De Que É Feito O Amor?
2 Inocência
Notas iniciais
Sentado diante dos portões do Inferno, um jovem demónio suspirava, entediado. Parecia que tinha estado ali parado por uma eternidade.
-Não entendo isto… – dizia para si mesmo – Com tantos guardas poderosos do outro lado, e um bicho de três cabeças lá fora, porque raios tenho eu que ficar aqui a garantir que ninguém foge?... Aff, não fiz nada de mal para me colocarem aqui…
Tão concentrada estava a pequena criatura nos seus próprios desvaneios, que não deu pela presença de alguém que o observava atentamente. Um pequeno anjo, de longos cabelos loiros ondulados e olhos cor de jade, aproximou-se lentamente e curvou-se sobre ele, quebrando assim com as suas reflexões.
- Que estás a fazer? – interrogou este num tom doce e ingénuo.
O demónio deu um pequeno salto, surpreendido por aquela súbita voz. Olhou o outro de alto a baixo e de seguida franziu a sobrancelha.
- Posso saber o que raio faz um anjo aqui? – perguntou, irritado – Já não têm espaço no Paraíso para tantas “criaturas inocentes”? – falou sarcasticamente.
O anjo limitou-se a olhá-lo com os olhos arregalados e um ar de quem não tinha entendido a pergunta.
- Olha, eu não sei como vieste aqui parar, mas recomendo-te que vás embora se não queres sofrer – aconselhou ele, um pouco preocupado com o que os demónios mais cruéis poderiam fazer a tão jovem criatura.
- Sofrer…? – o jovem anjo olhou-o confuso.
- Sim, sofrer, e muito – o demónio falou, relaxando finalmente um pouco e recostando-se contra as paredes de pedra, abrindo as asas negras para os lados, com a cabeça apoiada nos antebraços.
- …O que é isso? – o anjo perguntou curioso.
Mais uma vez, o pequeno demónio surpreendeu-se com a inocência da criatura. Quase tinha vontade de o estrangular naquele momento. Acalmou-se e olhou-o atentamente mais uma vez. Não trazia qualquer tipo de vestes ou acessórios, à exceção de uma pequena auréola brilhante que flutuava sobre a sua cabeça. Pela sua aparência no geral, parecia um anjo de baixo nível. Mas que tipo de anjo seria tão estúpido a ponto de não conhecer sequer um conceito tão simples? O demónio suspirou e procurou forma de explicar o que havia dito.
- Bem… é algo muito mau, muito mau. Agora vai embora que tenho trabalho a fazer, vá. – agitou as mãos tentando fazer com que o anjo se afastasse, mas este simplesmente permaneceu ali, confuso.
— Que trabalho é esse? – perguntou, após alguns segundos de silêncio.
O demónio sentiu-se profundamente irritado, mas tentou manter a calma e não fazer nada do qual não houvesse necessidade.
- Não te diz respeito – respondeu, por fim.
E o anjo atacou com mais uma pergunta.
- Porquê?
O demónio suspirou e levou as mãos à cara, desesperado, preparando-se para mais uma resposta, esperando sempre que o anjo se fosse, por fim, embora. E a conversa continuou por mais umas horas. Quando o demónio já se tinha cansado de dar explicações, o pequeno anjo decidiu, por fim, ir embora dali.
- Oh, tenho que voltar para casa, até breve! – o anjo sorriu, feliz, e desapareceu a voar no horizonte.
- Até nunca… — o demónio suspirou, um tanto quanto aliviado. Por fim ia estar sossegado, sem a presença de anjinhos irritantes. Finalmente.
Encostou-se relaxadamente e ficou a vigiar. Levantou-se. Voltou a sentar-se. Deitou-se. Rebolou no chão. Mudou de posição. Sentou-se novamente. Assobiou. Fez silêncio e suspirou.
