De Volta Para Você
26 Verdade
Notas iniciais
Presa naquele taxi que seguia com bastante eficácia o carro de Edward, tentei não surtar com toda aquela ansiedade que se acumulava em meu peito.
Não podia agir feito uma descontrolada. Tudo o que eu não podia perder ali era o controle.
Quando chegamos em Denver, me preocupei ao ver o transito. O motorista teve um certo trabalho, mas não perdeu Edward de vista.
Viramos a esquina quando ele entrou pelos portões de uma lanchonete. Prendi o ar na garganta quando fizemos o mesmo percurso.
Olhando pela janela, o vi sair do carro. Não podia negar ou deixar de reparar em como ele estava lindo.
Usava um suéter bordô por cima de uma camisa polo branca, a calça era de um azul Prússia e os sapatos Monk eram chocolates.
Maneando a cabeça, não me deixei abater.
Assim que Edward atravessou as portas de entrada, eu me preparei para descer do carro, contudo, assim que apoiei a mão na porta senti toda a coragem se esvair de mim.
Eu ia mesmo fazer aquilo? Ia mesmo constatar que Edward estava me traindo e pôr um fim em tudo?
Engoli o nó que prendeu minha garganta.
Eu não estava fazendo nada. Era Edward quem estava.
—Me espere, ok? Não vou demorar. – pedi ao motorista antes de sair do carro. O frio embalou meu corpo e quanto comecei a tremer não tive certeza se era por conta da baixa temperatura ou do nervosismo.
Dentro da lanchonete tocava uma música suave, o cheiro de bacon frito, no entanto, não era tão delicado.
Meus olhos varreram todo o ambiente principal. Nada.
—Poço ajuda-la? – uma garçonete se aproximou e o medo de ser barrada novamente cresceu em mim.
—Me perdi do meu namorado, não me recordo onde era nossa reserva. – expliquei firmando minha voz. —Ele é alto, ruivo, está vestindo um suéter bordo...
Expliquei a ela rezando para que caísse em minha mentira.
—Ah, eu o vi entrar. – respondeu após pensar por um tempo. —Ele foi se sentar em uma das mesas ao fundo. É só seguir reto e virar. – explicou educadamente.
Eu quis lhe dar um abraço em agradecimento, porém, me contive.
—Obrigada.
Respirando fundo, segui suas coordenadas. O barulho do meu salto martelando no piso era ritmado.
Caminhei em linha reta por mais de dois metros e então, dobrei em sentido oeste. Um mar de mesas vazias chegaram até mim.
Praticamente todos os jogos de cadeiras estofadas estavam desocupadas. Menos uma.
Mais ao fundo do espaço, estavam sentados Edward e Gianna, a qual reconheci de cara.
Eles conversavam sorridentes e aquilo só serviu para alimentar a fúria e o ciúme em mim.
—Espero não estar interrompendo nada. – minha voz saiu destilada de raiva, os dois se viraram juntos na cadeira e dizer qual rosto estava mais assustado foi impossível.
—Bella? – a voz de Edward falhou vergonhosamente. Ele não estava pálido, estava quase transparente. —O que... O que está fazendo aqui?
Rolei os olhos com a pergunta idiota, ele se levantou e seus olhos demonstraram uma aflição ímpar.
—A pergunta seria o que você está fazendo aqui. – retruquei amargamente. —Mas eu sei bem qual é a resposta. – vaguei meus olhos para a mulher que continuava sentada.
Sua beleza me atingiu em cheio, ela era muito bonita e diante seus traços sensuais, voltei a me sentir como aquela adolescente de jeans e camiseta.
—Não é nada disso que você está pensando.
Bufei com suas palavras.
—Ah, não? – dando um passo cauteloso em minha direção, Edward negou com a cabeça. —Não seja hipócrita Edward. – pedi contendo a vontade enorme que eu tinha de estapeá-lo. —Não tente me enganar de novo porque você não vai. – deixei bem claro. As batidas fortes do meu coração me deixavam atordoada pela leve falta de ar.
