De amor e de sangue. Segunda parte
2 A vida nas montanhas
Notas iniciais
Longe dali, na montanha, havia uma liberdade maior para o amor, pois as crianças ingressavam no Jardim de Infância aos quatro anos de idade, enquanto seus pais pesquisavam para o governo. Eles acordavam cedo pela manhã, quando o alarme do relógio de casa tirava todos da cama, e voltavam dessa Escolinha ao entardecer.
Mário e Nina cresceram dentro de Educandários, sempre sentados na última fila, bem juntinhos, ao lado de Reginaldo, Rosa, Abelardo e Marlene. Os seis estudavam juntos, comiam um ao lado do outro, dormiam a sesta, e a caminho de casa faziam corridas pelas ruas, pois os pais estavam sempre ausentes. Quem cuidava deles em casa eram empregadas domésticas, que os colocavam a dormir cedo.
Nos finais de semana, desfrutavam da companhia de seus pais, e passeavam na beira do lago, fazendo piqueniques, ou pescando. A gurizada jogava bola, dava cambalhotas, pois a infância nesse lugar era feliz. Os soldados os vigiavam de longe, para evitar fugas, mas, além disso, não faziam nada que atrapalhasse o trabalho das pesquisas, nem a harmonia familiar dos gênios. Além do que, a grande maioria dos cientistas havia nascido naquele lugar. O único contato com o mundo externo eram os jornais oficiais, e o rádio, com músicas e notícias do dia a dia. Eram gênios sem laços com o mundo exterior, mas não havia descontentamento, pois naquele lugar não eram conhecidas a “criminalidade”, nem a miséria.
Quando Nina ganhou sua primeira menstruação, Mário foi até sua casa para pedir “licença para casar”. E seu futuro sogro o recebeu na porta, cara feia, olhando-o frente a frente, enquanto lhe falava aos gritos:
— Mas, eu não acredito no que estou ouvindo... Casamento não é permitido para guri metido à gente grande, só é autorizado nesta cidade depois de concluir estudo superior. Além disso, depois da faculdade vão ter que fazer Pesquisas. Peça-me isso aos 30 anos...
— Então eu vou engravidá-la... E me parece que vou ser obrigado a casar para limpar a honra da família...
— Você só fala besteira, meu cara... Se ela engravidar, seu feto vai ser retirado da barriga de minha filha em pedacinhos de meio centímetro, sabia? Use camisinha, namorem às escondidas em algum beco, e não me incomode mais...
E uma porta fechou na frente do seu nariz, deixando Mário estupefato, pois estava na frente do “gênio” mais ilustre dessa cidade.
Rosa e Reginaldo tiveram um destino trágico.
A camisinha de Reginaldo rasgou e Rosa ficou prenhe. Ajudados por Mário, esperto em apagar rastos de fuga, viajaram para o Norte no meio da noite, para evitar a morte do menino. Eles só foram encontrados numa caverna quando Rosa estava com um barrigão enorme, a ponto de ter o filho. Como o aborto não era mais possível, ela foi presa e seu filho nasceu na cadeia, enquanto Reginaldo era obrigado a estudar em casa em prisão domiciliar.
E foi desta maneira que Rosa teve seu guri, numa cela minúscula, sem nenhum amigo ou familiar por perto. Muito menos o pai do menino, que soube do nascimento através de um carcereiro.
Durante um encontro Reginaldo foi acalmado pelos amigos, pois seu desejo era explodir a Universidade. Abelardo, que sempre fora o mais calmo, insistia que a inteligência os guiaria pelo caminho certo. Não era hora para pânico. Reginaldo Júnior estava em segurança, então para que o sufoque, era mais sábio esperar que a poeira abaixasse e um dia ele carregaria seu filho no colo.
Mário os escutava, tentando lembrar-se de um sonho que o martirizava.
A “antiga civilização” não estava desaparecida. Estava oculta embaixo da terra. Mas, onde? As colinas estavam cheia de escavações com arqueólogos trabalhando arduamente, e só havia túneis sem fim, cavernas escuras, com desenhos que ninguém entendia. Os sábios fotografavam tudo, depois mandavam imprimir e os livros eram colocados em estantes das universidades para serem pesquisados. Mário havia-os lido todos, mas ali só havia encontrado historinhas. E, como num “passe de mágica” lembrou-se do velho elevador da montanha. Será que ele havia cruzado os milênios? Pegou lápis e papel, fez um mapa, depois mostrou para seus amigos, e organizou uma expedição às 2 da manhã. Era a hora em que a guarda armada dormia e poderiam sair da cidade sem serem vistos.
