De Ontem Em Diante
22 Adeus você
Notas iniciais
Incapaz de articular uma palavra, Pepper observava Tony fixamente, suas pernas fraquejaram e o ar parecia falar, até o seu subconsciente estava em silêncio. Permaneceu imóvel olhando para ele, seu olhar estava frio, seu rosto impassível, em anos ela nunca o viu assim. Ela só queria entender o motivo.
—Você está me mandando embora?— perguntou consternada.
—Não fui claro?— replicou friamente.
—Por quê?— ela piscou e uma lágrima grossa rolou pelo rosto. Tony nada respondeu, ele precisava dar um motivo a ela, mas qual? —Por quê?!— ela insistiu esbravejando.
—Por que eu cansei.— ele respondeu no mesmo tom —Cansei desse relacionamento, cansei da sua cobrança.
—Isso que você falou de fazer concessões por mim, não tem cabimento, você podia pelo menos ter procurado um motivo melhor, mais coerente, não faria diferença eu chegar hoje ou amanhã.
—Não mesmo, eu já estava decidido.
—Então por que essa cena?— ela perguntou. —Aliás, por que agora? Eu tentei terminar com você há alguns dias. Foi o seu ego que falou mais alto, a palavra final tinha que ser sua?
—Não é essa a questão...
—Então qual é a questão?— ela o cortou —Por que você está me fazendo de idiota, até ontem dizia que me amava e hoje você cansou.
—Eu só dizia o que você queria ouvir. Você me pressionava a dizer... Você dizia que me amava e eu dava em troca o que você desejava ouvir. Não queria aumentar a sua carência.— disse indiferente.
Embora desmoronasse internamente, Tony tentava mostrar-se desprovido de emoção, e tinha êxito na cena que armara. “A magoe, e ela irá embora”. Essa frase ecoava em sua cabeça. Por que ele tinha de lembrar-se dessas palavras, justo nesse momento?
—Carência? Minha? Você é insano.— riu nervosa —Eu tentei ir embora várias vezes e você sempre me impediu. Depois que dormimos juntos a primeira vez eu estava disposta a seguir em frente e fingir que nada tinha acontecido. Foi você quem me pediu pra ficar, você me cercou até que eu cedi.— disse exaltada.
—Você fala como se não fosse essa a sua vontade, você sempre quis ser mais na minha vida.— disse arrogante.
—E tudo o que você me disse além de ‘Eu te amo’, tudo o que a gente viveu foi o quê?— perguntou com a voz embargada.
—Foi...— ele vacilou para responder, evitava magoá-la mais, ela podia ir embora simplesmente, mas insistia —Gratidão— ele disse.
—Gratidão, Tony?— perguntou ferida.
—Você fez muito por mim, achei que estava na hora de retribuir.— encolheu os ombros.
—Não é isso, eu sei que não foi por isso.— balançava a cabeça negativamente. —Tony...— ela deu um passo na direção dele e ele um passo para trás —Porque você está fazendo isso comigo, com a gente?— ela chorava.
—Eu realmente achei que pudesse amar você, mas não deu, eu não gosto de dividir.— ele disse.
—Dividir?— perguntou confusa.
—Quem sabe onde vai dar essa situação mal resolvida com o seu ex-noivo?— seu tom era acusador.
—Eu nunca dei motivos para você duvidar da minha índole e da minha fidelidade, ao contrário de...
—De mim, é isso o que você vai dizer?— ele perguntou e ela soltou o ar desanimada, ele estava na frente dela, mas era como se estivessem a quilômetros —Eu sempre fui isso, instável, você me conheceu assim. É você quem finge ser o que não é.— ele alegou.
—O que?— perguntou perplexa.
—Nós começamos um relacionamento e logo surgiu um ex-noivo, depois você contratou aquele rapaz que só faltava deitar no chão para você passar, e você fingia não notar que ele estava caído por você.— disse duramente.
—Quando foi que eu fiquei irresistível?— perguntou irônica —Você me viu, meu ex-noivo me ama, meu assistente é apaixonado por mim. Talvez o Hogan me deseje também, vai saber quem mais eu seduzi? Do jeito que você fala eu sou uma devoradora de homens.— mostrava-se ofendida.
