De amor e de sangue. Segunda parte
10 Reencontro de dois mundos
Notas iniciais
Quando a gigantesca nave apareceu nos céus da cidade, e enquanto procurava o melhor lugar para pousar, a humanidade ficou olhando para o céu, fascinada, por longo tempo. Era meio-dia, e a luz do Sol se refletia nela, cegando a todos. Depois, ela abaixou pés metálicos, tão elevados, que ficou pairando por cima das maiores árvores e dos altos edifícios. Uma abertura redonda, iluminada de verde, se abriu e uma a uma as pessoas baixaram, flutuando nessa claridade lentamente, até atingir o chão. Em seguida, os alienígenas abriam os braços para receber o carinho do povo, que correram a recebê-los.
Entre os recém-chegados se encontravam Humberto e Luísa, que abraçaram Mário e Nina, emocionados, querendo contar-lhes milhares de coisas. Humberto havia estudado ciência superior, e jurava que era capaz de desintegrar uma ilha inteira com o olhar, sem capacete algum. Luísa estudara a mesma coisa e falava que agora era capaz de escutar falar as formigas. Como não tinham onde ficar, nem sabiam do paradeiro da família, os convidaram a pernoitar na mansão de Carlos, pelo tempo que quisessem.
Todos os assessores de governo organizaram, na corrida, um banquete improvisado, dentro e fora de um grande edifício, enquanto cadastravam vagas em Hotéis, e hospedagens em mansões de milionários, pois as visitas eram de um “Mundo superior” em cujo lugar não existia o dinheiro, e tudo lhes seria dado de graça. Teriam que alimentá-los, levar a passeio, e o governo saldaria todos os gastos.
Finalmente, passada a euforia das saudações, Tiago inaugurou um banquete com os visitantes adultos, enquanto Reginaldo Júnior convidava os universitários para um encontro com a juventude, num campo de futebol, com piquenique ao ar livre, embaixo de tendas coloridas, comidas caseiras, e uma banda de artistas da Universidade alegrando o encontro.
Como a história dos “recém-chegados”, só era conhecida em livros muito antigos, Tiago inaugurou esse encontro fantástico com um breve discurso. Disse para todos os comensais que a “civilização perdida” havia finalmente regressado para casa. Eles eram os antigos habitantes das montanhas, que viveram milhares de anos escondidos, por receio das invasões bárbaras, e que um dia haviam fugido para se proteger. Mas, agora que a sociedade estava terminando com a maldade, não existiam motivos para o temor.
Depois falaram os visitantes. Entre eles 30 velhos de cabelos brancos, com idade entre 600 e 800 anos. Todos eles líderes de seu planeta. E um deles tomou a palavra.
Contou como eles haviam conquistado outro planeta, muito longe, mas, acrescentou que dali em diante, pelo resto da existência, os dois mundos seriam um só povo, um só coração. E que não era a primeira vez que os visitavam. Só que antigamente os espionavam desde espaço. Só isso. Eles sempre olharam o sofrimento dos aflitos desde longe, e, uma vez, muitos anos atrás, haviam lhes enviado 50 professores, para ajudá-los a evoluir. — O velhinho deu uma risada discreta-. Depois agradeceu o fato de esses professores, Ana, Alberta, e demais serem coroados como “Deuses”. Terminou contando que durante uma visita de espionagem também lhes haviam trazido cinco casais de cavalos.
A risada foi generalizada.
Alguns, por causa dos cavalos, mas a maioria riu porque o lugar estava cheio de presbíteros, que para entendimento comum, falavam mentalmente com os deuses. Os templos de Ana e Alberta pareciam agora piadas de mau-gosto. Mas, os visitantes eram gentis. Deram por encerrado o discurso e sentaram sem olhar para esses farsantes que ainda lucravam com o dízimo dos fieis nas igrejas. Todos sabiam que depois dessa revelação, a religião teria seus dias acabados e o poder ditatorial dos padres ficaria como lembrança de tempos superados.
Depois dos discursos, aconteceu o grande jantar.
As visitas comeram as saladas, as frutas, e dispensaram os peixes e os mariscos. Mas, se bebeu cerveja, vinho, e aceitaram queijos de leite de cabra. As sobremesas de pudim as comeram com gula. Na hora da dança, bailaram músicas suaves, falando pouco, pois esse povo era silencioso. Ao contrário dos anfitriões, que conversavam quais papagaios, e cujos convites oscilavam de passeios de iate e conhecer as ilhas, passeios de helicóptero para ver as lindas cachoeiras, visita aos morros para matar saudades, numa lista de convites que não tinha fim.
