Notas iniciais
Encontraram um planeta com dinossauros gigantes, mamutes, tigres dentes de sabre, e animais inimagináveis. Era um mundo Pré-histórico, como fora um dia o antigo planeta deles, antes de acontecer a “Guerra Nuclear”. Eles haviam estudado na escola sobre o desaparecimento dos dinossauros, e nunca um cientista conseguiu explicar o motivo real porque eles morreram. Mas, na verdade só houvera uma migração. Estavam todos nesse planeta, como donos absolutos de uma sociedade de colossos enormes.

O “Mundo W” era um paraíso exuberante, quente, com cachoeiras imponentes e uma fauna magnífica. Havia animais desconhecidos, esquisitos. Mas, acharam cavalos brancos nas planícies, cujas corridas ao galope levantavam poeira, búfalos aos milhares, elefantes, girafas, leões de juba amarela, e o céu era agitado com o voo de pássaros coloridos de inúmeros tamanhos.

Os homens viviam em morros altos, em buracos naturais das paredes íngremes.

Olhando-os para cima, esses morros pareciam templos com janelas, esculpidos pela própria natureza para proteger seus filhos. As pessoas subiam para as cavernas em andaimes de madeira e corda, e tinha os homens fortes que subiam as encostas como ágeis alpinistas.

Durante o dia, os homens tomavam banho no rio, percorriam o mato para recolher as frutas que a mãe natureza lhes dava, e estavam iniciando o aprendizado da cerâmica. Cinquenta guerreiras, encarnadas naquele mundo, batiam barro, modelavam panelas com a mão, rodeadas de mulheres que as imitavam em tudo. Em outros lugares, as mulheres faziam uma fogueira ao redor dessas cumbucas, cujo fogo ardia desde o amanhecer até o entardecer. Depois de queimadas, elas repartiam-nas, rindo, alegres, como quem ganha um brinquedo.

Nina e Fernanda choraram abraçadas ao reencontrar as amigas.

Estavam convertidas em mulheres feias, peludas, que usavam as mãos da melhor maneira possível. Mas, havia uma recompensa gritante na vida delas. Nasceram de excelentes pais que as cuidaram com zelo, jamais passaram fome, e perderam a virgindade brincando com amiguinhos de infância. Quando se apaixonaram, nada impediu esse amor, pelo contrário, os adultos as incentivaram a sair do aconchego familiar, e passar a viver com o escolhido. Ou seja, saíram dos braços dos pais diretamente aos braços dos maridos. E eles eram fiéis, carinhosos, amorosos, e o namoro era encantador.

Embora esses cabeludos desconhecessem a organização social, eles viviam pacificamente em grupos pequenos. As crianças corriam entre a selva, brincavam, jogavam frutas entre si, e havia os casaizinhos que namoravam entre folhagens sem serem incomodados por ninguém. Desta maneira, não existia a solidão, e muito menos o sofrimento pela falta de amor.

Tiago e Mário não resistiram à miragem encantada. Imitando os cabeludos, deitaram com as esposas em meio da escuridão de uma caverna, e dormiram abraçados depois de namora até o dia clarear.

Depois que deram essa visita por encerrada, visitaram os “Mundos selvagens”, onde a bicharada era o rei do planeta. Em nenhum deles, havia espíritos de humanos condenados.

O planeta mais esquisito de todos era o “Mundo das moscas gigantes”. Um lugar escuro pela névoa constante, onde os insetos eram enormes.

Depois, continuaram a viajar.

Encontraram um planeta com dinossauros gigantes, mamutes, tigres dentes de sabre, e animais inimagináveis. Era um mundo Pré-histórico, como fora um dia o antigo planeta deles, antes de acontecer a “Guerra Nuclear”. Eles haviam estudado na escola sobre o desaparecimento dos dinossauros, e nunca um cientista conseguiu explicar o motivo real porque eles morreram. Mas, na verdade só houvera uma migração. Estavam todos nesse planeta, como donos absolutos de uma sociedade de colossos enormes.

Foi desta vez que os quatro viraram crianças. Subiam pelas costas dos gigantes e se deixavam cair como quem desce de um escorregador de um parque de diversões. Por cima do lombo de um tiranossauro, que corria enterrando pesadas patas no chão, com as chacoalhadas frenéticas dos gigantes despencavam no chão rindo as gargalhadas.

Mas, o longo período da morte, cuja única tarefa era a de ser feliz em tempo integral, um dia chegou ao fim.

De volta para o inferno, que eram as planícies do “Planeta das cobras”, se sentaram no meio do mato, onde muitas almas estavam em busca de progenitores, como eles mesmos.

