De Repente, Pais!
5 A Lousa de Vidro
Notas iniciais
Capítulo 5: A Lousa de Vidro
Decidir morar em definitivo na casa de Alice e Jasper foi uma escolha tomada sem muitas palavras. Era ali que o mundo de Liv existia: o berço temático, o trocador perfeitamente equipado, as roupinhas organizadas por tamanho e os brinquedos espalhados no tapete da sala. Tirar a minha afilhada daquele ambiente no meio do furacão seria uma crueldade desnecessária.
Na sexta-feira de manhã, passei rapidamente no meu apartamento apenas para arrumar duas malas grandes com o essencial da minha vida. Quando voltei para a casa dos Whitlock, encontrei Edward na cozinha, usando calça de moletom e uma camiseta escura, com o cabelo desalinhado de quem não dormia direito há dias.
Ao lado da geladeira, preso na parede de azulejos brancos, havia um enorme quadro planner de vidro. Era o orgulho de Alice. Ela usava canetinhas coloridas apagáveis para mapear absolutamente tudo: horários de vacina da Liv, cardápios semanais, compras do mercado, reuniões da confeitaria e viagens. A caligrafia perfeita e redondinha dela ainda estava desenhada no topo do mês.
Engoli o nó de saudade que se formou na garganta e me aproximei de Edward, que encarava o vidro com a testa franzida.
— A gente precisa reorganizar isso — murmurei, pegando uma caneta piloto azul na caixinha de acrílico. — Minha rotina na doceria precisa bater com os seus plantões no hospital. A Liv não pode ficar sem nenhum de nós dois por um minuto sequer.
— Eu posso tentar trocar os meus plantões noturnos no hospital para os fins de semana — Edward disse, pegando a caneta piloto rosa com as suas mãos compridas. Ele se aproximou do quadro, ficando ombro a ombro comigo. O cheiro de sabonete e café fresco que emanava dele preencheu o espaço. — Aí você assume o turno da manhã na Sweet Swan e eu fico com ela até as duas da tarde.
— Não, rosa não, Cullen — protestei no mesmo instante, esticando o braço para tomar a caneta da mão dele. — A caneta rosa é para a alimentação e remédios da Liv! É o código de cores da Alice!
— Código de cores? — ele ergueu a sobrancelha, levantando a mão acima da minha cabeça para que eu não alcançasse o piloto. — Bella, é só tinta apagável. Eu sou médico, preciso de uma cor chamativa para marcar as emergências do meu plantão.
— Mas a cor chamativa do hospital é o verde! O rosa é da bebê! Dá isso aqui! — dei um pulo tentando pegar o objeto da mão dele, me chocando contra o peito largo de Edward.
Sua mão livre segurou firme na minha cintura para evitar que eu perdesse o equilíbrio. Ficamos congelados por uma fração de segundo, a milímetros de distância. Olhei para cima e encontrei os olhos verdes dele me encarando fixamente, a respiração dele batendo suave no meu rosto.
— Você continua teimosa exatamente como era aos dezessete anos — ele debochou com um risinho contido, mas o tom da sua voz baixou uma oitava.
— E você continua um abusado que acha que manda em tudo — retruquei, tentando ignorar a onda de calor que subiu pela minha espinha com o toque da mão dele na minha cintura.
Acabei puxando o braço dele com tanta força que a caneta escorregou, riscando uma linha rosa gigante de fora a fora no vidro. Nos olhamos, olhamos para a rabiscada feia no quadro da Alice e, de repente, o absurdo daquela discussão por causa de uma canetinha nos atingiu em cheio.
Soltei uma risada abafada. Edward soltou uma gargalhada baixa e gostosa, balançando a cabeça e soltando a minha cintura devagar.
— Olha o que você fez, Swan! Destruiu a obra de arte da baixinha — ele disse, pegando um pedaço de papel toalha e borrifando álcool para apagar o risco.
— Eu fiz? Você que não largava a caneta! — ri junto com ele, encostando a banca no balcão e observando-o limpar o vidro.
Peguei duas xícaras de café recém-passado e entreguei uma para ele. O clima de dor insuportável dos últimos dias finalmente deu um espaço respirável para um momento de leveza.
Edward deu um gole no café, recostou-se no balcão ao meu lado e me olhou de canto de olho com um brilho divertido no olhar.
