De amor e de sangue. Segunda parte
6 O planeta dos Deuses
Notas iniciais
Enquanto esse levante era organizado, no meio do espaço, a nave de Humberto era rodeada por 400 naves de combate, que os interceptaram. Em seguida, foram sugados como um inseto para um buraco escuro de outra nave, que era tão grande que mais parecia uma cidade voadora. Adentraram através de um portal iluminado, e assim que as comportas se fecharam, a nave de Humberto pousou, e ele e sua noiva foram algemados por 10 homens armados. Por incrível, todos falavam na língua deles mesmos.
Dentro de um recinto esquisito, Humberto viu uma comitiva elegante caminhar com ar de leveza, gestos suaves, com pessoas de pele manchada igual à dele. Por incrível que fosse, estava frente a frente à civilização perdida de seu mundo. Eram os Deuses da montanha. Eram os homens ao qual a humanidade rezava nos templos. Estava tão emocionado, que não sabia o que falar. Incrédulo escutou:
— Não diga nada, pois a clarividência e a telepatia aqui são generalizadas. Não existem segredos para nós. Estamos emocionados em vê-los, mas, também nos encontramos horrorizados, pois vocês têm dez prisioneiras de “W” na prisão. Estamos a caminho de seu mundo para salvá-las.
— Não fique preocupado. Elas estão sãs e salvas num Zoológico...
— Mas, elas são HUMANAS!
— Desculpe, eu não tenho nada a ver com isso...
— Se tivessem algo a ver, eu saberia...
— O que vão fazer com a minha frota?
— Sua tripulação teve que ser congelada para hibernação. Vamos abandoná-los em alguma ilha deserta de seu mundo. Imagino que sabe da existência das outras cidades, ou, nunca viu uma ilha?
— Apenas por fotografias. Não fazia ideia de que havia gente que morria de fome nas demais cidades do reino. Soubemos de tudo depois que as torturas explodiram no nosso meio científico. O horror é novo para mim.
— Eu vou enviá-los ao nosso planeta como invitados, pois devemos continuar o caminho com destino a seu mundo, e resgatar essas pobres mulheres...
— O que faço com meu capacete? Mário me aconselhou a jamais puxá-lo da cabeça.
— Pode tirar. Nossa tecnologia é mais avançada. Esta nave se nutre da força mental de todo ser vivo, até das minhocas da horta. Aliás, em nosso planeta sugiro-lhe estudar sobre energias. Não vai encontrar usinas hidroelétricas, muito menos termoelétricas, nem minas de carvão, ou ouro, nem nada. Desta feita, não tiramos nada da mãe natureza, além de folhinhas de algumas árvores.
— Mas, e esta nave foi construída com que metal?
— Não é metal natural. É carbono enriquecido. E carbono há em todo lugar. Até no ar.
— Meu! Estou abismado!
— Leia, meu amigo. Leia muito quando chegar a nossa civilização, pois sua ignorância me espanta... Encontrará seu amigo Mário nos livros raros, escritos em idioma antigo. Livros escritos em papiro, conservados em redomas de cristal... Mário é como nosso pai ancestral.
— Mas, ele é imortal?
— Você me faz rir... Leia também sobre reencarnação... Está precisando...
Em seguida, foram rodeados novamente por um grupo de homens que os levou até os hangares. Subiram numa nave pequena e enfileiraram com rumo à escuridão.
Humberto e Luísa desceram nesse novo mundo em meio às borboletas, passarinhos, cachorros, gatos, cavalos, girando a cabeça para todos os lados com a boca aberta, e com cara de bobos. Os carros dessa civilização voejavam para não fazer dano aos bichanos, e os pássaros gigantes jamais batiam numa nave flutuante, pois os homens faziam acrobacias no ar para não machucá-las. Já no interior de um hotel, cuja estadia e consumação eram “de graça”, pois nesse mundo nunca existiu o dinheiro, encontraram uma suíte gigantesca com piscina interna, ao lado de uma cama redonda, macia, e móveis baixinhos com comidas deliciosas, espalhadas em todo canto. Plantas ornamentais engalanavam o ambiente e uma música de cordas os envolvia. Uma TV panorâmica, do tamanho de uma parede inteira, mostrava as belezas desse mundo, cujos bichos esquisitos se misturavam a cidades fantásticas, cuja arquitetura parecia o sonho de um conto de fadas. Os acompanhantes os abraçaram, desejaram-lhes uma boa estadia, pois poderiam fazer o que desejassem dali em diante. Só estavam proibidos de regressar ao seu planeta. Apenas isso.