Tarde da noite, todos foram para lugares diferentes.
Fernanda levou dois casais para sua casa, Carlos levou 5 casais para sua ilha, onde os deixou numa Hospedaria gigante. Pediu para seu irmão caçula servir de guia de turismo, motorista, e pagar todas as contas. Fabiano e Eloísa convidaram 10 casais, e os levaram para um Hotel, na maior ilha desse mundo, propriedade da família de Eloísa. Outros milionários se encarregaram de levar para casa, dentro do mesmo esquema.
Tiago respirou com alívio.
Aos amigos que se aprontaram para serem cicerones, lhes sopravam no ouvido que teriam que tratar a cada UM deles, como se fossem “Deuses” vivos de verdade.
E suspendeu toda sua agenda de trabalhos.
Mas o pessoal na rua ignorou todo esse esquema de Tiago, pois a população queria conhecer essas pessoas e verificar se eram diferentes, ou, iguais a todos eles. Assim que um “Alienígena” aparecia na rua, fosse velho, ou jovem, era rodeado, esperando descobrir se era verdade que eles “adivinhavam pensamentos”. Assim que eles acertavam apelidos, ou respondiam perguntas inocentes, as pessoas em redor caíam na gargalhada e tinha os que aplaudiam. Depois lhes davam presentes, e convidavam a ver peças de teatro, escutar música em Danceterias, lhes entregavam vales de compra para lojas de vestuários, vales refeição em restaurantes, e os convites não tinham fim.
Mas, subir às naves foi talvez o episódio mais empolgante.
Tiago e Fernanda subiram abraçados, flutuando no ar, e adentraram num salão gigante, muito parecido ao interior da cidade subterrânea. Enquanto Tiago conhecia as mordomias dessas naves, Mário, Reginaldo e Abelardo bisbilhotavam tudo, com outros olhos. Avalizaram os “condutores espaciais” com atenção, pois essa tecnologia era totalmente diferente. O metal não era metal. Os cristais não eram cristais. Os assoalhos não eram nem tijolos, nem pedras, nem nada que se conhecesse. Ali tudo era “artificial”, com matéria prima “inventada” pelo próprio homem. Uma engenharia “além da imaginação”.
Marlene, Rosa, Eloísa e Nina entraram em despensas e cozinhas para estudar o que eles comiam. Na parte superior, encontraram um jardim, protegido por uma cúpula transparente, com hortaliças, frutas, e milhares de insetos, passarinhos pequeninhos, abelhas, borboletas, minhocas, adubando a terra, espalhando pólen, e dando um ar de realidade a essa natureza em miniatura. Nas mesas das cozinhas, cujo almoço de boas-vindas as deixou de boca aberta, tudo parecia mais exposição de arte, do que comidas. Havia esculturas de gelo, esculturas em melancias, abacaxis, cascatas de frutas em porcelanas altas, e as saladas eram dispostas formando desenhos. Os salgados eram à base de “peixe artificial”. Uma pasta grossa, que tinha gosto de peixe, mas eram proteínas de soja, com aromatizantes artificiais, de alto teor calórico e vitamínico. As “nutricionistas espaciais” explicavam que uma colher de “peixe artificial” tinha tudo o necessário para uma refeição de meio-dia. Depois, numa outra mesa, mostraram as sobremesas, que eram realmente deliciosas. Bolos de queijo, chocolates, com frutas, cremes e bolachas, feitos com farinha integral, açúcar mascavo e muito mel, pois não havia nada refinado, para não tirar a vitamina dos alimentos.
Nenhum milionário, em lugar nenhum desse mundo, eram tão ricos assim, quanto os recém-chegados. Como eles “adivinhavam os pensamentos”, explicavam que nada disso que estavam olhando era propriedade de ninguém. As coisas entre eles eram emprestadas, e devolvidas para as lojas, e usadas por quem quisesse, num rodízio eterno. No mundo deles, as pessoas possuíam apenas o que era básico. Quem quisesse esbanjar, e ter coisas em quantidade, produzia-as em casa, ou, inventava nos Laboratórios de alguma Universidade, pois não existia gênio de ciência, que não fosse também um grande artífice.
