De repente irmão
21 Complexo de criança mimada
Notas iniciais
Sasuke amanheceu de cara amarrada, nem falou comigo pela manhã. É claro que eu não insisti pra não gerar mais treta entre nós, mas ver meu irmãozinho magoado realmente me partiu o coração.
Minha aula começa às 8:30 hoje, mas, desde que Sasuke passou a morar comigo, eu tenho que deixá-lo antes das 7:30 na escola, portanto acabo chegando mais cedo na Universidade quando a minha aula começa mais tarde do que de costume.
Fui para o refeitório, onde alguns alunos estão tomando café da manhã. De longe vi minha namorada comprando um picolé, então me aproximei dela pelas costas e lhe dei um beijo no pescoço, o que fez com que ela se assustasse.
– Itachi ! — Ela me repreendeu, mas estava rindo.
– Picolé essas horas ? — Questionei com falsa indignação, balançando a cabeça em sinal negativo — Que feio.
– Bobo — Falou risonha e caminhou até uma mesa vazia, onde sentou-se numa cadeira e colocou sua bolsa cor de rosa sobre a mesa — Que milagre é esse que você tá aqui tão cedo ?
– Pois é, tenho uma criança pra deixar na escola — Suspirei pesadamente, sentando-me numa cadeira ao lado de Izumi — A aula do Sasuke começa às 7:30.
– Ah sim... — Assentiu e depois deu uma chupada em seu picolé... Isso é excitante.
– Izumi, eu tô desesperado — Minha preocupação era quase palpável. Abaixei a cabeça e levei ambas as mãos até minha testa — O Sasuke tá puto comigo.
– O que você fez ? — Questionou com seriedade.
Por que será que a Izumi sempre acha que a culpa de tudo é minha ?
– Coloquei o Sasuke de castigo — Olhei para a minha namorada e ela me encarava com um olhar de dúvida, como um pedido mudo para que eu prosseguisse com a história — Pela primeira vez eu o vi com uma empolgação quase contagiante. Ele estava querendo muito participar da gincana da escola e concorrer a uma viagem pra um parque aquático. Eu estava feliz por vê-lo feliz — Suspirei — Mas teve a reunião de pais na escola e eu peguei as notas do Sasuke... Estão muito baixas.
– Então, como castigo, você o proibiu de participar da gincana e concorrer a viagem ? — Deduziu.
Gente, essa minha namorada é muito foda, ela capta as coisas no ar.
– Tipo isso — Sorri sem humor — Ele disse que me odeia. Eu o fiz chorar... — Abaixei a cabeça e senti os olhos arderem por conta das lágrimas que queriam cair, mas eu não vou chorar — Izumi, ele tá me odiando por isso.
– Essa convivência de vocês dois estava boa demais pra ser verdade — Suspirou pesadamente — Você fez certo em castigá-lo por conta das notas, mas foi radical demais.
– Como assim ? — Perguntei confuso. Como assim a Izumi me apóia e depois diz que eu fui radical demais ?
Mulheres são muito bipolares.
– Ele era um bom aluno antes ?
– Sim, eu vi o histórico escolar — Respondi — As notas do Sasuke eram excelentes.
– Você não acha que a situação contribuiu para a queda das notas dele ? — Arqueou uma sobrancelha, então eu assenti — Sasuke já pegou o barco andando na escola, perdeu a mãe de uma maneira horrível, mudou de país, sua rotina agora é outra e até mesmo o próprio fuso horário pode ter atrapalhado um pouco o rendimento dele no início. Itachi, a vida do seu irmão virou de cabeça pra baixo ! — Falou pausadamente — Amor, embora ele esteja superando e se adaptando aos poucos, as coisas ainda estão bastante recentes, não acha ?
Izumi tem razão. Sasuke estava sofrendo, na verdade ele ainda sofre bastante por causa da mamãe, mas está superando aos pouquinhos.
Agora, analisando a situação atual, eu deveria ter arrumado algum psicólogo para o Sasuke assim que ele chegou ou até mesmo ter tentado dialogar com ele. O pirralho não é de se abrir e demorou pra se sentir à vontade, sem contar que não estava nada feliz aqui... Por que eu não tive essa idéia antes ? Se bem que na escola tem uma psicóloga, eu posso conversar com a coordenadora de lá e pedir para marcar algumas consultas para o Sasuke. Talvez seja bom pra ele desabafar, já que agora está me odiando e não vai querer conversar comigo.
