De repente irmão
37 O melhor presente
Notas iniciais
É hoje... Aniversário do meu maninho.
Essas férias não foram as melhores da minha vida. Semana que vem as aulas retornam e o que eu fiz nesses dias que estou de molho foi simplesmente assistir filmes e séries, comer feito um porco -um porco saudável, já que Izumi está controlando tudo que eu como depois da cirurgia-, aguentar o Sasuke dando uma de enfermeiro... Enfim, confesso que essa última parte é até legal. É bonitinho e até mesmo cômico ver como o garoto se importa comigo da mesma forma que eu me importo com ele. Às vezes parece que o pirralho é que é o irmão mais velho nessa bagaça.
Não precisei sair de casa para comprar o presente de aniversário de Sasuke, já que posso contar com o maravilhoso mundo da Internet. Chegou há uns dois dias e eu pedi que Izumi embrulhasse num papel de presente.
Só de sacanagem ela poderia ter embrulhado o presente num papel bem fofo, com ursinhos, anjinhos ou outras frescuras. Ia ser engraçado ver o Sasuke, que já se acha um homenzinho, receber um presente cujo embrulho é pra bebê. Seria épico.
O que foi ? Só porque eu sou um irmão mais velho com uma responsabilidade recém adquirida quer dizer que eu tenho que perder meu lado zoeiro ? Nem pensar ! A zoeira nunca morre !
Mas a Izumi trouxe o presente embrulhado num papel azul escuro mesmo. Tudo normal, sem qualquer coisa que me permitisse zoar meu irmãozinho... Droga ! Izumi não tem o espírito zoeiro. Ou até tem, mas não usa.
Eu estava na sala, assistindo um episódio de The Walking Dead, quando Sasuke saiu do quarto dele com cara de figurante da série... Sim, eu tô falando dos zumbis.
– Bom dia, flor do dia ! — Falei todo animado e Sasuke me olhou com aquela cara séria que ele sempre faz quando está de mau humor — Nossa... Tira essa carranca, criatura.
– Eu vou comer... — O moleque então seguiu pra cozinha.
Ok, já é quase hora do almoço e ele ainda vai tomar café da manhã. Só que, tipo, foda-se... É férias !
Sasuke logo voltou pra sala com um prato numa mão e uma xícara na outra. Colocou a xícara sobre a mesinha de centro, depois sentou no outro sofá e colocou o prato sobre seu colo. Esfregou uma mão na outra, com certeza por causa do frio, e depois pegou seu sanduíche pra comer.
Não sei por que, mas acho que o frio e o mau humor do meu irmão são diretamente proporcionais. Quanto mais frio, pior é o humor dele !
– Como é se sentir mais velho ? — Indaguei como quem não quer nada.
Se engana que pensou que eu iria chegar com "Parabéns, meu irmãozinho querido. Eu te amo muito, felicidades e blá blá blá...", porque eu não tenho paciência pra essas baitolagens. A não ser que seja aniversário da Izumi; Aí rola até textão no Facebook... Enfim, namorada é uma coisa, irmão é outra.
– Igual — Deu de ombros — Nada mudou.
– Ah, mas você já está com treze anos. Já é quase um adolescente.
– Treze... Eu acho que eu já sou adolescente.
Criança que acha que é adulto é a pior espécie que tem. O pior é que todo mundo passa por isso... A gente chega numa fase em que simplesmente não quer mais ser criança e se recusa a admitir que é. Mal sabem que ser adulto é chato pra caralho e ser adolescente também é chato. A melhor fase da vida é a infância e não sei por que chega uma hora em que todo mundo simplesmente quer sair dela.
Com treze anos eu também dizia ser adolescente e hoje olho pro Sasuke com essa idade... Caralho, vejo ele como um bebê !
– Aproveita, Sasuke... — Comentei risonho — Você deve estar louco pra crescer logo, mas vai chegar uma hora que você vai pensar "Eu daria tudo pra voltar a ser criança", e isso com certeza não vai acontecer só quando você estiver frente a frente com um pula-pula e não puder entrar... Vai ser quando as responsabilidades aumentarem cada vez mais, quando você souber o que é se sentir pressionado pra conseguir entrar numa faculdade, pra escolher o que quer cursar. Aí você vai lembrar de quando era criança e não tinha preocupação alguma. Portanto, meu tolo irmãozinho, não tenha pressa pra crescer.