—Não estou enganando você. – parado a minha frente, ele correu a mão pelo cabelo. —Gianna e eu somos apenas amigos, nunca aconteceu nada e....
—Chega! – aumentei a voz para cala-lo. —Chega. – repeti engolindo o choro que ameaça explodir por meu peito a qualquer momento. —Não quero ouvir nada. Mal posso olhar para a sua cara... – fechei os olhos dando um passo para trás. —Eu só quero que você suma da minha vida e não me faça perder mais dez anos.
Meu queixo tremia e meus olhos ardiam quando lhe dei as costas. Meus passos não foram nada firmes, mas como eu podia caminhar com firmeza quando minhas pernas estavam tremulas?
—Bella, espera... – Edward pediu ao tentar —sem sucesso— segurar meu braço.
Não lhe dei atenção, apenas continuei andando. Queria sair dali o mais rápido possível.
—Bella, vamos conversar. – o ignorei novamente. Parando a frente do taxi, me embaralhei ao tentar abrir a porta. —Você precisa me ouvir. – ofegante, ele me puxou.
Edward era bem mais forte que eu e tentar me soltar foi em vão.
—Me deixe te contar...
—Contar o que? – minha voz subiu uma oitava, já não conseguia mais controlar a raiva que eu sentia. —Que você está me traindo? Que está tendo um caso com aquela mulher?
Correndo a mão pelo cabelo, Edward pareceu aflito.
—Não é nada disso.... Me deixe te explicar!
—Não quero, não quero! – apoiando as mãos em seu peito, eu o afastei. —Não quero ouvir nada. – minha voz falhou miseravelmente. —Quantas vezes eu te pedi para me dizer o que estava acontecendo? Quantas vezes eu quis te escutar e você não quis dizer...
Aquela situação estava me sufocando. Sentia o oxigênio faltar dentro da minha cabeça e minhas pernas tremerem.
—Eu não quero ouvir mais nada que saia da sua boca. – as lágrimas finalmente rolaram por meus olhos. —Não quero ouvir suas explicações desconexas, não quero acreditar em suas mentiras. – parei diante a falta de ar. —Não quero mais olhar para você. – meio atordoada, recostei no carro. —Eu quero distancia de você, Edward.
Ele pareceu desesperado ao ouvir minhas palavras, suas mãos seguraram meus braços com firmeza e eu não tive força para afastá-lo.
—Bella, eu sei que está com raiva e tem todo o direito, mas....
—Não. – o interrompi tapando sua boca com os dedos. —Não tem “mas”. – me forcei para olhar em seus olhos amedrontados. —E raiva não chega perto do que eu sinto. – quis me estapear por soluçar. —Eu estou puta com você. Eu queria te bater até você sentir um pouquinho dessa dor que existe dentro de mim. – fiz uma pausa para recuperar um pouco da voz. —Você acabou com tudo, de novo. Destruiu a confiança que eu tinha em você, de novo. Você... – outro soluço me interrompeu. —Você me fez acreditar que seria diferente, que ia me fazer feliz, que eu... Que eu era única para você e agora... Agora, você estragou tudo. De novo.
Edward abaixou a cabeça quando meus soluços encerraram minhas palavras.
—Então não me venha com “mas”, porque isso não vai consertar nada. – desvencilhei meus braços de suas mãos e me virei, Edward demorou a agir, mas assim que me viu abrir a porta, tentou me impedir mais uma vez.
—Eu sei que eu sou idiota, mas você entendeu tudo errado.... – sua mão segurou a porta impedindo-me entrar no carro. —Me escuta, por favor.... Me deixe tentar consertar as coisas.
—Não quero escutar nada, Edward. – limpando o rosto, consegui me livrar dos resquícios do choro para falar. —Eu só quero sair daqui. – empurrando seu braço, consegui move-lo o bastante para adentrar no veículo.