Um grupo amistoso, sentado em círculo, chamava atenção.

Era uma turma de amigos organizados, que nas últimas vidas haviam sobrevivido fugindo através do rio, se amparando mutuamente. Riam sem parar. Já conheciam o Anjo Miguel, cujas histórias interessantes sabiam de cor. Principalmente a história de vida de Tiago, Mário e suas esposas, cujo exemplo os incentivou a entrar na senda do heroísmo. Assim que a turma os reconheceu, caminharam em direção de Mário e Tiago com admiração.

Enquanto os homens se conheciam, e apertavam as mãos, iniciando uma longa conversa, Francisca chamou Nina para reencarnar.

Fernanda acompanhou sua amiga, e viu-a ser sugada pelo vento, e entrar numa casa de madeira perto do rio. Em seguida, Fernanda foi sugada para o ventre de outra mulher, bem pertinho dali. Tiago viu-a de longe, atônito, pois ela deveria nascer nas montanhas de novo. Isso estava fora dos planos de vida.

Mário o abraçou para acalmá-lo.

— Tranquilo, homem, ela só está querendo nos ajudar, só isso...

— Algo me diz que não é assim, não... Mas, que merda, cara, ela está muito linda, vai ser alvo de todos os homens deste lugar... Se lhe acontecer alguma coisa, nunca vou me perdoar, cara...

— A Nina nunca foi abusada, em nenhuma encarnação. Acho que Francisca as protege... Fica frio, pois vamos nascer ao lado delas, tu vais ser primo da Nina e eu primo da Fernanda, pronto.

Mais calmo, Tiago voltou a conversar com os novos amigos, pois as perguntas sobre eles dois eram intermináveis. Antes de Miguel aparecer novamente, já havia uma turma de uns 200 homens em redor, escutando-os falar como líderes natos. Mário lhes explicava que a maldade era filha da burrice, da ignorância, e da covardia. Nenhum macho brigava com outro macho nesse lugar horrível, eles atacavam crianças indefesas, mulheres e velhos. Só. Fazer uma guerra, e matar todos esses homens teria que ser feito, mais cedo, ou, mais tarde.

Quando a turma estava eufórica, Miguel e Francisca apareceram abraçando a todos com emoção. Miguel falava que desde o lado espiritual todos os planos eram realizáveis, mas em vida a coisa seria perigosa. Teriam que lutar com cautela. Mas, lá no fundo, Tiago e Mário sabiam que não estariam mais sozinhos. Os tempos estavam mudando. Era chegada a hora de mudar essa sociedade de homens irracionais.

Enquanto Miguel dialogava com os homens, Francisca abraçava as mulheres que estavam com eles. Cobras corajosas que seguiam seus homens com amor e admiração, seguindo à risca o exemplo de Fernanda. História que Francisca contava para todas as almas na vida pós-morte.

E uns a um foram encarnando de novo. Desta vez, mais ou menos uns 300 amigos, cada um com sua esposa.

Até a idade dos sete anos, a vida de Fernanda, Nina, Mário e Tiago fora ótima, pois nasceram de excelentes pais. Nunca passaram fome, eram levados para o rio a tomar banho periodicamente, e desta vez, usavam vestimenta de pele de coelhos feita pelas suas mães. Mário e Tiago fizeram amizade à terna idade e suas mulheres os encontravam no rio quando os adultos se juntavam a buscar alimentos. Aprenderam a nadar e mergulhar nas correntezas. Depois, comiam peixes assados entre folhas de bananeiras, camarões na brasa, numa reunião entre as famílias.

A pescaria havia virado febre nesse mundo. Era mais fácil pescar do que caçar. Os homens faziam cestos deixando buracos grandes para aprisionar os peixes maiores no interior. Já os camarões os catavam com a mão, pois os havia aos milhares.

Na verdade, a aparência física havia melhorado muito com essa dieta. Havia homens grandes, mulheres parindo com saúde, embora tivessem uns 10 filhos. A mortalidade infantil havia diminuído, e o povo se multiplicava a cada dia, se espalhando no meio do mato, na beira do rio, e além dele.

O perigo apareceu na mocidade.

Fernanda chamava atenção pela pele macia, de cores suaves, cílios enormes, e um sorriso encantador. Tiago não a deixava a sós em nenhum momento, e para namorá-la construiu um esconderijo de arbustos no meio do bosque, imitando Mário que se escondia com Nina em buracos, na beira do rio.

