De amor e de sangue. Segunda parte
4 Ana e Ariel
Notas iniciais
Em primeiro lugar, registraram que o poder dos governantes repousava sobre o acúmulo da riqueza, o poder das armas, e o controle da vida de todos os homens. Enumeraram tudo o que os gênios da montanha haviam inventado durante séculos de Despotismo. Criações que fariam o conforto das famílias, mas eram desprezados e proibidos de ser comprados por empresários para produção em massa. Também acrescentaram fofocas de governantes, dando nomes de amantes, prostitutas ligadas às orgias de palácio, e o número das contas bancárias, denunciando o tamanho da fortuna de todas as pessoas que rodeavam o Rei Adolfo e seus colaboradores.
Distribuir esses folhetos foi à parte mais difícil.
Tiago enviou as mensagens dentro de cartas, pelo correio, para todos os homens ricos do reino, de todas as grandes cidades do mundo, colocando um nome fictício como remetente: ARIEL. Enquanto isso, Fabiano e quarenta amigos espalharam o jornal nas ruas, de porta em porta, vestidos de preto, virando a noite nessa empreitada.
No dia seguinte, o horror tomou conta na cordilheira, à procura de espiões.
Infelizmente, cinco cientistas possuíam radioamador dentro de casa, e foram fuzilados em praça pública sem julgamentos. Marlene fotografou tudo, revelou as fotos, gravou em metal, deixou as placas prontas para impressão, e deu para Mário com discrição.
O segundo jornalzinho que se espalhou durante a noite, trazia as fotos e o nome dos gênios fuzilados, o nome dos soldados assassinos, todas as humilhações que os gênios passavam no seu dia a dia, com um trabalho tão injusto quanto de qualquer artífice das outras cidades. Falou-se do dinheiro micro que recebiam como pagamento, sem ganhar nada em troca de suas invenções, pois as patentes eram propriedade do Rei Adolfo. Essas matérias foram assinadas pela cientista ANA.
O Rei Adolfo reuniu seus melhores homens e organizou a “Liga de Espiões Anônimos”, com a ordem de se infiltrar em todas as oficinas, comércio, empresas, e em todas as Universidades, para saber quem era ARIEL e principalmente no meio dos cientistas da cordilheira para descobrir quem era ANA.
Descobrir o nome de todos esses espiões trouxe Carlos e Simone de volta.
A empresa ficou com os outros irmãos caçulas, e Eugênio e Filomena ficaram como donos da casa e administradores do patrimônio da família. Afinal, o mundo deles era alheio a todo esse sonho de liberdade. Nunca escutaram a palavra “revolução” no seu dia a dia. Sequer em sonhos Filomena e Eugênio souberam que seus filhos gêmeos desafiariam a morte frente a frente do grande Ditador.
Carlos, para não levantar suspeitas, entrou a trabalhar na Metalúrgica de Fabiano.
E para Simone chegaram às noites sem dormir, pois durante o dia percorria salões de beleza, saunas, e, ao cair na noite, assim que Carlos chegava da Metalúrgica, estava pronta para as festas da sociedade espionando. Depois, escrevia relatórios em casa, e entregava para o marido. Às vezes, caía por cima da cama de cabeça para baixo. Carlos carregava-a docemente para uma banheira de espuma, e tentava fazer nela o Reik. Rindo, pois ele achava isso muito louco. De manhã, os filhos chegavam para acordá-los ao raiar do Sol, e saíam dessa cama rastejando de sono.
