Notas iniciais
E foi através desses “vales de compras” quando as classes sociais finalmente se aceitaram. No passado, durante o reinado de Adolfo, quando os lojistas observavam um pedinte cheio de farrapos, perto da porta, chamavam os soldados imediatamente para colocar o feioso fora de circulação. Agora, com um “vale na mão”, esses mendigos tinham o direito de “entrar na loja”, levar roupas lindas, e nenhum lojista podia se negar a isso. Em Supermercados, acontecia coisa similar. Com essa ajuda financeira se compravam três carrinhos cheios de comidas, para uma família de 10 pessoas, uma vez por mês. E como a indigência era maioria, as prateleiras começaram a esvaziar.

E a vida desse reinado se alastrou, docemente, sempre igual. Para Tiago, viver em família, em meio aos amigos, fora o melhor prêmio recebido desta vida. E, ao lado de sua amada, encararam com alegria todas as reuniões com trabalhadores, congressos entre empreendedores, e atendimentos para o povo. Afinal, entre tudo isso estava seus descansos na mansão, que passou a ser o clube particular dos amigos.

Quando a barriga da Fernanda começou a crescer, Tiago passou a frequentar sozinho, as reuniões com seus assessores. Ele dava duro, até o entardecer, e antes de voltar para casa caminhava a pé, sempre olhando para o povo, e conversando com as pessoas que o abordavam, ou, inspecionando o que estava sendo feito. Havia centenas de garis plantando árvores em avenidas extensas, cujas deliciosas frutas dariam ao povo sombra e comida. Nos antigos cemitérios, estava sendo construídos parques recreativos para crianças brincar, misturadas a flores, cadeira, luzes, e avenidas de pedrinhas miúdas para caminhar, ou, correr. Também havia espaço para andar de bicicleta, patins, monociclos, skates, artefatos recém-lançados ao mercado por uma fábrica particular.

Os “vales de compra” para atendimento em clínica particular, em lojas de roupas e em supermercados, surgiram durante um desses passeios, e a pedido de muita gente humilde que o seguia pelas ruas. Eram pessoas velhas, ou, analfabetas, que nos novos tempos não eram aceitos nas novas empresas modernas. Esses auxílios foram distribuídos para gente desempregada, uma vez a cada mês, após a visita de uma assistente de governo em casa. Eram favelas ainda em uso, sem saneamento, em lugares insalubres, ou, gente que ainda dormia ao relento sem casa para morar.

E foi através desses “vales de compras” quando as classes sociais finalmente se aceitaram.

No passado, durante o reinado de Adolfo, quando os lojistas observavam um pedinte cheio de farrapos, perto da porta, chamavam os soldados imediatamente para colocar o feioso fora de circulação. Agora, com um “vale na mão”, esses mendigos tinham o direito de “entrar na loja”, levar roupas lindas, e nenhum lojista podia se negar a isso. Em Supermercados, acontecia coisa similar. Com essa ajuda financeira se compravam três carrinhos cheios de comidas, para uma família de 10 pessoas, uma vez por mês. E como a indigência era maioria, as prateleiras começaram a esvaziar.

Para evitar inflação de preços, ou, desabastecimentos, o governo constituiu a LACC, o “Laboratório de Análise de Comidas Caseiras”, organizada pela Marlene, esperta em descobrir gérmens infecciosos. Tiago e seus assessores haviam chegado ao consenso de que, se os produtos alimentícios, feitos por uma dona de casa eram de qualidade, eles teriam o selo de garantia da LACC, para que os Supermercados os incluíssem no inventário.

O fato foi publicado em primeira página, em revistas e jornais, enquanto o governo comprava um edifício enorme, equipado com microscópios, e tubos de ensaio. Um grupo de médicos e químicos começou estudar MEL, geleias caseiras, frutas em conservas, bolachas, bolos, pão, leite de cabras, queijos, e uma infinidade de comidas pré-cozidas. Portanto, com o passar do tempo havia duas filas em cada Supermercado, na frente, com o povo que chegava a comprar, nos fundo com quem chegava a vender.

Pequenas empresas chamadas de “Cooperativas populares” nasceram do dia para a noite.

O governo passou a dar apoio a grupos de mulheres que costuravam, faziam tricô, artesanato, artistas que produziam obras lindíssimas, pessoas inteligentes que também passaram a vender seu produto para Lojas, e evitaram as prateleiras vazias. Além do que, as pessoas ricas adoravam comprar artigos diferenciados e feitos à mão. Os produtos “customizados” passaram a ser a moda nesse mundo e o artesanato inundou Lojas, e teve Cooperativas mais inteligentes que abriram e erigiram seus próprios magazines.

Os ricos também ficaram mais ricos.

As antigas empresas de televisão também enlouqueceram e esquentaram o comércio, com pequeninos Televisores de plasma, e enormes para quem podia esbanjar. Era o fim da televisão em preto e branco, com imagens coloridas que deixou o mundo em polvorosa.