– Você acordou filósofo hoje — Sasuke riu após tomar um gole de seja lá o que tenha dentro dessa xícara... Acho que é chocolate quente, sei lá. Alguma coisa quente, com certeza — E também acho que eu não tenho mais tamanho pra pula-pula.
– O que, você já passou de um metro e meio ? — Perguntei num tom sugestivo e Sasuke entornou os lábios, fazendo uma careta.
– Já. Já passei — Respondeu — Pouquinho, mas já passei.
– Continua tampinha.
– Itachi, eu sou um dos mais altos da minha turma. Sabia disso ? — O moleque se gabou.
– Continha baixinho.
– Sou baixinho perto de você, mas, junto com os da minha idade...
– É um bebê e ainda é baixinho — Interrompi antes que Sasuke concluísse sua frase e ele me encarou com indignação.
– Pois eu vou ficar mais alto que você quando estiver adulto — Provocou.
– Vai sonhando... — Não contive um riso — Sasuke, o irmão menor será sempre o irmão menor. Independente da altura. Então eu sempre vou ver você como meu irmãozinho.
– Tanto faz — Deu de ombros e voltou sua atenção para o sanduíche.
– Tá de ovo virado por quê ?
– Hã ? — Ele me encarou confuso — Não tenho nenhum ovo virado não.
Puta que pariu ! Às vezes ele se faz de burro, só pode.
– Santa paciência — Suspirei pesadamente — Por que tu tá de mau humor e com essa cara de cú ?
– Não dormi direito — Resmungou — Fez muito frio à noite, me deu até cãibra e meu nariz sangrou.
Essa noite realmente foi fria pra cacete. Acho que nos dias anteriores, embora tenha feito frio, não foi tanto. Eu, que sou acostumado, sofri um pouco... Imagina o Sasuke.
– Por que não me chamou ? — Questionei.
– E você ia fazer o quê ? — Rebateu — Eu passei a noite encolhido, enrolado nas cobertas. O frio castigou pra caramba e era tortura ter que levantar de madrugada.
– É só não levantar, ué.
– E mijar na cama ? — Ele arqueou uma sobrancelha — Nesse frio me dá vontade de fazer xixi toda hora... Culpa sua.
Ah, eu tenho culpa por zelar pela saúde do meu irmão ? Nesse frio não dá sede e às vezes acaba que nós tomamos pouca água. Eu bebo água toda hora, mesmo sem estar com sede, e pego no pé do Sasuke pra fazer o mesmo.
– Ok, não bebe água não. Depois que você estiver aí sofrendo por causa dos seus rins, não vem chorar pro meu lado.
Sasuke ficou em silêncio por uns segundos. Deu uma mordida no sanduíche e tomou um gole do seu chocolate quente.
– E também o meu nariz tava sangrando... — O garoto quebrou o silêncio — Onde eu iria limpar ?
Eu, dependendo da preguiça, limparia no cobertor mesmo. Todavia, meu irmão é cheio das frescuras.
Izumi, que entende dessas paradas de signo, jura que o ascendente dele é Virgem. Não entendo dessas coisas, só sei que o Sasuke é leonino pela data do aniversário... Pensei que a gente só tivesse um signo, mas parece que dá até pra fazer um mapa de signos. Enfim, só sei que se Virgem for um signo enjoado, com certeza o mapa do Sasuke tem uma porrada de Virgem.
No fim, acho que essa parada de signos é só uma explicação que as pessoas inventaram pra justificar alguma filha da putagem. "Ah, a culpa não é minha, é da minha lua em Câncer...", porra nenhuma !
– Limpasse no cobertor, ué — Falei simplesmente.
– Itachi... — Ele me encarou enojado — E eu ia me enrolar com o cobertor sujo de sangue ?
– O sangue é seu.
A expressão de nojo no rosto de Sasuke triplicou. Ele me encarou como se eu fosse o ser mais nojento da galáxia.
– Credo... Porco.
Moleque fresco do caramba. O sangue é dele, qual é o problema ? E depois seca, fica de boa.
Sasuke nem almoçou hoje. Disse que estava sem fome. Se eu insisti ? Bem... Estranhei o fato de que essa criatura gulosa está sem fome, mas não vou insistir. Ele já tomou café quase na hora de almoçar e eu acho que não tem problema ficar sem almoçar só por um dia.
Eu estava na sala, comendo uma lasanha que esquentei no microondas -Izumi vai querer me matar quando souber... Ela não precisa saber- e Sasuke parecia completamente vidrado no celular. Um sorriso bobo brotou em seus lábios enquanto ele digitava alguma coisa, despertando a minha curiosidade.
