Notas iniciais
O que mais reconfortava essa gente era saber que ao ajudar a construir essa Escola todos aprenderiam a erguer casas firmes, com muros altos, se preservando dos maus elementos. Se for possível defecar dentro de casa, isso os afastaria ainda mais dos bandidos. E os mais felizes de todos eram os pais de Tiago, Nina, Mário e Fernanda, que foram os primeiros voluntários a se oferecer para ajudar Olaf e seus amigos. Enquanto os engenheiros elevavam paredes com ajuda de 80 homens, Alberta e Ana solicitaram escolta para Rosa, para ingressar em todas as casas e antros a selecionar alunos. E Rosa nomeou cinco soldados de guerra, como ela, para escoltar as professoras.

Tiago e Mário ouviram os sinais de alerta quando estavam na Universidade estudando “Física Quântica”, com uma dor de cabeça insuportável, pois era algo que jamais estudaram, nem souberam que existia, em nenhuma encarnação. Desta vez, não eram lembranças de vidas anteriores, era ciência que os homens haviam descoberto por si mesmos, e que agora eles necessitavam assimilar.

Fernanda e Nina apareceram na Universidade num veículo aberto, falando aos berros que 20.000 homens estavam a caminho para invadi-los. Mário tomou o volante e correu pela pista em direção ao muro. Chegando ao lugar examinaram o potencial dos canhões, fizeram alguns testes em alvos no horizonte e respiraram mais que aliviados. Podia-se aniquilá-los a todos numa distância de 100 metros.

Fernanda e Nina, que quase não respiravam de medo, lembrando as figuras horríveis que estavam a caminho, recobraram o sorriso quando os maridos deram o relatório. Abraçados e felizes, regressaram para uma reunião com todos os “Representantes do povo”, mais ou menos umas 300 pessoas.

Mas, como essas pessoas eram de uma “sociedade superior”, os representantes do povo, escutaram sobre o potencial das armas sem dar sinais de alegria. A morte era algo natural, que acontecia nos homens aos 200 anos, e o “crime” só era conhecido em histórias de ficções, contadas nos livros de literatura. Nunca, em nenhum momento da história dessa civilização, um homem tinha perecido pela mão de outro homem. E agora havia chegado a hora da morte. Teriam que assassinar um ser humano, ou sucumbir nas mãos deles.

E a discussão sobre o que fazer se alastrou pelas cidades.

Foram realizadas pesquisas às pressas, pois o inimigo estava cada vez mais próximo. Foram consultados todos os professores, todos os pesquisadores, e o povo falou e falou, deram ideias, e mais ideias, até chegar num consenso geral, e um plano audacioso.

Quando Tiago e Mário os escutaram os planos, nem acreditavam nisso:

“Seriam poupados da morte um pequeno contingente de invasores, e 50 pessoas se deixariam prender como prisioneiros de guerra, cuja viagem seria sem retorno, com a finalidade de fazer uma revolução científica. O chefe desse grupo seria Guilherme, que cuidava desse muro fazia anos, com sua esposa Alberta. Junto com eles iriam os melhores lutadores, todos voluntários, metade homens, metade mulheres, todos solteiros. Como os homens já eram inférteis, as mulheres passariam por uma cirurgia com retirada dos ovários, para não gerarem filhos, pois na certa seriam abusadas”.

Como Tiago e Mário estavam sem fala, Fernanda e Nina deram a Alberta informações necessárias sobre o invasor. Fernanda escreveu uma carta para sua mãe e Alberta escondeu-a entre a sola do sapato, numa divisão interna.

E finalmente, a guerra aconteceu.

Todos os artilheiros se posicionaram defronte os canhões, carregaram as balas redondas e enormes, enquanto os invasores corriam pelas planícies como formigas, gritando assustadoramente com uma arma levantada na mão.

