De Repente, Pais!

4 O Abismo Cinzento


Notas iniciais
Oi, meus amores. 🤍 Antes de vocês começarem esse capítulo, eu queria pedir uma coisinha: leiam com calma. "O Abismo Cinzento" foi, sem dúvida, um dos capítulos mais difíceis que eu já escrevi. Não pela quantidade de palavras, mas porque eu precisei me despedir de dois personagens que eu amo profundamente. Alice e Jasper sempre representaram luz, acolhimento e amor, então escrever o silêncio deixado por eles doeu mais do que eu esperava. Mas essa história nunca foi apenas sobre romance. Ela também é sobre as famílias que escolhemos, sobre promessas feitas em vida e sobre encontrar forças para continuar quando parece impossível respirar. Talvez vocês chorem comigo. Talvez sintam raiva. Talvez queiram entrar na história e abraçar a Bella, o Edward... ou a pequena Liv. E tudo bem. Obrigada por viverem essa jornada comigo. Agora... respirem fundo. Nos vemos do outro lado. 🤍

Capítulo 4: O Abismo Cinzento

A tempestade lá fora foi enfraquecendo aos poucos, dando lugar a um amanhecer cinzento, gélido e sem vida. As horas entre a ligação do Carlisle e o raio de sol pálido que invadiu a janela pareciam ter durado uma eternidade. Eu não preguei os olhos. Passei a noite inteira sentada no chão do quarto de nuvens, encostada no berço, embalando Liv no meu colo como se ela fosse a única coisa me mantendo presa à terra.

Por volta das seis e meia da manhã, o meu celular vibrou na minha mão trêmula.

Era Carlisle.

Eu nem precisei ouvir o tom completo da voz dele. Quando ouvi o suspiro pesado e embargado do pai de Edward do outro lado da linha, meu estômago despencou em um abismo sem fim. Alice havia tido três paradas cardiorrespiratórias na mesa de cirurgia. Os médicos tentaram tudo. Carlisle tentou tudo. Mas os ferimentos do impacto eram devastadores demais.

Ela se foi. Minha Alice. Minha irmã de alma, a garota que enchia cada canto escuro da minha vida com cores, risadas e planos mirabolantes.

Quando desliguei, não consegui sequer gritar. Um silêncio oco e sufocante se instalou no meu peito. A dor de perder Jasper e Alice na mesma madrugada era tão esmagadora que meu corpo parecia ter entrado em choque, anestesiando meus sentidos para que eu não enlouquecesse ali mesmo.

Cerca de uma hora depois, o som da porta da frente se abrindo quebrou a quietude da casa. Passos lentos e pesados subiram a escada.

Fiquei de pé no meio do quarto, com os braços cruzados ao redor do meu próprio corpo. A porta do quarto se abriu devagar e Edward apareceu na entrada.

Eu nunca tinha visto Edward Cullen assim. O homem sempre impecável, controlado e irônico parecia uma sombra do que um dia foi. Sua jaqueta estava encharcada de chuva, os cabelos acobreados bagunçados e grudados na testa, e seus olhos verdes estavam fundos, vermelhos e banhados em lágrimas que escorriam sem parar pelo seu rosto pálido.

Nós nos olhamos em silêncio. Por um segundo, todo o passado, as brigas, as provocações e as armaduras desapareceram completamente. Não sobrou nada além de duas pessoas despedaçadas por uma tragédia imensurável.

Edward deu um passo em minha direção, a boca entreaberta tentando articular algo, mas a voz dele simplesmente não saiu. Ele desmoronou.

Dando dois passos rápidos para a frente, me joguei nos braços dele. Edward me envolveu com uma força quase desesperada, enterrando o rosto no meu pescoço e soltando um soluço rasgado, doloroso, que fez todo o corpo dele tremer violentamente contra o meu. Segurei a cabeça dele, enterrando minhas mãos em seus cabelos, e chorei junto com ele. Choramos abraçados no meio do quarto da afilhada deles, espremendo o luto um do outro como se, se nos soltássemos, fôssemos evaporar.

— Elas se foram, Bells... Eles se foram... — Edward sussurrou entre soluços sufocados, a voz irreconhecível de tanta dor.

— Eu sei, meu amor... Eu sei... — murmurei sem pensar, segurando-o com toda a força que me restava na alma.