Edward ainda tentou me impedir, mas dessa vez, fui mais rápida.
—Pode ir. – disse ao motorista enquanto ignorava os apelos de Edward.
Ele teve o direito de não querer me dizer o que estava acontecendo quando teve a chance e agora, eu tinha o direito de não querer ouvi-lo.
—Para onde vamos agora? – se antes o motorista parecia animado, agora ele exalava pena. Pena de mim.
—Só vai andando. – sussurrei com o olhar baixo.
Não ouve mais conversar, ele apenas acelerou o carro e começou a rodar pelas ruas transitadas de Denver.
Recostando a cabeça no banco, travei uma guerra contra o choro. Não sofrer por ele, não mais. Contudo, eu não podia impedir meus sentimentos, mas podia barrar minhas lágrimas. E iria. Edward não as merecia.
—Você está bem? – o homem me perguntou após um tempo.
—Vou ficar. – não tinha nem um pouco de certeza sobre aquilo, mas era a resposta mais coerente que eu poderia lhe dar, afinal, ele não precisava saber das minhas tristezas.
Ele aceitou minha resposta, nós paramos em meio aos outros veículos, o transito estava feio e olhando pela janela entendi o porquê. Estávamos na 16th Street.
O calçadão repleto de lojas, galerias de arte, sebos, livrarias e restaurantes me pareceu bastante atrativo.
Caminhar pelo centro de Denver seria bom.
—Acho que eu vou descer aqui. – abri a bolsa a procura da minha carteira, foi impossível não ver meu celular brilhar. O nome de Edward reluzia na tela diante a chamada recebida. Ignorei com um suspiro. —Quanto é?
—São noventa dólares.
—Obrigada. – agradeci ao lhe entregar as notas e descer do carro.
Me encolhi dentro do casaco ao sentir a temperatura fria, saber que ela não duraria muito tempo me deixou mais tranquila. O inverno já estava no fim e logo a primavera daria as caras.
Colocando as mãos nos bolsos, caminhei pelo calçadão desviando de algumas pessoas que pareciam dispersas demais. O motivo era claro. A felicidade.
Elas agiam como se não houvesse nada ao acontecendo ao redor. O momento era delas, o resto das pessoas eram apenas figurantes.
Com um suspiro pesado, ignorei o ardume em meus olhos.
É incrível como a felicidade dos outros nos afetam quando estamos para baixo.
É horrível ver os outros bem quando não estamos. É inevitável não pensar em como a vida era injusta e cruel.
Se antes todo o meu pesadelo fora apenas uma mentira, agora ele havia se realizado em proporções ainda maiores.
Quando eu tinha dezenove anos e todo o escândalo da traição viera à tona, eu tinha tudo para dar a volta por cima. Ir embora, morar em outras cidades, conhecer novas pessoas, estudar na universidade dos meus sonhos e seguir a carreira que eu queria.
Agora, beirando os trinta anos, não tinha nenhuma perspectiva.
Tudo o que eu havia feito desde que voltara para Louisville, girara em torno de Edward. Descobrir a verdade, superar, seguir em frente, dar uma nova chance, recomeçar.
Edward estava incluso em tudo e agora, que as coisas haviam desmoronado, não conseguia encontrar uma única corda para escalar.
Não ver uma luz no fim do túnel era desesperador.
Não conseguia assimilar o que estava acontecendo. Nada fazia sentido. O que houve não fazia sentido.
Edward havia mudado tão depressa. A desconfiança entrou em nossas vidas do nada.
Odiava a reviravolta que minha vida dera. Odiava estar sem chão. Odiava não conseguir imaginar um futuro que não incluísse Edward. Mas, sobretudo, odiava ainda mais por amá-lo imensamente.
—Com licença? – a voz masculina me despertou. Erguendo a cabeça, encarei o jovem parado a minha frente.