Depois do estouro da televisão, nasceu à telefonia, a empresa do computador, e de eletrodomésticos movidos com energia combinadas. Dentro de casa, os artefatos elétricos podiam se abastecer de três fontes de energia, dependendo do momento. Se havia gente dentro de casa, artefatos puxavam energia humana, sem fazer dano à saúde. Se havia Sol, as antenas externas da casa abasteciam tudo. E à noite, a eletricidade só entrava em cena quando os donos de casa saíam para festas noturnas e deixavam a casa vazia.

Enquanto o mundo se transformava, nascia a filha de Fernanda, que ela chamou de Filomena como sua sogra, e Nina ganhava um menino que chamou de Mário igual ao pai. Mário recebeu o nascimento do filho com lágrimas nos olhos. Era tão lindo, que mais parecia um anjo. Loiro, olhos azuis cristalinos, e a pele suave, iluminada. Parecia que a beleza dos “homens cobras” entrava numa nova era. Tiago, que ficou na sala de parto, nervoso como nunca, recebeu uma menina de cabelos negros como a noite, com uma pele de manchas suaves, delicadas, lindíssima. Parecia mais um anjo nascendo nesse novo mundo em transformações profundas. Era como um prêmio a sua vida de lutas e realizações. Mais um sonho realizado.

E foi com a filha no colo, e a Fernanda ao lado, que Tiago visitou pela primeira vez um “julgamento popular”, num bairro da periferia, onde todos os dias se avaliavam condenados trazidos dos presídios. Quem estudava o caso naquele dia, era uma Juíza, um Médico, um Psicólogo, e um Júri popular de 5 pessoas, que foram sorteadas entre pessoas do bairro. Nesse dia, havia 50 cadeiras lotadas de gente na plateia. Na parte da frente havia um estrado alto onde ficava o réu, e uma mesa com o Júri popular.

Tiago e Fernanda sentaram na última fila, sem chamar atenção, e ficaram olhando o desenvolver do julgamento de um coitado, em farrapos, sujo, cabelos hirtos, sem dentes, envelhecido por anos de isolamento dentro do Presídio. No histórico, se falava que havia sido abandonado na rua aos 7 anos pelo pai, não tinha mãe, e vivera no Reformatório Estadual até os 18 anos, e fora preso aos 20 anos. Era culpado de assaltos a Bancos. Agora, com 30 anos de idade, o Juiz tinha que decidir se o meliante seria enviado ao exílio, ou, seria solto na rua. O médico deu sua opinião, em seguida, o Psicólogo falou sua versão do caso, e houve unanimidade pela liberdade. Como o réu carecia de um lar, foi decidido que seria abrigado numa “Casa de caridade” dessa cidade, até ele encontrar emprego.

Tiago se levantou e deu para o réu um vale de roupas, um vale de comidas, um vale para dentista e emprego fixo de gari. Sem deixar de falar que se voltasse a roubar, ele próprio o levava para a ilha mais longe que houvesse. Depois, deu abraços ao Júri, à Juíza, ao Médico, ao Psicólogo, pois o trabalho de todos havia sido brilhante.

Os julgamentos aos criminosos nunca mais se interrompeu. E a evacuação dos condenados tornou-se rotineira. A cada 7 dias saia do cais um barco lotado de larápios para o exílio na Ilhas. Haviam sido habilitados dez paraísos encantados, para receber condenados, agrupados conforme seus delitos. Todos estéreis, com uma pequena introdução de silicone nos testículos. Como a maldade não tinha sexo havia mulher repreendida em toda parte. A maioria, homicidas dos próprios filhos. Foram deixadas sementes para cultivo, junto as casas simples de madeira. Poderiam viver com pouquíssima roupa, pois todas as ilhas eram tropicais. Se quisessem mordomias, podiam semear algodão, linho, construir teares, cujas sementes estavam nos casebres.

E se passaram vários anos, antes de se avaliar o resultado de tudo isso. O que começou a tirar o sonho dos assessores ao redor de Tiago e de todos os Juízes, é que depois de julgar ladrão, exilarem-nos nas Ilhas, os Presídios não conseguiam ficar vazios, pois todos os dias os vigilantes detinham alguém nas ruas, por uma nova infração.

A mudanças sociais feitas pelo novo governo, com a melhoria de renda, a boa alimentação, educação e trabalho para todos, “vales de compra” para ao mais necessitados, tudo isso junto não diminuíra a criminalidade. Ninguém mais matava por loucura, nem furtava para matar a fome. Desfalcava por excesso de ambição, ou por passatempo, e matava porque era um maligno. As crianças continuavam a ser espancadas dentro de casa e as jovens lindas e bem-vestidas eram violentadas por bandos na calada da noite. Mulheres continuavam a matar seus filhos, durante a gestação, ou, depois de nascidos. Existiam bebês encontrados em lixões, flutuando nos rios, às vezes vivos, e meninos chorando nas ruas, perdidos, deixados como lixo por pais inconsequentes. Havia filhos adultos que matavam os pais para herdar a casa, velhos espancados para adjudicar do dinheiro da aposentadoria, e homens ricos que exploravam operários, descontando metade do ordenado, com juros e impostos que não existiam mais. E o que era ainda mais sinistro, metade das moradias construídas para pessoas carentes, e vendidas a preço de custo, possuíam novos donos. Em lugar de viver em bairros dignos, as pessoas venderam e lucraram com isso altas fortunas. Dinheiro que tomou rumos duvidosos. Comprar casas baratas, e depois vendê-las a preço de ouro, havia virado “negócio” num piscar de olhos.