Reginaldo viu seus soldados serem abatidos um a um, sempre perecendo os que vinham na última linha. Quando chegou frente à enorme muralha, lançou as cordas para cima e escalou as paredes escorregadias com dificuldades. Pulou para as ruas internas, para lutar com homens vestidos com roupas estranhas, cujos porretes de pedra na cabeça os desmaiavam que nem passarinhos. Teve os “cobardes” que se entregaram de mãos para o alto, de tanto medo. Guilherme e seus voluntários foram amarrados e deixados cair fora do muro um a um.

Ao cair do dia, Reginaldo iniciou a marcha de regresso com 50 prisioneiros e 200 soldados sobreviventes. Imediatamente, chamou Rosa, sua tenente mais ferina na luta, para cuidar das reféns, e ele próprio cuidou que nada faltasse aos homens, cujos sujeitos luziam um brinco na orelha e roupas tão femininas quanto às das mulheres. Até pareciam um bando de mulherzonas.

A caminhada de Oásis em Oásis, cujos frutos magníficos pouparam-nos de trabalho, foi pacífica e ordenada. Os prisioneiros se negavam a tomar a sopa de carne e batatas. Degustavam bananas, abriam cocos com uma pedra para beber a água e mascar a polpa, descascavam laranjas, e provavam frutas de cactos espinhosos. Abriam os frutos com delicadeza, saboreavam com ânsia, pois o deserto estava cheio deles.

A única coisa que embaraçou Reginaldo foi obrigar seus homens a respeitar as mulheres prisioneiras. Possuíam corpos perfeitos, pele macia, cabelo preso em longas tranças, botas de couro altas, calças acima dos joelhos, mochila nas costas em que carregavam água em sacos de borracha, pão e bolachas.

Reginaldo e Rosa começaram a namorar quando chegaram ao primeiro Oásis. Tomando banho no lago, Reginaldo deu-lhe um beijo no pescoço, e depois foi abraçado com carinho e ternura por ela. Dormiram abraçados na beira desse lago, como um casal que começava uma longa jornada de parceria. Afinal, Rosa estava viúva e jurou que só amaria ele e mais ninguém, e Reginaldo, que tivera 50 namoradas durante essa viagem, prometeu-lhe fidelidade eterna. E sempre abraçados, organizaram mais uma vez os homens para continuar a longa caminhada. O único que Rosa e Reginaldo nunca perguntaram aos prisioneiros é como é que eles sabiam falar a mesma língua. Afinal, na sua ignorância, achavam que no mundo todo se falava uma língua só.

Um dia, Reginaldo e Rosa entraram nos povoados como heróis, ganharam abraços, beijos, enquanto Guilherme e seus guerreiros eram encarcerados, nas primeiras celas construídas naquele lugar. Dentro de umas cavernas, com grades de madeira, homens e mulheres em separado.

Como Alberta e todas suas amigas sabiam na teoria o que era um abuso, esperaram por ele com inocência. Alberta foi levada frente ao Chefe Abelardo, que fez muitas perguntas, pois Rosa alegava que todos sabiam falar seu dialeto. Como ela não respondera, autorizou seus amigos, ao lado dele, a se divertir um pouco. Ela começou a ser despida, e pediram-lhe para ficar quietinha, e fazer tudo que pedissem. Mas, Alberta não se aguentou, deu patadas, socos, até que uma pedra na cabeça a fez desmaiar. Acordou amarrada nas pernas e braços, no centro de dois pilares, e recebeu as chicoteadas nas costas de vez. Desmaiou várias vezes.

Depois disso, as outras aprisionadas aprenderam que sair da cela, significava ir direto ao interrogatório e depois ao matadouro, pois a beleza delas era cobiçada por todos os homens. No fim do interrogatório, eram carregadas desmaiadas. Quando a engenheira Xixim regressou com hemorragia, Ana, médica e cirurgiã, teve que improvisar uma cauterização a sangue frio. Guilherme, assustado pela primeira vez na vida, perdera a esperança e o apetite. Chorou abraçado aos outros homens sem saber mais o que fazer para protegê-las.