—Sim? – indaguei baixo limpando com as pontas dos dedos, os resquícios de lagrimas em minhas bochechas.
Meu rosto estava frio e meu nariz ardia, tudo resultado do frio. Ficar a tarde toda sentada na área externa do restaurante não foi uma boa ideia.
—Já estamos fechando e eu preciso recolher as mesas. – me senti um pouco envergonhada.
—Ah, claro. – sorri amarelo. —Pode trazer a conta? – o moço concordou sorrindo, ignorei o olhar penoso que ele me dava.
—Posso ajuda-la em algo mais? – ele indagou após recolher o dinheiro.
—Gostaria de pegar um taxi, se conhecer o número de algum taxista...
—Só um momento. – ele pediu atenciosamente, antes de se retirar.
Soltando o ar pela boca, vi a fumaça subir por meu rosto. Estava tão frio que até minhas roupas estavam geladas e como foi que não percebi antes?
Retirando o celular da minha bolsa, olhei as várias notificações na tela. Chamadas perdidas. Novas mensagens.... Maneei a cabeça guardando o iPhone no bolso, não queria falar com ninguém.
Eram quase oito e meia da noite, quando o taxi parou em frente ao restaurante. Antes de entrar no veículo, agradeci ao rapaz gentil.
Ele era jovem e bonito. Não devia ter mais que dezessete anos e apostava que seus ombros largos, unido ao seus belos olhos azuis, arrancavam suspiros de muitas garotas.
Talvez ele namorasse. Talvez, ele chamasse a garota de “minha linda”, mesmo quando ela estivesse despojada em seu jeans lavado e sua camiseta de banda.
Talvez, ele a fizesse feliz a ponto de ela se esquecer das coisas ruins que aconteciam no mundo. Talvez, ele fosse o mundo para ela.
Respirei fundo deixando os pensamentos de lado. Tinha que parar de colocar as pessoas na minha vida. Colocar o peso nas costas de desconhecidos e tentar enxergar o problema de fora da situação, não ia ajudar.
No fim, eu sempre seria a Bella e Edward, sempre seria o Edward.
O carro fez a curva familiar de casa e senti uma vontade enorme de pedir para o motorista recuar.
Não pedi, é claro. Não ia fugir de novo e perder mais dez anos, aquilo não deu e jamais ia dar em nada.
O taxi parou em frente à minha casa e logo vi a grande movimentação de pessoas. Tirando o dinheiro da carteira, deixei para reconhecer quem quer que fosse, quando saísse do taxi.
—Pode ficar com o troco. – soltei assim que lhe estendi a nota de cem dólares.
Tomando ar e coragem pela boca, desci do carro.
A luz que vinha da varanda de Edward e da minha, unida a dos postes, iluminava as pessoas em frente ao passeio.
Charlie foi o primeiro a se aproximar, Alice o seguiu de perto e logo atrás, Renée.
—Bella, onde você estava? – ele perguntou segurando em meus braços.
—Você está bem? – Alice parou ao nosso lado, a olhei rapidamente vendo-a ofegante.
—Oh, meu Deus, filha! – quando Renée chegou até mim e me abraçou, senti uma forte vontade de ceder a toda aquela dor sufocante que me comprimia por dentro. —Onde você se meteu? Quer me matar do coração?
—Desculpe, mãe. – pedi com a cabeça apoiada em seu ombro, as lágrimas já enchiam meus olhos. —Eu só... – não consegui completar, afinal, não tinha nada para dizer.
—Você está tão fria, está se sentindo mal? – Alice apoiava a mão em meu rosto a procura de algum sinal de doença. Mal sabia ela que todo o meu mal estar me destruía por dentro, não por fora.
—Vamos para dentro. – Charlie murmurou sem me deixar responder, não que eu fosse.
Renée pegou as chaves de dentro da minha bolsa e abriu a porta, o ar quente e o cheiro familiar me embalaram, mas de um jeito muito estranho, não me senti em casa.
