De amor e de sangue. Segunda parte
12 Um novo reinado
Notas iniciais
A visita dos irmãos extraterrestres foi encerrada, quando não existia mais nenhum assassino nesse mundo. Todos os homens que agrediam o próximo foram medicados, outros operados por médicos extraterrestres, conforme o caso. Um a um, o cérebro deles reagiu e seu comportamento mudou. Crianças preguiçosas, que batiam nos colegas dentro de salas de aulas, chutavam os professores nas canelas, gritavam palavrões e insultos, depois de medicados passaram a sorrir, a fazer desenhos, cantar, abraçar a todos, e faziam as tarefas escolares obedientemente. Os condenados isolados nas ilhas, tanto os homens quanto as mulheres, passaram a arar a terra, plantar feijão, milho, levantar casa linda de tijolos, e a fazer “amor”. Também olhavam para o pôr do sol, cuidavam de bichinhos, e sorriam pela primeira vez, dando gargalhadas e contando piadas. Alguns regressaram para casa, outros, que não possuíam família, inauguraram novas cidades nessas pequenas ilhas.
Os psicopatas que saíram dos Presídios, embora operados e convertidos em homens amáveis, apenas foram transferidos para Ilhas a desfrutar do Sol, da natureza, pois sobrou uma sombra de medo de colocá-los entre o povo mais uma vez.
E o dia dessa partida finalmente chegou, levando junto muitos jovens que casaram com alienígenas, e que deixavam as famílias aos prantos.
Os anciãos consolavam as pessoas afirmando que outras excursões aconteceriam, e que na próxima vez podiam ir junto 500 jovens a fazer pesquisa, estudar, ou, fazer o que quisessem. Sem pagar passagem nem estadia. Mas Tiago replicava aos visitantes, afirmando que construiria mil naves interplanetárias para ir atrás. E riam na descontração, pois estava claro que dali em diante os dois mundos nunca mais parariam de conviver.
Eles fizeram questão de levar junto programas de televisão para mostrar o grande talento dos artistas de circo, dos dançarinos, enfim. Mas, ficou um ar de tristeza no ar após a partida deles. Somente a promessa de futuros reencontros reconfortava alguns, e dava esperança para outros. Principalmente para quem ficou nesse planeta por amor.
E o tempo transcorreu, retomando a rotina.
Afinal, ainda havia muito trabalho e ser feito. Construção de outras cidades, de novas Escolas, Universidades, e diversos veículos de locomoção. As motos das cidades subterrâneas enlouqueceram a juventude, e as fábricas não davam conta de tantos pedidos. O metrô subterrâneo era mais uma notícia que tomava conta da mídia, pois os engenheiros estavam estudando um projeto para fazê-lo dar voltas ao redor do mundo através de pontes e passarelas gigantes. E a maquete estava em exposição, com 40 indústrias querendo construir tudo isso.
Ponderara-se que o mundo estava tomado de um frenesi de evolução em todos os sentidos.
Mas o que deixava a humanidade mais feliz era que finalmente os Presídios estavam sendo demolidos. E nesse espaço, muitos arquitetos idealizavam erguer palácios gigantes destinados a Museus, bibliotecas, e lugares de diversão.
Durante um fim de semana, Tiago e Mário, com suas mulheres sentadas no joelho, sozinhos na beira da piscina, conversavam de tudo um pouco. Afinal, seus filhos estudavam até tarde, e chegavam quase na hora de dormir. Aliás, Mário Júnior ganhara uma moto, e Filomena só saía de casa na garupa dele.
Tiago, depois de um beijinho em Fernanda, falou Mário:
— Estou querendo me aposentar, cara. O que achas? Só amor, amor e amor...
— Ótimo! Podemos dar a volta ao mundo em 80 dias num iate, ou numa noite dentro de uma nave no espaço. Que preferes?
— As duas coisas, cara! Mas, quem vai governar? Já pensaste se me aparece um parente de Adolfo querendo assumir o poder?
— Mas, querer é uma coisa, e consegui-la é outra. Chama a um “Concurso público”. Vai ganhar quem tiver o maior cérebro da terra.
— Ainda assim, estou com medo, cara. Como prognosticar o futuro?