Quem chegou a salvá-los dos suplícios foram Rosa e Reginaldo, que convenceram o Chefe Abelardo a parar com tudo isso. Reginaldo falou ao Chefe: — Para que machucá-los se podiam obter deles as coisas mais úteis? Rosa mostrou que sabia contar até 30, e ainda escreveu os números no chão para o Chefe. Todo mundo poderia aprender a levantar muros altos, a produzir armas que matavam de longe, inventar sacolas negras para carregar água, manipular botas altas para caminhar, fazer tecidos, roupas, enfim. Mortos eles não serviam para nada. Eles nunca iam contar para o que o Chefe aquilo que desejava saber. Melhor era obrigá-los a ensinar. Se negarem isso, então o Chefe podia deixá-los morrer. Afinal, nenhum aprisionado estava comendo. Estavam fazendo greve de fome, e faleceriam logo.

E foi assim que Guilherme, em lugar de ser torturado para contar os segredos de sua civilização, foi instigado a ensinar tudo que sabia. O Chefe Abelardo, rodeado de Reginaldo, Rosa e mais 40 pessoas, escutaram o estrangeiro falar:

— Vou necessitar construir um Educandário, ao lado do rio, com um muro de 4 metros de altura ao redor. Dentro dessa escola quero 200 camas de madeira, 200 mesas, 400 cadeiras, quadro negro, giz para escrever e muitos pedaços de couro curtido para escrever o alfabeto com as crianças...

Abelardo abriu a boca, sem acreditar na insolência do sujeito, cuja aparência meiga o fazia parecer uma mulher de tão delicado.

— Mas, que moleque, cara! Você vai ensinar para mim, para meus amigos que estão ao meu lado e para mais ninguém...

— A ler e escrever, e a fazer contas? Achei que o Chefe queria aprender a produzir armas...

E Reginaldo, desesperado, dava conselhos no ouvido do Chefe, para evitar que a paciência dele se esgotasse e enforcasse todos eles. Reginaldo conseguiu fazer a cabeça de Abelardo e seus amigos, para fazer as duas coisas, os homens ensinavam os machos a fabricar armas e as consortes educavam os meninos. Pronto. A edificação da Escolinha, que a levantassem os pais dos próprios guris. Estava tudo solucionado.

E foi assim que uma mudança radical foi introduzida naquele lugar.

Depois que Rosa espalhou a notícia entre o povo, que os encarcerados fariam um Colégio para ensinar crianças, todo mundo se prontificou para ajudar. Quando os prisioneiros saíram da prisão e foram até o rio tomar um banho, tanto do corpo como da alma, eles foram rodeados de 500 crianças nadando em redor, cujos gritos em coro diziam que queriam estudar. E foi nesse instante que Alberta e suas amigas entenderam que estavam naquele lugar horrível, por causa desses guris. A missão delas era salvar os meninos da ignorância, e deixar com eles um legado de sabedoria. Quando descobriram a mãe de Fernanda em meio dessa bagunça, Alberta leu para ela a carta que trouxera escondida, e depois se abraçou nela pedindo para guardar segredo, pois ninguém podia saber que ela estava viva.

Ao anoitecer, junto de uma fogueira gostosa, acompanhados de umas duzentas pessoas sorridentes, Guilherme e Alberta discutiram com todos, o que é que iriam lecionar. Antes do amanhecer, concluíram que para as crianças ensinariam o “Estudo da fauna e da flora”, “Estudo do corpo humano”, “Música”, “Cerâmica vitrificada”, “Fabricação do vidro”, “Fabricação da borracha”, “Fabricação do papel”, “Marcenaria”, “Medicina básica”, “Construção”, “Tecelagem”, “Agricultura”, “Pintura”, “Escultura”, “Canto e Dança”.