– Você acha que eu deveria voltar atrás ? — Questionei.
– Se fosse em outras circunstâncias, não — Falou séria — Mas, analisando os acontecimentos atuais, Sasuke não merece esse castigo.
– Izumi, sabe por que eu ainda não voltei atrás ? — Fiz uma pergunta retórica — Porque, se eu disser que ele pode participar da gincana, o Sasuke vai fazer birra por qualquer coisinha. Sabe aquelas crianças que querem ganhar tudo no choro ? Pois é, ele vai ficar amuado toda vez que eu castigá-lo de alguma forma.
– Itachi — A garota começou a rir — Seu irmão não tem cinco anos de idade. Faça-me o favor !
– Amor, o Sasuke é mimado demais — Enfatizei — Ele acha que tudo tem que ser como ele quer.
– Não exagera...
– Não tô exagerando. O Sasuke é, claramente, uma criança que nunca ficou de castigo e nunca levou uma palmada na vida.
– E você teria coragem de bater no seu irmão ?
– Não sei — Dei de ombros. Acho que dificilmente eu teria coragem de levantar a mão pro Sasuke, porém confesso que já senti vontade e me segurei pra não fazer isso — Mas de castigá-lo, sim. Eu não vou aguentar os mimos, os dengos e as manhas dele, Izumi. O Sasuke tem que perder isso ! Ele tem que parar de achar que tudo é como ele quer e, se eu tirar ele do castigo, o moleque vai achar que tudo se resolve com uma birra.
– Amor, tudo se resolve com uma conversa — Sorriu docemente — Deixe claro para o Sasuke por que você o está tirando do castigo e diga que, se as notas baixas se repetirem, ele será castigado.
– Você tem razão...
– Eu acho que, na situação atual do Sasuke, tudo que puder deixá-lo feliz é ótimo. Pensa em como deve estar a cabecinha dele... Desde que o Sasuke chegou, agora é que ele está se acostumando com a nova vida, agora é que vocês estão começando a se dar bem.
– Você está querendo dizer que eu tirei uma alegria dele ?
– É — Assentiu.
Porra, eu sou um monstro !
São raras as vezes que eu vejo o Sasuke realmente empolgado e feliz. Meu irmão estava de fato querendo participar dessa gincana, talvez até mesmo pra tentar se enturmar -porque o moleque é anti social e essas gincanas sempre têm trabalho em equipe, ou seja, ele terá que se enturmar por bem ou por mal-, aí eu vou lá e piso na alegria dele... Sou uma pessoa horrível.
– Eu vou conversar com ele hoje...
[...]
Sei que preciso estudar pra recuperar minhas notas e me livrar desse castigo ridículo que o Itachi me colocou -se bem que, de qualquer forma, não vou participar da gincana-, mas não consigo me concentrar na aula de ciências.
Minha conversa de ontem com o Itachi ainda tá martelando na minha cabeça. É claro que eu me arrependi de ter dito que o odeio, mas todo mundo sabe que eu sou uma pessoa orgulhosa demais pra pedir desculpas pra alguém... Se bem que, nesse caso, eu acho que vou ter que abrir uma exceção.
É, vou falar para o Itachi que não odeio ele. Se bem que meu irmão já conviveu comigo tempo o suficiente pra saber que sou explosivo e que falei aquilo da boca pra fora. Ele é um trouxa se tiver se abalado com o que eu falei.
O sinal tocou e a primeira aula finalmente acabou, então a professora pegou suas coisas e saiu da sala.
Notei que, hora ou outra, Sakura me olhava e depois disfarçava meio sem jeito... Que rosada estranha.
Se eu pensei em ir sentar perto dela e começar do zero ? Sim, mas meu orgulho sempre fala mais alto.
A Haruno foi a errada da história e eu vou me humilhar ? De jeito nenhum !
Como sempre acontece quando bate o sinal para o segundo horário, os atrasados chegam.
Um loiro pra lá de desengonçado se sentou ao meu lado, visto que a carteira estava vazia... Pois é, quando você não tem amigos, ninguém faz questão de sentar do seu lado e, quando isso acontece, é porque é o único lugar que restou.