Pouco tempo depois, uma batida suave na porta de baixo anunciou a chegada de ajuda. Esme, a mãe de Edward, entrou na casa trazendo o rosto banhado em lágrimas, mas com aquela presença acolhedora e maternal que só ela tinha. Ela subiu direto, nos abraçou longamente e assumiu os cuidados de Liv com um carinho de avó, nos dando espaço para tentar assimilar o pesadelo.

Dois dias se passaram como um borrão doloroso de anestesia emocional.

O dia do sepultamento chegou sob um céu carregado e uma névoa fria que cobria o cemitério de Forks. O lugar estava lotado de amigos, familiares e pessoas da cidade que amavam Alice e Jasper, mas para mim, o mundo inteiro resumia-se a dois caixões negros colocados lado a lado no gramado molhado.

Caminhar até lá foi o teste mais difícil da minha vida. Eu segurava a mão de Edward com tanta força que meus nós dos dedos estavam brancos, e ele apertava a minha com a mesma intensidade. Éramos o suporte um do outro.

Quando os caixões começaram a descer juntos para a terra, senti minhas pernas fraquejarem de verdade. Fechei os olhos, lembrando do sorriso da Alice, do jeito que ela dava pulinhos de empolgação, de como ela tinha me abraçado três noites atrás dizendo “eu amo vocês”. Um aperto sufocante tomou conta do meu peito ao me dar conta de que nunca mais ouviria a risada dela. Nunca mais veria o Jasper olhando para ela como se ela fosse o centro do universo. Eles nasceram para ficar juntos, e a vida, de um jeito cruel e trágico, os levou juntos.

Edward se inclinou e depositou uma rosa branca sobre a urna de Jasper e outra sobre a de Alice. Quando ele voltou para o meu lado, vi uma lágrima solitária escorrer pelo seu rosto rígido. Me aproximei e limpei a gota com o meu polegar, e ele segurou minha mão contra a sua bochecha fria por um segundo longo.

Voltamos para a casa dos Whitlock ao final da tarde. Esme e Carlisle tinham passado o dia lá com Liv, mas sabiam que nós precisávamos de um tempo a sós com a bebê. Depois de nos darem abraços apertados, eles se despediram, deixando a casa em silêncio novamente.

Demos o banho em Liv juntos, em um transe silencioso e amoroso. Cada gesto nosso com ela era revestido de um cuidado extremo, como se a garotinha fosse feita de cristal puro. Ela parecia sentir a tristeza no ar, pois ficou quietinha, encostando a cabeça no meu peito enquanto eu a enxugava. Edward vestiu o pijama dela com extrema delicadeza, beijando cada um dos seus pezinhos gordinhos.

Deitamos Liv no berço por volta das oito da noite. Cantarolei a canção de ninar da Alice bem baixinho, até ver os olhinhos castanhos da bebê se fecharem e sua respiração ficar pesada e calma.

Assim que saímos do quarto de Liv, não fomos para a sala e nem para a cozinha. Como atraídos por um ímã de nostalgia e dor puras, nossos passos nos levaram para o final do corredor.

Abrimos a porta do quarto principal. O quarto da Alice e do Jasper.

O cheiro do perfume de lavanda da Alice ainda estava impregnado no ar. As roupas que ela tinha experimentado antes de arrumar as malas para a Itália ainda estavam levemente desarrumadas sobre uma poltrona no canto. A cama de casal estava feita, exatamente como eles haviam deixado antes de saírem pela porta pela última vez.

A presença deles era tão viva naquele quarto que o impacto me atingiu em cheio.

Caí de joelhos no tapete ao lado da cama, cobrindo o rosto com as mãos e soltando o choro que passei o dia inteiro tentando reprimir diante de todo mundo no velório.

— Eu não vou aguentar, Edward... — solucei, sentindo meu peito queimar de tanta dor. — Eu não vou aguentar entrar nessa casa e saber que ela nunca mais vai passar por aquela porta... Minha melhor amiga, Edward. Ela era minha irmã...

O colchão afundou ao meu lado. Edward se sentou no chão, exatamente como eu, e puxou meu corpo para perto, me envolvendo em seus braços pesados. Ele encostou as costas na lateral da cama e me segurou contra o seu peito, deixando suas próprias lágrimas caírem sobre o meu cabelo.

— Eu sei, Bells... Eu sei — a voz dele veio embargada, falhada. — Eu sinto como se tivessem arrancado um pedaço do meu peito. O Jas era o meu melhor amigo... Ele era o meu irmão.

Ficamos ali, sentados no chão daquele quarto silencioso, no escuro, abraçados e chorando a dor de uma perda que parecia grande demais para nossos corpos sustentarem. O silêncio da casa era ensurdecedor.

