De Volta Para Você
27 Falta
Notas iniciais
Entre meus dedos, aquele anel que seria o marco de um grande momento de felicidade, só me transmitia uma coisa: A falta dela.
Do que adiantava ter ele, se agora, eu não tinha ela?
Eu era mesmo um estúpido, um idiota, um imbecil. Nós estávamos tão bem e mais uma vez, eu estraguei tudo.
Porque é que eu não consegui aprender da primeira vez? Ficar dez anos sem ela já não tinha sido suficiente? Eu tive mesmo que perde-la de novo?
Ela havia me dado uma nova chance e eu a desperdicei. Fracassei mais uma vez na tentativa de fazê-la feliz.
Maneei a cabeça, ficar sem ela doía demais, contudo, saber que eu a fazia sofrer era a pior coisa do mundo.
Merecia estar sofrendo. Merecia mesmo, mas ela não.
Ela não devia estar chorando, seus olhos não deveriam brilhar por causa da dor. Ela tinha que sorrir e em seu olhar só devia residir a felicidade.
—Hey, cara! – Mike chamou apoiando a mão em minhas costas. Apertei os olhos com força antes de olhá-lo.
—Sim? – minha voz saiu mais grossa, pigarreei vendo-o suspirar enquanto puxava a cadeira e sentava a minha frente.
—Não vai comer? Hoje por incrível que pareça o bacon está bem crocante. – ele tentou descontrair. Abri um sorriso forçado olhando para seu prato.
Os ovos mexidos estavam bem amarelados, as fatias de bacon finas e douradas.
Do jeito que ela gostava.
Reprimi os pensamentos enquanto guardava o pequeno anel no bolso da calça.
Tudo, absolutamente tudo, me lembrava ela. E só aumentava toda a falta que ela fazia em minha vida.
—Não estou com fome. – respondi quando voltei a encará-lo.
—Deixar de comer não vai resolver nada. – censurou pegando os talheres ao lado do prato. —Você precisa comer. – Mike bufou, apoiei os braços na mesa e a cabeça na mão.
Eram sempre as mesmas palavras: Você precisa comer. Você precisa dormir. Você precisa sair dessa.
Todo mundo falava o que eu tinha que fazer, mas ninguém me mostrava como fazer.
Ninguém me mostrava como conseguir comer, quando até a minha cozinha tinha a marca dela.
Ninguém me ensinava como conseguir dormir naquela cama vazia, sobre aqueles lençóis que emitiam seu perfume.
Ninguém me dava o caminho para “sair dessa” quando cada pedaço do meu dia, cada piada ruim, cada acontecimento importante ou não, puxavam meus pensamentos pela mão e os levavam até ela.
Mike não insistiu em me fazer comer, ele era bom em reconhecer uma batalha perdida, mas não parou de falar enquanto comia. Embalou um assunto seguido de outro me chamando para ver futebol em sua TV super moderna e ir "esquecer-dela-um-pouco".
Como se eu pudesse escolher. Ou, sei lá, programar a mente, mudar de canal, sintonizar alguma coisa mais animada do que todos aqueles momentos revisitados que ficavam rondando minha mente.
Não iria ver futebol e esquecer dela um pouco. Se eu fosse assistir ao jogo, lembraria das vezes em que vimos algumas partidas juntos, ela não entendendo nada e eu, achando fascinante a oportunidade de lhe explicar. Era esse o problema, sempre lembrar dela mesmo quando fosse para esquecer um pouco.
Soltando o ar pela boca, terminei de recolher minhas coisas.
Mais um plantão cumprido.
—Posso entrar? – a pergunta seguiu as três batidas na porta, olhando por cima do ombro, vi a figura de Laurent.
—Claro. – concordei antes de voltar a dar atenção ao zíper da bolsa que eu arrumava. —O senhor quer falar comigo? – quando a porta fora fechada soube que o assunto era sério.
—Sim. – deixando a bolsa de lado, me virei para ele. —Quero saber se não prefere ficar em casa o resto da semana, não sei se tem condições de trabalhar.
Tomei ar pela boca, corri a mão por meu cabelo e cansado, apenas caí sentado no sofá de couro negro.
—Não, não quero ficar em casa. – falei rápido tentando ser o mais firme possível. —Quero trabalhar, preciso trabalhar. – inclinando o corpo, apoiei os cotovelos nos joelhos. —Preciso me distrair...
