De amor e de sangue. Segunda parte
13 O juízo final
Notas iniciais
Reginaldo Júnior fez uma festança em Palácio para seus velhos e seus tios, pois amava a todos eles, mais que os tios verdadeiros das fazendas. Filomena chorava e Eugênio ao seu lado também, pois ela achava que não ia estar viva quando eles voltassem de regresso. Tiago e Carlos falavam que seriam no máximo uns dez anos viajando pelo espaço, e ela ainda estava jovem, com saúde, e ia morrer muito velhinha. Mas, ela chorou mesmo assim. Sentia lá no fundo da alma que nunca mais veria seus filhos. E se abraçava na neta Filomena para se encorajar. Afinal, Fernanda pedira para Filomena e Eugênio vir viver na mansão com sua filha, pois ela não sabia ainda como administrar uma casa.
Foi assim que Filomena começou a se consolar.
Mudou da ilha para a cidade, onde nascera, casara, e tivera sete filhos. Em mais uns anos, começariam a nascerem seus bisnetos, e ela seria a rainha de um grande clã. Carlos Júnior era noivo, e estava tomando posse da outra mansão, mas, com certeza viria jantar com os avós todos os dias.
E finalmente, eles se foram.
Ao amanhecer, depois de virar a noite com a família, na última despedida, a nave subiu para o espaço como um foguete. Filomena e Eugênio abraçados, Reginaldo Júnior abraçado à Amanda, Mário Júnior abraçado à Filomena, Carlos Júnior abraçado a seu irmão caçula, seus tios e seus avós, todos eles ficaram olhando para cima, olhos úmidos, se perguntando se eles realmente voltariam, ou ficariam no outro mundo “para sempre”.
Em outro lugar da cidade, havia naquele dia uma festa diferente, com gente gargalhando e contando piadas sobre os viajantes.
Infelizmente, apesar de todos os esforços realizados por Tiago, e pelos homens vindos das estrelas, para acabar com a maldade dessa sociedade inferior, houve gente que conseguiu burlar o esquema. Adolfo, empobrecido, reuniu 30 amigos, cujas pessoas sequer ficaram perto do milésimo lugar no “Concurso para Rei”, e que jamais se conformaram com o fim da dinastia. Essa viagem de seus inimigos acendeu uma luz para a vingança. Uma oportunidade para a revanche. E uma possibilidade de, um dia, quem sabe, todos eles voltar a ser ricos e poderosos.
A empresa que abasteceu as despesas de alimentos para essa viagem intergaláctica selecionou frutas frescas, cocos frescos e comidas embaladas. Utilizando agulhas finas e fortes, os inimigos de Tiago e de Mário conseguiram introduzir veneno em gotas, nos cocos, o suficiente para matar um ser humano depois de seis tragadas. Depois, os colocaram nas despeças, junto às melancias e demais frutas gostosas.
E foi por isso, que todos eles morreram enquanto dormiam.
O coração deles parou de bater, e um a um, passaram da vida para morte, no meio do caminho. Como essa nave se nutria de “energia humana”, sem mais pessoas vivas dentro dela, explodiu como uma bomba, no meio do espaço. Desde os telescópios dos dois mundos, a explosão foi fotografada, filmada, e noticiada aos quatro ventos.
Enquanto os dois mundos choraram por muitos dias a morte de todos eles, na vida espiritual a coisa fora exatamente o contrário.
Centenas de espíritos luminosos os receberam ansiosos, em clima de festa, pois Miguel estava contando as estrelas de cada agitador que chegava. Conforme o número de luzes no peito e as cores, ele falava o destino de cada um, bem alto, pois a curiosidade era geral. A maioria nasceria no outro mundo de cobras, o planeta dos Deuses, mas, havia aqueles que iam para outras Dimensões, onde estavam “O mundo do Conhecimento”, o “Mundo da felicidade”, o “Mundo da arte”, e a lista não tinha fim.
Miguel fechou os olhos, de brincadeira, pois Tiago e Mário tinham tantas estrelas, mas tantas, que cegavam os olhos. Todas elas de cor branca. Agora, Carlos tinha-as de cor dourada, Reginaldo e Abelardo de cor azul, e Fabiano de cor prateada. As estrelas das esposas eram todas elas de cor laranja.
Miguel lhes deu os parabéns, pois haviam sido escolhidos para nascer no “Mundo dos guerreiros intergalácticos”. A cor laranja significava que seria soldado, a cor azul sargento, as cores prateada e dourada que seriam tenentes, e a branca lhes assinalavam que seriam Comandantes Estelares. Tiago e Mário disputariam a liderança da “Guerra dos Iguanas”, que aconteceria depois que eles estivessem prontos para luta.
Mário não se conteve e falou:
— Mas, tu és mesmo um tremendo cara de pau! Enviar-nos a uma guerra, como prêmio a tanto sacrifício, cara.
Tiago falou então:
— E eu, que achava que ia ser Anjo...