Mas a pior estatística levantada pelos Juízes era a da prostituição, que quintuplicara como um raio. Todas as noites, os soldados recolhiam pessoas bem-vestidas, perfumadas, que lotavam os lindos parques da cidade em busca de “clientes”. A idade variava entre 10 e 40 anos, incluindo homem e mulher. Os Juízes os recebiam pela manhã para julgamento, e lhes ofereciam trabalho, educação, mas, eles desapareciam. Mudavam de cidade para enganar os Juízes e saíam nas ruas novamente. Os profissionais do sexo ganhavam numa noite o ordenado mensal de um gari.

O que fazer?

Tiago convocou a todos os gênios, médicos ilustres, cientistas, de todos os cantos do mundo, junto a todos os Juízes, para o primeiro “Primeiro Congresso Criminal”.

Depois de dias e dias de discussão, os conferencistas chegaram à conclusão que a maldade era hereditária. Como uma doença. Estudos de estatísticas mostravam que a cada 10 delinquentes, oito deles eram filhos de criminosos. Homens como o pai de Tiago, amado pela família, respeitado pelos amigos, compunha uma facão de apenas uns 20% deles. A maioria aprendia a malandragem dentro de casa. Estuprador havia, um dia, sido vítima também do pai, do padrasto, do tio, ou dos vizinhos. Assassino, havia sido espancado, torturado, e na maturidade matava por vingança.

O que fazer?

Uma médica disse que mais razoável seria impedir o nascimento dos delituosos. A medicina possuía métodos modernos suficientes para isso. Bastavam esterilizar os rapazes antes de se tornarem reprodutores. E havia pessoas capazes de descobrir o “futuro delinquente” dentro das Escolas Básicas. Existia um perfil bem diferente para cada um. Menino educado, estudioso, amável, sempre era saco de pancada dos futuros malfeitores. Além do que, se houvesse falha na avaliação de um futuro delituoso, o erro poderia ser corrigido, pois todas as cirurgias de esterilidade eram reversíveis.

E pouco a pouco, essa sugestão foi tomando forma. Ficou decidido que os psicólogos entrariam a trabalhar em todos os educandários, para analisar o desenvolvimento e o comportamento dos alunos, e, para investigar os meninos que, no futuro, podiam vir a delinquir.

Mesmo assim, colocar isso em prática levou muito tempo.

Seguiram-se anos de estudos parapsicológicos dentro das Escolas, antes de ser operado o primeiro rapaz. Controlar as meninas foi mais fácil, pois elas engravidavam saindo da infância. Essas meninas grávidas eram internadas, para evitar que matassem o bebê na barriga, e depois a criança era dada em adoção. Ela voltava a sua vida normal, estéril. Quando entravam na prostituição, ou na roubalheira, eram internadas de novo para tratamento psicológico. Se nada desse certo, e se esgotassem as possibilidades de redenção, eram isoladas numa Ilha com homens que faziam a mesma coisa. Jovens lindíssimos que namoravam damas solitárias, e muito velhas, em troca de pequenas fortunas. E o que estava deixando os Juízes doidos era que muitos deles casavam com pessoas envelhecidas, para matá-las e herdar a grana.

Mas o que acabou de vez com a criminalidade foi a visitação de 500 sábios de outro mundo, cujas naves chegaram num advento de surpresa. Além deles, abordavam 300 estudantes universitários, todos solteiros, a apreciar a juventude desse mundo.

Notas finais
Mesmo assim, colocar isso em prática levou muito tempo. Seguiram-se anos de estudos parapsicológicos dentro das Escolas, antes de ser operado o primeiro rapaz. Controlar as meninas foi mais fácil, pois elas engravidavam saindo da infância. Essas meninas grávidas eram internadas, para evitar que matassem o bebê na barriga, e depois a criança era dada em adoção. Ela voltava a sua vida normal, estéril. Quando entravam na prostituição, ou na roubalheira, eram internadas de novo para tratamento psicológico. Se nada desse certo, e se esgotassem as possibilidades de redenção, eram isoladas numa Ilha com homens que faziam a mesma coisa. Jovens lindíssimos que namoravam damas solitárias, e muito velhas, em troca de pequenas fortunas. E o que estava deixando os Juízes doidos era que muitos deles casavam com pessoas envelhecidas, para matá-las e herdar a grana.