—Concordo. – Laurent me interrompeu vindo se sentar à minha frente. —Você precisa se distrair, mas não acho que aqui seja o melhor lugar. – apertando os lábios, o encarei. —Não me entenda mal, Edward. – arqueou as mãos. —É que o nosso trabalho exige um nível de concentração altíssimo. Se você atendesse a um chamado urgente assim, não iria colocar apenas a vida das vítimas em risco, mas a sua também. – soltei o ar pela boca sabendo da sua razão. —Não posso permitir isso, seria imprudência da minha parte.
Abaixando a cabeça encarei os bicos dos meus coturnos. O que eu iria dizer? Ele estava coberto de razão.
—Sei que está passando por um momento difícil.
—Difícil não chega nem perto. – fui sincero ao assumir.
Difícil era acreditar que tudo ficaria bem de novo. Ficar sem ela, era impossível.
—Vocês vão se acertar. – sua mão bateu em meu ombro na vaga tentativa de me passar força. —Já te disse que posso falar com ela.
Passei a mão pelo rosto antes de negar com a cabeça.
—Não precisa Laurent. – murmurei tomando fôlego pela boca. —Tenho que começar a resolver as coisas sozinho. Ficar envolvendo mais pessoas que o necessário é um dos meus maiores problemas.
Ele me olhou por um tempo antes de respirar fundo e concordar com a cabeça.
—Vai dar tudo certo, Edward. – soou confiante. —O tempo é um divisor de águas, vai ser bom para vocês. – queria crer naquilo, mas era complicado demais. —Os erros vão perder a intensidade, as discussões vão perder a importância e a saudade vai falar mais alto. – sorriu e eu retribuí, mesmo tendo que forçar um pouco.
—Obrigado, Laurent. – agradeci a ele que não teve tempo de responder, Mike entrou na sala no minuto seguinte.
—Edward, estou indo, quer carona?
Aceitei ao convite de Mike dando um fim a conversa com Laurent, que antes de eu sair da primeira estação do Corpo de Bombeiros, refez seu pedido para que eu ficasse em casa o resto da semana.
Concordei sem discutir, tudo o que eu menos queria era colocar vidas em riscos por causa de problemas pessoais.
A risada alta de Mike estourara a bolha de pensamentos que eu me enfiara, puxando-me para a realidade.
Ele falava com Jéssica no celular e assim que desligou, me contou o que o filho tinha feito. Mais uma arte, para variar.
Os trigêmeos eram terríveis, Mike várias vezes chegara ao trabalho reclamando da bagunça, do barulho e do cansaço que eles causavam, mas olhando para ele naquele momento, eu vi como ele estava feliz.
Ele tinha tudo, tudo que eu queria ter: Uma esposa e filhos.
Ainda me lembrava de como ele ficara assustado quando Jéssica descobrira a gravides, e enquanto me contava de todos seus temores sobre adiantar o casamento, a falta de dinheiro e o medo de cuidar de uma criança, tudo o que eu conseguia pensar era em como ele tinha sorte.
—São três. – sua voz quase não saiu. Quando o olhei estranhei a palidez aguda em seu rosto que começava a ficar suado. —São três bebês.
Naquela época em que ainda éramos Cabos e o salário não era grande coisa, ele só sabia dizer como seria impossível bancar todas as despesas de uma casa e três crianças.
Foi até engraçado acompanhar seu desespero, que o abandonou completamente quando Jessica apontou na porta do Templo.
Em pé na primeira fileira de bancos, ao lado dos outros padrinhos, vi o olhar que os dois trocaram.
Todo o medo de cuidar de três bebês, o desgaste da crise financeira e o temor pelo futuro desconhecido, saíram de cena dando espaço ao amor. Eles se amavam e parecia que ambos sabiam que iam passar por todas as dificuldades, desde que estivessem juntos.
Novamente eu percebi como Mike era um cara de sorte.
Ele tinha casado com a garota de seus sonhos, estava construindo uma família e em meio a todos os problemas, ainda via a felicidade em seu olhar.
Soltei o ar pela boca me lembrando de como fora difícil me manter firme naquele dia. Tudo o que eu conseguia pensar era Bella e no que eu havia perdido quando ela fora embora.
Era incrível como ela sempre se manteve presente, mesmo estando longe.
