Notas iniciais
Finalmente, a segunda história! Eu já a postei no blog há IMENSO tempo, mas só agora me dignei a colocá-la aqui. Estive à espera de comprar um PC novo para o fazer. Bom, o ingrediente desta vez é a "Confiança". Espero que gostem!

Havia em tempos, nos mares que banhavam aquela imponente cidade costeira, uma jovem e bela sereia. Ruiva, com longos cabelos cacheados, olhar encantador e a cauda graciosa repleta de belíssimas escamas azuis cintilantes, gostava de escutar ao longe as conversas dos marinheiros. Ouvia-os falar sobre as suas futuras navegações enquanto planeava cuidadosamente os seus próximos ataques.

Numa quente e iluminada manhã, avistou um rapaz alto e jovem sentado no areal. Com o olhar focado no horizonte, parecia estar perdido em si mesmo. A bela sereia decidiu divertir-se um pouco e dirigiu-se a nado até perto dele. O rapaz surpreendeu-se assim que a viu aproximar-se, mas limitou-se a observá-la atentamente durante vários segundos. A sereia preparava-se para abrir a boca e dizer algo, quando o rapaz finalmente, apercebendo-se de que a rapariga que via à sua frente não levava nada vestido, questionou:

– O que te aconteceu? Precisas de ajuda com alguma coisa?

A sereia deu uma risada, contemplando a expressão confusa do rapaz. Tinha que estar mesmo muito perdido para não se ter apercebido daquilo que ela era.

– Oh, não te preocupes, não me aconteceu nada. – falou, olhando-o docemente – Estou apenas a nadar um pouco. Está uma bela manhã, não achas?

O rapaz acalmou-se um pouco e voltou a observar o mar com aquele olhar perdido.

– Sim, muito bonita…

A sereia começou a interessar-se naquele humano, e atacou com mais perguntas.

– Como te chamas? És desta cidade?

Este olhou-a deprimente e suspirou.

– Prefiro não falar sobre mim neste momento…

A outra criatura olhou-o novamente, curiosa.

– Oh, estou a ver, problemas pessoais? A praia é um bom lugar para afogar as mágoas... – comentou ela, enquanto nadava um pouco mais em redor da zona onde o rapaz se encontrava.

– É, só resta afogá-las aqui quando não temos mais ninguém em quem confiar... – o jovem suspirou novamente.

– Oh, estou a ver. – a sereia esboçou um terno sorriso – Sabes, podes confiar em mim. Eu não vou contar a ninguém, nem farei nada que te desiluda, garanto!

O rapaz olhou-a um pouco surpreendido. Poderia realmente confiar naquela rapariga desconhecida sobre a qual nada sabia? A verdade é que tinha imensa vontade de desabafar com alguém.

– Vá lá, confia em mim... – a sereia aproximou-se um pouco mais do rapaz e, erguendo ligeiramente o seu corpo, pousou-lhe as mãos sobre o rosto, convidando-o a olhá-la nos olhos.

– Eu… não sei se deveria. – o jovem começava a sentir-se um pouco intimidado com toda aquela situação.

– Claro que deverias. Se me confiares o teu segredo, eu também te confiarei o meu, e assim não estaremos em desigualdade…

O rapaz fechou os olhos e suspirou. De que importava afinal? Contar o que lhe havia sucedido a uma rapariga da praia não poderia deixar a sua situação pior.

– É uma longa história…

– Estou disposta a ouvi-la.

Assim como a sereia, o jovem esboçou um ligeiro sorriso, e procedeu com a sua história. Contou-lhe o que tanto lhe trazia desgostos, falou-lhe das pessoas que haviam traído a sua confiança. Deixou escapar algumas lágrimas ao contar-lhe como tinha sido abandonado por todos. Segurando-lhe nas mãos, confiou àquela criatura todos esses segredos que guardava e que tanto lhe atormentavam a alma naquele momento. E assim que acabou de lhe contar os seus problemas, olhou melancolicamente para a sereia, que lhe retribuiu o olhar com um sorriso.

– E é isso. – o rapaz concluiu, com o mesmo ar perdido e entristecido que levava quando ali chegara.

