De amor e de sangue. Primeira parte
5 Primeiros amigos
Notas iniciais
Nessa altura da evolução, a mortalidade infantil na comunidade selvagem era tamanha, que os espíritos de crianças com menos de 7 anos haviam-se multiplicado consideravelmente no mundo espiritual. Uma ciranda de 300.000 meninos estava pronta para viajar a outro mundo em busca de pais amorosos. Entre as meninas, havia 50 antigas soldados de guerra, pois Miguel e Francisca tinham-nas promovido para o Planeta “W do Sistema Tetha”, cujos habitantes eram “Homens descendentes de gorilas”. Não eram belos, mas em compensação eram excelentes pais, porém muito primitivos. Nesse lugar quem ajudaria na evolução cultural seriam essas 50 mulheres.
Tiago, Mário e Nina viram as amigas partirem, com coração palpitante. Num dia do futuro, eles fariam a mesma coisa, viajando para um destino diferente.
E ainda comovidos, deambularam espionando como estava o povoado encarnado.
O povo selvagem havia evoluído em tamanho, força, e existia certa organização social, onde mandavam os mais violentos. Homens grandes, corpulentos, que determinavam quem vivia e quem morria. Qualquer ato de rebeldia sucumbia antes de acontecer. Poder-se-ia dizer que o Inferno estava naquele lugar. Homens ruins, de péssimos instintos, sanguinários, mal-humorados, sempre brigando entre si, como fazem os animais com fome, ou, ameaçados de agressão.
As maiores vítimas desse mau-humor eram as mulheres, que não passavam de escravas servis desde a infância. Geralmente, eram abusadas pelos pais, ou irmãos mais velhos, e não existia o casamento. Às vezes, tinham a sorte de encontrar um homem que cuidasse delas e dos filhos. Mas, geralmente elas viviam dando à luz crianças de pais desconhecidos.
Nenhuma mulher sobrevivia aos 20 anos de idade. Morria-se de infecções venéreas, tuberculose, de partos mal sucedidos, ou em mãos de um amante ciumento.
Adolescentes espertos fugiam para continuar a viver em outros lugares. Desta forma havia muitos grupos além das planícies, com pequenas sociedades que sobreviviam da colheita de frutos, da pescaria, e da caça aos coelhos. As moradias de todas essas comunidades eram diversificadas, pois havia de tudo, as casas de barro, casarios de folhas e paus fincados na terra, já outros cavavam buracos no chão, tampados com folhagens, deixando uma pequena abertura para a entrada e a saída do ar. Também havia os homens que viviam sobre galhos firmes de árvores centenárias, e os que dormiam ao relento.
Mas, as antigas cavernas ainda eram utilizadas. Eram iluminadas com lampiões embebidos em gordura, e havia os homens que usavam lenha para acender fogueiras durante a noite.
E fechando os olhos, Tiago, Mário e Nina pularam no ventre de três fêmeas, confiando em Miguel fazê-los sobreviver nessa nova vida de pesadelos. E nasceram, foram amamentados, e sobreviveram aos primeiros anos de vida.
Um pouco mais crescido, Mário percorria o chão em busca de comidas, e à procura de Nina, pois desta vez as lembranças da vida passada eram muito fortes. Encontrou-a finalmente, com a cabeça tampada com uma manta de couro, escondida, faminta, quietinha para não chamar atenção de ninguém, pois passar despercebida era sua única salvação. Mário a reconheceu imediatamente, e se abraçou nela chorando. Depois, esconderam-se juntos na abertura mais escura que encontraram, e dormiram abraçados embaixo de uma pele.
E foi graças à escuridão desse buraco, que ambos sobreviveram sem dor.
Mário saía periodicamente em busca das sobras de comidas, ao amanhecer, pois era o momento em que os homens caíam no sono. Também roubava mantas de couro para tampar a entrada da fenda escura, e aconselhado por Nina se disfarçou de horroroso. Raspou o cabelo com uma pedra afiada, e no rosto passou lama escura, para dar nojo em quem o visse. Nina só perambulava ao seu lado embaixo do cobertor, com os cabelos amarrados, com uma camada generosa de argila negra e fétida no rosto, nas pernas, dando uma visão asquerosa.
Às vezes, faziam esconderijos no meio do mato, por cima das árvores, depois de se refrescarem e tirarem a sujeira no rio. Ao lado de outras crianças, mergulhavam entre as correntezas em busca de camarões, peixes, que depois comiam ao redor de uma fogueira gostosa. Era esse também o momento das carícias suaves, dos beijos ternos de menino, e das conversas sem fim.
E foi assim que eles cresceram, esperando pela adolescência para poder fugir, como fizeram todos seus primos, irmãos e amigos mais velhos. Todos eles falavam que no outro lado do rio havia um caminho para lugares lindos, onde se podia ser feliz.