Nas montanhas, Nina entrava nos laboratórios e se concentrava, como estátua, tentando telepatia, com um capacete na cabeça. Simone, com outro capacete dentro de casa, lhe dava nomes de espiões, para que tivesse cuidado, e evitasse qualquer contato. Nina lhe enviava notícias quentes. Gente que estava sendo interrogada e torturada na tentativa de saber quem era ANA, e filhos que estavam em casa aterrorizados com os pais na cadeia. Enquanto isso, Marlene tirava fotos de longa distância de tudo, gente algemada caminhando pelas ruas, pessoas saindo do xadrez com cara inchada de tanto apanhar, e, em seguida, imprimia placas de bronze prontas para impressão. Rosa, pela sua vez, escrevia em casa sobre medicina. Registrava métodos anticoncepcionais revolucionários. Ela própria estava temporariamente estéril, interrompendo a passagem do sêmen com a introdução de silicone nas trompas. Essa pesquisa já estava nos hospitais da cordilheira fazia tempo, pois eram poucos os cientistas que tinham filhos. E depois do exemplo de Reginaldo e Rosa, todo adolescente estava sendo submetido à esterilidade. As meninas com silicone, os rapazes com a velha vasectomia, mas agora ela era reversível. Desta feita, se podia permitir o namoro aos jovens sem perigo de uma gravidez indesejada, e sem o terrível aborto obrigatório.
Tiago e Fernanda, médicos formados com louvor, decidiram colocar em prática tudo isso. Compraram um pequeno edifício, e o transformaram na mais elegante “Clínica particular” dessa cidade, especializados em métodos anticoncepcionais. Simone abandonou as cabeleiras, e fez curso de enfermagem para entrar como auxiliar nas salas de cirurgia. Enquanto uma mulher dormia, ler nos miolos seria fácil, fácil. E nos homens, melhor ainda, pois Tiago os faria dormir completamente.
E tudo que podia ser exposto, seria divulgado nas ruas para a povoação.
E esse jornal começou a provocar uma reação violenta.
Mortes misteriosas começaram a acontecer. Repórteres de diários oficiais apareciam mortos, enforcados na maioria das vezes, e muitos periódicos foram fechados. Estabeleceu-se uma vigilância noturna mais eficaz, com centenas de militares armados percorrendo as ruas, e qualquer suspeito era levado à delegacia para interrogatório. Para Fabiano, Carlos, e os distribuidores ficou arriscado entregar o jornalzinho de casa em casa. Por isso então, entravam nos esgotos, iam para bairros onde a vigilância era fraca, e instruíam desta vez para o povo mais injustiçado. Se bem que a maioria não sabia ler, mas as crianças compreendiam, e podiam decifrar para os pais. Além do que, a pobreza era experta. Escondia a informação entre as roupas, e tinha os que as deixavam cair nas cidades em meio de praças públicas.
Enquanto isso Nina enviou as antenas para o espaço sem chamar atenção de ninguém, no momento em que o ônibus espacial de Mário transformava-se do dia para a noite, na notícia do momento.
Num mundo onde a aviação se limitava a helicópteros, e aviões de pequeno porte, só para milionários e autoridades, essa nave espacial transformou-se na notícia mais quente, em todas as cidades do mundo. As fotos da construção dessa nave eram acompanhadas pelos jornais com destaque, como se tudo fosse graças ao rei. Pela primeira vez, o homem viajaria além da terra, e o próprio Rei Adolfo visitava as obras, colocando toda a fortuna do governo na sua construção.
O Rei Adolfo também anunciou aos jornalistas que seria inaugurada a rede de “televisão”, numa empreitada governamental. Adolfo escolhera cinco cientistas das montanhas, para fazer o projeto das torres retransmissoras de imagens, e a empresa que fabricariam os televisores.
Havia o consenso geral nas reuniões do palácio, que distrair o povo seria a melhor forma de contra-atacar o inimigo invisível. Abriu-se licitação pública para que todas as novelas de rádio fossem transformadas em teatro ao vivo. Também se contrataram artistas de circo, de teatro, músicos, para arquitetar os programas para televisão. Isso ia colocar a mulherada de olhos nas histórias, e não teriam tempo de ler ideias subversivas. Também se montaram auditórios onde se fariam shows ao vivo, contrataram-se mulheres lindas para distrair as crianças, com danças, musiquetas, teatrinhos, e muitas das historinhas infantis encontradas nas Bibliotecas começaram a ser adaptadas para televisão.
Mas, lá no fundo, não saber quem é que eram ANA nem ARIEL encerrava os conselhos de governo com um ar de fracasso.
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