Complicado foi debater com Reginaldo o que é que seria ensinado ao Chefe Abelardo e seus amigos. Depois de muita discussão, Reginaldo aprovou o estudo da “Fundição de metal”, para fabricação de armas, começando por arcos e flechas. Guilherme explicou que também aprenderiam a fazer objetos para o lar como frigideiras, panelas, e pratos para comer.

E foi desta feita que Reginaldo saiu pelo mundo com seu pelotão de soldados, acompanhando Guilherme e mais 15 homens, a garimpar os minérios. Cavaram túneis, a pancadas, entraram em cavernas naturais, abriram buracos no chão, em busca de pedras de cores diferentes, que podiam derreter no fogo e as transformar em metal.

A definição desse Educandário ficou por conta de Olaf, Xixim e Ênio, que explicavam para os homens voluntários onde ficariam os dormitórios, pois a Escola seria no regime de internato. Demarcaram no chão as salas de aula, a Biblioteca, o Ginásio de Esportes, os jardins internos, a horta, o pomar, os banheiros femininos e masculinos, sem que ninguém perguntasse nada, pois estavam envergonhados de serem tão ignorantes e não saberem o que era um banheiro.

O que mais reconfortava essa gente era saber que ao ajudar a construir essa Escola todos aprenderiam a erguer casas firmes, com muros altos, se preservando dos maus elementos. Se for possível defecar dentro de casa, isso os afastaria ainda mais dos bandidos. E os mais felizes de todos eram os pais de Tiago, Nina, Mário e Fernanda, que foram os primeiros voluntários a se oferecer para ajudar Olaf e seus amigos.

Enquanto os engenheiros elevavam paredes com ajuda de 80 homens, Alberta e Ana solicitaram escolta para Rosa, para ingressar em todas as casas e antros a selecionar alunos. E Rosa nomeou cinco soldados de guerra, como ela, para escoltar as professoras. Os meninos mais desnutridos, os mais doentes, e os que estavam na beira da morte, foram removidos para acampamento na beira do rio imediatamente, onde Ana lhes preparou um tratamento de ressurreição. Rosa e seus tenentes deitaram as crianças no interior de tendas de peles. Carregaram frutas do mato, água em cestos de palha encerados, peixes, e fizeram guarda, cuidando de todos eles “para sempre”.

Enquanto isso, bem longe dali, Guilherme construía a primeira “Fundição de Alumínio”, dentro de um barracão de madeira. Nas mesas firmes e compridas, a fabricação de moldes para dar forma ao alumínio, o único metal que eles aprenderiam a fundir, começou em meio da empolgação geral.

O mais difícil para o Chefe Abelardo e seus amigos foi inventar “panelas de alumínio esmaltadas” para sua família. Além das panelas fizeram pratos, pois Guilherme encheu a Escola de utensílios domésticos, suficientes para todos os alunos. Além disso, se aprendeu como fazer monumentos com molde, cuja escultura do Chefe em tamanho natural foi proeza do próprio Guilherme, que assentou a imagem deslumbrante por cima de um pedestal, no centro da cidade.

Reginaldo, cujo projeto de vida era nunca mais ouvir falar de outra guerra, deu pouca importância para essas flechas de alumínio, que foram fabricadas em massa, mas não matavam ninguém. Eram tão leves, que o vento as levava para qualquer lugar menos para o alvo, entortavam, quebravam, e nunca feriam para matar. No máximo, faziam uma ferida na pele. Mas, para não passar por ignorante, deu para cada soldado um lindo arco de alumínio esmaltado, decorado em forma artística, cheio de curvas, com algumas pedras incrustadas, e 20 flechas. Como o povo era mais ignorante do que ele, cada vez que um soldado apontava para um ladrão com esse arco, este saía correndo desesperado, frente a essa arma assustadora.

Desta maneira, o alumínio conquistou os homens, de todas as formas.

A inauguração da Escola foi realizada pelo próprio Chefe Abelardo.