Num desses passeios pelo mato, um dia encontraram Tiago estendido no chão, cujo charco de sangue indicava que havia sido abandonado para morrer. Mário e Nina o carregaram pelas pernas e braços e entraram com ele no rio. Passaram-lhe folhas cicatrizantes nas feridas, pois estava todo machucado. Mas, como o sangramento do ânus não parava e estava indo direto para a morte, Mário esquentou uma pedra e enfiou-a no reto, numa atitude desesperada. Tiago desmaiou de dor, mas a hemorragia parou.
Depois o carregaram novamente, e pela primeira vez, fabricaram um esconderijo. Enterraram paus no chão em círculo, em redor de uma árvore frondosa, e tamparam tudo com folhas de bananeiras. Estenderam as mantas de couro no chão, e dormiram abraçados.
E cuidar de Tiago foi novamente o trabalho principal nesta vida. Nina colocava-lhe água na testa, no peito, o cobria com folhas de menta, e chorava, pois a dor do amor dói mais do que as dores do corpo. Tiago gritava o nome da Fernanda, pois em meio de seu devaneio febril, ela lhe aparecia chamando-o desde longe, como num pesadelo, com os braços estendidos para ele.
Afinal, Nina era mais feliz. Crescera abraçada em seu amado, e Fernanda, coitada, estava sozinha sonhando com seu homem. Homem que estava quase morto. E se repetia a si mesma: -“Tenho que fazê-lo viver”.
Depois que a febre de Tiago passou e ele conseguiu se segurar em pé, iniciou junto aos amigos a caminhada com destino ao Leste.
À medida que avançavam entre a selva, descobriam comunidades entre a mata selvagem, em toda parte. Algumas mulheres vestiam saias de fibras, e os homens usavam penas coloridas na cabeça. Eram chamativos, mas, todas essas tribos eram promíscuas, pois haviam inventado formas extravagantes de procurar a felicidade. Não existia nenhum sentimento afetuoso nas tribos da selva. Nada de solidariedade entre os homens, pois era cada um por si. Mário, Tiago e Nina espionavam as libertinagens escondidos entre folhagens, e assim que os silvícolas iam para as ocas ao amanhecer, pegavam os apetrechos, e caminhavam abaixados. Levantavam esconderijos de folhas, mais uma vez, e deitavam quietinhos, confiando que Miguel, do outro lado da vida, lhes desse uma cobertura.
Quando chegaram ao primeiro Oásis, em meio do deserto, respiraram aliviados. Estavam salvos. Caíram no lago, felizes, para refrescarem o corpo e raspar a sujeira da pele com uma pedra afiada. Afinal, o sabão era algo desconhecido. Nina também esfregou pétalas de rosas, pois naquele lugar o que mais havia eram flores. Pareciam tapetes floridos que se estendiam através das areias sem fim.
Enquanto Tiago e Mário recolhiam os frutos maravilhosos do lugar, Nina fez uma saia com fibras vegetais, como vestiam as mulheres da selva, e no peito pendurou colares de cordas e sementes. Em seguida, colocou flores entre os cabelos, pois queria esquecer os dias de sujeira. Riu com ela mesma. Finalmente, seus cabelos caíam como cascatas pelas suas costas, muito além da cintura. Para Mário e Tiago costurou cuecas. Tudo de couro de ratazanas.
Longe dali, Fernanda nascera filha única de um casal de idade avançada.
Enquanto Tiago vagava pelo mundo em sua busca, ela estava convertida numa bela professora. Fernanda nascera com uma pele suave, lisa, com manchas delicadas. Seus olhos de cílios longos e negros davam-lhe um ar de mistério. Sua boca vermelha cor do fogo, pintada com batom, era própria de uma mulher sensual. Seu cabelo castanho caía em cascadas até a cintura e brilhava embaixo dos raios do Sol. Tanta beleza atraía a uma dúzia de rapazes lindíssimos, que a assediavam dia após dia com intenção de namoro. Fernanda, em cujo âmago procurava pela “alma gêmea”, olhava para seus amigos, e só conseguia amá-los como irmãos.
Além de trabalhar e afugentar os apaixonados, Fernanda costumava fazer excursões com amigos para descer a montanha, e caminhar até o deserto. Vigiavam o horizonte com lentes de longo alcance, e depois faziam o caminho de volta com cordas, subindo atalhos difíceis, num esporte fascinante.
No dia em que o alarme soou denunciando a chegada de três selvagens, o coração de Fernanda bateu enlouquecido, excitada com o fato, e correu montanha abaixo junto com 50 adolescentes para interceptá-los, carregando suas flechas, e um arco nas costas.