Como Reginaldo estava “preso” dentro de casa e Rosa na cadeia, Mário, Abelardo, Nina e Marlene, saíram de casa vestidos de preto, como gatos noturnos. Caminharam se escondendo da guarda noturna, em busca da entrada do túnel que levava até esse elevador. Um túnel que era coberto por uma pedra circular. Os quatro amigos empurraram com força, até deixar uma brecha por onde podiam entrar um a um. Nina ascendeu uma lâmpada, e caminharam sem medo.
E o velho elevador era moderníssimo desta vez. Abriu sozinho, assim que detiveram a caminhada frente a frente de uma porta vermelha, e no interior encontraram uma cabine de vidro iluminada com luzes verdes. Desceram a montanha velozmente, sem sentir a velocidade, como se flutuassem no ar, e saíram para outro túnel de terra que terminava em meio da mata fechada, completamente oculta à vista dos homens.
Finalmente, depararam com uma estranha pedra com inscrições, em cujo lugar um mapa era descrito com claridade. Mário leu com coração palpitante, enquanto Nina anotava, desenhava, até completar todos os dados.
Em seguida, contaram 400 passos para o Sul, puxaram uma alavanca numa rocha gigante, e um caminho se abriu diante deles. Assim que colocaram o pé dentro desse corredor, ele se iluminou como por arte de magia, mostrando na frente às escadas rolantes que iam para as profundezes. Fecharam a entrada, desceram pelas escadas, e caminharam de boca aberta, pois era lindo demais. Cheio de plantas, flores, que cresciam nas entranhas da terra como se estivessem ao ar livre. E finalmente chegaram a uma abertura tão grande, que mais parecia uma cidade de outro mundo, totalmente desabitado. Nenhuma pessoa em lugar nenhum. Apenas passarinhos, borboletas, abelhas, que voavam entre o matagal, quais donos absolutos daquele lugar. Havia um lago maravilhoso, e residências de todos os tamanhos. E dentro desses domicílios, os segredos que os sábios deixaram-lhes de herança, a Biblioteca mais fantástica da terra. Eram uns 80.000 livros em estantes organizadas por assunto, e depois por ordem alfabética. Também acharam um mapa indicando os caminhos subterrâneos que uniam esse lugar com todas as Ilhas, com estações onde havia metrôs, motos, e outros artefatos modernos, prontos para entrarem em ação. Era incrível. Durante centenas de anos, essas pessoas espionaram a civilização bárbara de perto. E um dia chegaram à conclusão de que não valia a pena salvá-los. Ou, pior ainda, haviam concluído que um dia se eliminariam a si mesmos.
Mudos pela surpresa, só atinaram a levar alguns livros de engenharia avançada. Os mapas os esconderam entre as roupas, e saíram correndo, pois estava na hora de voltar para a Universidade.
Dali em diante, esses livros se estudavam dentro de casa. Desta feita foram armazenando uma “ciência oculta”, só conhecida por eles mesmos. Informação que as mulheres escondiam em casa, embaixo do assoalho, ou entre as telhas das casas.
A parte mais difícil foi enviar “os mapas subterrâneos” para os amigos da cidade baixa. Amigos que de vez em quando falavam com radioamador, solicitando solução para alguma pesquisa universitária.
A solução chegou no dia em que Reginaldo construiu um “radioamador”, escondido no seu guarda-roupa.
Foi à vez de reinventar, mais uma vez, um “Código Morse” e um telégrafo.
Com o radioamador, Mário conseguiu falar com um revolucionário, que lhe deu o nome de Fabiano, o homem mais rico da cidade e um líder nato. Era quem detestava os homens de governo, odiava militares, e entre amigos de confiança sempre deixava claro que um dia esses abusos teriam que terminar.
E Fabiano, incrédulo, marcou com Mário um encontro, com dia e hora marcada, num lugar secreto, desconhecido pelo mundo. Encontrar-se-iam na metade do caminho, na estação 360. Mário lhe disse que teria que entrar nos esgotos, e procurar as portas pintadas de vermelho. Elas se abriam com uma alavanca. Atrás da porta, encontraria uma escada rolante que descia até uma rua subterrânea, em cujo lugar encontraria motos estacionadas. Teria que procurar a rua em direção para o Leste.