No dia seguinte ao sepultamento, a ilusão de que poderíamos simplesmente parar o tempo foi quebrada pela realidade.

Na tarde de quinta-feira, a sala de estar dos Whitlock estava carregada por uma atmosfera pesada e desconfortável. O som fraco do relógio de parede era a única coisa que quebrava o silêncio tenso. Sentados no sofá grande, eu e Edward mantínhamos nossos ombros colados, como tínhamos feito ininterruptamente nos últimos dias. Liv estava no meu colo, entretida com um ursinho de pelúcia, alheia ao cerco de adultos que a observava.

À nossa frente, na mesa de centro, o Sr. J. Jenks, o advogado de longa data da família de Jasper, organizava metodicamente uma pasta de couro preta. Do lado esquerdo da sala, Miranda Brandon, mãe de Alice, mantinha uma postura ereta, com os olhos fundos de choro, mas com uma sobriedade dolorosa. Do lado direito, Lilian Whitlock, mãe de Jasper, andava de um lado para o outro impacientemente, com o rosto rígido e os braços cruzados sobre o peito.

— Bom, agradeço a presença de todos — o Sr. Jenks começou, a voz grave e aveludada cortando o ar gélido da sala. Ele ajustou os óculos na ponta do nariz. — Sei que o momento é de uma dor incomensurável, mas como representante legal do Jasper e da Alice, tenho o dever de cumprir com as últimas vontades registradas por eles.

Ele retirou um conjunto de folhas timbradas da pasta e pigarreou.

— Há poucos meses, o casal me procurou para formalizar e registrar o testamento oficial, bem como a diretiva de guarda em caso de uma fatalidade simultânea.

Olhei para Edward e vi seu maxilar se travar. A lembrança daquela noite de vinho e risadas, quando Alice e Jasper mencionaram o cartório, voltou como um soco no meu estômago.

— De acordo com o documento registrado e assinado por ambos — Jenks continuou, olhando diretamente para nós dois —, Jasper e Alice nomearam, de forma irrevogável e conjunta, Isabella Swan e Edward Cullen como os guardiões legais definitivos de Olivia Whitlock.

A frase ecoou pela sala como um trovão. Por um segundo, a ficha caiu de uma vez só: nós não éramos mais apenas dindos cuidando da bebê por três semanas. Nós éramos, por lei, os pais da Liv.

— Isso é um absurdo! Uma loucura! Eu sou a avó paterna da Olivia! O sangue do meu filho corre nas veias dessa menina! — Lilian esbravejou, apontando o dedo trêmulo na minha direção e depois na de Edward. — Como o Jasper e a Alice puderam ter a insensatez de deixar a minha neta nas mãos de duas crianças?! Dois jovens que nem sequer são casados, que passam o tempo todo se espetando e brigando! Eu não vou permitir isso! Eu vou contestar esse testamento na justiça hoje mesmo!

Lilian deu mais um passo à frente, os olhos destilando uma fúria calculista que me gelou a espinha.

— Vocês podem ter um papel assinado, mas eu tenho dinheiro, influência e sou a avó dela. Vou lutar até o último dia para tirar essa menina das mãos de vocês.

Senti o meu estômago despencar com a ameaça real e palpável. Apertei Liv instintivamente contra o meu peito, sentindo a bebê se aconchegar no meu abraço protetor. Antes que eu pudesse articular qualquer palavra, Edward se levantou do sofá em um movimento brusco. Ele se colocou entre a sra. Whitlock e nós, sua figura alta impondo uma barreira intransponível. A mandíbula dele estava trancada, e os olhos verdes faiscavam com uma coragem e uma dor que eu nunca tinha visto antes.

—A senhora tem todo o direito de sofrer pelo seu filho. Assim como nós temos o direito de sofrer pelos dois. — Edward disse, a voz cortante, firme e profundamente marcada pela perda, mas absolutamente inabalável. — Mas ninguém aqui tem o direito de desrespeitar a última decisão que eles tomaram juntos. Jasper me escolheu porque confiava em mim. E eu prefiro morrer tentando ser o pai que ele acreditava que eu poderia ser do que abandonar a filha dele.

O silêncio que se seguiu na sala foi ensurdecedor. As palavras de Edward ecoaram com tanta força, com um peso tão definitivo de quem havia assumido a paternidade e a honra do melhor amigo, que até mesmo a expressão de Lilian vacilou por uma fração de segundo.