No interior desse educandário, encontrou dormitórios com beliches, quartos com muitas mesas com cadeiras, uma cozinha gigante com lindas panelas coloridas, pratos belíssimos, talheres, banheiros com chuveiro de alumínio, e patentes de madeira para defecar. Ele inspecionou tudo, sem comentar nada. Sentia-se ridículo em frente a essa gente culta que lhe mostrava como se comia com colher na mão, sentado à mesa, em frente a um prato cheio de verduras. Autorizou seus filhos menores para frequentar as aulas, e deixou esses professores em paz “para sempre”.

Desta feita, o povo se encheu de produtos alimentícios, antes desconhecidos.

Os professores trouxeram da montanha sementes de todas as frutas e legumes cujo consumo era habitual nos vales da cordilheira. E cada semente foi multiplicada pelos alunos inteligentes, em galpões encobertos, em cujo interior encontravam-se os canteiros com tomates, lado a lado das cebolas, ervas finas para o tempero, alfaces, cenouras, pimentões, chuchu, e infinidade de legumes.

A primeira coisa que esses mestres ensinaram para os guris foi que a fome era fruto da ignorância. A natureza era generosa com seus filhos, e o bosque estava cheio de delícias. O homem, na sua preguiça, não se dava ao trabalho de fazer essa comida se multiplicar, e satisfazer a todos. Tanto no meio do mato como nas grandes cidades, as casas podiam conviver com árvores carregadas de maçãs, laranjas, bananeiras, em meio de avenidas, ruas, dando sombra e frescor ao ar, atraindo chuvas, e alimentando os pássaros e os homens.

Um ano depois, os discípulos saíram de férias, levando consigo rolos de papel com historias escritas por eles mesmos. Todos conheciam as quatro operações matemáticas básicas. Ensinavam os pais a contar frutas, contar os dedos das mãos e dos pés. Também pintavam figuras lindas, de bichos e de flores, com terras coloridas. Aprenderam também a cantar, dançar, tocar flauta, tambores, e harpas.

A primeira cidade nasceu ao redor daquela Escola. As casas de pedra sobre pedra foram sendo construídas uma a uma, e Olaf pediu à engenheira Xixim para fazer Planejamento Urbano. Xixim então fez a demarcação das ruas, e reservou espaços abertos para campos de futebol, parques naturais e pomares para o povo se alimentar.

Quando o Chefe pediu para erguer um Palácio Real para ele e seus capangas, Olaf pediu a Ênio desta vez. E ele caprichou na empreitada. Ênio desenhou um palácio para eternidade. Pedra sobre pedra, com paredes de 2 metros de grossura, janelas decoradas com vitrais coloridos, e portas gigantes de madeira nobre. O levantaram bem no centro dessa cidade, com quatro entradas, uma para o Norte, outra para o Sul, para o Leste e Oeste.

E enquanto a cidade crescia, a criminalidade minguava, pois Reginaldo deu início ao patrulhamento das ruas com seus soldados, para evitar roubo de material de construção.

Nos anos seguintes, esse Educandário foi ficando cada vez mais belo.

À medida que os alunos cresciam, e trabalhava nas oficinas, essa Escola se tornou a primeira fábrica artesanal desse povoado. Estudaram a como fazer cerâmica vitrificada, que colocaram nas paredes externas dessa Escola, em forma de mosaicos coloridos. Também fizeram vitrais para as janelas, telhas de barro cozido para os tetos das casas, patentes de argila branca para banheiros, mobílias esculpidas à mão com figuras de animais, flores, e outros elementos decorativos.

Era o nascimento da arte. Da beleza. Do bom-gosto nos utensílios do dia a dia.

O Chefe Abelardo recebeu muitos presentes desses meninos. O mais lindo era um grande tapete, decorado com lindas figuras, que cobria a entrada, e se estendia até a mesa de governante. Para Marlene, sua esposa, os garotos entregaram mantas de fibras coloridas, e colchões com preenchimento de penas de galinhas. Também enviaram móveis para esse Palácio, como estantes, guarda-roupas e carrinhos de mão, com uma roda na frente, para transportar frutas, verduras, ou materiais de construção.

