeras vezes, é chegada a maldita hora.
— Peguem o necessário, eu vou encontra-los no topo da montanha Vur daqui a três dias.
— O que é uma montanha Vur? – Mercúrio faz a pergunta que todos nós tínhamos, não vimos uma montanha vindo para cá, na verdade, nunca vimos montanha nem uma por perto.
— Saberão quando chegarem na cidade que mencionei a vocês. Sigam ao norte, há algumas cavernas no meio do deserto, vocês encontraram a passagem para a cidade lá. Procurem pela Agatha diga que precisam chegar na montanha Vur.
— Ãn... Acho que tudo bem – Inferno assim como nós fica um pouco confuso com as informações repentinas — Ir à cidade que acabamos de descobrir que existe, ela fica “dentro” de uma caverna, falar com Agatha... É, nós conseguiremos.
— E mais uma coisa. Deixem a criança.
E sem esperar por respostas ele desliga. Todos sentem-se desconfortáveis, temos a plena noção de que a bebê não poderá vir junto, porém ainda assim não deixa de ser minimamente uma situação triste. Sua chegada foi definitivamente algo inesperado, estávamos a dias sem noticias do professor, nossa comida no fim, aos poucos a ideia da morte parecia ser a mais bela do que passar por aquela situação desgastante, sem saber o que poderia acontecer no próximo dia. Quando abri a porta na esperança do Professor nos tirar do purgatório eu encontrei o que viria ser a nossa ancora, não tinha como não nos apegarmos, ela trouxe para dentro da base as risadas que já haviam ido a tempos, as conversas e brincadeiras que ninguém mais tinha ânimo para fazer, além de claro, ter nos obrigado a continuar a sobreviver, não era mais apenas por nós, adultos sem perspectiva de futuro, mas sim por ela que ainda tem uma vida toda pela frente. Ela nos segurou juntos quando cada um já estava distante focados em uma mínima distração para afastar os pensamentos mórbidos que vinham vez ou outra. Nos despedir dela seria extremamente doloroso, mas necessário.
— Tudo bem, vamos começar a nos organizar – Me pronuncio chamando atenção de todos que estavam cabisbaixos.
— Teremos que ir a pé? — Hades pergunta.
— Não se preocupe, o carro vai dar conta, concertei tudo que era urgente.
— Eu vou pegar tudo de necessário da bebê – Plutão me comunica antes de se afastar com um semblante triste, ela sentira tanta falta quanto eu de dormir com a pequena nos chutando durante a noite.
— Hades, vamos partir depois do almoço, use tudo que temos que pode estragar se deixarmos para trás – Me viro para o ruivo que se mantinha parado no lugar, os demais começaram a sair para organizar suas coisas.
— Hoje teremos um banquete!
Sorri em resposta. Não sei o que nos aguarda, mas se formos morrer, que seja pelo menos de estômago cheio.
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