Faltava alguma coisa. Ou alguém.
—Acho melhor ligar para Edward e Emmet e avisar que ela apareceu. – a voz de Alice saiu meio longe, mesmo assim o nome dele me abalou completamente.
Tapei o rosto com as mãos respirando fundo várias vezes, já não conseguia prender as lágrimas, contudo não ia deixar os soluços saírem por minha garganta.
—Não quero ver o Edward. – proferi assim que a voz voltou para minha garganta. Quando ergui a cabeça, vi os três trocarem olhares sugestivos.
—Bella, ele está desesperado atrás de você. – Renée disse afagando minhas costas. —Nunca vi ele tão atordoado...
—Mãe, Edward está me traindo. – assumir aquilo em voz alta doía mais do que eu pensei ser possível. —Sabe, está me traindo. – pontuei as palavras para que ela entendesse. —Não quero falar com ele.
Os três voltaram a trocar um olhar muito suspeito.
—Ok, porque não sobe e vai tomar um banho? – Alice deu a ideia. —Você parece bem cansada.
Soltei um longo suspiro ao me levantar do sofá. Nenhum dos três me seguiu e agradeci.
Conversar sobre o ocorrido não me parecia uma ideia muito atrativa no momento.
Esperei encontrar em meu quarto o acolhimento e a paz que precisava. Tudo o que chegou até mim, foi o silencio e o frio.
Porque eu não conseguia me sentir em casa? Porque tudo parecia ter perdido o sentido?
Debaixo do chuveiro, deixei que água quente lavasse meu rosto levando embora os resquícios do choro que me abateu.
Edward era um idiota. Tudo o que mais queria era proporcionar a ele, ao menos um pouco, da dor que eu sentia.
Enrolando o roupão em meu corpo, saí do banheiro. Esperava encontrar meu quarto vazio, contudo a presença de Alice ali me assustou.
—Meu Deus, Alice! – soltei apoiando as mãos contra o peito. —Que susto.
Ela estava sentada nos pés da minha cama e me olhava fixamente.
—Você está bem? – perguntou ignorando minhas exclamações.
Soltando o ar pela boca, fui até o closet.
—Nem um pouco. – fui sincera enquanto procurava algo para vestir. Calça jeans e uma blusa de moletom rosa escuro cobriram minha lingerie branca. —Edward me traiu, ele acabou com tudo de novo.
—Bella, Edward não traiu você. – disse assim que voltei para o quarto.
Penteando meu cabelo, a olhei.
—Alice, eu os peguei juntos, ok? Eu o segui e o vi com ela...
—O viu fazendo o que? – me interrompeu. —Sentado em uma mesa, conversando? – ela se pês de pé e sua postura me informou que ela sabia de algo que eu não tinha conhecimento. —Bella, isso não é uma prova de traição.
Soltei o ar pela boca, porque ela estava defendendo ele?
—Alice, Edward mentiu para mim. Ele me enganou. Ele foi se encontrar com outra mulher pelas minhas costas. – narrei bem devagar para que ela compreendesse tudo. —E eu tenho certeza que não é a primeira vez... – abaixando os olhos, Alice respirou fundo. —Então não tente defende-lo.
Ela não disse mais nada, apenas suspirou e arqueando as mãos, saiu do quarto.
A raiva inflou dentro de mim. Porque até quando Edward estava errado, as pessoas o defendiam? Porque tudo era sempre mais fácil para ele?
Desci as escadas com as pernas pesadas, a cada minuto que ia, mais a vontade de desaparecer me consumia.
O silencio da sala me surpreendeu, esperava ouvir o falatório de Alice, Charlie e Renée, mas nada. Tudo o que encontrei foi o silencio e quanto comecei a pensar que estava sozinha, eu o vi.
Sentado em meu sofá com os braços apoiados nos joelhos, estava ele: Edward.