Triste realidade.
– Bom dia — Ele falou todo desastrado, largando as coisas de qualquer jeito no chão. Eu apenas assenti, mas não respondi nada — Ei, garoto, o gato comeu a sua língua ?
Uni as sobrancelhas e encarei o loiro que se sentava na carteira. Ele parecia implorar por uma resposta.
Olha, se na minha próxima encarnação eu tiver que conviver com gente irritante, podem me puxar que eu não saio nem com cesariana !
– Bom dia — Respondi indiferente.
– Você é o novato, não é ? — Putz, já estamos no segundo bimestre e ele foi perceber agora que eu sou o novato ?
– É.
– Ah, eu sei como é chato ser novato — Suspirou — Eu tinha medo disso e não queria mudar de escola nem a pau ! — Alguém perguntou alguma coisa por acaso ? — Eu entrei nessa escola no sexto ano, que foi quando repeti de ano.
– Você está um ano na frente da turma ? — Perguntei como quem não quer nada e não sei nem por que fiz uma pergunta tão idiota, uma vez que, já que ele reprovou, é óbvio que é um ano mais velho do que eu e o resto da turma.
– Na verdade não — Respondeu — Eu estava adiantado, já que comecei a estudar cedo demais. Tenho doze anos — A mesma idade que eu; e, obviamente, assim como eu, ele deve completar treze ainda esse ano — Então agora estou na turma certa.
– Hum... — Não me mostrei muito interessado pra não dar brecha pra esse garoto continuar falando.
– Como é seu nome ?
– Sasuke Uchiha.
– Sasuke Uchiha... Meu nome é Naruto Uzumaki — Por um acaso eu perguntei o nome dele ? Ora essa, não estou interessado — Por que você está com essa cara amarrada ?
Ótimo, agora ele vai ficar me amolando... Putz, por que essas coisas só acontecem comigo ?
– Problemas pessoais — Respondi. Espero que ele não seja um ser humano insistente como a Sakura.
– Ah, essas tretas costumam ser malignas... — Naruto se mostrou compreensivo — Sabe, eu ficava desse jeito aí quando cheguei nessa escola. Isso porque eu queria continuar na minha escola antiga, mas meus pais disseram que eu ia mudar porque tinha reprovado. Fiquei com raiva, mas eu mereci, já que fui relaxado com os estudos. Meus pais disseram que, se eu passasse de ano, eles poderiam pensar no caso de eu voltar para a antiga escola.
– Mas você não passou ? — Indaguei de maneira retórica — Por que ainda está aqui ?
– Porque eu acabei gostando daqui, fiz muitos amigos depois de um tempo e não quis voltar para a antiga escola.
Se ele tivesse voltado, nesse exato momento não teria nenhuma criatura me enchendo o saco !
É incrível como o destino usa até os outros pra conspirar contra mim.
– Que bom que você fez amigos.
– É — Assentiu — Eu via isso como um castigo, mas depois percebi que foi bom pra mim em todos os sentidos.
Castigo... Isso me fez lembrar do Itachi e do que ele fez comigo.
Eu nunca tinha ficado de castigo e isso me chocou um pouco. Mas, por mais que ainda ache que meu irmão não tem o direito de fazer isso -mesmo sendo o responsável por mim-, ele estava com a razão. Eu mereci. A minha situação não estava boa por conta da morte da mamãe, por eu ter mudado de país e também por causa das aulas que perdi quando estava com febre, mas confesso que me relaxei um pouco.
Tá certo, eu estava triste pra caramba, não tinha ânimo pra nada, isso sem falar na minha péssima relação com o Itachi quando eu cheguei aqui em Konoha... Mas eu poderia ter me esforçado mais. Poderia ter falado com o Itachi que a matéria estava um pouco pesada, poderia ter estudado sozinho, ter procurado vídeo aulas no YouTube ou até mesmo ter tentado me enturmar pra entrar em algum grupo de estudos.
Só que eu não me esforcei ao máximo. Estudei sozinho, apenas com os livros e minhas anotações, mas como uma pessoa estuda se não compreende muito bem o que foi dito em sala ? Isso sem contar com as aulas que eu perdi. Já cheguei na metade do primeiro bimestre e ainda adoeci, o que resultou em algumas faltas. Mas isso não justifica o fato de eu não ter me esforçado ao máximo pra conseguir tirar notas boas.