Miguel levantou as mãos, e falou alto:
— Calma, pessoal, calma ali! Não se esqueçam do “Livre arbítrio”. Vocês não farão nada que vocês não queiram fazer. Podem ser péssimos alunos, preguiçosos, e vão ser reprovados em todas as provas, e ficarão fora da seleção de combatentes...
Reginaldo falou mais alto ainda:
— Pois eu acho que isso também é uma armadilha... Essas Leis existem mesmo?
— Apenas aqui, nos confins universais. Aonde vocês vão, não há mais leis, pois nesse lugar onde irão nascer todo ser humano é UM Rei. Esqueci-me de dizer que o “Mundo dos guerreiros intergalácticos” fica na “Primeira Dimensão do Universo”. E nessa Dimensão só nascem os Deuses, os Santos e todos os Anjos...
Todos os espíritos em redor gargalharam alto. A seguir cercaram Mário e Tiag , e os parabenizaram, pois nenhum deles ia na mesma direção.
Tiago não sabia se dava nesse Anjo trapaceiro um abraço, ou, um soco na cara. Optou pelo abraço, em Miguel, na Francisca, e nos velhos amigos da insurreição, que partiriam em outras direções. Todos os espíritos que fizeram a revolução, e terminaram com o poder das trevas, completaram um cerco, abraçados. As mulheres choraram, pois as professoras, as melhores amigas, iam para o “Mundo do Conhecimento”, e não se veriam mais.
Quando terminou essa despedida, e não havia mais ninguém para dizer adeus, Tiago se abraçou em Fernanda, entrou num corredor azul, como um túnel, que os sugou com força. Ao lado dele, Mário, Reginaldo, Abelardo, Carlos e Fabiano, com suas esposas grudadas neles, ficaram lado a lado, sem poder falar desta vez, pois teriam que cruzar o Universo, de ponta a ponta, numa velocidade terrível.
Miguel ficou-os olhando perderem-se no Universo como seis cometas luminosos.
Depois Miguel se virou para os revolucionários, prontos para serem sugados por outros raios luminosos, e gritou bem alto:
— Pessoal! Tenho que evacuar Augusto, Franco, Adolfo e mais 200.000 militares para algum lugar, e “Quem castiga os homens são os próprios homens”. Não se esqueçam dessa lei. Para onde os levo? Vocês mandam. Tenho para escolher o “Mundo dos ratos”, o “Mundo dos insetos”, o “Mundo das antas” e o “Mundo dos golfinhos”.
E todos gritaram em coro, rindo às gargalhadas:
—Envia-os para o mundo dos ratos... Eles merecem...
Um dia, Tiago e Mário, acompanhados de suas esposas e seus amigos, finalmente chegaram ao seu destino. Um planeta gigante, onde centenas de espíritos, todos com estrelas no peito, que nem eles, esperavam para nascer. Homens negros, descendentes de gorilas, homens verdes, descendentes de sapos, homens amarelos, descendentes de canarinhos, homens de pele branca como neve, descendentes de ursos. Mas, dos bichos eles só conservavam a cor, pois tinham um corpo igual ao de todos os Anjos. Perfeitos. Rosto iluminado, mulheres fascinantes e belos homens com rosto de crianças. Alguns casados, já outros solteiros em busca do amor.
Alguns percorriam a superfície examinando as cidades, o mato, os desertos, onde havia edifícios gigantes, que surgiam no meio do nada, imponentes, com “Escolas para crianças”, e muitas “Universidades de guerra”, cujos soldados entravam e saíam, numa rotina sem fim.
Sentados no chão, em meio de jardins exuberantes, mais ou menos 50.000 espíritos, com pele manchada como cobras, os reconheceram, e correram a abraçá-los. Todos da civilização superior, que cresceram nas montanhas. Alguns com estrelas douradas, outros prateadas, que começaram a fazer piadas com Tiago e Mário, os únicos de estrelas brancas. Enquanto riam, felizes, pois seriam todos vizinhos e colegas de escola, um tumulto chamou atenção. Uma mulher branca, de cabelos negros, olhos profundos, estava chegando, gritando por “socorro”, carregando nos braços seu marido doente, cego, com feridas de queimadura. O mais incrível era que essa mulher e seu esposo possuíam o maior número de estrelas brancas de todos os homens.
Enquanto Nina, Fernanda e Tiago, com mais uns 15 médicos curavam esse homem, limpando a pele, costurando enxertos, limpando os olhos, Rosa, Simone, Eloísa e Marlene abraçaram essa mulher, consolando-a, pois ela estava aos prantos.
Finalmente, ela começou a falar:
— Meu nome é Eva, e meu marido é Adão. Somos veterinários. Estávamos fazendo uma pesquisa científica no “Mundo dos Dinossauros” do Sistema Tetha, na Oitava Dimensão do Universo, e na viagem de volta descemos em “W”, uma civilização primitiva...
Mário, a interrompeu, quase gritando:
— Mas é de lá, que nós todos estamos chegando. Deixamos toda nossa descendência nessa Dimensão. O que está acontecendo?
— Foram os “homens Iguanas”... Eles apareceram do nada, nos atacaram, e mataram todo mundo...
Mas, é desta maneira, que começa uma “outra história”...
FIM
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