– Por que tá tão alegrinho ? — Perguntei de boca cheia e o Sasuke até se assustou.
– Nada não... — Ele sorriu meio desconcertado — Nadinha...
– Uhum... — Ironizei — Sasuke, eu não nasci ontem. Conta aí, com quem você tá conversando ?
Sasuke ficou com as bochechas levemente avermelhadas e desviou o olhar, nitidamente envergonhado.
– Com a Sakura... — Falou baixinho, mas audível.
Sakura... Eu devia ter imaginado. Meu irmãozinho tá apaixonado, que coisa fofa !
Ah, a puberdade...
– Sua namoradinha ?
Ele ficou ainda mais vermelho. Cômico !
– Ela não é minha namorada, Itachi !
– Ainda — Sorri de canto — Confessa que tá amando.
– Eu gosto dela... — Ele admitiu meio envergonhado — Ah, Itachi, ela só me deu os parabéns pelo meu aniversário.
– Pequeno gafanhoto, isso é apenas um pretexto pra puxar assunto... Ou ela te deu os parabéns e morreu aí ? — Arqueei uma sobrancelha e Sasuke me encarou sério, mas permaneceu em silêncio. Quem cala, consente — Eu sabia ! A conversa fluiu.
– E daí ? — Deu de ombros e voltou novamente sua atenção para o celular — Só estamos conversando.
– Que bonitinho — Debochei — Essa noite o amor chegou... — Cantarolei no ritmo da música do Rei Leão — Chegou pra ficar...
Sasuke bufou de raiva e se levantou do sofá, seguindo para seu quarto logo em seguida. É claro que eu quase morri de rir, afinal, não há nada mais engraçado do que ver o Sasuke encabulado.
Enfim, terminei minha lasanha e assisti uns dois filmes. Enquanto isso, nada do Sasuke... Ele sequer saiu do quarto. Espero que não esteja trocando nudes com a namoradinha cor de rosa.
Eu deveria dar logo o presente dele ? Não... Combinei com a Izumi que esperaria ela chegar. Não vou entregar o presente enquanto minha bebê não chegar.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem pra ela.
Eu:
"Neném linda, você vai demorar ?"
Namorada soberana:
"Tô arrumando meu guarda roupa hoje, amor...
Você já deu o presente do Sasuke ?"
Eu:
"Ainda não. Tô te esperando."
Namorada soberana:
"Não precisa me esperar."
Eu:
"Você vem ?"
Namorada soberana:
"Vou. Mas não agora.
Pode dar o presente dele que jajá eu chego.
Deixa o portão pequeno aberto pra eu entrar."
Eu:
"Ok.
Bjs
Te amo."
Namorada soberana:
"Também te amo."
Tem como ser mais fofa ? Não, não tem.
Fui até o meu quarto e peguei o presente do Sasuke que estava guardado dentro do meu guarda roupa. Depois fui até o quarto dele. Dei duas batidas na porta e Sasuke não disse nada... Estaria dormindo ? Porra, ele acordou tarde pra caralho, se estiver dormindo, pode mandar enterrar porque tá morto.
Abri um pouquinho a porta e vi meu irmão sentado sobre a cama, olhando alguma coisa...
– Licença — Já fui entrando no quarto e Sasuke me olhou surpreso quando viu o grande embrulho em minhas mãos.
– Que isso ? — Os olhos negros de Sasuke chega brilharam, afinal, qual é a criança que não gosta de ganhar presente ? Não existe — É pra mim ?
– Adivinhou — Entreguei o presente nas mãos dele — Feliz aniversário, pirralho.
Sasuke sorriu e logo pegou seu presente, abrindo rapidamente. Ele ficou radiante ao ver do que se tratava.
– Uau ! Um notebook !
– Agora você já não precisa mais pegar o meu emprestado.
– Valeu, Itachi. Eu adorei.
Foi um presente caro, mas ele merece. Sasuke, por mais enjoado que seja, não deixa de ser um garoto bonzinho e com o passar do tempo foi se tornando mais fácil de lidar.
– O que é isso que você tanto olha ? — Indaguei curioso.
Olhei para a cama do garoto, onde estão espalhadas várias fotos antigas e algumas atuais também. Fotos da infância do Sasuke, da minha também e... da nossa mãe.