Todos aqueles sentimentos esmagadores me petrificaram brigando avidamente para chegar ao topo da minha cabeça e me dominar.
Raiva. Magoa. Ciúme. Tristeza.
Eram tantos.
Edward pareceu ter sentido minha presença, pois logo ergueu a cabeça e cravou seus olhos em mim.
Ele estava mal.
Foi a primeira coisa que notei ao ver seu semblante pálido e abatido.
Mesmo sendo errado e até mesmo cruel, aquilo me fez bem. Ver que ele sofria, me contentou. Não era justo eu sofrer sozinha.
—Edward. – soltei entredentes, sem saber a quem odiar mais. Ele ou aos outros que permitiram sua entrada.
—Bella. – ele se colocou de pé, algo brilhante entre seus dedos sumiu assim que ele fechou as mãos em punhos. —Nós precisamos conversar.
—Não precisamos, não. – neguei descendo o último degrau para aumentar a distância entre nós dois. —Por favor, saia da minha casa.
—Bella, não faz assim. – ignorando minha negativa, ele pediu. —Não deixe que um mal entendido estrague o que nós temos....
—Eu não estou fazendo nada. – o interrompi com raiva. —Quem fez foi você. – acusei. Como ele podia tentar me culpar por aquilo? —Você estragou tudo. A culpa é sua, não minha.
Ele me ouviu em silencio, ergueu a mão e a esfregou no rosto.
—Me perdoe, Bella. – pediu olhando nos fundos dos meus olhos. Engoli seco. Seus orbes verdes imploravam. —Me perdoe por ser tão idiota. – Edward se aproximou um passo de mim. —Me deixe te explicar o que ouve...
—Eu não quero ouvir, Edward. – neguei o calando. —Não quero ceder a você mais uma vez. – minha voz ficou embargada. —Eu aceitei os seus “nãos”. Eu aceitei quando se recusou a me dizer o que acontecia. – tive de fazer uma força absurda para engolir. —E depois... Depois eu te ouvi. – fechei os olhos por um longo tempo, buscando em meu interior a força que eu precisava para concluir meu raciocínio. —Estou cansada de aceitar a sua vontade. De fazer as coisas como você acha que é melhor. – meu queixo tremeu me fazendo gaguejar. —Você já escolheu por mim uma vez Edward e me fez perder dez anos da minha vida. Não vou deixar que isso aconteça de novo.
Seus olhos brilharam, ele engoliu a seco antes de cerrar o maxilar.
—É exatamente por isso que eu estou aqui, Bella. Não posso permitir que a gente perca mais dez anos. Não quero que a gente sofra mais dez anos...
—A gente? – perguntei irônica. —Edward, você não sofreu um terço do que eu sofri. – deixei que as lágrimas caíssem por minha bochecha, prende-las só me sufocaria mais. —Você não foi embora para um estado estranho, você não perdeu seus amigos, não se afastou dos seus pais. Você não saiu por aí, desesperado, tentando me achar em outras mulheres. – tirando o cabelo do meu rosto, o vi respirar fundo. —Pelo o contrário. Você ficou aqui, fez novas amizades, esteve ao lado da sua família a todo o momento e até se envolveu com uma mulher durante cinco anos. – apertando os dedos nos olhos, Edward abaixou a cabeça. —Sempre foi mais fácil para você, Edward. Sempre.
—Você acha que foi fácil te deixar ir embora? – quando ele voltou a me olhar, eu vi as lágrimas brilharem em seus orbes. —Acha que eu fui feliz durante todo esse tempo? Que ficar aqui e ter uma namorada, diminuiu a falta que você me fazia? Diminuía o amor e a saudade que eu sentia por você? – podia ver a dor em seus olhos, aquilo não me fez bem. Nem um pouco.
—Você escolheu isso, Edward. Você escolheu me deixar e eu nem tive a chance de opinar no rumo que a minha vida tomaria. – aumentei a voz diante o fato. —Você desistiu fácil demais e nem... Nem me deixou lutar por nós dois.