- Este é o cargo mais aborrecido de sempre... – olhou para o céu entediado. Realmente, aquilo não tinha piada. Piada nenhuma mesmo. Começou a perguntar-se sobre o que estaria aquele anjo a fazer. A sua face mudou de expressão umas cinquenta vezes enquanto tentava recapitular tudo o que tinham falado. E sem se dar conta, tinha arranjado uma nova distração.
O tempo passou, horas e horas se seguiram sem que nada mudasse, pois ali não havia dia nem noite. O demónio já não tinha nada em que pensar, e limitava-se a olhar em redor e observar os seus companheiros que, ocasionalmente, entravam e saíam pelos portões. Até que a dada altura, o seu tédio foi quebrado por uma vozinha familiar.
-Voltei! – o demónio virou-se na direção daquela voz, apenas para se deparar novamente com aquele pequeno anjo com o qual havia conversado antes. Teve vontade de esboçar um sorriso, mas girou a cara para o lado e tentou soar o mais arrogante possível.
- O que queres? Já te disse que não devias cá estar – falou, num tom sério.
O anjo sorriu e sentou-se ao seu lado, sem responder. Brincou com os fios do seu cabelo enquanto cantarolava silenciosamente.
- Tu não tens nada que fazer? – o demónio questionou finalmente, após se ter cansado de observar os estranhos comportamentos da outra criatura.
- Tenho. – o anjo respondeu com um sorriso – Os deuses disseram que eu devia ajudar outras criaturas… – parou para pousar o queixo sobre as mãos, enquanto apoiava os cotovelos nos joelhos – Eu não entendi bem o que ajudar significa, mas tu pareces ser tão inteligente que deves saber o que é – parou para por fim o olhar alegremente, enquanto o demónio simplesmente o observava estupefacto.
- Pois olha, não sei o que é. – o demónio virou o rosto para o outro lado. Óbvio que sabia o que aquilo significava, mas muito sinceramente, naquele momento tinha vontade de não saber.
- Então porque não tentamos descobrir? – o anjo perguntou, entusiasmado. Nesse momento, o pequeno demónio simplesmente não pôde conter uma leve risada.
- Tu és tão ingénuo… Diz-me, os anjos são todos assim? – o demónio parecia divertido com o assunto.
- Não sei, não falei com muitos… Estão demasiado ocupados para mim... – o anjo puxou os finos lábios para fora, ficando com uma expressão engraçada.
- Ah bom, e como os anjos estão ocupados, vens meter-te com demónios! Ainda não percebeste que tu e eu somos muito diferentes? – o sorriso do demónio tomou uma expressão mais séria – Vê se entendes, este não é um bom lugar para ti…
- Porquê?
Aquela pergunta certamente deixava o pequeno demónio irritado. Odiava que lhe estivessem sempre a perguntar “porquê”.
- Porque não! – respondeu – Os demónios odeiam os anjos, os anjos odeiam os demónios, é um facto.
- Mas porque é que se odeiam? – o anjo tinha uma expressão um tanto quanto triste. Embora não soubesse bem o que odiar significava, o demónio falava disso com um tom tão sério que simplesmente o entristecia.
O demónio estava profundamente irritado com tanta pergunta. Mas o que era certo era que quanto mais esclarecesse o anjo, menos este o chateava… certo?
- Porque vocês, os anjos, não têm a mínima noção de independência! Seguem as ordens dos vossos deuses à risca, sem nunca pensarem se estão sequer a fazer o que está certo! Se vos pedirem para destruir o mundo, vocês destroem-no. Ou por acaso estou enganado? Aff, é por isso que o amo Lucifer vos odeia tanto…
O anjo olhou-o intrigado ao ouvir aquele nome tão imponente.
- Lucifer…?
- Sim! – o pequeno demónio exclamou – Aposto que lá no Paraíso ninguém vos fala dele, certo? Ele é o Príncipe do Inferno, o demónio mais admirável e um dos mais poderosos que alguma vez poderás conhecer! – com esta conversa, começou a falar num tom mais entusiasmado e orgulhoso – Ele já foi um anjo, e um dos poucos com cabeça no vosso reino! Foi o único capaz de se levantar e falar contra aquilo que considerava estar mal, o único capaz de se revoltar e lutar pela justiça! Ainda que tenha saído a perder, o que ele fez foi algo simplesmente admirável, excecional! – o demónio estava já levantado e de cabeça erguida, aparentemente orgulhoso de falar do seu mestre – Se não fosse por o Inferno já ter um líder supremo, o meu querido amo ocuparia o lugar de topo!