—Deixe de ser ridícula, Pepper. Você é linda, e sabe disso, é normal que os homens se sintam atraídos por você.— ele afirmou —Eu quis ter você de várias maneiras desde quando você entrou aqui a primeira vez. Mas você fez jogo duro, então eu achei que você fosse diferente, que você merecesse mais do que sexo sujo, mas...
—Você de novo com essa história de que comigo foi diferente, de que não era só sexo.— ela o cortou —Ser especial me deu direito a um relacionamento de sete meses cheios de falsas promessas?— ela perguntou —Obrigada pela consideração, Sr Stark, mas se eu tivesse ideia de que acabaria assim eu preferiria ter sido tratada como qualquer uma.— ela disse e deu-lhe as costas.
—Aonde você vai?— ele perguntou.
—Embora.— respondeu limpando as lágrimas com as mãos.
—Mas está tarde.— mostrou-se apreensivo.
—É você quem está me mandando embora, Tony. O que é que você quer, me humilhar mais?— ela perguntou entre lágrimas —Quer que eu suba, durma com você uma última vez para que você tenha o prazer de me expulsar amanhã?
—Pode ser perigoso sair agora, não é por que acabou que eu não me importo com você. Você está sendo cruel, Pepper.
—Esqueci que você não manda embora as mulheres com as quais faz sexo.— continuou sem dar atenção ao que ele disse —Essa sempre foi a minha função, expulsar as mulheres usadas por você, até me tornar uma delas. Devo me sentir especial agora também, por ter a honra de ser a única chutada por você?— perguntou raivosa.
—Mulheres usadas por mim?— perguntou —Você fala como se todas fossem puras e castas. Eu nunca forcei ninguém a deitar na minha cama, você é prova disso.— disse presunçoso.
—Eu realmente achei que você fosse outra pessoa, estava tão desesperada para ser amada por você que acreditei em tudo o que você me disse, ouvi mentiras achando que eram verdades, deixei que você me manipulasse. Acho que você tinha apenas cansado de sair e caçar, e eu, bem, estava aqui, não é?— ele silenciou —A assistente, disponível e apaixonada pelo chefe, acho que você sempre me viu assim. E agora tenta subverter a situação e me tornar a mau caráter e volúvel da história.
Tony nunca imaginou ver Pepper tão descontrolada, não levava em conta a maioria das coisas que ela dizia, a maior parte das acusações que ela fazia. Ela estava machucada, ele havia a machucado, ela só estava se protegendo. Talvez a melhor defesa fosse mesmo o ataque, só que nenhum dos dois ponderava mais as palavras.
—Não é disso que se trata. Você podia ter me ouvido dizer que acabou e ter saído, mas preferiu ficar e cobrar uma explicação. E agora ficamos nos ofendendo e debatendo coisas irrelevantes...
—Irrelevantes? Você está se ouvindo? Eu dei dois passou e você me perguntou aonde eu ia.— ela disse —Você fala, fala, fala e ainda não me deu um motivo aceitável. Quer me mandar embora, mande, mas seja claro. Assuma os seus atos e mostre certeza de que é isso o que você quer. É isso o que você quer?!— ela gritou e ele não respondeu. —Tudo o que você me disse até hoje, tudo o que você me disse naquela manhã em Nova York, você mentiu pra mim?— ele não respondeu —Você mentiu pra mim?!
—Menti!— ele gritou. —Eu me deixei levar por você, pela situação. Não foi isso que você desejou por anos, que eu amasse você?
—O seu amor por mim não é mentira, Tony. Eu sei. Eu não seria tão estúpida a ponto de me dedicar tanto a alguém que...— ela suspirou pesadamente —Eu nunca desisti de você por que você nunca havia me magoado tanto.— as lágrimas dela voltaram com toda força.
—Pepper...eu....— Tony ficou parado a encarando, inexpressível, atordoado, seu olhar dilatado, escuro, mas com um brilho molhado —Eu realmente pensei que pudesse amar você.— ele correu a mão pelo cabelo.
—Me deixa tocar você?— ela levou a mão na direção do rosto dele, Tony deu um passo para trás involuntariamente, parecia amedrontado e então se recompôs —Por favor?— ela suplicou, sabia que o contato entre eles dizia mais do que qualquer palavra.
—Não.— ele respondeu, se ela o tocasse ele não resistiria em responder e por consequência não a deixaria ir.
—Por quê?
—Você já teve concessões minhas o suficiente.— tentou parecer insensível.