Mesmo assim, com todos os cuidados providenciados, foram vítimas de uma tocaia quando caminhavam abraçados pela floresta. Tiago foi desmaiado com uma pedrada na cabeça, e Fernanda caiu ao chão com chutes nas costelas para ficar quieta. Depois, 10 rapazes a possuíram um a um, enquanto o resto ficava atento, armados com paus nas mãos para afugentar intrusos.

Mário chegou ao local acompanhado de oito machos. Primeiro, os atacaram a todos a pedradas, e finalmente frente a frente com socos e pontapés. Mário foi quebrando pescoços, arrebentando narizes, dando sua primeira aula de luta para seus amigos. E eles aprenderam rápido, pois dali em diante os crimes nunca mais ficariam impunes.

Enquanto Tiago chorava as lágrimas mais amargas de todas suas vidas passadas, presentes e futuras, ajoelhado ao lado de Fernanda, Mário preferiu abraçá-lo e consolá-lo, pois entenderam finalmente que ela havia nascido para apanhar no lugar de seu homem. O que foi muito mais dolorido para Tiago do que todos os abusos vividos. Fernanda sangrava, estava com a roupa rasgada, e no rosto tinha duas manchas roxas além de uma protuberância na bochecha. Olhar para ela partia o coração.

E Tiago falou entre lágrimas:

— Eu nunca imaginei que alguma vez eu seria amado dessa maneira...

— Nem eu! Nina não aguenta a viuvez... Morre de amor por mim, cara.

— O que vamos fazer por elas, afinal?

— Nada... Acho que o amor é algo que não se paga com nada, nada mesmo... Será que essa é outra lei Cármica, cara?

— Sei lá...

Depois desse incidente, Tiago e Mário iniciaram a revanche.

Passaram a se unir em tocaias, esperando por desgraças, com a parceria de uns 50 amigos. Cada vez que um depravado aparecia transportando um menino, ele era apedrejado, espancado, e desmaiado de tanto apanhar. Mais adiante, essas crianças uniram-se ao grupo, e essa atitude trouxe um pouco de integridade para esse sofrido povo.

Infelizmente, os pervertidos também começaram a se organizar. Distribuíram espiões no meio da selva, para encontrar responsáveis, e em seguida faziam tocaias individuais. Um a um, todos os amigos de Tiago e Mário foram aparecendo enforcados ao amanhecer.

Sem mais amigos vivos, e marcados para morrer, os quatro prepararam a turnê, carregando apenas a roupa do corpo com alguns cestos. Sem avisar para ninguém, nem sequer seus irmãos, se adentraram na mata fechada, apagando os rastos das pisadas, parando o mínimo para o descanso, até chegarem ao deserto. Para surpresa dos quatro, antes de alcançar o primeiro Oásis, três carros esquisitos apareceram no horizonte.

Mário falou assustado:

— Merda! Desta vez vamos ser mortos, cara...

— Não! Só vai ser interrogatório e martírio...

E como não havia para onde correr, Mário caiu no chão sentado, esperando pelo pior. Afinal, quem havia organizado os homens das colinas na autodefesa, na construção do muro, nas torres de vigia, era ele mesmo, na encarnação anterior.

Mas, os artilheiros do muro, cuja vestimenta era uma capa vermelha nas costas, calça apertada, botas de couro altas, espada de aço na mão, fizeram uma reverência frente a eles, colocando um joelho no chão. Em seguida, um ancião desceu da primeira carruagem e se dirigiu às meninas, para abraçá-las com lágrimas nos olhos. Depois, abraçou Mário emocionado e por último Tiago.

— Sejam bem-vindos, meus filhos... Estamos esperando-os...

Mário respondeu:

— Obrigado... Nossa! Vocês nos assustaram desta vez...

— Desculpem. Mas vão ser recebidos como heróis... Subam nos carros, pois a viagem desta vez vai ser curta, apenas três dias pelo deserto...

Fernanda indagou curiosa:

— Como é que nos reconheceram?

— Não os reconhecemos. Apenas soubemos, através de uma Pitonisa, de 4 ancestrais que iriam aparecer nesta data, e neste lugar. E nós nunca colocamos em dúvida o conhecimento dos videntes.

Os quatro começaram a gargalhar. Sequer eles sabiam que eram ancestrais de ninguém. Culpa da amnésia.

Mário e Nina subiram num trailer onde havia de tudo, comidas, perfumes, e assentos longos e macios, num balanço suave, pois as molas de sustentação desses veículos eram ótimas. Outro carro na frente puxava-os com firmeza e não os enxergavam. O que os deixava completamente a vontades. Deitaram na cama, afinal estavam exaustos, e dormiram abraçados. Quando acordaram, Mário beijou Nina na boca, enquanto era acariciado com doçura. Sorriram, pois era o inicio de uma vida só de felicidade.