Engoli seco pegando meu celular —o qual eu não ligava há mais de cinco dias tudo para não ver as minhas fotos com ela ou simplesmente, as mensagens que ela me mandou quando tudo estava bem—, e as chaves do carro.
—Hey garoto. – chamei por Heron que estava deitado sobre o sofá. —Vamos?
Ele levantou e caminhou em minha direção sem pestanejar. Sorri afagando sua cabeça. Heron era um ótimo companheiro.
Assim que saí pela porta vaguei meus olhos até a casa dela. Um aperto no peito me tirou brevemente o ar. Tudo apagado e fechado.
Ela não estava lá, havia ido para a casa dos pais e eu sabia que era para se manter afastada de mim.
Apertei os lábios, ter convicção daquilo doía para caralho, mas no fundo era bom. Seria uma tortura vê-la todos os dias e não poder, se quer, me aproximar.
Desativando o alarme do carro, abri a porta de trás para que Heron subisse. Ele, parado entre o meu jardim e o de Bella, começou a latir auto em direção a casa dela.
—Heron, vamos. – o chamei, contudo fui ignorado. —Vem amigão, ela não está aí. – tive de puxá-lo pela coleira para que ele entrasse no carro.
Até Heron sentia saudades dela.
E a saudade doía demais, sufocava demais... Dava vontade de chorar só por lembrar de como era.
Dirigir até a casa dos meus pais no mais profundo silencio, fora algo bem difícil. O silencio me fazia pensar e quanto mais eu refletia, mais eu me odiava e mais chegava a conclusão que eu não a merecia.
Era incrível como eu tinha a capacidade de errar mesmo quando queria acertar.
—Está atrasado. – a voz brincalhona de Esme me fez emergir do mar de pensamentos. Era sempre assim, um minuto de descuido e eu afundava novamente.
Olhando-a entrar na sala consegui sorrir verdadeiramente, pela primeira vez no dia —ou na semana.
Mamãe era linda e eu tinha um orgulho imenso de parecer com ela.
Seu sorriso ficou maior quando afagou a cabeça de Heron antes de vir em minha direção.
—Desculpe, perdi a hora. – proferi sendo acolhido por seus braços ternos. Abraçando sua cintura, recostei a cabeça em seu ombro.
Não importava quantos anos eu tinha, ou o fato de eu ser uns trinta centímetros maior que ela, sempre caberia e me refugiaria em seu abraço.
Respirei fundo sentindo sua fragrância suave. Era um dos meus aromas preferidos: O perfume natural da minha mãe.
—Dormiu? – pegando meu rosto entre as mãos, ela me analisou.
—Um pouco. – confirmei sem me livrar de sua desconfiança.
—Um pouco. – repetiu com repreensão. —Comeu durante o dia? – meu silêncio a fez bufar e se afastar. —Edward! Não vou permitir que se afunde como da outra vez.
—Não estou me afundando, mãe. – aleguei correndo a mão pelo cabelo. —Só não senti fome.
Ela cruzou os braços, o olhar que antes era amoroso, agora estava censurador.
—Você quer ficar doente? É isso o que você quer? – Esme estava brava. —Eu sei que você está sofrendo, mas nada justifica essa negligencia com a própria saúde.
Sem retrucar apenas apertei os lábios com os ombros encolhidos. O que eu podia dizer? Ela tinha razão.
Um silencio incomodo perdurou na sala até ela respirar fundo. Com o olhar baixo, senti o toque quente de sua mão em meu rosto.
—Não vai adiantar ficar assim, filho. – seu tom voltou a ser terno. —Você só vai se destruir se continuar desse jeito. Não come, mal consegue dormir.... Onde acha que vai parar com isso?
Mordendo meu lábio inferior a olhei, tentei sorrir, contudo não obtive muito sucesso.
—Vou me cuidar, mãe. Eu prometo.
Ela não acreditou muito no que eu disse, segurou minha mão e me levou até a cozinha.
Sentando em um dos banquinhos a frente do balcão, a vi comandar as panelas que guardavam nosso jantar quase pronto.
A nostalgia me envolveu e sentir o cheiro do bolo de carne me fez voltar por poucos segundos a minha infância.
—Vamos tomar suco. – Esme murmurou enquanto passava os morangos no extrator. —Álcool não vai te fazer bem. – completou com um sorriso.