—Por favor, me diz por quê?— ela implorou —Onde você estava, por que você está vestido assim? Tem a ver com o Hammer?
—Tem a ver comigo.
—É importante que eu saiba o motivo.
—Eu quero assim, Pepper.— outra vez ele passou mão nervosamente pelos cabelos. —Aceite. É isso. Acabou.
—Eu não posso aceitar...— ela soluçou —Eu amo você.— ela disse e ele teve que conter o impulso de abraçá-la, saber que ele chorava por ele o destruía, fechou os olhos, pois não suportava vê-la sofrer.
—Você não pode me amar, olhe para você, eu só a faço sofrer.— disse visivelmente angustiado.
—Eu sei o que eu posso, eu escolhi amar você, Tony.— ela diz e ele balança a cabeça tristemente. —Por mais que você negue, você me ama também, e agora contradiz tudo o que me disse, tudo o que fez por mim. Você não é assim.— os olhos dela estavam vermelhos, embora ainda chorasse, a sua voz agora era mais calma.
—Eu sou, tentei não ser, mudar. Mas sou isso, prefiro ser isso a ser um fraco.— a voz dele também era calma, desprovida de sentimento.
—Você não é um fraco.
—Viver grudado em você estava me deixando fraco, dependente, eu não quero mais isso.— disse friamente —Tenho muita coisa na cabeça e ficarei melhor se não tiver que me preocupar com você o tempo todo.— seu tom era ácido.
—Eu atrapalho você?— perguntou incrédula diante das duras palavras dele.
—Atrapalha.— afirmou —Você é histérica, eu piso em ovos para lidar com você. Tenho que ter cuidado redobrado nas missões pensando no quanto você está preocupada. Eu não posso ser reticente no meu trabalho, sabe? Eu tenho que assumir o risco, me jogar, encarar cada missão como se fosse a última.
—Agora você vai querer me convencer que não tem medo de morrer, de sair e não voltar mais?— mostrou-se incrédula.
—É— garantiu —É isso o que eu quero encarar de peito aberto sem me preocupar se eu estou deixando alguém. Salvar vidas sem me preocupar com a minha própria vida.— respondeu asperamente.
—Se você não dá valor a sua vida, então por que você voltou?!— ela gritou —Você devia ter morrido naquela droga de caverna! — ele arregalou os olhos diante das duras palavras dela, e então ela levou as mãos na boca percebendo o tamanho da besteira que proferira —Perdão.— ela pediu —Eu não quis dizer isso.— tentou alcançá-lo, mas ele se esquivou.
—Mas você disse.— a voz dele quase não saiu, ouvir aquilo lhe atingiu como um soco no estômago.
—Você me fez dizer.— a voz dela era um sopro.
—Pepper, vá embora antes que a gente acabe se odiando.— ele pediu.
—Eu jamais conseguiria odiar você, posso deixar de gostar, ficar indiferente, mas odiar não.— ela conseguiu enfim chegar perto dele, tocá-lo. —Posso te fazer uma pergunta e então eu vou embora?
—Faça.— ele disse vacilante sentindo a mão dela em seu rosto.
—Foi de verdade?
—O que?
—O seu amor por mim e tudo o que a gente viveu? Sei lá, pelo menos nos primeiros meses?— ela perguntou.
—Foi.— ele piscou o olho, tentando conter-se.
—Obrigada.— ela deu um beijo no rosto dele.
—Pelo quê?
—Pelo tempo que foi de verdade.— ela olhou no fundo dos olhos dele e se afastou. —Eu vou subir para arrumar as minhas coisas, as malas de Nova York ainda estão ali próximas ao sofá, você pode levá-las para o carro enquanto eu estou lá em cima, por favor?— Tony balançou a cabeça positivamente incapaz de dizer nada, então ela subiu as escadas.
Levar as malas dela para fora de sua casa sabendo que, ambos estavam tão magoados, que aquela situação talvez fosse irreversível, foi a coisa mais dolorosa que Tony já fez em sua vida. Voltou ao interior da mansão e esperou que ela descesse. Pepper ficou aproximadamente vinte minutos na suíte, olhava para a cama que por meses dividiu com ele e não conseguia crer no que estava acontecendo. Não queria acreditar que tudo o que viveu tinha sido uma mentira.