Tiago e Fernanda, em outro trailer, sentaram abraçados, mas Fernanda estava ainda traumatizada pelo abuso. Tiago, compreensivo, abraçou-a docemente, e lhe deu um longo beijo. Depois, deu-lhe de beber um suco de frutas com canudinho, sempre intercalando com os beijos sem fim.

Quando chegaram frente à grande muralha, ficaram surpresos, pois ela ficara tão linda, mas tão linda, que nem dava para imaginar como é que havia se chegado à tamanha perfeição. Ela era coberta por uma camada de tijolo vitrificado, cujos mosaicos expunham imagens de combatentes em fileira, e figuras humanas maiores, muito elegantes. As torres de vigia tinham forma de pétalas de flores, semiabertas, e não dava para ver por onde é que se espionava o inimigo. As aberturas se limitavam a pequenos anéis com vidro de aumento, por donde podia vasculhar-se todo o deserto. As bocas de canhão também eram imperceptíveis, pois do outro lado estavam tampadas por janelas de vidro espelhado.

Atravessaram o muro pelo caminho do meio, desta vez apertando mãos com os soldados através das janelas. Homens e mulheres carregando as flechas e o arco nas costas e a espada à cintura, com um capacete na cabeça enfeitado com penas de condores. Eram lindos, majestosos, e entediados, pois eles eram os primeiros selvagens que apareciam, em centenas de anos.

E no final dessa travessia adentraram num corredor de pedras coloridas, deixando os soldados para trás. E subiram a montanha lentamente desta vez, em velocidade mínima, num caminho que parecia uma cobra gigante serpenteando, e se perdendo para cima. Pelas janelas das carruagens, viam os animais das encostas pastando, os ursos se fartando de galhos verdes, as aves cruzando com suas assas abertas, e a brisa da montanha descendo até eles, inundando os pulmões com o melhor ar do planeta.

Enquanto percorriam as ruas da cidade, só acharam gente linda, sorridente, caminhando, ou, viajando em veículos de variados tamanhos. Ônibus coletivos, movidos a óleo vegetal, iam para bairros distantes levando 40 pessoas sentadas. Também tinham um trem elétrico, que corria sobre trilhos, e alcançava todos os povoados. Existia a urbe principal, as cidadelas na beira do lago, e nos confins das planícies estavam as cidades que pendiam das encostas das montanhas, num trabalho de engenharia grandioso. Castelos os havia em todo lugar. Imponentes, gigantescos, construídos de pedra sobre pedra, que abrigavam bibliotecas, universidades, centros de pesquisa, e observatórios espaciais. A única coisa do passado era a pirâmide pré-histórica. Ela era um patrimônio da humanidade, restaurada periodicamente, e cuidada com zelo.

A eletricidade era obtida através de energia eólica, com moinhos de vento que se enfileiravam sobre os cumes mais altos das montanhas. Também havia geradores elétricos caseiros, cujo funcionamento se dava com alavancas manuais, e um motorzinho de óleos vegetais, que entravam em ação no fim da tarde. Era quando as banheiras de casa esquentavam, para o banho familiar.

Tudo era harmônico.

Nenhum acidente de carro, pois a velocidade máxima permitida nas cidades era 30 km por hora. Nem sequer um afogamento nas piscinas das Escolas, pois os anciãos estavam em toda parte, cuidando dos mais jovens em sua impetuosidade, como sempre fizeram.

Quando desceram do carro, eles vestiam as roupas que encontraram nos armários dos trailers, depois de um banho de chuveiro na cabine do banheiro. Portanto, não assustaram ninguém com sujeiras, ou nudez. E desta vez, encontraram muitos loiros, como também cabelos negros, ou vermelhos fogo como Nina. Como a pitonisa falara que eram ancestrais, os quatro foram rodeados pelos descendentes morenos, loiros e ruivos. Alguns os chamavam de vovós. Parecia piada.

E caminhando entre um turbilhão de gente, foram para uma festa num ginásio desportivo, onde brindaram até altas horas como heróis de uma história antiga. Alguns afirmavam que os nomes deles estavam escritos nos primeiros livros da antiguidade, e que eram reencarnações de primitivos muito antigos, de milênios atrás. Ignorantes como eram, Tiago terminou acreditando, enquanto Mário, mais incrédulo, pedia ser levado à Escola para aprender a ler e escrever e examinar essa história pessoalmente.