—Quando o papai volta? – mudei de assunto rapidamente, falar sobre minha alimentação certamente causaria mais broncas.
Verificando o cozimento das espigas de milho, mamãe suspirou.
—Só semana que vem. A prefeitura de Aurora colocou novos empecilhos para a abertura da imobiliária... Enfim, ele vai ter que ficar mais uns dias por lá.
Comendo mais um pedaço de cenoura assenti com a cabeça.
—Ah, mas vai dar tudo certo. – sorri sendo prontamente retribuído. —Alice e Emmet não quiseram jantar conosco?
Limpando as mãos no pano de prato, mamãe negou com a cabeça antes de desligar o fogo.
—Não eles foram jantar na casa dos pais da... – e então ela parou fechando o rosto em uma careta.
Bella.
Sabia que era isso que mamãe ia dizer.
Soltei um riso amargo encarando a tigela com cenouras frescas picadas.
—Está tudo bem, mãe. – disse voltando a olhá-la. —Pode continuar.
Esme respirou fundo, apoiou as mãos no balcão parecendo refletir se falaria ou não.
—Eles foram jantar com Charlie e Renée, parece que é uma pré-comemoração do aniversário de casamento deles. – explicou com a voz séria.
Engoli o restante da cenoura fazendo uma força animal. Saber que eu podia estar com eles, comemorando e além de tudo, ao lado dela, me deixou com a garganta contraída.
—Você foi convidada? – a pergunta estalou em minha cabeça e logo correu por minha boca.
Esme desviou os olhos dos meus e tentou disfarçar enquanto limpava a pedra da pia.
—Não, não...
—Mãe. – a interrompi e ela sabia que aquilo era um pedido para que me contasse a verdade.
—Fui. Eu fui convidada. – respondeu por fim, com um suspiro.
Não ser convidado, doeu. Bastante.
—E porque você não foi?
Ela rolou os olhos enquanto maneava a cabeça.
—Prefiro a sua companhia. – me lançou uma piscadela na vaga tentativa de descontrair. —Não fique assim, meu bem. – dando a volta pelo grande balcão, mamãe veio me pegar em um abraço apertado. —Odeio te ver sofrendo.
Apoiando a testa em seu ombro, fechei os olhos ao sentir seus beijos em meu rosto. Ao lado da minha mãe, eu me sentia livre de qualquer receio em demonstrar que estava sofrendo.
Com ela eu podia desabafar, deixar sair ao menos um pouco daquela dor absurda que eu sentia.
—Eu não sei o que fazer mãe. – assumi quando nos afastamos um pouco. —Eu sinto tanta saudade dela. Da presença, da voz, do cheiro. Sinto saudades até de olhar para ela.
Apertando os lábios, tentei engolir o nó em minha garganta, para me livrar daquele aperto sufocante. Nada.
Me ouvindo em silencio, Esme acariciou meu cabelo.
—Não consigo me imaginar sem ela. Nada parece ter sentido sem ela. – tomei ar pela boca, meu olhos ardiam. —Mal consigo ficar em casa, porque para onde quer que eu olhe, eu lembro dela. – erguendo a mão, a esfreguei em meu rosto. —Lembro de nós dois, quando tudo estava bem e de repente acabou.
Respirei fundo. Várias vezes. Manter o ar nos pulmões ficava cada vez mais difícil.
—E o pior é saber que tudo isso é culpa minha. – o peso em meu peito era tão grande que até minhas costas doíam. —Ela me deu uma nova chance e eu a desperdicei. Eu a decepcionei. Deixei ela acreditar em uma mentira idiota, de novo.
Esme tentou me consolar beijando meu rosto, limpei os olhos antes de fita-la.
—Tudo o que consigo pensar é nas chances que eu tive de dizer a verdade e não disse. – cada vez que eu me lembrava disso, sentia o desespero crescer em mim. —Desde o começo, desde a bolsa de estudos. – mordi meu lábio inferior refletindo sobre coisas mais. —Deveria ter sentado e conversado, falado para ela ir porque era o sonho dela. – tive de pigarrear para limpar a voz. —Devia ter contado a verdade. Contado que meu namoro de quase cinco anos não passou de uma tentativa frustrada de esquecer ela, que Gianna é casada com Laurent, que eu iria lhe pedir em casamento. – mais lágrimas caíram sem permissão por meu rosto. —Deveria ter lutado por ela ao invés de ficar dez anos sem fazer nada.