Fechou as malas e saiu do quarto. Ao apontar no alto da escada puxando duas malas precisou novamente da ajuda de Tony para levá-las ao automóvel. Passou pela sala e pegou a sua bolsa sobre o sofá. Antes de deixar que a grande porta principal fechasse atrás de si olhou atentamente para a ampla sala da mansão. Ela havia sido realmente feliz ali.
Do lado de fora a lua iluminava o pátio, a Mercedes SL550 branca conversível estava parada a alguns metros da porta. Tony e Pepper estavam exaustos, destruídos, derrotados, em conflito. Discutiram por muito tempo, não faziam ideia de que horas eram.
—Ainda ficaram algumas coisas, outra hora eu venho buscar. Tudo bem pra você?— ela perguntou ao chegar ao carro.
—Não precisa se preocupar.— ele respondeu.
—É difícil ter que levar de uma vez o que eu trouxe aos poucos.— ela disse e não se referia só as roupas e pertences, mas ao sentimento e a relação que foi construída pouco a pouco. —Me desculpa por ter imposto a minha presença na sua casa...na sua vida.
—Pepper, não...— ele deu-lhe as costar esperando que ela não dissesse mais nada, não conseguia ouvir mais nada.
—Apesar da minha insegurança eu desejei que a nossa relação fosse...— ela suspirou —Eu sei que é ridículo dizer, mas eu queria que fosse para sempre.— ela se esforçou para tirar a pulseira que ele dera para ela em NY. —Toma.— disse devolvendo a joia para ele.
—É sua.— ele disse com os olhos tristes.
—Não, não é.— ela replicou.
—Eu dei para você.— ele rebateu —Você vai me devolver o carro também, você quer me ferir?— ele perguntou.
—Ferir? Mais? Acho que ambos estamos feridos o suficiente.— ela observou —Embora eu tenha aceitado o carro em resignação, você me deu esse em troca do que eu perdi por sua causa, não foi essa a sua justificativa? E eu preciso dele para sair daqui.
—Eu te dei a pulseira também...
—Mas o que aconteceu nas últimas semanas não significou nada, não foi?— perguntou friamente.
—Pepper, fique com ela, por favor.
—Não posso, Tony. Eu vou olhar para essa pulseira e vou me lembrar de você, e então me lembrarei que os últimos meses que eu vivi foram uma mentira.— ele colocou a pulseira na palma da mão dele. —Adeus, Tony.
Durante toda a conversa no interior da mansão Tony manteve uma distância segura de Pepper, um espaço que lhe impossibilitava de agir por impulso, mesmo que ele tentasse chegar até onde ela estava, teria alguns passos para raciocinar. Mas ali, no pátio sob a luz da lua, ele estava a centímetros dela. Pepper abriu a porta do carro, mas ele impediu que ela entrasse. Tony segurou-a forte pela cintura e a beijou. Um beijo áspero, desesperado. Pepper tentou afastá-lo, mas não conseguiu, não era isso que ela queria, correspondeu, o consumiu, até ser atingida por um rompante de lucidez e interromper o beijo.
—O que foi isso?— ela perguntou ofegante, o lábio inchado do beijo longo e voraz, os olhos azuis assustados e esperançosos.
Ele não achou que ela perguntaria nada, julgou que receberia um tapa por ter se atrevido a beijá-la depois de ter dito barbaridades, que ela entraria em seu carro e arrancaria, mas ela não fez nada do que ele esperou.
—Foi um adeus.— ele respondeu, quando na verdade queria que ela não precisasse ir —Não significou nada.— disse ainda forçando o corpo dela contra o carro.
Pepper semicerrou o olhar, furiosa o empurrou para longe —Sociopata.— ela rosnou, jogou a sua bolsa no banco do carona e entrou no carro, bateu a porta com extrema violência e saiu queimando pneu.
Tony caiu de joelhos sobre o chão frio ao ver o portão se fechar depois que o carro de Pepper saiu. Encolheu-se com as mãos calejadas no rosto, seu coração doía, sentiu o rosto molhado. Lágrimas? Nunca se imaginou chorando por ninguém, mas, também nunca teve ninguém que amasse mais do que a si mesmo. Praguejava. Odiava-se. Perdeu a noção do tempo em que ficou naquela posição, até conseguir forças para se levantar. Voltou ao interior da mansão. Questionava se o que fizera era mesmo o certo. Ele não teve tempo de pensar a respeito, quando chegou em casa ela já estava lá. Se ela tivesse chegado na manhã seguinte como era o combinado, talvez ele conseguisse dormir aquela noite, pensar no que dizer. Mas ela estava lá, e como em vários momentos em sua vida ele agiu por impulso. Só que, ao contrário da maioria das vezes em que agiu assim, poderia não ter como reparar o que foi feito, desculpar-se pelo o que foi dito.