Edward soltou o ar pela boca, com poucos passos ele se aproximou ficando a milímetros de mim. No fundo não entendia qual o motivo de estar falando tudo aquilo novamente, afinal, já havíamos discutido sobre tudo o que passou.
—Eu sei. Sei que eu errei há dez anos atrás. – assumiu com o timbre aflito. —Sei que eu devia ter encontrado outro jeito. Que eu devia ter implorado para que você ficasse para mim e não fosse embora. – continuou olhando em meus olhos. —Mas eu não posso voltar no tempo, Bella e é por isso que eu estou aqui. – uma de suas mãos subiu para meu rosto. —Estou aqui lutando por nós dois. Pelo o amor que sinto por você e que eu sei, que também sente por mim.
Solucei ao seu sentir seu toque quente em meu rosto.
—Amor é só o acabamento, Edward. – soltei baixo. —A confiança, é a base. Não adianta ter um belo acabamento se a base está ruindo.
Ele chacoalhou a cabeça e então segurou embaixo do meu queixo, me obrigando a encara-lo.
—Amor, me escute. Eu jamais traí você. Nem em pensamento. – seu tom era desesperado, eu podia sentir toda a vontade que ele tinha em me fazer acreditar naquilo. —Tudo o que eu fiz nas últimas semanas, foi tentar encontrar um anel perfeito para você. – então, Edward ergueu a outra mão.
Seus dedos se abriram com calma para então me revelar a linda joia de ouro reluzente toda encrustada por pequenas esmeraldas.
—Gianna é dona de uma joalheria, ela se encontrava comigo para me mostrar os modelos. – ouvi suas palavras, mas estava atônita demais. —Eu queria algo especial e único, então pedi que ela desenhasse um anel para mim. – com a vista turva pelas lágrimas, continuei a encarar o anel. —Mas despistar você era tão difícil... E você acabou entendendo tudo errado. – com um enorme esforço, voltei a olhá-lo. —Eu só queria te mostrar como você é única para mim. Eu só queria te pedir em casamento.
Eu fiquei o encarando por longos minutos. Eram tantas informações. Eu estava atordoada e perdida.
—Bella, acredite em mim. Eu nunca traí você. – segurando meu rosto com ambas as mãos, Edward implorou. —Por favor, amor...
—Eu... – fechei os olhos sem saber o que dizer. —Eu não... Não sei. – assumi vendo-o recuar o corpo. —Eu não sei o que pensar. Não sei.... Você me fez acreditar de novo em uma mentira e... Sofri todos esses dias à toa. – as mãos de Edward saíram do meu rosto. —Tem noção do que é isso, Edward? Tem noção? – com o rosto contraído, ele permaneceu quieto. —Não aguento mais essas repetições.... Não sou mais uma adolescente. Não posso mais carregar tudo isso.
Edward passou a mão pelo cabelo, via seus olhos cheios de lágrimas e seu semblante destruído. Ele estava tão mal quanto eu.
—Eu preciso tentar entender o que está acontecendo, Edward. – disse por fim. —Nada mais faz sentido para mim e nesse momento, não confio em você.
Ele pareceu tentar absorver o que eu tinha dito. Aquelas palavras o feriram, pude ver em seu rosto.
—Preciso de um tempo. – quando dei por mim, já havia dito as palavras e eu nem sabia se era aquilo mesmo que eu queria.
—Tudo bem. – ele concordou com um suspiro, ergueu a mão e a passou pelo cabelo. —Eu respeito sua decisão. – olhando para o chão, acompanhei sua aproximação.
Meu coração bateu forte e doído.
—Só não esquece que eu amo você, minha linda. – pediu afagando meu rosto com os dedos.
Ergui o rosto a tempo de receber um demorado beijo na testa. Edward se afastou, uma única lágrima caiu por seu rosto e então, ele saiu pela porta.
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