No dia seguinte, Mário e Tiago foram submetidos a uma mini cirurgia nos testículos. Os homens desse lugar só podiam ser pais aos 40 anos, com direito a ter no máximo dois filhos, para evitar a superpopulação. Assim que se terminava com o número de filhos desejados, novamente os homens faziam vasectomia, e desta vez definitiva. Conforme a filosofia desse povo, os homens não se reproduziam como os ratos. Os homens se reproduziam dependendo de seu território, de sua riqueza, e da abundância.

E Nina e Fernanda adoraram a civilização e seus costumes.

Em casa, encontraram uma banheira onde entravam duas pessoas com folga. Saía-se do banho cheirando a sabão perfumado, o que incitava a namorar ainda com corpos molhados. Depois, o chamego durava até que a fome os mandava parar e se alimentar.

Enfrentaram mais uma vez o casamento, com direito a passeios, folias, e comilanças.

E quando já não havia mais desculpa para fugir da responsabilidade desta vida, os quatro entraram na Escola Básica, ao lado de guris de 4 anos, para aprender a ler e escrever, nos dois idiomas. A língua das montanhas possuía desta vez 38.000 mil palavras, e o idioma dos bárbaros uns 100 desenhos.

Muito longe dali, na outra civilização, o desaparecimento de Tiago, Mário, Fernanda e Nina deixou todas as famílias aos prantos. A opinião geral era que os quatro foram assassinados, junto aos jovens insurgentes que foram enforcados. Muitos alegavam que seus corpos haviam sido enterrados em lugar desconhecido. Os pais estavam desconsolados, os amigos também, e muitos jovens juraram vingança.

Surgiram tocaias mais arguciosas, com o rosto acobertado de lama negra, atacando crimonosos no meio da floresta, aborrecidos com a injustiça e o abuso dos adultos por cima dos mais fracos. Pouco a pouco, foi nascendo uma rebeldia generalizada, de milhares de pessoas que estava enfadada da impunidade dos homicidas.

E para deter a indisciplina, que crescia dia após dia, os homens mais velhos escolheram um chefe para colocar ordem. Um homem forte, cuja história mostrava que era respeitado por todos, pois nunca havia abusado de um menor. Seu nome era Abelardo, que ouviu sua nomeação com surpresa. E a primeira resolução de Abelardo foi o envio de patrulhas para além do rio, para o Sul, para o Norte e para o Leste a explorar o mundo centímetro em centímetro, em busca dos desaparecidos.

Infelizmente, todas as patrulhas que rumaram para o Leste nunca mais voltaram. O que existia além da selva, e através do deserto, era um mistério.

Quem viajava nessa direção, desaparecia como por encanto.

Abelardo, que era muito astuto, escolheu o homem mais esperto que conhecia para organizar um grupo de homens armados com porretes e lanças com ponta de pedra, para que cruzasse a selva e o deserto e descobrisse o que existia lá.

E foi assim que Reginaldo, chefe do primeiro pelotão de combate, demorou 10 anos para preparar um grupo que fosse capaz de obedecer a uma ordem sua, e que não se matasse entre eles mesmos por ninharias, como era o costume. Homens e mulheres trajando roupas de couro, e que comiam ratos, tiveram que cozinhar sopas em panelas de pedra-sabão, cuja receita básica era verduras, com carne de coelhos e batatas. Aprenderam também a repartir a comida em partes iguais, a marchar em forma organizada, olhando para Reginaldo na frente, descansar todos juntos, despertar ao mesmo tempo ao toque do corno, e a não reclamar por nada disso.

Como metade do exército era composta de mulheres, o exército foi crescendo, e crescendo, até formar um batalhão de 20.000 guerreiros bem preparados. Pessoas que um dia rumaram para o além-mundo e cuja empreitada deixara um ar de tranquilidade. Ficaram na cidade os mais velhos e os mais jovens, pessoas que não eram nem criminosos nem abusadores de criancinhas.

Notas finais
E foi assim que Reginaldo, chefe do primeiro pelotão de combate, demorou 10 anos para preparar um grupo que fosse capaz de obedecer a uma ordem sua, e que não se matasse entre eles mesmos por ninharias, como era o costume. Homens e mulheres trajando roupas de couro, e que comiam ratos, tiveram que cozinhar sopas em panelas de pedra-sabão, cuja receita básica era verduras, com carne de coelhos e batatas. Aprenderam também a repartir a comida em partes iguais, a marchar em forma organizada, olhando para Reginaldo na frente, descansar todos juntos, despertar ao mesmo tempo ao toque do corno, e a não reclamar por nada disso.