—Jarvis?
—Sim, Sr?
—Monitore o carro da Srta Potts pelo sistema via satélite, se ela demorar mais do que o e costume no trajeto até seu apartamento eu quero saber.— ele disse caminhou até o bar e serviu-se de uma dose de uísque.
—Ela estacionou o carro no endereço onde mora há exatos 5min.— informou Jarvis.
—Quanto tempo durou o trajeto, Jarvis?— perguntou cismado.
—Doze minutos, Sr.
—Doze minutos?— perguntou perturbado —Eu estou destruído tentando guardar a vida dela, e ela sai por aí dirigindo feito uma maluca?!— para exteriorizar sua fúria, arremessou o copo contra a parede mais próxima. Tony sabia que a viagem da mansão até o apartamento de Pepper demorava pelo menos dezoito minutos, considerando que àquela hora não havia trafego. —Daqui para frente todas as vezes que a Srta Potts der partida no carro eu quero saber.— ele ordenou, Jarvis acatou a ordem.
Tony serviu-se de outro copo com uísque, pegou a garrafa e jogou-se no sofá. Ao sentir o primeiro gole da bebida destilada cortar-lhe a garganta, lembrou-se das palavras de Rhodes quando soube de seu romance com Pepper: “Cuide bem dela, por que se um dia ela te abandonar você não vai encontrar mais ninguém que te suporte”. Com certeza, ele liquidará a garrafa de uísque, e não estranhará ao acordar no dia seguinte largado sobre aquele sofá.
Pepper estava em seu apartamento há alguns minutos, não acreditava no quão rápido havia chegado, já que as lágrimas não deixavam os seus olhos, a visão ficou turva em alguns trechos do longo caminho, mas ela em nenhum momento pensou em parar. Agora estava em sua casa, em sua cama. Não fazia ideia da última vez que dormira nela, mas tinha sido com Tony. Perdeu a conta das vezes, no início do relacionamento em que saiu da empresa foi para a sua casa e, minutos depois de chegar, ouviu a campainha tocar e ao abrir a porta deparava-se com ele e seu sorriso conquistador. Porém, do jeito como haviam se tratado naquela noite, com certeza, se a campainha tocasse não seria ele.
Por mais que, durante os dias em Nova York, tivesse cogitado voltar para o seu apartamento era estranho estar ali. Sentia a cabeça martelar, precisava de um analgésico, mas antes precisava de um banho, estava exaurida. Sob o forte jato de água quente, agradecia mentalmente por ter mantido apartamento em ordem durante todos esses meses, seria ainda pior chegar e deparar-se com seus móveis empoeirados. Perdeu a noção do tempo que ficou no banho, desejava que as lágrimas deixassem o seus olhos, que escoassem pelo ralo junto com água que lavava o seu corpo. Ao sair do banho envolveu-se num roupão branco e felpudo, enrolou uma toalha também branca nos cabelos, dormirá com eles úmidos, apesar de a noite dar sinais de que o dia seguinte será frio.
Ao olhar no armário do banheiro não achou o frasco de comprimidos, lembrou-se que talvez tivesse um na bolsa. Foi até a cozinha buscar um copo d’água, e voltou ao quarto, pegou a sua bolsa e se sentou, colocou o copo com água sobre o móvel ao lado da cama. Vasculhou a bolsa, não encontro nada, insistiu. Acabou jogando todo o conteúdo sobre o colchão. Achou o frasco de comprimidos e algo que não desejava. Suspirou.
Tony aproveitou a distração de Pepper durante o beijo e colocou a pulseira dentro de sua bolsa. Então ela começou a pensar. Por que aquele beijo? O que significou? Por que insistir que ela ficasse com aquele objeto? Ela pegou a pulseira em sua mão, e lágrimas rolaram novamente, então ela se perguntou:
—Por quê?
Fale com o autor