E Mário falou rindo:
— A mulher do Reginaldo Júnior é Pitonisa! E o Júnior poderia ser o ganhador desse concurso! Ou ela! Ou, Luísa, nossa, esqueci-me desses guris... Estamos cheios de jovens inteligentíssimos, de gênios muito melhores do que nós.
Tiago completou:
— Temos também os dois filhos de Carlos, meus três irmãos menores, e Humberto, o marido da Luísa. Qualquer um deles poderia ser um excelente Rei. Aliás, eu estava pensando que está na hora de construir um palácio para esse novo Rei. Podemos dar-lhe outra cobertura, redecorar as paredes com esculturas e alto relevos, e abrir as portas no dia da posse. Que achas?
— Bárbaro! Mas primeiro temos que preparar os guris. Enquanto esse palácio é levantado, vamos chama-los a conversar.
— Temos que reuni-los numa festa, ou, improvisar uma reunião, como fazíamos durante a insurreição. Vamos pedir ao Reginaldo Júnior chamar o pessoal. Vamos catar todos os alienígenas recém-casados, onde quer que estejam, e fazê-los matutar sobre o futuro.
E foi assim que os tempos mudaram de vez.
Esse concurso para governante foi escrito, discutido, ponderado, dentro do subterrâneo da mansão de Tiago, com todos rindo, pois finalmente entendiam como essa guerra funcionara tão bem. Os visitantes examinavam jornais velhos, a impressora, as armas que se transformavam em liquidificador, e riam às gargalhadas. Passada a euforia, esses jovens inteligentes foram escrevendo as regras desse “Concurso para Rei”, enquanto Tiago, Mário, Abelardo, Carlos, Fabiano e Reginaldo escutavam felizes, e suas esposas corriam para todo lado servindo café, docinhos, guloseimas, pois esse subterrâneo ficou lotado.
Escreveu-se que só poderia participar do “Concurso para Rei” quem tivesse estudo superior em Universidade, uma inteligência acima de 150, que era a média da genialidade, e idade mínima de 25 anos. Independente de sexo, pois mulher era tão inteligente quanto os homens. Quem tivesse o melhor desempenho nesse concurso, seria o novo rei, ou, a nova rainha. Os trinta que se sucedessem na pontuação seriam os assessores do reinado. Os que ficarem na sequência, ocupariam cargos importantes nas 150 ilhas habitadas, e nas 500 cidades espalhadas pela terra.
O “Projeto de lei” foi apresentado numa reunião de governo por Tiago, como único autor de tudo o que estava escrito. Seus assessores acrescentaram algumas ideias, alguns palpites para serem acrescentados, como o fato do postulante a Rei nunca ter sido ladrão, nem antes nem depois de tratamento médico, e se solicitou também a eleição de novos juízes. Tiago achou fazer dois concursos, primeiro para juízes, e depois, em data marcada, eleições para o reinado, junto com a inauguração de um novo palácio, moderno, bem diferente do antigo castelo de Adolfo, que agora estava convertida na maior biblioteca da cidade.
E o tempo de fazer tudo isso aconteceu, passo a passo. Mário levantou o novo palácio, e quando ele estava pronto, Tiago anunciou esse “Concurso para ser Rei” através da rede de televisão. Também deu detalhes para a imprensa sobre a data das inscrições que aconteceriam dentro das Universidades, e em todos os cantos do mundo, pois os candidatos teriam que provar que possuíam todos os requisitos. As provas do Concurso seriam realizadas também dentro das Universidades, como num Vestibular, no qual os candidatos responderiam perguntas sobre Economia, Ecologia, Administração, Justiça social, e matérias de cultura geral.
Quem ganhou esse concurso para Rei foi Reginaldo Júnior e Amanda, sua mulher, ficou em terceiro lugar.
O nome de Reginaldo Júnior foi anunciado em voz alta, numa reunião de governp, quando foi entregue em envelope fechado. Carlos Júnior ficou no décimo lugar e Luísa, esposa de Humberto, em sétimo. E Amanda seria, no fim das contas, a nova “rainha” desse planeta. E como futura rainha, ela corroborou que amava essa terra, e faria de tudo para ajudar o marido.
A televisão registrou o que veio depois, a alegria de Reginaldo e Rosa, que choraram abraçados, arrasados pela emoção e falaram pouca coisa. E depois, a festa que foi na mansão, onde todos os revolucionários foram convocados para o festejo. Nenhum deles seria rei, mas, era graças a eles que tudo estava sendo possível, e Tiago fez realçar esses fatos em vários discursos dedicados a eles, e regado a muito vinho e cervejas.
