De amor e de sangue. Segunda parte
8 A nova era
Notas iniciais
A primeira reunião do novo governo aconteceu numa sala gigante de um edifício, e em cujo interior havia sido instalada uma mesa redonda com 32 cadeiras. Nas demais dependências, daquele lugar, havia oficinas comerciais e algumas lojas de vestuário. E na entrada principal, portas gigantes com guardas de uniforme que davam informações sobre o lugar. Mudança dos novos tempos, pois no reinado de Adolfo desfilavam soldados armados vigiando o povo que entrava e as pessoas que trabalhavam naquele lugar.
Tiago cumprimentou a todos os invitados, com Fernanda abraçada nele, declarando que as esposas poderiam vir às reuniões, quando quisessem, com direito a dar palpites.
Já sentados ao redor dessa mesa, em fronte a cada um, havia um relatório com estatísticas, levantado durante anos de estudo nas Universidades das montanhas. Estatísticas que ninguém conhecesse no passado. Sequer os telejornais sabiam da existência de tanto conhecimento. Já as Universidades da cidade baixa, possuíam relatórios volumosos sobre a distribuição de renda dentro do reinado, os índices de escolaridade em todas as cidades, estatísticas sobre a mortalidade infantil, sobre demais doenças que matavam o povo menos assistidos, e outras estatísticas com listas que não tinham fim.
E Tiago falou com um sorriso discreto, que sabia era por onde começar, sem desestabilizar a economia mundial. Pedia sugestões aos gênios das finanças. Afinal, havia 3% da população com renda milionária, donos de bancos, de supermercados, de empresas, e todos eles queriam continuar a ser milionários. O resto do povo, ou seja, 97% da população, metade possuía trabalho com “renda aceitável”, e a outra metade era simplesmente miserável. Vinte por cento viviam ao relento, e sobreviviam de furtos, esmolas e prostituição. As cidades subterrâneas podiam ser ocupadas com uma parte deles. Mas, mesmo assim, essa gente necessitaria de escolas, hospitais, profissão e trabalho. Lá embaixo, só existiam casas desocupadas, e ruas desertas.
E para ter uma luz, em primeiro lugar, avaliaram a fortuna do reinado.
Incluíram, no balanço, as empresas do estado, os bancos governamentais, tudo que pertencia agora a eles mesmos. Tiago deu um assobio, pois era a maior riqueza que existia no planeta. Depois de rirem por longo tempo, começaram por decidir o quanto ganharia cada um deles. Depois, escreveram os novos salários para trabalhadores do governo.
Continuaram a observar o gasto obrigatório, começando com as despesa com os “Presídios de seguridade máxima” que abocanhava 20% do orçamento. Existia muito delinquentes nas prisões. Uma, em cada dez pessoas, estavam atrás das grades. Com certeza, havia gente inocente nelas. Para desvendar o mistério, Tiago e seus assessores decidiram abrir concurso público para 10.000 Juízes, que analisariam todas as condenações de todos os presos, em todo canto do reino, e eles próprios fariam uma visita surpresa aos Presídios para conversar com os detentos.
E encerrou-se essa primeira reunião, após 10 horas de trabalho em parar, deixando muita coisa para ser decidida no futuro.
Os “Presídios de segurança máxima”, que eram fortalezas em forma de castelos, eram belos por fora, mas lá dentro era um pesadelo. Tiago entrou acompanhado por 5 conselheiros, no “Presídio real”, onde, no passado, o Rei Adolfo torturara sem dó nem piedade. Entrou em torres altas, e achou pessoas boiando no ar, acorrentadas e feridas. Em seguida, encontraram alguns detentos pendurados em gaiolas de ferro, em meio ao calor do meio-dia. E, por último, deparou com 80 semimortos estendidos em camas imundas, e na beira da morte.
Segurando o nojo, Tiago ordenou a remoção dos enfermos para hospitais públicos, e se perguntou a si mesmo o que é que iriam fazer com esses homens. E começou a dialogar com seus assessores, alguns tópicos que seriam bons para o futuro, na sala do diretor daquele presídio. E as ideias sobre o destino dos encarcerados pouco a pouco foram sendo rascunhadas com euforia. O planeta possuía atóis de ilhas paradisíacas, virgens, nunca antes habitadas, e em cujo lugar se poderiam abandonar criminosos de baixa periculosidade, fazendo-os trabalhar na roça, e desocupando desta feita todos esses presídios superlotados. Poderiam sustentar nas masmorras apenas os psicopatas. Além disso, poder-se-ia abrir concurso público para 300 vigilantes, para cada Presídio, mas desta vez, seriam médicos, professores, enfermeiras, pois lá dentro todos estavam doentes. Aboliriam os castigos físicos, e nas ruas se usaria uma nova arma, que desmaiaria um larápio, mas não mataria ninguém, só o faria dormir por 10 horas a fio. Suficiente para transporte e encarceramento do réu. Não era certo continuar com a tortura, pois isso aumentava a rebeldia, o ódio, e o detento em lugar de se redimir saía das prisões com ânsia redobrada para matar.