Dentro dessa suíte, o que mais lhes chamou atenção foi às máquinas para brincar. Como cientistas inteligentes, examinaram um aparelho cujos comandos expunham na tela imagens, que os hipnotizaram. Era como a televisão, mas desta vez eles podiam interferir na narrativa e realizar o próprio filme, e falar às frases que quisessem.
Luísa falou:
— O que vamos fazer primeiro? Ver uma história na tela grande, ou brincar na tela menor?
— Namorar, namorar e namorar! Depois brincamos de guerreiros intergalácticos...
Mas eles estavam num mundo civilizado.
Pouco a pouco, descobriram que podiam fazer tudo ao mesmo tempo. Sentados numa cadeira baixinha, com Luísa sentada por cima, Humberto descobriu um “controle remoto” viajando para sua mão, como adivinhando seus desejos. E deparou que com esse artefato, apertando botões diferentes, eles podiam ouvir música, ou, mudar as imagens da TV, ou brincar com a tela de jogos, ou, fazer as luzes mudar de cores, ou, abrir armários com bebidas coloridas. Sua cadeira possuía rodas, adivinhava seus desejos, e podia se deslocar eternamente para onde quisesse, namorando, comendo, brincando, sem saber se era de dia, ou de noite, ou se chovia lá fora.
Quando desmaiaram exaustos, por causa do amor de muitas horas a fio, a cadeira puxou dois braços, e os deitou na cama como quem coloca para dormir duas crianças. Em seguida, as mãos metálicas puxaram um cobertor, e tampou seus corpos. Quando acordaram, Humberto estava mais apaixonado do que nunca. Imediatamente, beijou-a com doçura, enquanto sua amava o rodeava com os braços para um abraço eterno. Só as fugas ao banheiro os separaram dali em diante.
Ao raiar do Sol, do décimo dia, receberam visitas.
Uma equipe médica os examinou, e, em seguida, deu-lhes vitaminas viscosas através de uma sonda dentro do baço. O fluido espalhou-se pelas veias lentamente, deixando-os fortes. Depois, Humberto recebeu um cinto na testa, bem ajustado a seu crânio. Também lhes colocaram uma mão sobre o ventre e lhes desintegraram as fezes no intestino e a urina da bexiga. Uma médica falou-lhe:
— Nunca retire este cinto de sua testa, pois vocês vão morrer.
— Do quê?
— De amor, meu amigo. Cada vez que este cinto os faça dormir, vão tomar uma pílula verde quando acordarem. Também devem comer muito. Mas muito mesmo. Com mais comida, o corpo terá mais energia para namorar e desmaiarão menos.
— Alguma outra novidade?
— Para jogar as fezes fora do organismo, terão que aprender “desintegração mental”. Vocês estão poluindo um tanque de água para cultivos. Já esperávamos por isso, não fiquem encabulados. O dejeto humano só polui e não serve para nada. As aulas sobre o tema “desmaterialização” acontecem ao meio-dia. Uma pessoa virá buscá-los, e os levará de carro para nossa Universidade durante o período matutino. Todos os dias, até conseguirem converter o cocô em ar. E se quiserem aproveitar sua estadia em nosso planeta para aprender nossas Ciências, é só pedir. Fiquem à vontade.
Depois, novamente ficaram sós. Luísa falou:
— Que outras novidades existirão, meu amor?
— Sei lá, mas se houver, só podem ser boas, muito boas...
— Você acha que um dia o nosso mundo pode ser como este?
— Mas, é isso! Ariel e Ana querem mudar nosso mundo, para ser como este... Será que eles são descendentes de “Deuses”? Será que a tal de Ana, é a mulher do Mário?
— Sei lá... Já não entendo mais nada...
— Mas uma coisa nós sabemos, um dia vamos voltar, ensinar tudo que aprendermos, e vamos ajudar nessa transformação... O que acha?
— Hum... Maravilhoso!
— Comemos? Namoramos?
— Os dois...
Luísa sentou de frente, pegou uma cumbuca, e deu uma colherada de sopa na boca de Humberto. Ele engoliu e deu uma colherada na boca dela com outra colher. Beijavam-se. Em seguida esvaziaram o purê de batata com bolinhos de verduras, banhados com um creme agridoce delicioso, junto às verduras refogadas em manteiga. Em seguida comeram uma sobremesa de claras em neve, depois beberam sucos de abacaxis e foi então que apareceu o primeiro problema.
Humberto levantou os braços como um palhaço e disse:
— Temos que aprender a desintegrar esse cocô. Vou ter que me levantar para o banheiro... Droga!
— Depois é minha vez... Espere-me na banheira...
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