Tiago e Mário, que dormiam lado a lado da Nina, acordaram com uma flecha frente aos olhos pronta para perfurar seus miolos. Por cúmulo a Fernanda em pessoa estava ameaçando-os de morte. Um homem velho abriu passagem, olhou-os com atenção, depois os abraçou com carinho, enquanto explicava para os jovens que eles eram espíritos do bem.
E foi com honras que os três adentraram por um novo caminho. Era uma passagem secreta, construída para ocasiões especiais.
Entraram numa gruta, em cuja profundeza havia uma escada. Em seguida, subiram num elevador, que os puxou lentamente para cima, em grupos de 10 pessoas cada vez. Uma vez no cume, eles entraram no vale, olhando com atenção para um povo lindo. Trajavam roupas coloridas, possuíam gestos suaves e corpo perfumado, e viviam em residências gigantes, com jardins suspensos. Havia tijolos vitrificados nas paredes externas, mostrando figuras maravilhosas. Era arte onde quer se olhasse. As ruas eram revestidas de pedras pequeninhas, formando um asfalto cinzento, com flores, árvores carregadas de frutos, e muitos bichinhos caminhando pelas ruas, ou no colo de algum guri. Havia ursos pequeninos, gatos aos milhares, e só não depararam com ratos, nem baratas, e muito menos lixo, ou cocó, como nos povos do Oeste.
Na verdade, o susto do confronto entre duas civilizações díspares ficou por conta dos homens daquele lugar, que sentiram um arrepio frente a três garotos seminus, magros, que sorriam com cara de anjos. Coitadinhos! Quem chegava a conhecê-los, o fazia com olhos nevoados de lágrimas.
Nina foi encaminhada para casa de uma professora, que além de dar-lhe banho de sabão numa banheira circular com águas quentes, tirou-lhe os piolhos dos cabelos, desembaraçou as mechas com um pente fino, e limpou sua boca com escova e uma pasta agridoce. Depois, lhe passou cinco camadas de cremes no corpo, para hidratar a pele, e por último abotoou uma linda vestimenta cor rosada no seu corpo de menina, que a transformaram numa fada belíssima. A única coisa que doeu, foi quando a professora cravou dois brincos de ouro nas suas pequenas orelhas. Quando se olhou no espelho sorriu, pois a miragem que recebeu era magnífica. Com certeza seu Mário ia gostar.
Mário e Tiago, que passaram pela mesma experiência, pois naquele lugar os homens também usavam brincos, quando se olharam no espelho caíram na gargalhada, em uníssono.
Mário foi o primeiro a falar:
— Nossa, cara, eu sabia que era lindo, mas, nunca pensei o quanto...
— Eu nunca suspeitei que embaixo da sujeira tu tivesses cabelos tão loiros, cara... Será que agora a Fernanda me reconhece? Ela nem olhou para mim...
— Também, com aquele “tapa-sexo” a gente não conquistava ninguém, cara... Nossa, a Nina deve estar convertida numa princesa arrebatada... Será que nos deixam viver juntos?
— Não... Vais ter que esperar que vire mulher para casar...
— Ela já é minha...
— Mas ainda não menstrua, cara...
— Droga! Eu nem sei o que é viver sem ela agarrada a mim todos os dias, cara... Eu nem sei respirar sozinho...
— Feliz de ti, pois eu ainda não sei o que é namorar, nunca beijei ninguém...
— Vamos dar a cara para o povo? Como estou?
— Um troglodita civilizado, como vão falar os gênios daqui...
Abraçados, rindo deles mesmos, saíram a enfrentar o mundo, coração cheio de alegria. Mário com uma calça vermelha tipo bombacha, camisa branca, colete preto, e um lenço ao redor do pescoço. Tiago preferiu uma calça mais justa, com camisa grossa, manga cumprida e colarinho fechado, e um boné de peles na cabeça, pois com tanta limpeza estava com calafrio, e espirrava de vez em quando.
O recebimento desta vez foi apoteótico.
Os Chefes de governo, das vinte cidades da montanha, levaram-nos para uma reunião, em cujo centro havia uma mesa redonda. Convidaram-nos a sentar no centro e fizeram perguntas, pois saber do inimigo era primordial. Nina desenhou sobre um couro o lugar geográfico das vilas das planícies, cujo rio passava pelo lado oriental. Mostrou a parte do rio por onde fugiam os adolescentes, indicou a localização das tribos disseminadas na selva, ajudada pelos rapazes. Mário entregou 60 cordas de fibras com nós, onde cada nó representava um dia de caminhada. Marcaram também a rota que haviam seguido. Para terminar os relatos Tiago mostrou suas cicatrizes do corpo e contou como é que seus amigos o haviam salvado da morte. Embora o dialeto deles modificara-se bastante, os membros desse Conselho conseguiram entender tudo o que falaram.