Guilherme e Alberta, ao lado dos amigos, viram os anos se passarem numa rotina que lhes deu satisfações e alegrias, pois esses guris cresceram, e trabalharam o resto da vida servindo à comunidade, ensinando a todos o que aprenderam, sem nunca pedir nada em troca.

O mundo, que outrora foi um nicho de pessoas famintas, se tornou um povo que fazia horta dentro de casa, plantava feijão e milho em sítios vazios, e principalmente, devolvia à natureza sua beleza. Os homens percorriam o mato puxando árvores para construção de mobílias e no dia seguinte replantavam com mudas trazidas da Escola, sobretudo aquelas utilizadas por macacos e outras espécies, respeitando, desta feita, o habitat da bicharada.

A melhor época, na vida de todos, passou a ser então, durante as férias escolares. Duas vezes por ano, a Escola abria as portas e devolvia os meninos para casa, para alegrar a vida dos pais e dos amigos.

Reginaldo e sua mulher Rosa invitavam então os professores para passeios longos, sempre acompanhados de alunos com mais de 12 anos, e alguns adultos para cuidar deles. Enfileiravam pela beira do rio com destino ao Sul, ou ao Oeste. Faziam piqueniques e se deliciavam, principalmente com mandioca, cozida junto aos peixes assados na brasa.

Um dia, encontraram finalmente o mar, e de longe olharam para várias ilhas paradisíacas, com lente de longa distância. Para surpresa geral, encontraram cinco vilarejos, que sobreviviam da pesca. Pessoas pacatas, simples, que falavam o mesmo dialeto, e sabiam da existência dos homens que viviam além do rio. Guilherme convidou 10 adolescentes para frequentar a Escola, prometendo trazê-los de volta quando terminassem seus aprendizados.

Longe dali, na cidade das montanhas, Tiago e Mário viram seus filhos nascerem em meio da velhice. O que foi maravilhoso, pois nessa altura estavam os quatro aposentados do trabalho. Os bebês cresceram no colo dos pais, que nunca foram tão dedicados e corujas com seus filhos. Mário fazia questão de trocar fraldas, dar banho, enquanto Nina preparava comidas gostosas. Como Tiago era seu eterno vizinho, ele e Fernanda apareciam com os filhos a tiracolo, pois a comida da Nina era insuperável. Eram macarronadas suculentas com carne vegetal, uma delícia gastronômica, bolos com cremes e frutas, que a criançada adorava.

De vez em quando os quatro assistiam a uma conferência importante no Teatro da cidade, principalmente às palestras sobre Física, quando os gênios exibiam seus novos achados. O medo da “bomba atômica” lhes tirava o sono, com o temor de que algum dia um homem de ciência fosse construí-la.

Os sábios aprenderam os segredos do átomo, e das partículas subatômicas, e tudo sobre o comportamento delas. Mas, havia o consenso geral, no meio científico, que estava na hora da humanidade mudar o rumo das pesquisas e esquecer o estudo da matéria, dos átomos, com seus Nêutrons, Elétrons, Prótons, Quark, e estudar a “Energia humana”. Não a força bruta do corpo, senão que a energia imaterial, ou seja, a força do pensamento, dos sentimentos, e um dia descobrir o que um homem era capaz de fazer com tudo aquilo. Uma mulher explicou que uma pessoa possuía mais energia do que matéria no seu corpo. Falou que se fossem colocados num mesmo patamar o ar que se respira, a alma, a eletricidade do sistema nervoso e a aura humana, elas estavam acima dos 50% da composição do corpo humano. Aliás, havia a possibilidade de que a quantidade fosse superior, pois em cada estudo de DNA havia mais energia do que massa. E estava chegada a hora de estudar todo o potencial dessa energia do corpo, ainda desconhecida pela ciência.