Agora, pensando com a cabeça mais fria, eu mereci esse castigo.
– Nem me fale em castigo — Suspirei e abaixei a cabeça.
– Ih, tá de castigo ?
O que leva alguém a conversar sobre a sua vida com uma pessoa que acabou de conhecer ?
Ah, dane-se !
– É — Assenti — Aconteceram algumas coisas e eu acabei não indo bem nas provas — Admiti — Agora tô de castigo por tempo indeterminado.
– É tenso — O Uzumaki pareceu penalizado — Mas, assim como eu percebi, você também vai perceber que seus pais fazem isso pro seu bem.
Meus pais... Isso nunca me pertenceu, já que a minha mãe fez o papel de mãe e pai.
Ouvir isso do Naruto, por incrível que pareça, não me machucou como machucaria a um tempo atrás, embora eu não me sinta muito bem ao ouvir isso.
Compreendo que pai e mãe é quem cuida, portanto, eu posso até ser órfão, mas não estou órfão... Tenho o Itachi, ele está sendo meus pais.
Percebo que, ao contrário de como era no início, o Itachi não somente me suporta só porque eu sou seu irmão caçula e não tenho mais ninguém. Ele se preocupa comigo, está se tornando responsável e cuidando de mim.
Ele está sendo muito mais do que um irmão mais velho... Não merecia as palavras que eu, friamente, disse ontem.
– Eu compreendo — Assenti — Por mais que não me agrade, é para o meu bem.
– Então — Naruto sorriu de canto — Você era de qual escola ?
– Creio que você não conheça a minha antiga escola — Respondi — Eu morava em Suna até o início desse ano.
– Suna ? — Ele arregalou os olhos azuis — Nossa, então quer dizer que nós temos um estrangeiro na sala ? — Riu e eu assenti — Putz, você veio de longe, hein !
Não me considero tão estrangeiro assim. Posso ter nascido e crescido em Suna, mas minha mãe e o ser humano que a engravidou -e que eu me recuso a chamar de pai- eram daqui de Konoha. Então, levando a família em consideração, eu não sou estrangeiro, sou ?
– Realmente é bem longe — Sorri sem graça, rezando pra que ele não me pergunte o porquê de eu ter vindo do outro lado do mundo.
– É difícil se acostumar com outro país ? — Questionou curioso.
Eu poderia responder "ué, muda de país que você vai saber", mas estou desanimado até pra ser grosseiro.
– Tirando o fuso horário, não.
Há uma grande diferença entre o horário de Suna e Konoha. Digamos que, quando aqui é manhã, lá já é noite.
Enfim, ainda bem que eu consegui me acostumar rápido com isso.
– E o clima ? — Questionou o loiro.
Gente, é só ele pesquisar no Google que vai saber como é o clima em Suna.
– Era verão o ano todo — O garoto me encarou com uma sobrancelha arqueada e eu acabei rindo baixinho por causa da lembrança da minha cidade natal — Bem, tinha uma época do ano que chovia bastante e outra era bem seca, mas a temperatura não alterava muito.
– Por enquanto você não está estranhando, mas espera só mais alguns meses. Se você não tem roupas de frio, pode tratar de comprar — Ele falou e foi a minha vez de olhá-lo confuso — Bem, agora tá de boa, mas daqui a uns dois ou três meses o frio começa. Julho é o pior mês !
– Aqui faz muito frio ? — Questionei.
– Sim, faz — Assentiu — Tem geada e já aconteceu de chover granizo. Pode se preparar pra boca rachando, nariz sangrando... Banho ? Ih, não passa de um por dia; isso sem falar naquele ritual de deixar a água do chuveiro quente e ligar por um tempinho, com o banheiro fechado, pra juntar aquele vapor e ficar mais quentinho.
Misericórdia, eu não vou sobreviver num lugar desse !
Estava acostumado com o clima tropical de Suna e agora vou ter que me acostumar com o frio ?! E o pior, todo ano vai ter frio !
Pelos que Naruto falou, no mês do meu aniversário vai ser inverno. Ah, claro, ele ressaltou que é o pior mês... Ótimo presente, não acham ?!
