Notas iniciais
Nina descobriu, por acaso, o tijolo para construção. Fez moldes com madeiras, que preenchera com argila, realizando desta feita muitos cubos iguais. Depois os enfileirou para secar, na sombra, e finalmente os queimou num forno redondo, feito de argamassa grossa. Tiago e Mário se encarregaram de levantar a primeira casa de tijolos, cuja técnica de construção era completada com a argamassa, que já era conhecida e usada pelo povo.

Mas, um dia, os quatro entenderam que estava na hora de se unir à vida desse povo encantador. Não se podia abusar eternamente. Além do mais, as mulheres queriam aprender a fazer pão e os maridos as apoiavam, pois essa iguaria os havia cativado na primeira mordida. E se apresentaram ao pajé, para perguntar o que é que deveriam fazer. E o velho lhes respondeu:

— Vão ter que trabalhar.

E depois o velho caiu na gargalhada, lhes mostrando ao longe as grandes lavouras que se perdiam de vista no horizonte.

Dali em diante, Mário e Tiago saíam de casa ao raiar do sol, para colher milho, batatas, cenouras, tomates, feijão, e uma infinidade de legumes, que carregavam nas costas, e deixavam em carretas de madeiras, puxadas por um animal gigante e peludo, que fora domesticado pelos homens. Depois das colheitas, amontoavam as folhagens, fertilizavam a terra desnutrida com estrume dos bichos, fazendo sulcos para futuros cultivos.

As mulheres em casa ajudavam a preparar as mudas para as lavouras semeando grãos em vasos, enfileirando-as no chão, ou em canteiros domésticos. Assim que estavam boas para o transplante, alguém vinha buscar para levar até o campo. Elas também aprenderam a moer o trigo, peneirar a farinha, fazer o pão, cortar o leite para bater e obter a manteiga. Aprenderam a fazer o queijo, que serviam aos maridos no café da manhã. Quando seus amores chegavam a casa, tinham aprontadas a sopa e os cozidos de legumes, além do feijão com arroz, que era a comida principal. Nina incrementava o banquete com bolos de queijos, e Fernanda com arroz doce.

Voltar para casa na hora do almoço, onde eram recebidos na porta, por duas mulheres apaixonadas, era para Tiago e Mário o melhor momento do dia. Enchiam a barriga, famintos, pois o trabalho pesado abria o apetite, e depois eles faziam a “sesta”. Só que eles ficavam na cama até o dia seguinte, quando saíam, mais uma vez, ao trabalho coletivo.

Mas, na maturidade, Tiago e Mário começaram a se unir a outros homens em atividades diferentes, junto a suas mulheres. Afinal, além do trabalho da roça havia o artesanato em metal, couro, e até os artífices do vidro. Gênios que possuíam seus ateliês no centro da cidade.

Fernanda se tornou musicista. Ao lado de uma mulher, aprendeu a esticar as tripas do bode para fazer cordas, arquear madeira, e fazer amarrações. Depois de o instrumento ficar pronto, ela aprendeu a puxar o som. Um som de cada vez, fazendo uma sequência desde o tom mais alto até o mais baixo. Para não esquecer, escreveu tudo numa folha de papiro com pontos negros e redondos, por cima de 5 linhas, que marcavam intervalos variados. Fazia curvas entre os pontos, menores, maiores, conforme o tempo que o som se alastrava. Depois, explicou tudo isso para os amigos.

Nina descobriu, por acaso, o tijolo para construção.

Fez moldes com madeiras, que preenchera com argila, realizando desta feita muitos cubos iguais. Depois os enfileirou para secar, na sombra, e finalmente os queimou num forno redondo, feito de argamassa grossa. Tiago e Mário se encarregaram de levantar a primeira casa de tijolos, cuja técnica de construção era completada com a argamassa, que já era conhecida e usada pelo povo.

Era o início de uma nova era.

Casarios maiores, de paredes mais resistentes, com janelas de vidro grosso, e belíssimas. O vermelho do tijolo dava um ar encantador às novas moradias. Além do que, Nina fazia canteiros de cerâmica para floreiras, que eram colocadas embaixo das janelas com mudas de fina flor multicolorida. O resultado final era lindo, e incitava o povo a construir novas casas de tijolos formando vilas que aumentaram o tamanho da cidade.

Fernanda com o tempo descobriu que as notas podiam ser interpretadas em qualquer instrumento. Bastava apenas colocar tempos diferentes, pois os bandolins tocavam notas ligeiras, enquanto as flautas emitiam sons intermináveis. Junto a um grupo de amigos, ela formou uma orquestra cujo som em conjunto resultou fascinante.

Com passar do tempo às melodias se multiplicaram, inventadas por outros músicos. Eles escreviam as novas composições em papiros, inaugurando o primeiro acervo musical dessa sociedade.

Mário e Tiago começaram a fazer esportes nos momentos de lazer, pois isso era mania nessa comunidade. Havia lutas ao ritmo de instrumento de cordas, com suaves golpes de pernas, de punhos, cujos saltos e cambalhotas eram cheios de graça. Lembrando sua época de soldados de guerra, Mário deu início às patadas de kung-fu, Tiago ensinou-lhes os golpes do karatê, inventando desta maneira novas modalidades de lutas que empolgavam crianças e adolescentes.