Deitadas sobre assentos confortáveis, na beira da piscina, em meio desse festão, Fernanda perguntou para Amanda com discrição:
— Tu não fizeste nada incomum nesse concurso? Mágica de palavras? Mudança de nomes? Sopros telepáticos para o amado?
— Bem, tia, eu não fiz nada que você já não fez pelo meu tio Tiago...
E gargalharam com gosto. As duas eram capazes de morrer pelos seus homens, e fariam sempre tudo que fosse possível para a felicidade deles. Depois, rodopiaram junto aos amados com música, até o raiar do Sol.
A cerimônia dessa coroação passou a ser o fato mais emocionante dos novos tempos, pois seria a primeira vez que um rei usaria coroa na cabeça. A coroa de Adolfo, que ele fazia questão de colocar para impressionar o povo, permanecia numa redoma de cristal, num Museu de História, desde o tempo em que foi destronado.
O palácio estava pronto para que os novos reis vivessem nele, governassem e criassem seus filhos. Dentro dele Mário e seus construtores, que eram um exército de pedreiros, construtores, decoradores, colocaram obras de arte, cortinas de cetim com laços decorativos, móveis entalhados, alguns dias antes do evento acontecer.
E a coroação foi dentro desse palácio exuberante.
Tiago colocou a coroa na cabeça de Reginaldo Júnior e Fernanda outra menor na cabeça de Amanda. Os trinta assessores ao redor deles ganharam uma medalha de ouro no peito, e uma capa vermelha nas costas, cuja tarefa ficou por conta dos assessores de Tiago, que nunca estiveram tão arrasados pelo sentimento. Tudo foi solene, com músicas e danças, além de um banquete dentro desse Palácio, cujas comidas mais pareciam “obras de arte”.
Carlos e Reginaldo eram os pais mais orgulhosos dessa noite, pois ver os filhos convertidos em homens poderosos era o maior prêmio de toda uma vida dedicada ao próximo. Podiam morrer sorrindo, pois com certeza Miguel, no outro lado da vida, os condecoraria a todos com tantas estrelas, que cegariam seus olhos.
E totalmente aposentados de tudo, enquanto os mais jovens tomavam conta dos novos tempos, Mário e Tiago começaram a planejar uma viagem para o outro planeta, numa nave pequena, pois convidariam Reginaldo e Rosa, Fabiano e Eloísa, Carlos e Simone, Abelardo e Marlene para irem juntos. Visitariam essa outra civilização, onde a humanidade os receberia de braços abertos.
Mário, com Mário Júnior ao lado, demorou um ano para fabricar essa nave, nas montadoras do governo. Sem placas fluorescentes desta vez, pois não havia necessidade de enganar ninguém. Toda a humanidade sabia que para voar pelo espaço não se usava nenhum tipo de combustível.
Amanda, que era uma excelente engenheira espacial, ajudou a dar uns retoques, isolando as soldas com uma pasta, que ela mesma inventou, pois o metal era traiçoeiro e podia explodir. Essa viagem, numa nave como essa, era perigosa. Fez testes junto a Mário e Mário Júnior, e colocou uma antena externa para captar umidade estelar, que resfriaria o choque contra o vazio.
Mas antes dessa viagem acontecer, Mário Júnior pediu ao seu tio Tiago autorização para casar com Filomena. Casariam quando Tiago voltasse dessa viagem.
Nina e Fernanda riram, sem poder acreditar. Lembraram-se dos malandros sempre chegando tarde, pois eles os haviam enganado direitinho. Depois abraçaram os filhos. Seriam os noivos mais jovens já havidos nesse lugar. E eles não estavam fazendo nada que seus pais não fizessem, vida após vida, se amar com paixão durante uma vida inteira. E afinal, Mário Júnior e Filomena haviam dado o primeiro beijo engatinhando como bebês dentro dessa mansão. Haviam nascido em berço de ouro, e crescido no colo dos pais, dos tios, dos avós e dos amigos. Eles eram o símbolo vivo dos novos tempos. Tudo indicava que a vida dos homens-cobras seria assim dali em diante, sem nada que impedisse a felicidade dos amantes.
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