— Sabe de uma coisa? Acho que o seu namorado não vai curtir muito saber que você tá morando sob o mesmo teto com outro homem... — ele soltou, a voz carregada daquela provocação sutil que só ele sabia fazer.
Soltei um riso irônico, cruzando os braços.
— Eu não tenho namorado, Cullen. E, para o seu governo, eu também acho que as suas garotas não vão gostar nada de ver você bancando o pai de família aqui comigo.
Edward soltou um curto sopro de riso, balançando a cabeça enquanto encarava o fundo da sua xícara.
— Nenhuma garota, Bella.
Olhei para ele, surpresa, e não consegui segurar o risinho debochado que escapou dos meus lábios.
— Ah, por favor! Nenhuma garota? Devo lembrar você do desastre que foi quando você resolveu sair com duas mulheres ao mesmo tempo ? A Irina e a Kate? — debochei, apontando a colher de café para ele. — E você nem sabia que elas eram primas em primeiro grau! O barraco que elas armaram no chá de bebê da Alice que entrou para a história de Forks!
Edward cobriu o rosto com a mão livre, soltando uma gargalhada alta e verdadeira que não ecoava naquela casa há dias.
— Meu Deus, nem me lembre disso! Foi o pior dia da minha vida — ele admitiu, rindo de si mesmo e ajustando o cabelo bagunçado. — Eu era um idiota imaturo, tá legal? Mas saí com algumas mulheres sim... Só que namorar de verdade, namorar de assumir e ter algo sério... eu só namorei com você no ensino médio.
O meu coração deu uma cambalhota violenta dentro do peito.
O sorriso brincalhão no meu rosto congelou. Olhei para Edward e vi que ele não estava mais rindo. Ele me encarava com uma intensidade profunda, sincera, sem nenhuma sombra de deboche. A lembrança do nosso namoro na adolescência, da paixão avassaladora, das promessas e do término doloroso, pairou no ar entre nós como uma chama acesa que nunca tinha sido apagada por completo.
A conversa foi interrompida de forma abrupta pelo som estridente da campainha da porta da frente.
A tensão romântica se dissolveu instantaneamente. Edward franziu a testa, deixou a xícara sobre o balcão e foi até o hall de entrada, enquanto eu o segui de perto, segurando a xícara com as mãos trêmulas.
Quando ele abriu a porta, um homem alto, vestindo terno cinza e carregando uma pasta preta rígida, estava parado sob a varanda.
— Edward Cullen e Isabella Swan? — o homem perguntou de forma estritamente profissional.
— Sim, somos nós — Edward respondeu, enrijecendo a postura no mesmo segundo.
— Sou oficial de justiça do tribunal do condado. Tenho uma citação e intimação urgente para vocês.
O homem nos entregou dois envelopes pardos e pesados. Deslizei os dedos pelo papel de alta gramatura e li o cabeçalho impresso em letras garrafais em preto: AÇÃO DE ANULAÇÃO DE GUARDA E REQUERIMENTO DE TUTELA DE EMERGÊNCIA — REQUERENTE: LILIAN WHITLOCK.
A promessa da mãe de Jasper tinha se cumprido em menos de vinte e quatro horas. Ela estava movendo um processo agressivo contra nós, alegando falta de parentesco consanguíneo e inaptidão financeira e conjugal para criar a bebê.
Senti o chão sumir sob os meus pés. A raiva e o pânico se misturaram em um coquetel amargo na minha garganta.
— Ela não perdeu tempo — murmurei, com a voz falhando, sentindo minhas mãos começarem a tremer. — Ela quer tirar a Liv de nós, Edward.
Antes que a primeira lágrima de desespero pudesse cair do meu rosto, senti os dedos quentes e firmes de Edward se entrelaçarem nos meus. Ele deu um passo à frente, cobrindo o envelope na minha mão com a dele, e olhou para mim com uma determinação feroz e inabalável estampada nos olhos verdes.
— Ela não vai tirar — Edward disse, com a voz baixa e impregnada de uma promessa absoluta. — A Lilian pode ter o dinheiro que for, Bella, mas nós temos a vontade do Jasper, da Alice e o amor por essa menina. Eu não vou deixar ninguém encostar um dedo na nossa filha.
Olhei para a nossa mão unida e depois para o planner na cozinha, que agora trazia os nossos nomes rabiscados lado a lado. A batalha pela frente seria longa e dolorosa, mas, ao olhar para a força no rosto do meu ex-namorado, percebi que não estávamos mais divididos. Éramos uma frente única. E defenderíamos a família que nos foi confiada até o fim.