Os olhos do anjo brilharam ao ouvir aquela descrição.
- Deve ser alguém incrível! – a pequena criatura exclamou, sorridente, o que deixou o demónio confuso.
- Não devia ser incrível para ti. És um anjo, devias odiá-lo… — falou este, franzindo o sobrolho.
- …Porquê? – e lá perguntou o anjo outra vez.
Aquela era uma pergunta difícil. Existiam sequer motivos para odiar alguém tão maravilhoso como o grande Lucifer?
- Porque… porque sim, olha! Porque ele é um demónio, revoltou-se contra vocês, anjos e demónios odeiam-se, fim!
- Mas tu mesmo disseste que ele já foi um anjo… — a jovem criatura parecia confusa.
- M… Mas ele é diferente! Ele foi um, mas já não é, por isso tenho todos os motivos para não o odiar!
O anjo ficou a pensar por um pouco, tentando reorganizar na sua cabecinha tudo o que tinha ouvido até então, e só lhe ocorreu fazer mais uma pergunta.
- Tu odeias-me?...
O demónio parou de pensar ao ouvir aquela pergunta. Ficou calado enquanto os enormes olhos cintilantes do anjo o observavam. Porque estava a hesitar perante uma pergunta tão simples? Era só dizer que sim, certo? Afinal os demónios odeiam os anjos, era um facto óbvio, não era? Mas por algum motivo era complicado achar palavras para responder.
- Eu… – começou – Eu… não sei.
O anjo olhou-o confuso, sem dizer uma palavra.
- O que se passa? Não sei, está bem? Já não sei nada, por tua culpa já nada faz sentido! – o demónio gritou, desesperado – É por isso que não devemos contactar com criaturas estúpidas, ficamos afetados! – sentou-se, encolhido, enquanto o anjo caminhava até junto dele – Agora diz-me tu porquê. Porque raios vieste aqui em primeiro lugar? Porque falaste para mim? Porque me convenceste a responder às tuas perguntas? Porque nunca fugiste de mim, apesar de sermos tão diferentes? E sobretudo, porque sou incapaz de te odiar? Responde-me, porque agora sou eu quem não sabe nada!
O pequeno anjo sentou-se em frente a ele, agarrando uma das suas mãos. Era a primeira vez que se tocavam.
- Eu também não sei… Mas porque é que precisas de saber? – o anjo sorriu para ele, e com isto o demónio levantou a cabeça e simplesmente olhou a outra criatura, estupefacto.
- Esquece. Já não quero saber nada. Não preciso de saber... – murmurou, puxando o anjo contra si e abraçando-o. Não sabia porque estava a fazer aquilo, mas o certo é que estava.
E o anjo olhou-o ternamente e pousou os seus lábios sobre a face do demónio . Este sentiu um calor inexplicável, mas não tentou sequer procurar um motivo para essa sensação. Porque ele já não queria realmente saber de nada naquele momento, sabia que quanto mais procurasse uma explicação, mais difícil seria encontrá-la. Aquele anjo surgido do nada havia levado todo o seu raciocínio com ele. Foi como se, graças àquela criatura, tivesse recuperado a inocência que não se recordava sequer de ter tido. Ele sabia que não era bom estar a fazer aquilo, ia ter problemas se alguém os descobrisse. Mas isso não importava naquele momento. Afinal, era rara a altura em que algum demónio abandonava o Inferno pelos portões principais. Ninguém ia ver.
E continuaram abraçados por um tempo indeterminado, trocando pequenos toques e carícias, enquanto alguns condenados escapavam com sucesso pelos portões abertos.
FIM
Fale com o autor