No fim dessa reunião, todos os homens choravam. As mulheres limpavam o nariz, secavam as lágrimas, e ninguém fazia ideia de como recompensar esses meninos pela informação tão valiosa que lhes trouxeram.
Tiago então lhes falou:
— Só queremos ir para a Escola, e aprender tudo que for possível...
Um velho respondeu-lhe:
— Mas antes disso, vamos festejar.
Dentro de um castelo de pedra, decorado com vitrais coloridos, tijolos vitrificados e móveis de madeira lindíssima, eles dançaram os primeiros passos, rodeados de gente que ria o tempo todo. As roupas esvoaçantes levantavam com graça ao dançar, mais pareciam borboletas rodopiando do que pessoas de verdade.
Nina olhava para as novas amigas, cada uma mais linda e perfeita do que ela. Havia as de cabelos castanho claro, castanho escuro, e branco. Na verdade, seu cabelo vermelho chamava atenção de todos, e o cabelo loiro de Mário deixava a mulherada de boca aberta. Tiago, com seus cabelos pretos, longos, era o retrato vivo de um homem sensual, que começava a derreter o coração de várias mulheres.
Tiago se arrepiou quando descobriu Fernanda, rodeada de 10 machos, babando ao redor dela. Ficou acuado, petrificado, e só voltou a respirar com naturalidade, depois que ela enviou-lhe de longe seu primeiro sorriso. Nossa! Ela estava começando a gostar dele. Suspirou aliviado.
Mário, depois de rodopiar com Nina os primeiros passos de uma dança, fugiu de fininho para os jardins. Esconderam-se embaixo de um arbusto florido, rindo sem parar, pois a pele de ambos cheirava diferente. Mário passou sua língua no pescoço, falando que desta vez sua vontade era de comê-la de verdade. Depois se beijaram apaixonados como nunca, e ficaram escondidos nesse lugar até o raiar do Sol, quando Tiago finalmente os encontrou.
Depois daquele dia, os três entraram na Escola para aprender o idioma desse povo, escrito e falado. Para cúmulo do incrível quem ensinou tudo para eles foi à própria Fernanda, que além de lecionar literatura nesse Educandário, dava aulas de canto e dança.
Nos primeiros dias Tiago não aprendeu nada de nada. Admirava-a estudando seus movimentos de rainha, fascinado pelo seu cabelo longo, seus olhos puxados, e seu cheiro. Ele sentia seu cheiro desde longe, e seu coração batia como um tambor.
Num dia de passeio escolar na beira do lago, sua oportunidade de conquistá-la finalmente apareceu. De pernas abertas por cima de uma árvore frondosa deixou cair uma corda, laçou a Fernanda pela cintura e em seguida subiu-a rapidinho até deixá-la frente a frente. Imediatamente abraçou-a e beijou sua boca, quase a afogando, qual moribundo agonizante.
Fernanda nem teve tempo de preparar sua defesa.
Começou a respirar ofegante, e as lembranças vividas em outras existências lhe chegaram numa chuva de luzes. E abraçou seu homem, e sentou por cima enquanto o abraçava ao pescoço e acariciava suas costas, seu cabelo, perdida entre uma nuvem de amor perfeito. Quando escutou: — Fala que é minha-, ela respondeu: — Sou. E repetiu isso muitas vezes enquanto sentia o rosto molhado, pois Tiago chorava de emoção ao tê-la finalmente entre seus braços.
Desceram dessa árvore em direção das grutas.
Correram através do campo florido, até chegar numa caverna natural com uma lagoa no interior, na semiescuridão. Entraram nessa água morna e deliciosa, sempre agarrados num abraço interminável. E namoraram dentro e fora dessa água, sem tempo para terminar.
O desaparecimento de Fernanda ocasionou a segunda reunião dos Conselheiros. Fizeram um debate para estudar o comportamento dos recém-chegados. Mário confessou que namorava Nina desde a infância e pediu permissão para morar com ela, pois estava ficando doente com a separação.
E os sábios daquele lugar deliberaram longos e estendidos, pois os homens desse lugar casavam depois de uns 30 anos, mais ou menos. Ninguém tinha pressa em se amarrar com ninguém, namoravam tarde, casavam tarde e tinham os filhos na velhice.
Mas, desta vez a realidade dos primitivos era diferente. Nina era uma adolescente pela idade, mas pela maturidade de vida já era uma adulta. Sabia mais do comportamento humano, do que qualquer menina desse lugar. Mário era um gênio saudável, forte, maduro, e nenhum deles necessitavam de cuidados.
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