Fabiano, num final de semana, abriu a tampa de um esgoto numa rua deserta, colocou botas até o joelho, desceu por uma escada e caminhou no meio da merda flutuante em busca da abertura misteriosa. Quando a porta se abriu, Fabiano viu uma escada caracol que descia se perdendo nas sombras. Baixou com peito palpitante, e no último degrau tudo em redor ficou iluminado, como num passe de magia. Tirou as botas, colocou um tênis esportivo, e caminhou com o coração apertado. Subiu numa moto e correu pelas ruas desertas. Ela possuía três rodas, uma na frente e duas na parte atrás. Várias horas depois, desceu para abraçar Mário, que estava sentado num banco, vestido de preto como uma pantera.
Os dois se abraçaram segurando a emoção. As imagens das vidas anteriores os fizeram se reconhecer no primeiro olhar. Era como encontrar um irmão muito querido, mas, visto pela primeira vez.
Mário vestia-se como mendigo. Macacão velho de algodão, cabelo solto, despenteado, e sapato desgastado. Parecido com os garis da cidade que recolhiam o lixo. Já Fabiano vestia como um príncipe, com um corte de cabelo moderno, perfume masculino, um brinquinho na orelha direita e um boné última moda com um cachecol masculino. Gargalhando da pobreza dos gênios, terminaram trocando de roupas. Mário jurava que nunca estivera tão elegante. Afinal, era um casaco de couro curtido, última moda entre os jovens da cidade, tênis maravilhosos, e um jeans justo que deixava a bunda levantada. Quando encontrou um saco de linho, imediatamente, devolveu-a. Fabiano insistiu em dar de presente com tudo que encontrasse lá dentro. Era uma pequena fortuna, 5.000 moedas de prata para repartir com seus amigos.
— Obrigado, cara. Minha amiga Rosa sequer tem fraldas para o filho nessa cadeia. Tu deves te lembrar dela, de Reginaldo, a Marlene, o Abelardo. Ou não?
— Cara, eu estou amnésico. Não me lembro de nada. O que temos que fazer, afinal?
— Revolução! Não estás lembrando-te de nada? Sequer da tua mulher?
— Eu tenho esposa? Deve ser por isso que ainda estou virgem, só não sabia por quê.
— Nossa! Acalma-te, procura a todos os nossos amigos na Escola de gênios, pois só podem estar lá. Nossa missão é derrubar a ditadura e evitar o extermínio da humanidade... Mais cedo ou mais tarde vão inventar as bombas de extermínio. Na medida em que o mundo cresça, e comece os levantes, vão bombardear as cidades inteiras. Eu ainda não tive acesso aos laboratórios de extermínio, mas, tem um lugar na montanha onde ninguém entra. E lá só deve haver morte.
— Vai ser difícil, cara! Só na fábrica de meu pai há uns 20 soldados armados até os dentes. Nem dá para dar risadas, nem para falar nada. E revistam os “livros caixa” periodicamente. Trabalhamos de graça para o governo metade do ano. O nosso mundo é composto hoje por um punhado de idiotas que rala, enquanto a outra parte usufrui de nosso suor.
— E me falas a mim? Somos escravos, cara! Meu último salario semanal foi de 5 moedas de prata...
— Fala sério! O faxineiro da fábrica ganha 10.
E riram até engasgar.
Mário deu-lhe uma mochila cheia de “coisas”, entre eles o telégrafo e o código Morse, que ele colocou nas costas. Em seguida, cada um regressou pelo caminho que havia chegado.
Dias depois, já escondido no seu dormitório, Fabiano examinou o mapa que indicava as ramificações da cidade subterrânea com todas suas entradas. Depois, riu com ele mesmo, pois havia entrado através da abertura mais nojenta.
Depois de messes lendo os livros secretos, Mário com seus amigos entregaram relatórios com coisas inofensivas, como a descoberta de novos planetas no observatório da Universidade, de novas Galáxias, da existência de buracos negros, temas que deixou os astrofísicos alvoroçados. Abelardo havia desenvolvido novas lentes para ver mais longe, e os astrofísicos estavam empolgadíssimos com as novas descobertas. Muitos daqueles novos planetas tinham características de mundos com vida.
Junto aos acontecimentos, Reginaldo teve seu castigo suspenso, e Rosa saiu da prisão para abraçar os amigos e fazer Reginaldo chorar em público, abraçado a seu guri. Todos afirmavam que o Reginaldo Júnior era o retrato fiel de Reginaldo, o que o fazia rir em meio da choradeira.