– Eu não gosto de frio — Respondi.
– Você acostuma — Deu de ombros — Mas, tirando isso, você está gostando de Konoha ?
Estou gostando de Konoha ? Vim pra cá contra a minha vontade, mas fiz um esforço porque foi a vontade da minha falecida mãe.
Não me dei bem com o Itachi logo de cara, brigávamos bastante, ele já me esqueceu na escola, me jogou na água fria quando eu estava pelando de febre, derramou sopa quente em mim, me fez ficar três dias usando a mesma cueca quando fomos pra fazenda... Enfim, eu precisaria de um rolo de papel higiênico pra listar as merdas que ele fez.
Mas tivemos bons momentos juntos. Itachi está mudando e já não é mais o mesmo irresponsável que eu conheci quando cheguei aqui.
Meu irmão é tudo que eu tenho e estou aprendendo a amá-lo, mesmo que ele tenha me castigado.
É claro que sinto saudades de Suna, mas a minha vida é aqui agora...
– Sim — Assenti — Estou gostando muito daqui.
Naruto sorriu de canto, nesse momento o professor que dará a próxima aula entrou na sala, então ficamos em silêncio para não atrapalhar.
Conversar com esse loiro idiota que eu mal conheço foi até bom, pois acabei refletindo um pouco sobre mim mesmo.
Ainda não engoli completamente esse negócio de estar de castigo, mas ainda assim preciso me desculpar com o meu irmão e dizer que não o odeio.
[...]
Após a aula, no caminho pra casa, Sasuke ficou o tempo todo calado e com a cabeça escorada no vidro da janela. Eu quis falar logo com ele, mas é melhor estarmos em casa.
Enfim em casa, descemos juntos e Sasuke foi para seu quarto enquanto que eu fui para a cozinha.
Desde que Sasuke está aqui, ando comendo besteira com menor frequência. Ao invés de colocar uma pizza ou lasanha congelada no microondas, eu vou preparar uma comidinha mais caseira, afinal, tenho uma criança em fase de crescimento pra nutrir.
Eu estava colocando o macarrão para cozinhar quando Sasuke entrou na cozinha, usando apenas uma bermuda azul marinho. Pegou um copo e foi até a geladeira para tomar um gole de água.
– Itachi — Me surpreendi quando o garoto me chamou com a voz meio triste. Ele foi até a pia, lavou o copo que tinha usado e colocou o objeto no escorredor — Posso falar com você ?
Ele pareceu meio nervoso e inseguro.
– Eu também quero falar com você — Respondi sério, mas sem grosseria.
– Sobre o que eu te falei ontem... — Ele abaixou a cabeça e esfregou uma mão na outra — Eu não te odeio... Foi só um momento de raiva.
Não pude conter um sorriso bobo, mas logo me recompus.
– Sasuke, eu conversei com a Izumi e pensei muito sobre o que aconteceu — Falei sério e Sasuke voltou seu olhar para mim, nitidamente interessado no assunto — Você sabe que as suas notas estão baixas e sabe que é por isso que eu te pus de castigo — Demonstrei seriedade, mas sem aumentar o tom de voz. O garoto apenas assentiu, triste — Mas, analisando o que aconteceu em tão pouco tempo, é compreensível.
– Você está querendo dizer que... — Sasuke arregalou os olhos negros e abriu um sorriso de orelha a orelha.
– Você pode participar da gincana e, se ganhar, pode ir pro parque aquático — Antes que eu pudesse completar a frase, Sasuke correu e me abraçou — Sasuke... — Não pude deixar de rir da reação dele.
– Obrigado, Itachi — Ele me olhou sorridente — Prometo que vou recuperar minhas notas.
Tive medo de ele relaxar com relação às notas, até porque o tirei do castigo, mas parece que isso foi uma motivação ainda maior.
Sasuke está realmente feliz.
– Fique ciente de que eu não tomei essa decisão por causa da birra que você fez ontem — Continuei sério e Sasuke assentiu — Se as notas baixas se repetirem, saiba que eu não terei dó de castigar você. Entendeu ?
Isso é mentira, pois eu ficaria com o coração na mão de ter que tirar alguma coisa que o Sasuke gosta como forma de castigo. Mas é claro que eu não vou dizer isso, porque aí posso perder a moral nessa bagaça.