Erguendo a mão, Esme secou com carinho os traços húmidos em minha face.
—E agora ela não confia mais em mim... – tomei fôlego pela boca. —Fiz tudo errado, de novo! – minha boca ficou amarga quando a voz doce, porém magoada de Bella ecoou em minha cabeça.
E nesse momento, não confio em você.
Eu a vi se rasgando quando disse aquilo, e me rasguei do mesmo jeito ao ouvir.
—Você não fez tudo errado, filho. Você tinha os motivos certos, só os executou da maneira errada. – sua mão afagava meu rosto enquanto limpava os traços húmidos das lágrimas. —A mentira encobre toda a grandeza de seus atos. – puxando um dos banquinhos, mamãe se sentou à minha frente. —A falta de transparência resulta em desconfiança, depois vem a insegurança. – respirei fundo com um soluço silencioso e doído. —E diante do passado de vocês, é super normal que ela se sinta assim.
—O pior de tudo, é que eu sabia disso, mãe. – fechei os olhos com uma raiva gigante de mim mesmo. —Eu sabia onde estava mexendo, sabia com o que estava brincando. Sabia que por conta de tudo o que aconteceu há dez anos, ela não confiava plenamente em mim. —E mesmo assim, eu continuei. Eu a fiz sofrer mãe. Duas vezes.
Em algum momento da vida, todo mundo para e começa a rever suas escolhas, pensar no que queria ser e no que se tornou. E havia me tornado, pela segunda vez, a pessoa que mais odiava no mundo: O homem que fazia Bella sofrer.
—Bella é uma mulher incrível. – corri a língua por meus lábios, secando a lágrima que pairava neles. —Sempre olhei para ela e pensei: Meu Deus, ela é boa demais para mim! – sorri amargamente recordando de como os dias ao lado dela eram maravilhosos. Ela me fez não só um aluno melhor, mas também uma pessoa melhor.
—Quando éramos jovens, via como ela era inteligente, esforçada, decidida.... Eu via que ela estava pronta para ganhar o mundo. – baixei os olhos sentindo-os arderem ainda mais. —E eu não tinha nada para oferecer a ela. Era um moleque imaturo, que com quase vinte e um anos nem tinha concluído o ensino médio ainda.
Enquanto falava, me recordava de cada momento e pensamento, como se estivesse vendo um filme em 3D.
—Não podia prender ela, mãe. Eu não podia dar o futuro promissor que a bolsa de estudos oferecia. – fechei os olhos quando Esme ergueu a mão para limpar meu rosto. —Já tinha acostumado com meu comodismo, mas não era justo fazer isso com ela. Com o sonho dela. – funguei baixo, mais uma lágrima caiu indo se esconder em minha barba. —Eu não queria ficar longe dela, não queria ficar um ano sem ela, nem um mês ou se quer um dia, mas fiquei, porque no fundo sabia que tinha feito o melhor por ela.
Pigarrei para limpar a voz, minha garganta só ficava mais apertada e dolorida.
—E foram anos vivendo aquela vida que eu temia só de imaginar. – soltei o ar pela boca com um cansaço imenso. —Foram anos pensando nela, sentindo um pedaço de mim morrer sempre que lembrava que ela não ia mais voltar. – reviver tudo aquilo, causava uma dor imensurável. —Quis tanto ir atrás dela, mas não achava justo entrar em sua vida e magoá-la mais uma vez. Achei que ela estivesse feliz.
Esme me escutava em silencio, os olhos presos em mim enquanto suas mãos tentavam secar meu rosto.
—Até ela me dizer como sofreu todos esses anos. Até ouvir da boca dela, o quanto ela foi infeliz. O quanto ela chorou. – de todas as coisas, de todos os acontecimentos, o que mais doía era saber disso.
Queria me afundar na saudade, morrer com a dor que a ausência dela me causava, mas a queria feliz, mesmo que eu não estivesse ao seu lado.
—E agora, eu fiz de novo. Fiz ela acreditar em uma mentira e sofrer por isso. – continuei com o maxilar contraído. —Tudo o que eu consigo pensar, é que não mereço estar ao lado dela. E isso... – minha voz falhou. —Isso destrói, corrói por dentro, porque tudo o que eu sempre quis, foi merecer ela.