– Tô matando a saudade — Comentou após deixar seu presente sobre o criado mudo — É o primeiro aniversário que eu passo sem ela... E agora todos serão assim.
Putz, eu tinha esquecido desse detalhe. Nossa mãe morreu há alguns meses, mas esse é o primeiro aniversário que Sasuke passa sem ela ao seu lado.
– Não fique triste, Sasuke.
– Itachi — Ele me encarou com um pequeno sorriso de canto — Não tô triste.
– Não ?
– Não — Negou com a cabeça — Tô com saudade. Sinto falta dela, muita. Mas, é como você disse uma vez... a ferida fecha e para de machucar. Sabe... Pensar na mamãe já não é mais algo doloroso como era antes. A única coisa que eu sinto é saudade mesmo.
– Não falei ?! — Sorri de canto — A ferida fecha.
– É — Assentiu — É meu primeiro aniversário sem a mamãe e todos os outros serão assim. A saudade aperta, às vezes dói um pouquinho, mas já não é nada insuportável e não sinto mais aquele nó na garganta só de pensar nela.
– A vida continua, Sasuke. Independente de tudo, nossa mãe sempre vai ser nossa mãe e nossas lembranças boas com ela sempre serão guardadas com carinho. Isso ninguém pode tirar de nós.
– É uma pena que eu não tenha uma única lembrança com vocês dois juntos. Como uma família. Só posso imaginar como teria sido, como eu fazia antes de te conhecer pessoalmente.
– Não posso dizer o mesmo, já que eu nem sabia da sua existência — Sorri sem graça — Passei muito tempo pensando que minha mãe era uma pessoa terrível e que não ligava pra mim.
– Ela sempre te amou, Itachi. Não passava um dia sem pensar em você... — Sasuke suspirou e pegou uma foto antiga, onde eu devia ter cerca de cinco anos e estava no colo da minha mãe — Tudo que ela fez, mesmo que tenha parecido um pouco egoísta, foi na intenção de proteger nós dois.
– Eu queria ter me despedido dela...
– Eu também — Sasuke abaixou o olhar.
É mesmo... Ele estava numa viagem coma turma da escola quando nossa mãe morreu. O garoto só ficou sabendo da tragédia quando voltou.
Não quero nem imaginar como ficou a cabeça dele.
– Sasuke, parabéns ! — Izumi entrou no quarto do Sasuke de surpresa, toda animada e com um bolo de chocolate nas mãos, com a vela de número 13 acesa — Vem cá me dar um abraço, coisa linda.
Izumi deixou o bolo médio sobre a cômoda de Sasuke e o rapazinho, agora sorridente com a surpresa, levantou para dar um abraço em sua cunhada.
Olhando os dois, acabei deixando um pequeno sorriso escapar... Eles são as pessoas mais preciosas do mundo pra mim, então me levantei para me juntar a eles num abraço coletivo.
(...)
Nunca tive um pai. Perdi minha mãe há alguns meses. Vivi minha vida toda sabendo que tinha um irmão que não conhecia e do nada precisei morar com ele, um completo estranho... Não foi fácil.
Perdi o chão no momento em que minha tia contou que minha mãe havia falecido. Fiquei confuso e com medo, afinal, estava sozinho... Pensei que estivesse sozinho e o que martelava na minha cabeça era "O que vai ser de mim agora ?".
Quando soube que o último desejo de minha mãe era que eu ficasse com Itachi, fiquei amedrontado. Tive medo de que ele duvidasse de tanta coisa... Tive medo de ele não me querer, medo da minha vida ser um inferno. De fato, no início foi. Éramos dois completos estranhos forçando uma relação fraternal que não existia.
Mas acontece que as coisas tomaram um rumo diferente do que eu imaginava. Itachi e eu ficamos próximos e eu, antes do que imaginava, aprendi a amá-lo como se tivesse vivido minha vida inteira ao seu lado.
Itachi se preocupa comigo, ele cuida de mim, dá bronca às vezes... mas eu entendo que meu irmão só faz isso porque me ama. Izumi não fica atrás. Dei sorte de a namorada do meu irmão ser um amor comigo e eu também gosto muito dela.
Perdi tudo e também ganhei tudo. Itachi é mais do que um irmão e Izumi é mais do que só minha cunhada... Eles são minha família, quase como se fossem meu pai e minha mãe. Ok, pode ter sido um pouco de exagero, mas com certeza ter eles ao meu lado é o melhor presente que eu poderia ganhar.
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