Nos dias que se seguiram à chegada da intimação, em vez de nos desestruturar, a ameaça de Lilian funcionou como um cimento entre nós. A raiva virou combustível. Transformamos a casa dos Whitlock em uma verdadeira operação de guerra e amor para garantir que a rotina da Liv fosse perfeita.
Para a surpresa de todos, e principalmente a minha , eu e Edward nos tornamos uma dupla imbatível.
A planilha de vidro na cozinha virou nossa bússola. Nós nos dividíamos com uma precisão quase cirúrgica. Enquanto eu cuidava das fornadas matinais na Sweet Swan, Edward ficava com a Liv, dando o café da manhã, trocando fraldas e brincando no tapete da sala. Às duas da tarde, eu voltava para casa e ele assumia seus compromissos no hospital. À noite, nos encontrávamos para o jantar, exaustos, mas com a sensação gratificante de dever cumprido.
Pela primeira vez em anos, havíamos encontrado um ritmo. As implicâncias deram lugar a piadas internas, olhares cúmplices por cima da cabeça da bebê e um cuidado mútuo que crescia a cada dia.
No sábado à tarde, com o céu ensolarado e ameno de Forks, decidimos dar um descanso ao clima tenso dos papéis do advogado. Fomos até o parque municipal, onde estava acontecendo um evento comunitário infantil.
Espalhamos uma toalha xadrez no gramado macio. O parque estava cheio de famílias, crianças correndo e música suave ao fundo. Levamos Liv até a tenda de recreação, onde havia um espaço de pintura facial artística para bebês.
— Ela vai querer ser uma gatinha, com certeza — afirmei, ajeitando o chapéuzinho de sol da Liv.
— Negativo, Swan. Olha para a cara dela encarando aquele urso de pelúcia ali. Ela tem cara de urcinho panda — Edward rebateu, com aquele sorriso de lado que sempre fazia meu peito dar uma balançada feia.
Acabamos fazendo um acordo com a recreadora: pintamos o focinho de um gatinho no rosto da Liv e três bigodinhos em cada bochecha. A menininha dava risadinhas gostosas toda vez que o pincel macio tocava sua pele, olhando para nós dois com seus olhinhos castanhos brilhando de pura alegria.
Para acompanhar a brincadeira, deixamos que a moça pintasse o meu rosto e o de Edward também. Eu fiquei com borboletas nas bochechas e Edward acabou com um nariz de leão desenhado, o que fez Liv gargalhar alto e bater suas mãozinhas gordinhas contra o peito dele.
Passamos horas ali. Tiramos fotos, dividimos um copo grande de suco de laranja, deixamos Liv engatinhar livremente na grama e vimos a pequena interagir com outras crianças. Por algumas horas, o fantasma de Lilian e a dor da perda deram lugar a um vislumbre de felicidade genuína. Éramos, sem sombra de dúvidas, uma família.
Voltamos para casa ao final da tarde, com o sol já se pondo em tons de laranja e lilás.
Enquanto eu subia para o banheiro principal para tomar um banho demorado e tirar a tinta do rosto, Edward ficou na sala com a Liv. Ele tirou os sapatos, colocou uma calça confortável de moletom e ligou a televisão em um desenho animado infantil bastante educativo, com bichinhos coloridos e canções calmas.
Edward se ajeitou em uma poltrona macia perto da escada, descansando a cabeça no encosto, compenetrado e entretido com a historinha do desenho. Liv estava sentada em um tapete fofinho a poucos passos dele, brincando com um bloco de montar roxo.
De repente, o desenho começou a tocar uma música animada.
Liv parou de brincar. Ela olhou para a tela da TV, depois olhou para Edward, que estava distraído comentando baixinho sobre o episódio, e tomou uma decisão audaciosa. Com a língua entre os dentes e um esforço adorável, a bebê apoiou as mãozinhas no chão, jogou o bumbum para cima e se colocou de pé, equilibrando-se em suas perninhas gordinhas.
Ela deu o primeiro passo vacilante. Depois o segundo.
Edward piscou, virando o rosto devagar ao notar o movimento. Quando seus olhos pousaram na afilhada, sua expressão de cansaço mudou instantaneamente para um choque puro.