Enquanto os adultos rodeavam os homens de ciência, para aprender tecnologias mais avançadas, Reginaldo Júnior organizava passeios. Eram trilhas com jipe no mato, escaladas na montanha com cordas, viagens em iate para ilhas, formando grupos barulhentos de gente jovem que se deslocavam para lugares diferentes.
Entre meio a tudo isso, começaram namoros tímidos, pois os visitantes eram educados, e os anfitriões ainda conservavam o costume de casar “virgens”.
Numa viagem a cavalo pelo mato, Reginaldo Júnior cortejou uma mulher de olhos verdes e rosto doce, pegando na sua mão com educação, quando conversavam ao redor da fogueira durante a noite. O primeiro beijo saiu com calma e doçura. Filho de homem de sangue quente, pouco a pouco perdeu a timidez, e se escondeu embaixo de um matagal para perder a virgindade, sem dor, pois sua namorada lhe colocou um dedo na testa. Desmaiou por cima dela ao amanhecer, rindo, pois todos os conselhos de seu velho estavam certos. Quando se encontra o verdadeiro amor, o cansaço desaparece. O homem só quer namorar, e não fazer mais nada, pela eternidade da vida. Como sua namorada era “evoluída”, de outra civilização, Júnior saboreou inocentemente uma bebida agridoce, que o fez namorar essa mulher durante três dias seguidos. Era o máximo que um “homem das cavernas” como ele conseguiria aguentar. Pelo menos era o que esses jovens visitantes haviam aprendido na Universidade, antes da partida. Pior foi com as amigas de Júnior, que gamaram nos homens. Elas perderam a virgindade apaixonadíssima, por homens que nunca dormiam. Nenhuma delas sabia ao certo por quanto tempo foram amadas por esses homens de outro mundo.
Os visitantes que se apaixonaram pediram seus amores em casamento.
Quem não gostou de ninguém, sequer deu um beijo. Quando percebiam que estavam arrebentando o coração de um primitivo, os hipnotizavam imediatamente para lhes evitar sofrer com coração partido. A pior doença no mundo deles.
Reginaldo Júnior, que estava queimando em brasas, falou para a amada que hipnoses com ele não iam dar certo, pois era telepático desde a infância, e havia aprendido com sua mãe. Ir atrás dela era impossível, pois tinha que ajudar o tio Tiago em tudo. Deixá-la partir também não ia funcionar, pois sabia como amarrar uma mulher dentro de uma caverna escura, sem que ninguém os achasse. Resumindo, ela teria que ficar nesse planeta, casar com ele, e ter uma dúzia de filhos trogloditas como ele. E Amanda, que era pitonisa de nascença, sabia que finalmente havia encontrado sua alma-gêmea. Um homem apaixonado até a alma, e que a namoraria durante a noite. Um macho que só com um beijo a fazia flutuar no ar e enevoar seus sentidos. Como sua mãe sempre lhe ensinara, um homem cego de paixão é tudo que uma mulher necessitava na vida para ser feliz.
Depois do aparecimento desses casais, que uniriam definitivamente os dois mundos, se beijando em público, passeando abraçados, foram sendo planejadas outras atividades. Competições em lutas, de homem com homem, desafios entre mulher com mulher em corridas, saltos, encontros que chamavam atenção de todos.
O único evento que os visitantes encontraram como novidade esportiva foi à cavalaria. Ironia do destino, pois os cavalos eram todos alienígenas. Trazidos para as ilhas, por eles mesmos. Cavalos que no outro planeta eram animais indomáveis e selvagens, e que cobriam planícies como donos absolutos do lugar.
Numa tarde, Reginaldo Júnior interrompeu uma reunião, e pediu ao tio Tiago material suficiente para um Ginásio gigante, pois quem ia construí-lo eram os amigos vindos do espaço. Eles juravam que o ergueriam em uma semana. E a curiosidade era demais, pois ninguém acreditava nisso. Depois lhe mostrou o desenho, que era algo surreal, um edifício circular, em cujo interior havia quadras esportivas, ruas, cadeiras, tudo de tamanho gigantesco. Examinaram a lista de materiais, pedras, mármores, e algumas madeiras. Nenhuma argamassa. Nem cimento nem areia. E rindo em coro, Tiago e seus assessores assinaram a lista, pois eles tampouco acreditavam que se podia construir algo tão monstruoso assim.