E o estudo da “Energia humana” virou febre. A ciência da parapsicologia foi inaugurada nas Universidades com honras, e pouco a pouco foram se descobrindo a telepatia, a vidência e a premonição de fatos e coisas, e a mexer objetos. Algo que sempre fora competência somente de Pitonisas.

Desta maneira, então, ciência e magia passaram a fazer parte do mesmo assunto.

Os filhos de Fernanda e Nina inauguraram uma nova era de conhecimento.

Antes dos quatro amigos morrerem de velhice, eles observaram com admiração seus filhos movimentarem objetos apenas com o “pensamento”.

E desta vez, os quatro morreram com 200 anos bem vividos.

Na vida espiritual, Guilherme, Ênio e Olaf junto de Alberta, Xixim e Ana, os esperavam para dar-lhes um abraço de despedida. O Anjo Miguel estava enviando-os para outros planetas, numa missão voluntária desta vez. Estava nascendo uma guerra, a mais terrível já existente em lugar algum, pois envolvia três planetas vizinhos em conflito, e todos já conheciam o potencial de uma bomba de destruição em massa. Olaf e Xixim viajariam para o “Mundo X de Sigma”, Alberta e Guilherme nasceriam em “Y de Sigma” e Ênio nasceria em “W de Sigma”. Seriam os guardiões do povo quando estourasse a guerra.

Ana iria mais longe, para o “Mundo dos guerreiros intergalácticos” para interferir nessa revolução.

Tiago e Mário escutaram tudo e perguntaram:

— E sabem alguma coisa sobre esses povos?

Olaf falou-lhe:

— Miguel diz que os bandidos da vez são “Canibais espaciais”, e vão invadir toda uma Galáxia. Suas naves transportarão as pessoas em matadouros, frigoríficos, como se fossem gado... Só de imaginar tudo isso eu fico arrepiado inteiro, cara...

— Mas, e nós? Podem chegar até aqui?

— Não! Mas, podem invadir o nosso planeta, onde fizemos a guerra nuclear. É por isso que nos alistamos, vamos lutar por eles desta vez.

Tiago quase gritou:

— QUE MERDA! Envia-lhes as naves de regresso carregadas de merda humana...

— Impossível cara... O Anjo nos contou que nosso antigo planeta está tão evoluído que os homens nem defecam, desintegram as fezes dentro do intestino... O anjo disse que eles estão na Quinta dimensão. São um mundo em transição.

— Dimensão? Transição? Fala mais claro, cara...

— Nós estamos agora na Oitava Dimensão do Universo, a mais distante, no lugar mais longe, mais selvagem, o mais atrasado do Cosmos... Os “Mundos em Transição” ficam no meio. Mas Ana está indo para o centro do Universo. Na primeira Dimensão.

Alberta não se conteve e perguntou-lhe:

— Afinal, o que é que tu fizeste que nós já não fizéssemos?

— E Ana respondeu-lhes:

— Panelas de argila...

Rindo às gargalhadas, todos os espíritos se abraçaram emocionados, numa despedida triste, pois não existiriam mais soldados nesse mundo além de Tiago e Mário com suas esposas. Todos os voluntários eram antigos soldados de guerra que se haviam redimido de todos seus pecados. E estavam partindo para outros mundos deixando para trás uma nova espécie humana universal, a dos “Homens-cobras”.

Alguns bons, outros ruins, como todos eles foram um dia.

Notas finais
Uma mulher explicou que uma pessoa possuía mais energia do que matéria no seu corpo. Falou que se fossem colocados num mesmo patamar o ar que se respira, a alma, a eletricidade do sistema nervoso e a aura humana, elas estavam acima dos 50% da composição do corpo humano. Aliás, havia a possibilidade de que a quantidade fosse superior, pois em cada estudo de DNA havia mais energia do que massa. E estava chegada a hora de estudar todo o potencial dessa energia do corpo, ainda desconhecida pela ciência. E o estudo da “Energia humana” virou febre.