Inclinando o corpo, Esme passou os braços por meus ombros e me puxou para um abraço forte.
—Não fique assim, meu amor. – pediu beijando minha testa. —Você errou, como todo mundo erra. – sua voz era doce. —Errou ao deixa-la acreditar em uma mentira, por duas vezes, ambas com o teor da traição. – esfregando a mão nos olhos, a ouvi em silencio. —Filho, há dez anos você pisou feio na bola ao decidir dar motivos inexistentes para ela ir embora. – segurando meu rosto com ambas as mãos, ela me fez olhá-la. —Mas hoje, você tem que dar motivos para ela ficar. Se acha que não a merece, faça por merecer. Lute por ela. – aconselhou com a voz amorosa.
Limpando os olhos com as mãos, a olhei fixamente.
—É tudo o que eu quero, mãe. Quero fazer por merecer... – disse a vendo sorrir. —Mas como posso lutar se ela me pediu um tempo? Não quero força-la a nada.
—Não a force. Converse. – proferiu me deixando sem entender, sua mão afagou meu rosto, ela se levantou e então beijou minha testa. —A verdade e a sinceridade são as melhores armas, meu bem. – me lançou uma piscadela.
A verdade e a sinceridade são as melhores armas.
Aquilo martelou em minha mente.
—Ela te disse tudo, não é? Te fez entender o quanto sofreu, certo? – perguntou retirando uma caixinha de lenços de uma das gavetas, ela veio até mim e secou meu rosto com cuidado. Quieto, apenas concordei com a cabeça. —Então, acho que ela merece saber como você se sentiu durante todo esse tempo. Depois a deixe ter o tempo que precisar, respeite a decisão dela. – aconselhou com um suspiro. —O respeito é a forma mais bonita e simples de demonstrar amor.
Suas palavras me fizeram refletir.
—Pense sobre isso. – pediu beijando meu rosto. —Agora venha comer, está muito magrelo para o meu gosto.
Sorri com seu jeito carinhoso. Minha mãe era ótima e somente sua companhia conseguia diminuir um pouco da angustia que residia em mim.
Apesar de Esme me ter feito comer muito mais do que eu queria, passar aquele tempo com ela, fora muito bom.
Nós mantemos nossa conversa em um terreno bem distante dos caminhos que ligavam Bella, mas mesmo assim, ainda não conseguia parar de pensar nela.
Não conseguia parar de sentir sua falta. De sentir vontade de tocá-la, ou simplesmente, vê-la.
—Tem certeza que não dormir comigo? – ela voltou a oferecer quando entramos no quarto de hospedes.
—Mãe, não tenho mais dez anos. – murmurei rolando os olhos, sem deixar de rir.
Após ela insistir muito para que eu dormisse em sua casa, acabei cedendo. No fundo sabia que seria melhor. Voltar para casa e não ver ela, seria ruim demais.
—Eu sei, mas sempre vai ser o meu menininho. – respondeu segurando meu rosto e beijando minha testa. —Se precisar de alguma coisa, é só me chamar, ok?
—Ok. – assenti com um sorriso, beijando o alto da sua cabeça.
Esme apertou a ponta do meu nariz antes de ir em direção a porta.
—Mãe. – a chamei antes que ela saísse. —Obrigado. – seu sorriso foi doce.
—Não precisa agradecer. Boa noite, meu amor.
—Boa noite. – respondi vendo-a me lançar um beijo no ar e então, sair do quarto.
O quarto grande e silencioso fez meus passos ecoarem. Cansado, tirei os tênis e a blusa de frio.
Deitado na cama, encarei o teto. Heron se colocou ao meu lado, sua cabeça se enfiando entre minha mão e o colchão macio.
—Está sentindo a falta dela também, não é? – indaguei o olhando de soslaio, seus olhos grandes que mais pareciam dois botões negros brilhosos, me encaravam.
Soltando um lamurio, ele deitou a cabeça em minha barriga.
—É, eu sei que dói. – soltei com um suspiro. —Mas eu vou trazer ela de volta amigão. – arrumei a cabeça no travesseiro, alisando os pelos de sua cabeça. —Vou trazer ela de volta para gente.
Soltando o ar pela boca, encarei o teto.
Não ia deixar que ela se afastasse de novo e perder mais dez anos.
Dessa vez, eu lutaria por ela.
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