Aquelas frases marcaram o momento exato em que Edward deixou de ser apenas o amigo de infância e o dindo relutante. Ele era, em cada fibra do seu ser, o pai da Liv.

Antes que Lilian pudesse recuperar a compostura para disparar outra ofensa, Miranda Brandon levantou-se firme do outro lado da sala, cortando o ar com sua autoridade silenciosa.

— Engula o seu orgulho e respeite a memória do nosso filho e da nossa filha, Lilian — Miranda disse, a voz embargada, mas implacável. — A Alice e o Jasper não tomaram essa decisão no escuro. A minha filha me disse, com todas as letras, que se um dia acontecesse o pior, a Olivia só estaria completamente segura, amada e criada com os meus valores se estivesse com a Bella e com o Edward. Eles são a família que eles escolheram.

Lilian olhou de Miranda para Edward, com o rosto retorcido de raiva e frustração. Percebendo que o Sr. Jenks e as leis estavam do nosso lado, e que a força da convicção de Edward e Miranda era intransponível, ela soltou um som de puro desprezo.

— Nós vamos ver até onde essa petulância vai quando a citação chegar pelo correio — Lilian sibilou, pegando sua bolsa com violência e caminhando para a porta. Ela saiu da casa batendo a porta de entrada com tanta força que o som ecoou pelas paredes.

O peito ainda me subia e descia rápido pelo susto, mas ao olhar para o lado e ver Edward respirando fundo, com os punhos ainda fechados pela adrenalina, senti uma onda de firmeza invadir o meu próprio corpo.

O Sr. Jenks recolheu os papéis e entregou a cópia do documento a Edward, reafirmando que a guarda temporária de emergência já era nossa e que lutaria conosco na justiça contra qualquer liminar de Lilian.

Depois que o advogado e a mãe de Alice se despediram, a porta se fechou novamente.

A casa ficou em absoluto silêncio. Edward voltou a se sentar ao meu lado no sofá. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e enterrou o rosto nas mãos por alguns segundos, respirando fundo.

Olhei para a menininha no meu colo. Liv descansava a cabeça no meu peito, chupando o dedinho com os olhos pesados de sono. Toquei a mão de Edward, puxando-a do seu rosto. Ele se virou para mim, com os olhos verdes brilhando na penumbra da sala.

Não havia mais espaço para dúvidas, medo ou picuinhas do passado. Agora estávamos juntos nessa.. E defenderíamos a Liv contra quem quer que fosse.

— É oficial, Swan — Edward murmurou com a voz rouca, entrelaçando seus dedos nos meus enquanto olhava para a nossa afilhada. — Nós somos os pais dela agora.

— Nós somos — sussurrei, apertando a mão dele enquanto Liv suspirava tranquila em meu colo. Uma lágrima escorreu pela minha bochecha. — E nós vamos dar a ela a melhor vida do mundo. Juntos.

Notas finais
Eu avisei que esse capítulo doía. E, sinceramente? Acho que ele mudou completamente a história. Até aqui, Bella e Edward estavam vivendo uma tragédia. A partir deste momento, eles passam a viver uma responsabilidade. Liv deixa de ser apenas a afilhada deles. Ela se torna a filha que Alice e Jasper escolheram entregar aos dois. E isso muda absolutamente tudo. Quero falar um pouquinho sobre o Edward. Quando ele diz: "Eu prefiro morrer tentando ser o pai que ele acreditava que eu poderia ser do que abandonar a filha dele", naquele instante ele deixa de agir por obrigação. Ele aceita a promessa, a paternidade e acho que Jasper, onde quer que esteja, sentiria orgulho daquele momento. Também queria comentar sobre a Lilian. Sei que muita gente provavelmente terminou esse capítulo com raiva dela (e tudo indica que essa raiva só vai aumentar 😅), mas eu quis escrever uma personagem que reage ao luto da pior maneira possível: tentando controlar aquilo que ainda acredita poder salvar. Isso não a torna certa, mas a torna humana e... infelizmente... essa batalha está só começando. Agora eu quero saber de vocês: 🤍 O que vocês acharam da decisão do Jasper e da Alice? 🤍 Vocês fariam o mesmo? 🤍 Em quem vocês ficaram com mais vontade de abraçar nesse capítulo: Bella, Edward ou a pequena Liv? E, por último... Obrigada por cada comentário e cada lágrima compartilhada comigo. Vocês fazem essa história ganhar vida de uma forma que eu nunca conseguiria sozinha.