— Nossa... esse foi um ótimo episódio... — Edward começou a murmurar para si mesmo, antes de travar completamente ao ver a menininha em pé. — Espera... Bells... quer dizer, Liv! Fica aí! Fica quietinha!
A bebê deu mais um passo, balançando os braçinhos para se equilibrar.
— Bella! BELLA! — Edward gritou em pânico, levantando-se da poltrona de um pulo, desesperado sem saber se corria até ela ou se chamava por mim. — ELA TÁ DE PÉ! VAI ANDAR!
Do andar de cima, ouvi o grito dele por cima do barulho do chuveiro. Desliguei a água no mesmo segundo, enrolei a toalha no corpo de qualquer jeito, com os cabelos encharcados, e saí correndo pelo corredor.
— O quê?! O que foi, Edward?! — perguntei, tropeçando no degrau e descendo a escada em disparada.
— Vem logo! Ela não pode andar agora! — Edward berrava da sala, andado de um lado para o outro de forma caótica. — Fica aí, Liv! Fica quietinha! Não anda sem a sua mãe ver! Espera a Bella!
— Eu tô indo! Tô indo! — gritei de volta, segurando a toalha no peito e me segurando no corrimão para não cair. — Segura ela!
— Como é que eu faço isso?! — Edward gritou, entrando em parafuso. — Se eu segurar ela, ela cai!
— Segura, Edward! Sei lá, enrola ela! Não deixa ela andar!
— Não anda! Não anda! — Edward pedia para a bebê, com as mãos estendidas, tentando se aproximar bem devagarzinho. — Por favor, fica parada aí!
No desespero de fazer a menina parar até que eu chegasse no último degrau, Edward deu um passo afobado para a frente e acabou dando um empurrãozinho de leve na barriguinha da Liv para segurá-la.
O toque desajeitado fez com que a bebê perdesse o equilíbrio e caísse sentada no tapete.
Liv olhou para as próprias pernas, olhou para Edward e soltou um boro de choro aberto e ardido, assustada com a afobação do dindo.
— Ah, meu Deus! Desculpe! Me desculpe! — Edward se ajoelhou no chão no mesmo segundo, pegando a bebê no colo e tentando niná-la de forma desesperada.
Terminei de descer os degraus, com os pés descalços e a toalha me cobrindo precariamente.
— O que você fez?! — perguntei, chocada, pegando a bebê chorona dos braços dele e encostando-a no meu peito.
— Você mandou eu segurar ela, então eu dei um empurrãozinho para ela sentar! — ele se defendeu, com as mãos na cabeça, o rosto vermelho de nervoso.
— Eu pedi para você segurar, Edward, não para traumatizar a menina! — reclamei, balançando Liv para acalmá-la. — Agora ela nunca mais vai querer andar! O que o dindinho mau fez com você, amorzinho? Foi culpa dele!
— Não foi culpa minha! — Edward protestou, indignado, ficando sentado no chão da sala e olhando para mim enquanto eu tentava acalmar a nossa afilhada.
Passados dois minutos, o choro de Liv foi diminuindo até virar apenas um fungado manhoso. Eu me sentei no chão de madeira, exatamente em frente a Edward, e coloquei a bebê no meio de nós dois.
— Vamos tentar de novo — falei, ajeitando o cabelo molhado atrás da orelha. — Vem cá, meu amor. Vem com a dinda e o dindo.
Edward estendeu os braços do outro lado, com um sorriso gigante e ansioso no rosto.
Liv olhou para mim, olhou para ele e, impulsionada pelo desenho na TV e pelo espaço livre, ficou de pé novamente. Com passos engatinhados e gordinhos, ela deu três passos firmes na direção de Edward, soltando uma risadinha sapeca e se jogando nos braços abertos dele.
Edward a segurou no ar, gargalhando de pura emoção e beijando a bochecha da bebê várias vezes.
— Ela andou! Bella, ela andou de verdade! — ele comemorou, com os olhos verdes brilhando e úmidos de alegria.
Olhei para os dois no chão da sala, Edward radiante com o nariz ainda levemente manchado da pintura do parque, e Liv gargalhando no colo dele. Sentada ali de toalha, com o coração transbordando, percebi que a dor da tragédia ainda existia, mas aquele pequeno milagre no meio da sala nos mostrava que a vida continuava. E que estávamos criando algo lindo juntos.
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