A sereia deslizou a sua delicada mão pelos cabelos do jovem e dirigiu-lhe novamente aquele olhar doce.

– Agora compreendo-te. Não te preocupes, podes confiar em mim. – sorriu – E agora devo depositar também em ti a minha confiança…

Dito isto, a bela criatura aproximou os lábios do ouvido do rapaz e murmulhou-lhe umas quantas palavras. Assim que se afastou, o jovem ficou a olhá-la, atónito. A sereia de imediato lhe lançou um último sorriso, este um pouco mais forçado, e virou-lhe as costas a nado, voltando para as profundezas do mar.



Dias se passaram. Estava de novo uma manhã solarenga, o mar estava calmo e um grupo de marinheiros preparavam o seu navio para se aventurarem mar adentro. Ao longe, a bela sereia vigiava-os, preparada também ela para uma pequena aventura. Observou como o barco se começava a mover por entre as ondas, e seguiu-o silenciosamente pelo interior da água.



– Está um belo dia para navegar! – comentava com os seus companheiros um dos homens no interior do navio.

Os outros acenavam com a cabeça, felizes, desconhecendo o perigo que se aproximava. A sereia observou-os por um tempo e, quando concluiu que seria a altura certa para atacar, nadou cautelosamente até junto da embarcação.

E foi então que o encanto sucedeu. De súbito, o grupo de marinheiros viu-se cercado pela força delirante da bela voz daquela criatura. Cantava uma canção. Uma canção de letra indecifrável que parecia conduzi-los ao abismo. Enquanto espalhava a sua doce voz pelos oceanos, a sereia observava, deleitada, o sofrimento daqueles homens. Via como se lançavam ao mar desesperados, e como os que procuravam manter a sua sanidade perdiam rapidamente o controlo do barco. Como ela adorava aquilo. Como a satisfazia poder descarregar toda a sua raiva naqueles pobres mortais. Esses homens humanos, egoístas e cruéis. Adorava vê-los perder de vista todos os seus sonhos e esperanças, sem nada poder evitar. Era esse o seu destino, de qualquer forma. Era uma sereia, devia defender a imagem da sua espécie.

O seu deleite não podia ser maior, até ver ao longe um rosto que não esperava encontrar. Era o rapaz do outro dia. Surpreendeu-se, mas logo esboçou um largo sorriso. Aquilo ia ser divertido. Aproximou-se dele. Ainda estava vivo. Passou-lhe as delicadas mãos pela face e forçou-o a abrir os olhos e olhá-la firmemente.

A expressão do rapaz era de ligeira confusão, no entanto este parecia absurdamente calmo, como se já esperasse aquele momento.

– Eu sabia… só podia acabar assim. Aqueles em que confio… acabam sempre por me atraiçoar. – o jovem falou com dificuldade, e antes que a sereia pudesse sequer pensar numa resposta, abriu novamente a boca – Mas suponho que é o destino. É a tua obrigação matar-me, é a minha obrigação morrer assim. E desta forma, não irei revelar o teu segredo a ninguém…

– Não, cala-te! Espera, eu... – a sereia sentia-se confusa. Tinha feito aquilo tantas vezes, mas nunca havia ouvido tais palavras da boca das suas vítimas, nem mesmo dos que se perdiam de amores por ela.

– Não te preocupes, eu confio em ti... – o rapaz esboçou um sorriso. Um último sorriso. A sereia, chocada, empurrou-o para trás e nadou o mais depressa que pôde para longe dali. Lançou-se sobre as ondas violentas, mergulhou até às profundezas. Rompeu cardumes, devastou algas, destroçou corais, na procura do mais fundo, cruel e sombrio local.

E nunca, nas águas misteriosas que banhavam aquela região, voltou a ocorrer tamanha catástrofe. Jamais, desde que há memória, foi avistada alguma bela sereia a nadar nas águas da região. E nenhum dos segredos então guardados se revelou perante a superfície.

Notas finais
Sinceramente, esta não foi a melhor história que aqui postei, mas ainda assim ela recebeu bons comentários por parte de outros, suponho que não está má de todo. No entanto, virá muito melhor em breve. Espero que tenham gostado!! Deixem reviews por favor :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.