Eu jogo a bomba sobre a mesa de jantar – não literalmente, apenas largo o cesto com o bebê com cuidado – todos me olham confusos, Plutão surge ainda sacudindo as mãos molhadas, para olha o cesto e faz uma cara confusa.

— Que merda é isso aí? – Me questiona.

— Um bebê foi largado na porta da base – Respondo.

Que?!

— Ta zoando né? – Cobra se aproxima para checar e seus olhos arregalam – Nem fodendo!

— Tem mesmo um bebê aí? – Mercúrio que roubava um pedaço de carne da bandeja pergunta.

— Quais as probabilidades disso acontecer? Digo, estamos na superfície de Marte a meses, não há sinal de outros humanos além de nós! — Cobra se afasta da criança e cruza os braços pensativo.

— Bem, não chegamos a explorar tudo, há probabilidades de outros humanos por aí, posso tentar fazer um calculo e... – Inferno continua falando, coloca os óculos de inteligência artificial no rosto e começa a conversar com a IA perguntando sobre probabilidades e etc.

Você não viu nada? — Hades gesticula e eu nego com a cabeça.

— E agora? O que a gente faz? – Plutão questiona, todos me encaram.

— Por que estão olhando para mim?!

— Você achou essa coisa – Cobra responde.

— Não é uma coisa... – Faço uma careta.

— Que seja, esse treco – Olho feio para Cobra que se corrige – Esse bebê, foi largado aqui e você achou. Então, nada mais justo que você cuidar.

— Como é?

— Eu concordo com ele – Plutão levanta a mão como se aquilo fosse algum tipo de votação.

— Eu não sou a porra de uma babá! – Elevo um pouco a voz.

— Pessoal... – Mercúrio chama, mas todos ignoram

— Ninguém ta dizendo isso, é só que você achou e cai entre nós – Cobra se aproxima um pouco de mim – Nós dois sabemos que você tem mais experiências com criança do que qualquer um aqui.

Estão jogando a responsabilidade toda nela, não é justo — Hades escreve em uma pagina do caderninho que ele guarda no bolso da calça – Não é como se a BC tivesse feito a criança, não faz sentido.

— Pessoal... – Ouço a voz de Mercúrio ao longe, ignoro novamente assim como os demais.

— Bom, você quer cuidar? Fica para você então – Cobra dá de ombros.

— Podemos parar de falar da criança como se fosse um objeto? – Olho feio para Cobra e Plutão – E vocês parem com essa merda! Isso aqui não é a porra de uma votação!

— Bem, segundo a IA as chances de haverem outros seres humanos além de nós aqui são de 4,3% — Inferno se pronuncia ainda com os olhos atentos ao que os óculos mostram – Sabiam que esse lugar também é chamado de Cemitério? Como todos que vieram para a superfície de Marte acabavam mortos e nunca voltavam então ficou conhecido como Cemitério, as pessoas tem medo daqui e... – Inferno continua falando, claramente lendo algo que os óculos lhe mostram.

— PESSOAL! – Mercúrio grita e finalmente olhamos para ele.

— Que é?! – Plutão pergunta um pouco assustada com o grito repentino.

— O bebê ta chorando – Mercúrio aponta para o cesto e finalmente percebemos.

Estávamos tão entretidos na “conversa” que não percebemos o bebê que começou a chorar. Ele chorava baixinho, porém mesmo assim parecia bastante agoniado com a situação na sala de jantar.

— O que fazemos? – Inferno pergunta desta vez os óculos está repousado em sua cabeça.

Tem que acalmar— Hades gesticula com as mãos e todos me esperam para traduzir.

— O Hades tem razão, temos que acalmar ele – Me aproximo do cesto e com receio seguro o pequenino em meus braços.

Cabelinhos pretos, mãozinhas pequeninas, vestindo apenas uma frauda, o bebê não deve ter menos de sete meses. Ele vai se acalmando aos poucos enquanto o balanço de um lado a outro, todos me olham em silêncio e fico envergonhada pela atenção. Quando finalmente se acalma, abre os olhinhos e vejo que são castanhos claro.

— Como eu disse, você é a mais indicada.

— Cala a porra da boca Cobra – Lhe encaro com raiva.

— Vamos esperar o Professor voltar, ele é o líder afinal – Mercúrio sugere roubando mais um pedaço de carne, Hades percebe e afasta a bandeja dele.

— Se é que ele ta vivo – Plutão suspira derrotada.

— Ele ta vivo – Ignoro a platinada e me volto ao homem de mechas coloridas — Inferno, tem como rastrear o Professor ou entrar em contato?

— Na verdade, tem sim, pode demorar – Ele mexe nos bolsos do sobretudo a procura de algo – Eu ainda não finalizei o receptor que venho projetando, ele nos permitira saber de tudo o que acontece nas plataformas, até falar com pessoas de lá.

Não vamos nos apressar com isso, quer dizer, ninguém jantou ainda. Professor sabe se cuidar, você pode fazer isso depois que comermos — Hades escreve no caderno e todos leem.

— Eu to morrendo de fome – Cobra nem ao menos senta e já começa a partir um pedaço da carne de lobo.

Plutão senta e eu fico em pé observando-os começarem a se servir. O bebê me encara confuso, minha barriga ronca. Hades puxa uma cadeira e eu me sento, ainda com o pequeno nos braços. Todos parecem ignorar o acontecido, comem e conversam normalmente, com um pouco de dificuldade por ainda estar com a criança no colo – o bebê voltava a chorar quando lhe deixava no cesto – sou a ultima a terminar de comer.

— Toda vez que você coloca o garfo na boca ele parece querer um pedaço – Mercúrio analisa.

Deve ser fome — Hades gesticula.

— O que damos a ele? – Inferno questiona e todos ficamos em silêncio.

— Não tem mamadeira e nem nada de criança – Cobra responde.

— Ele já tem dentes? Será que consegue mastigar algo? – Plutão se aproxima mexendo na boca do bebê – Olha tem os dois de cima!

— Isso não vai ajudar a mastigar – Explico – Tem que ser algo como uma sopa.

Dito isso Hades levanta-se e vai até a geladeira tirando de lá um ensopado que fez ontem. Todos comemoram, nem parece que brigamos a pouco tempo atrás. Hades esquenta um pouco do ensopado e coloca em um prato, espero esfriar um pouco e pego um pouco da comida na colher, aproximo da boquinha e ele rapidamente come.

— O moleque come bem – Cobra se pronuncia sorrindo -De fome não morre.

— Eu estou tendo umas ideias, preciso ir pra garagem montar umas coisas – Inferno levanta-se da cadeira e vai saindo – Também vou dar um jeito no receptor para falar com o professor e... – Sua voz vai sumindo aos poucos.

— No final brigamos à toa – Chamo atenção dos presentes – Porque não só criar juntos enquanto o Professor não volta? Eu conheço as pessoas que seriam os pais perfeitos dele.

— Tudo bem, acho que podemos fazer isso – Plutão fala e todos concordam.

— Só tenho uma pergunta – Mercúrio chama nossa atenção – Onde ele vai dormir?

Todos ficam em silêncio por alguns minutos, os rapazes se entre-olham depois nos encaram.

— Acho que temos uma ideia... – Cobra sorri e eu e Plutão nos entre-olhamos confusas.