– Sim, eu entendi.
– Mais uma coisa — Soltei um longo suspiro e Sasuke continuou me encarando com expectativa — Pode ir parando com esse seu complexo de criança mimada. Eu não vou aguentar isso por muito tempo.
– Complexo de criança mimada ? — Questionou confuso.
– É — Assenti — Essa sua coisa de achar que tudo tem que ser do seu jeito e fazer birra pra tentar ganhar o que quer.
– Eu não faço birra — Ele fechou a cara.
– Ah, e aquilo que você fez ontem foi o quê ? — Questionei, pegando um garfo para pegar um macarrão e verificar se já está no ponto de parar de ferver — Sasuke, eu te vi como uma criança de cinco anos de idade.
– Eu não sou criança ! — O rapazinho falou indignado.
Ah, essas crianças de hoje em dia. O pirralho não tem nem pêlo no saco, o pinto ainda nem se desenvolveu direito, mas a criatura já acha que é homem... Eu mereço !
Mas é assim mesmo, o nome disso é puberdade e eu já passei por isso. Ninguém se conforma com a pré adolescência, acha que isso é ser criança e já quer pular pra a adolescência, como se crescer fosse muito divertido. Ok, tem suas vantagens, mas ser criança e não precisar se preocupar com nada é ótimo.
Tá certo que a minha infância não foi das mais felizes e todo mundo sabe o porquê... Entretanto, criança passa a maior parte do tempo brincando, usando a imaginação pra criar qualquer coisa, sem se preocupar com trabalhos, matéria acumulada, responsabilidades, contas pra pagar... Enfim,várias coisas chatas que a vida adulta nos trás.
Ainda assim os pirralhos vão se aproximando da puberdade e já querem ser gente grande. Vai entender um troço desses !
– É claro que você é criança — Não pude deixar de rir da reação dele, o que só o deixou ainda mais enfezado — E ainda por cima tem complexo de criança mimada, pra completar.
– Você tá enganado.
– Mano, você não precisa chorar e nem fazer escândalo quando alguma coisa não te agradar — Expliquei calmamente pra ele não achar que isso é outra bronca — Em qualquer lugar, sempre haverão coisas que não irão nos agradar. Não tem jeito, todo mundo convive com isso, seja em casa, na escola, na faculdade, no trabalho... Ninguém faz só o que quer, portanto não adianta nada fazer escândalo quando alguma coisa não sair do jeitinho que você quer.
– Desculpa, eu tava com raiva — Sasuke está sendo sincero, eu percebo isso.
– Eu sei que você é meio explosivo, sem falar que com certeza a nossa mãe fazia todas as suas vontades — Sasuke permaneceu em silêncio e, como quem cala consente, ficou claro que eu estou certo — Mas nem tudo é como nós queremos, sabia ?
– É, eu sei disso — Respondeu cabisbaixo.
Mesmo que meu irmão tenha crescido rodeado de amor e carinho, creio que a minha mãe tenha dado uma criação bastante errada para ele em alguns aspectos.
Não sou pai e não sei lidar com crianças, mas sei que criar alguém, amar um filho, não é somente mimar e fazer todas as suas vontades. Também é preciso corrigir, repreender, castigar quando necessário; acredito que isso tenha faltado para o Sasuke.
– Então tá bom, já chega desse sermão — Baguncei os cabelos do garoto e sorri de canto. Ele se mostrou meio indiferente, acho que é porque ninguém gosta de ouvir umas verdades, mas acredito que ele tende a amadurecer daqui pra frente — Eu vou terminar o almoço para nós comermos.
– Que bom. Eu tô morrendo de fome !
– Quer me ajudar a fazer o molho ?
— De tomate ? — Os olhos do pirralho até brilharam. Ele realmente ama tomates.
– É sim — Assenti.
Sem dizer nada, Sasuke caminhou até a dispensa e pegou o molho de tomate para colocarmos no macarrão.
É bom ver que estamos cada vez mais unidos, como verdadeiros irmãos. Confesso que jamais pensei que isso fosse acontecer, mas, assim como o Sasuke, eu também estou mudando.
Creio que as coisas agora só tendem a melhorar.
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