Como consequência lógica, nasceu a primeira Escola para juntar num mesmo lugar artistas e esportistas, que enlouqueciam as famílias com barulhos, corridas, saltos, e embates que lotavam casas, e tiravam a paz familiar.

Tiago e Mário se encarregaram de construir a Escola cujo interior possuía um lugar para um ginásio de lutas, outro para as brincadeiras com bola de tecidos, e outro ao ar livre para um jogo que se disputava com um bastão de madeira, pedras redondas, com uma área para fazer o gol. Depois, construíram uma sala para música, outra para cerâmica, outra para tecelagem e por último uma sala para fazer cestos de taquara trançada, e mobília de bambu.

Tiago e Mário se transformaram em professores de Educação Física.

Fernanda assumiu como professora de música, e Nina foi professora de cerâmica. As outras áreas foram sendo assumidas por artistas e artesãos. E muitas crianças invadiram o recinto para aprender tudo que os mais velhos sabiam.

A invenção da escrita aconteceu um dia, como uma consequência lógica de tudo aquilo.

Da mesma maneira como os acordes musicais eram registrados, os sinais da linguagem brotaram de mentes férteis, que desenharam uma forma para cada ideia. Misturados entre si, conseguiam formar uma palavra e uma frase. Escreveu-se cada sinal sobre folhas de papiro, como um dicionário, explicando em detalhes os significados de cada figura.

Escrever, ler, inventar histórias revolucionou a cultura desse lugar, do dia para noite. As crianças estudavam a escrita, e depois as disciplinas artísticas intercaladas à prática esportiva. Os adultos iam para Escola ver os filhos disputar jogos, ou tocar músicas, ou para admirar as exposições de cerâmicas, ou, examinar os cestos coloridos e trançados com graça. Nas aulas de tecelagem tingiam-se fios, e os misturavam formando figuras, cujos tapetes eram uma obra de arte. Já os móveis de bambu ficaram tão populares, que em cada mostra de trabalhos aparecia uma nova invenção. O povo, em geral, ficou orgulhoso dos resultados que saíram desse recinto cultural.

Os mestres mais velhos passaram a registrar seu próprio conhecimento para deixá-lo de herança. Livros com desenhos de mobílias, de tapetes, foram sendo produzidos e guardados ao lado dos livros de literatura e de linguagem. Quem escreveu a primeira autobiografia foi Fernanda, cuja narrativa começava no dia que conheceu Nina e Mário e saiu pelo mundo em busca do amor.

Nina, com ajuda de três amigas, preferiu selecionar 25 sinais para descrever o dialeto do povo das planícies. Essa língua primitiva mal possuía 100 palavras simples, apenas o básico para um povo que pensava pouco. Mesmo assim, conseguiu transformar esse dialeto em idioma falado e escrito. Nina escreveu, além disso, um dicionário bilíngue, explicando o que cada palavra significava, nos dois dialetos, e ensinou o idioma para uma dúzia de curiosos.

Com tanta produção literária, se fez necessário construir a primeira Biblioteca desse mundo para guardar as partituras musicais, os dicionários, e o registro histórico da humanidade. Tiago e Mário levantaram uma pirâmide desta vez, de pedra sobre pedra, para que fosse eterna e cruzasse os milênios. No seu interior, dispuseram estantes, para colocar papiros enrolados e selados com corda de algodão. Catalogaram cada estante com seus temas, para que as crianças não tivessem problemas de escolher um manuscrito.

Um dia, os quatro abandonaram todas as tarefas, pois nessa comunidade os homens trabalhavam até a idade dos 50 anos. Construíram duas casas na beira do lago, de tijolos, com lareira interna, chaminé, e estantes para os livros que traziam da Biblioteca. E se dedicaram a namor, tanto de dia quanto de noite, pelo resto da existência.

Como a prática do amor ardente os mantinha com energia e vitalidade, e o ar da montanha eram medicinais, eles nunca tiveram doença, nem fraqueza, nem cansaço. Uma vez ou outra, eram invitados por amigos para festas, onde havia música, danças, e risadas. E de regresso ao aconchego do lar, dormiam abraçados sobre esse colchão acolhedor, até que a fome os tirasse do eterno vício do amor.

Viveram felizes, até o dia em que a morte veio ao seu encontro.

Os quatro amigos morreram com uns 100 anos cada um, deixando uns 10.000 amigos chorando, pois os quatro foram amados com ardor.

Na vida espiritual, os Anjos Miguel e Francisca os receberam com um abraço, pois com a invenção da escrita os homens das cordilheiras iam evoluir depressa. Depois, Miguel deu-lhes 5.000 anos de folga.

Os quatro rumaram para as Ilhas desta vez.

Como os espíritos não respiram, Tiago e Fernanda mergulharam entre golfinhos e baleias, percorreram as profundezas da escuridão abissal, cujos peixes coloridos os surpreenderam. Abraçaram-se firmes, deixando-se levar pelas correntezas marinhas num passeio eterno.