Nas reuniões dos dias seguintes, todos concordavam que colocar um ladrão a viver isolado no fim do mundo seria o castigo mais cruel de todos. Tiago falou de seu drama quando criança, das visitas que ele próprio fazia ao seu velho com comidas gostosas, roupas perfumadas, e como Filomena o visitava aos fins de semana. Se o seu pai tivesse perdido o contato com a família, ele teria morrido em vida. Ele era capaz de suportar açoites, mas, perder de vista sua mulher e filhos eram impossíveis. O velho adorava seus guris. Com certeza, isso era normal entre os detentos.
Após muitos dias de debates, 20 assessores partiram com destino às ilhas em busca dos lugares ideais para remoção de larápios. Dias depois foram construídos casebres, e semeado na terra legumes, hortaliças, em todas as ilhas onde havia rios, lagos, cachoeiras de água doce, na verdade as ilhas eram paraísos de beleza incrível. Dava vontade de se mudar para lá com os presos.
Enquanto isso, Tiago chamou a uma reunião a todos os “milionários” da terra.
Tiago e seus auxiliares entregaram para os homens mais ricos do mundo as estatísticas da criminalidade, da pobreza, do analfabetismo, da mortalidade infantil, e solicitaram aos ricos que doassem uma parte de sua fortuna para acabar com tudo isso. Começariam pela edificação de “cidades populares”. Nessas novas urbes, se poderiam construir fábricas, pois dali em diante as patentes, marcas, e royalties não existiria mais. Eles podiam fabricar o que desejassem, sem pedir licença para ninguém.
E os milionários foram bondosos.
Todos doaram 30% do que possuíam, para construção dessas casas, e dez milionários se prontificaram para fazer parceria com o governo. O poder empresarial construía corporações, butiques, supermercados, e teatro para músicos, bailarinos, atores e palhaços de circos entreterem o povo com sua arte. O governo construiria as Escolas, as Universidades, os Hospitais e os “Crematórios”. Afinal, cemitérios seria coisa do passado.
Marcaram no mapa espaços no meio do mato, perto de lagos e rios, para levantar cidades com no máximo 30.000 pessoas. Para não contaminar as águas, o governo levantaria usinas de esgotos, que separariam a parte líquida e a parte grossa. Depois essa água líquida seria purificada, voltando cristalina para os rios e lagos. E a parte graúda serviria de matéria prima para “combustível de cocô”. Uma usina que os gênios já utilizavam no passado, na extinta cidade da montanha.
Todos caíram na gargalhada.
Tiago acrescentou que a urbanização dessas pequenas cidades seria totalmente ecológica e planificada por gente especializada, preservando áreas verdes, e poupando árvores centenárias. Nas ruas, não haveria asfalto desta vez, somente pedrinhas pequenininhas, que ajudariam a escorregar água em dias de aguaceiros e evitavam enxurradas. Para não agredir a natureza, nem matar bichinhos, as casas seriam “palafitas”, numa altura de 3 metros acima do chão. Espaço suficiente para os animais perambular por baixo dessas casas, e para o chão sugar água das chuvas. Os Hipermercados e demais estabelecimentos teriam que ser arquitetados no mesmo sistema. Cavar os alicerces do edifício, e em seguida deixar um espaço aberto, na altura do chão, para circulação de gente e de bichos.
Os milionários, mudos pelas novidades, folhearam incrédulos 20 livros com desenhos arquitetônicos, trazidos das bibliotecas da cidade subterrânea. Eram edificações que saíram da imaginação de arquitetos sábios, e deixados como um presente para o futuro. Futuro que finalmente estava começando. O mais lindo de tudo era o custo. Materiais baratos, pré-fabricados, encaixados, como quebra-cabeças gigantes.
Meses depois, foi organizado o primeiro “Congresso de agricultores” organizado por 50 cientistas, que viviam na cidade subterrânea, sem fazer nada além de escrever livros. Gênios que sabiam tudo sobre economia sustentável. A pauta desse encontro era sobre o manejo das terras, a distribuição de produtos cultivados, o armazenamento, e novas técnicas agrárias. Para a ocasião Tiago alugou um terreno, e fez levantar tendas e salas com material pré-fabricado, para reuniões, encontros ao redor de uma mesa, cozinhas para atender os participantes, latrinas móveis, eram um acampamento gigante com cadeiras e mesas em todo lugar.
E de todos os cantos do mundo, aportaram donos de terra, lotando todos os hotéis da cidade. Homens trabalhadores, que viviam espalhados em lugares distantes, cujas lavouras alimentavam o povo e abasteciam as usinas de óleo combustível.