O lugar escolhido para levantar o “Coliseu”, como foi apelidado, foi por cima de um morro abandonado, no Leste da cidade. Os visitantes, acompanhados de centenas de curiosos, rodearam essa colina e a cortaram na metade, como quem corta um bolo gigante. A parte superior voou pelo ar, e desceu num sitio baldio. Tudo com a força do pensamento. O clamor público foi alto desta vez, pois teve gente que ficou assustada.
Em seguida, as enormes rochas, trazidas dos canteiros, começaram a serem cortadas em cubos perfeitos, uma a uma, apenas com um passar de mãos sobre a superfície. A seguir, foram subindo no ar, boiando como penas, uma a uma, lentamente, se amontoando uma por cima da outra, até completar um círculo perfeito. Nos dias seguintes, ele foi crescendo, subindo, permitindo aberturas redondas, em intervalos regulares. No interior desse estádio circular, fizeram uma cratera no chão, com escadas, cujas pedras foram se alinhando, da mesma maneira, descendo em anéis cada vez menores. Finalmente, alisaram a terra do círculo central para dispor as quadras de esportes. A pista para corridas ficou no anel externo e foi acamada com areias. No centro, foi demarcada uma área para uma quadra de futebol. Em seguida, dividiram o chão para quadras de tênis, de basquete, outra para patinação, divididas com redes de proteção.
No campo de futebol, foram jogadas sementes de grama miúda. Nas quadras de tênis, atiraram terra vermelha com areia. Nas de basquete, pedras lisas e polidas sem marcas de encaixe. Para a patinação encheram uma área de água, que foi esfriada e convertida em gelo, para um esporte que seria ensinado por cinco mulheres. Elas fizeram uma demonstração, e depois a lista dos alunos se amontoou na corrida, disputando as vagas.
Enquanto a humanidade se divertia olhando os guris dando os primeiros passos na patinação artística, os artistas completavam a decoração final desse Coliseu. Foi colocada uma escultura de pedra entre cada arco, que foram esculpidas em grupos, com escultores empolgadíssimos. Havia no ar uma competição não declarada. As visitas faziam as pedras voar, mas na hora de bater com martelo e formão os anfitriões levavam vantagens, tanto na criatividade quanto na força bruta. Obras magníficas de pedra sabão, mármore branco, granitos, jade verde, foram sendo carregadas, instaladas, deixando esse estádio maravilhoso. Os garis completaram o visual com jardins, os empregados de governo com a instalação das luzes, e os mictórios populares foram instalados no meio de tudo isso, decorados com esculturas menores, para deixar tudo jovial.
Para inaugurar tudo isso, Reginaldo Júnior e sua noiva Amanda, com anel de diamante no dedo, organizaram um campeonato com equipes dos dois mundos.
Embora os visitantes estivessem acostumados a jogar em equipes mistas, desta vez, para agradar os anfitriões fizeram equipes femininas e equipes masculinas. Mário Júnior organizou a turma de futebol mirim, e Filomena, a filha de Fernanda, um grupo feminino de basquete com as colegas da escola. Afinal, os Gênios do outro mundo também trouxeram filhos menores, que não estavam se divertindo com nada. Fernanda mandou costurar os uniformes com bermuda e meias, pois as meninas não costumavam ainda mostrar as pernas. Os visitantes, pelo contrário, vestiram short, mostrando coxões grossos nos homens, e pernas delicadas e bem torneadas nas meninas.
Foi desta maneira que se competiu no futebol, tênis, basquete, corridas, saltos, lançamento de disco, e pingue-pongue. A patinação só foi mostrada como aprendizado, em trajes de “balé”. E a cavalaria foi disputada no Hipódromo.
As braçadas da natação foram no rio, de uma margem para a outra margem, ida e volta, pois não havia uma piscina grande o suficiente para isso.
Enquanto a população enlouquecia com esses jogos, se acotovelando dentro do Coliseu, ou no Hipódromo, ou na beira do rio, sem pagar nada desta vez, Tiago agradecia todos os dias aos visitantes as novidades trazidas. Eles entregaram como presente 5 satélites com antena interespacial de televisão, para intercambiar programas culturais entre ambos os mundos, pelo resto da existência.
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