Mário e Nina se estenderam ao Sol, sobre uma areia macia e gostosa, para um namoro sem fim. Como os espíritos não queimam na pele, nem sofrem com o frio da noite, deixaram que os dias e as noites se sucedessem eternamente. Podiam fazer amor como durante os dias vividos e podiam descansar em forma de conchinha.

Era como ser criança pela eternidade. Alegria de estar junto, e o maravilhoso prazer do namoro sem fim. A morte era, sem dúvidas, a recompensa às experiências sofridas durante a encarnação.

Quando escutaram que Tiago e Fernanda estavam chegando, os esperaram sentados numa roca. Depois chegou o Anjo Miguel, anunciando que haveriam de nascer. E desta vez, eles finalmente seriam pais, pois havia cinco espíritos cujo interior era tão puro e evoluído que nem eles. Essas almas iam nascer para ajudá-los em tudo que inventassem de novos.

Tiago falou:

—Eu era professor de química e física antes da guerra. Será que consigo lembrar-me de alguma coisa? Estou perdendo a memória...

— Eu ajudo com as suas recordações das vidas passadas. O que mais gostariam de fazer durante a vida?

Nina lembrou e disse:

— Fazer docinhos. Eu fazia chocolates, brigadeiros, hum...

O Anjo caiu na gargalhada e falou:

— Esqueceram que estão em plena pré-história? O máximo neste tempo, na terra, é escrever em rolos de couro, o que já é muita coisa para homens recém-saídos da barriga das cobras. Mas, já tem palacetes magníficos nas montanhas, onde Fernanda vai nascer desta vez... Vocês três, infelizmente, vão nascer de novo com os trogloditas, vão caminhar de pés descalços, nus, pois os homens das planícies sequer inventaram a roupa. Aliás, nem a pintura corporal. Deve ser porque já nascem manchados...

Tiago perguntou-lhe:

— Com direito ao assedio sexual?

— Sinto muito, mas é por causa do Carma. “Devemos passar por tudo aquilo que fizemos os outros padecerem”. Essa é uma lei antiquíssima. Foi escrita pelos anjos velhos, no início dos tempos.

Fernanda perguntou:

— Mas quem é que castiga?

Miguel respondeu-lhe:

— Ninguém! O Carma é uma energia cósmica, invisível, impalpável, como um buraco negro. Cada vez que uma pessoa agride, mata, violenta, rouba, ela atrai sobre si uma partícula tenebrosa, que fica guardada na alma. E é essa mancha escura que atrai a desgraça. É puro magnetismo. E Tiago tem muitas manchas negras. Mas, elas estão saindo. Cada vez que ele é agredido, as manchas são sugadas pelo outro corpo, e ele fica cada vez mais limpo.

Fernanda rebateu:

— Então a maldade não tem fim... Vai de lá para cá... Passa de uma pessoa para outra... É como uma bola invisível que rebate em todos...

Miguel explicou-lhes com calma:

— A mácula negra deixa de existir se ela for enviada para o espaço.

Tiago perguntou:

— E como se faz isso?

— Com atos heroicos. Atos que estão no seu futuro, por enquanto... Não tenha pressa. Um dia, seu sofrimento terminará e chegará à glória... O prêmio. A vida sem mais dor. Existem milhões de planetas maravilhosos onde só existe o amor. Sociedades humanas ainda melhores que o povo da montanha. E não esqueça que essa cidade foi descoberta, fundada, e inaugurada por todos vocês.

Os quatro riram em coro, sem acreditar muito nessa conversa. Tiago começava a pensar que Miguel não passava de um charlatão. Mas, promessa era promessa. E beijou Fernanda numa triste despedida:

— Me espere. Não vai se apaixonar por um bonitão...

— Nunca! Vou esperar a todos olhando na beira da montanha... Aguenta firme, meu amor. Vou recompensá-lo...

Mário por sua vez o abraçou e falou-lhe com carinho:

— Cara, eu prometo, como teu amigo, te carregar no colo outra vez, te guiar pelo deserto até encontrar tua mulher, e se for preciso limpar de novo tua... Desculpa Miguel, não posso dizer o que...

O Anjo preferiu dar uma gargalhada estrondosa, pois para os Anjos não existem segredos.

Depois, os abraçou novamente e os acompanhou a escolher os novos pais...

Notas finais
Tiago perguntou-lhe: — Com direito ao assedio sexual? — Sinto muito, mas é por causa do Carma. “Devemos passar por tudo aquilo que fizemos os outros padecerem”. Essa é uma lei antiquíssima. Foi escrita pelos anjos velhos, no início dos tempos. Fernanda perguntou: — Mas quem é que castiga? Miguel respondeu-lhe: — Ninguém! O Carma é uma energia cósmica, invisível, impalpável, como um buraco negro. Cada vez que uma pessoa agride, mata, violenta, rouba, ela atrai sobre si uma partícula tenebrosa, que fica guardada na alma.