A primeira palestrante desse encontro foi Marlene, que também distribuiu um livro com cultivos ecologicamente corretos. Falou que o ideal era poupar um “quinto da terra” para regeneração da mata nativa, deixando corredores de intersecção entre fazendas, para os bichos se locomover de um lugar a outro e fazer a simbiose. Explicou as vantagens que o mato trazia para a agricultura, cuja emissão de fluidos contribuía para manter a umidade do ar, atrair as chuvas, evitar as secas. Expôs mostrou as vitaminas existentes no mato selvagem, que, além de servir como adubo da terra, atrairia as pragas, e desta feita pouparia a invasão da roça. Terminou falando que era aconselhada a múltipla cultura, ou seja, milho ao lado do feijão, do tomate e das hortaliças, pois, combinadas, uma dava sombra para a outra.
Numa outra tenda gigante, Abelardo e Reginaldo mostraram miniatura de máquinas agrícolas, movidas com antena solar e com a “força mental”, numa combinação de duas energias. Mostraram ao público 8 modelos que deixavam curiosos empresários, fazendeiros, e homens simples da roça. Gente que ralava de Sol a Sol em plantações pequenas. Para dirigir um artefato desses, o agricultor usaria um elmo esquisito, que captaria a potência cósmica, e o protegeria do calor. Abelardo mostrou fotografias dos antigos capacetes espaciais, cuja força havia locomovido uma nave pelo espaço.
Desta vez, os fazendeiros enlouqueceram, aplaudiram, fizeram perguntas, examinaram as miniaturas das máquinas, pois se economizaria uma fortuna com óleos combustíveis.
E os dias transcorreram em harmonia, música no fim das palestras, banquetes entre novos amigos, e principalmente ao redor dos gênios que eram consultados sobre tudo, até se era possível eles trabalharem na roça junto com todos eles. E o sucesso foi tanto, que antes de ele terminar, os gênios que palestraram, dias a fio, tinha emprego fixo em chácaras agrárias. Cientistas dispostos a trabalhar ao ar livre, de preferência numa ilha paradisíaca.
Em meio de todo esse trabalho, no qual Tiago envolvia todos seus amigos, Nina engravidava também do primeiro filho. Seu silicone desprendeu sozinho de uma trompa, deslizou, saiu junto com sua urina, e ela engravidou sem sequer perceber. Sua barriga começou a crescer, deixando Mário na beira da loucura, pois ele adorava ter filhos.
Enquanto o mundo mudava e entrava numa nova era de justiça social, a vida de todos os amigos também mudava e entrava numa rotina deliciosa.
Mário, que era o conselheiro particular de Tiago, com sabedoria para resolver qualquer problema, além de fazer desenhos de engenharia para ele, planejar investimentos, desenhar novas fábricas, entrou definitivamente na vida mansa, fechado dentro dessa mansão. Mário e Nina acordavam tarde, depois de virar a noite no chamego, pois essa revolução havia sido estressante. Quando Fabiano e Eloísa chegavam de surpresa, com cumbucas fumegantes de comidas para almoçar, eles estavam de pijamas, chinelos no pé, ou, de trajes mínimos enfiados na piscina. Depois iam aparecendo Abelardo e Reginaldo com as esposas, que sempre compravam algo pronto nos restaurantes da cidade, e almoçavam nos jardins da mansão. Quando Carlos e Simone chegavam da ilha, se deparavam com toda a galera, amontoada sobre almofadas macias, escutando músicas, ou esticados ao Sol na beira da piscina, com os empregados recolhendo pratos, ou, servindo sobremesas gostosas, ou, trazendo garrafas de sucos ou, de cervejas.
Quando o Rei Tiago chegava a casa, no fim do expediente, encontrava a bagunça de sempre. Ele nem parecia ser o dono dessa mansão. Todos os amigos riam alto, falavam piadas, organizavam festas, viagens em iate pelo mar, deixando para Tiago os problemas de governar. Ele era o único com expediente completo, prisioneiro das reuniões de estado, com uma agenda rígida a ser cumprida.
Mas, quando essa mansão lotava mesmo era em datas de aniversários.
Os pais de Fernanda, de Simone, de Eloísa, chegavam junto com outros filhos, que somados a família de Tiago formavam um batalhão. Também começaram a visitá-los os familiares de Nina, Mário e todos os amigos da montanha, espalhados em fazendas agrícolas.
Durante uma viagem de férias, Tiago e Fernanda foram visitar Filomena e Eugênio. Correndo pela praia, rindo, cabelos esvoaçando ao vento, feliz como nunca, Fernanda engravidou, pois Rosa havia tirado o silicone de suas trompas. Eles ficaram noites enrolando sobre a areia, até o amanhecer, como namoraram pela primeira vez nessa lua de mel ao redor do mundo.. Viram o Sol nascer no horizonte muitas vezes, abraçados, olheiras no rosto, pois o namoro para engravidar havia sido fora do normal. Só regressaram para sua cidade, quando os dias de férias do Rei terminaram. Filomena os deixou no cais, abraçada a Eugênio, chorando, pois Fernanda prometera que se tivesse uma filha a chamaria igual a ela.
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