Mas a grande mudança, na vida dos seis amigos, aconteceu quando foram convidados a entrar no CPE, “Centro de Pesquisas Especiais”, em cujo lugar tudo era analisado “em segredo”. Eles foram alertados de que nada do que acontecia nos laboratórios saía para o exterior. E nunca podiam sequer comentar seu próprio trabalho. Seus descobrimentos pertenceriam ao reinado. As patentes de novos produtos também. Nada lhes caberia. Tudo que patenteassem seria para a grandeza do rei, e do povo. Depois dessas explicações, penetraram num corredor, desceram por elevador, saíram para uma cabine onde ficaram nus, tomaram banho, e vestiram roupas especiais com máscara, luvas, e sapatos higienizados. Pareciam astronautas.
E sem falar nada, descobriram que os sabichões, além de adentrarem na carreira armamentista, com a criação de 10 modelos diferentes de foguetes de destruição de longo alcance, os geneticistas da cordilheira haviam chegado, finalmente, ao consenso geral, de que os homens descendiam das cobras. A “Teoria da evolução” era a questão mais quente no médio científico. E para saber tudo sobre o homem, os especialistas faziam estudos bizarros com os pobres bichos. Num laboratório, Nina achou 100 espécies de cobras em gaiolas, todas deformadas através de experiências genéticas. Havia-as com 5 cabeças, as cobras cabeludas no corpo inteiro, as cobras sem pele, e milhares de fetos pequeninos em garrafas transparentes, cujos corpos flutuavam numa mistura aquosa, tanto de cobras como de seres humanos.
Marlene, que entrara na ala de “Cosmética e Assepsia”, com a intenção de fazer cremes de beleza e pomadas para infecções, levou várias surpresas desta vez. A primeira coisa que aprendeu, é que tudo que fosse inventado tinha que ser experimentado numa serpente, para observar resultados. E viu com pavor cobras cegas, por causa de colírios assassinos, ofídios com feridas purulentas, por causa de produtos mais daninhos ainda, e vários tipos de tumores horríveis, por causa dos efeitos colaterais daqueles achados que não davam certo. Para cúmulo, o destino das cobaias era a incineração. Geralmente vivas.
Na hora do almoço, os homens passaram a cuidar das lágrimas das namoradas, que choravam em coro, por causa das cobaias. E Reginaldo, com o Reginaldo Júnior no colo, voltava a afirmar que, mais cedo ou mais tarde, ia detonar com todos os laboratórios dessa cidade.
Mas, Abelardo, com sua calma e sorriso doce, o abraçava, e perguntava:
— Quer que isso seja publicado? A história do nascimento do Reginaldo Júnior? Deixa isso para o futuro. Agora vamos ajudar os amigos da “cidade baixa” a fabricar coisas úteis e a ganhar dinheiro. Fotografei 60 artefatos estranhos, e temos que desvendar a serventia deles. Depois, enviamos para Fabiano fabricar.
Mário, que escrevia de punho, perguntou:
— Mas, o que é que se inventa de tão bom, afinal?
Marlene respondeu:
— Cosméticos. Cremes para evitar rugas, flacidez, envelhecimento, mas, tudo deve ser vendido a preço de ouro, lá embaixo, entre os ricaços...
Nina interveio:
— É isso! Vamos fazer uma listagem dos achados. Eu descobri as micro-ondas...
E em coro todos falaram:
— E o que é isso?
— Fogão. Forno caseiro que cozinha tudo através de ondas magnéticas... Sem carvão, nem gás, só tem que ser ligado na tomada elétrica. E o protótipo está num depósito há uns 15 anos. Está todo empoeirado...
Rosa quase gritou:
— Mas, as bombas estão novinhas. Ontem, saiu um caminhão cheio delas, e ninguém sabe onde foram...
Mário ficou apavorado. Ainda não havia bombas nucleares, pois o estudo do urânio enriquecido não existia. Mas, e se houvesse? Significava que os gênios da destruição não estavam por ali perto, nos laboratórios desse lugar. O inimigo possuía mais segredos daqueles que conseguiam desvendar. O futuro estava cada vez mais tenebroso. E eles nunca mais descansariam. Teriam que viajar para a “cidade baixa” através dos túneis levando descobertas boas, e informar através do radioamador de tudo para os revolucionários. E o que era mais tenebroso, nunca deveriam ser descobertos por ninguém.
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