De Kaer Morhen à Kaer Trolde
7 Tretogor III
Vellferdudic não era um estudioso. Muitos dos fãs de Jaskier não eram; eles simplesmente gostavam das melodias, e mesmo entendendo pouco das letras, choravam com a beleza das que tinham teor romântico, deixando a filosofia para quem entendesse do assunto. Era comum, sim, porém, não para Brastol Vellferdudic, quem repetiu por mais de cinco vezes que a paixão pela arte de Jaskier era absoluta, o que juntava não apenas as baladas como também as poesias e monólogos filosóficos. Era no mínimo estranho um homem que possuía livros que nunca abrira e priorizava a criação de éguas para competições, ser tão afeiçoado à arte do poeta, que para ser entendida ou ao menos interpretada da forma que fosse, demandava o mínimo de estudo e leitura.
Ele não é um fã, o bruxo teve certeza enquanto agitava as rédeas de Plotka, fazendo-a acelerar ainda mais. Ele havia sentido algo diferente desde o início. O aviso de Eskel não havia sumido de sua mente, ainda que tivesse procurado desculpas para ter encontrado o completo oposto do narrado pelo irmão de guilda.
Os olhares da família foram recordados no momento em que pôde ver a mansão ao longe; um ponto levemente iluminado no meio da escuridão da noite.
Era estranho, mas não tanto. A ideia de Lastitia Vellferdudic aceitar planos de um casamento com o poeta parecia plausível. Era Jaskier, afinal, e apesar de um falastrão mulherengo, ainda era uma boa opção entre as classes. Um Visconde e poeta famoso, belo como um elfo, inteligente, formado na Academia de Oxenfurt; quem não se empolgaria em tê-lo ao lado para sempre? Geralt achava difícil encontrar uma mulher que se recusaria, e teria rido de si mesmo e o breve pensamento de que nem mesmo ele negaria, se internamente o incômodo não crescesse e o alertasse de que os olhares e a ideia de casamento eram apenas projeções de seus próprios desejos e que o poeta estaria mais seguro entre ele e os agitados nekkers do que entre os lençóis macios da mansão Vellferdudic.
Plotka reclamou ao ser forçada a correr um pouco mais, mas não desobedeceu ao bruxo, apontando a cabeça para a mansão com mais atenção e uma nova determinação que parecia se assemelhar a de seu dono, como se ela soubesse até mesmo melhor do que ele o que realmente acontecia naquele instante.
— Pode sentir isso, Plotka? — Geralt murmurou enquanto sentia o próprio peito pesar, e a ouviu relinchar em resposta; parecia brava e determinada, como se tivesse vontade de gritar pela vida de seu amigo poeta.
Geralt pulou da cela antes mesmo dos cascos de Plotka pararem. A mansão estava à poucos metros de distância, e pôde ouvir com clareza um grito abafado. A voz era fina e feminina e se misturou com as batidas de taças indo ao chão. A agitação na mansão podia ser vista como vultos nas cortinas das grandes janelas do salão principal.
O bruxo não parou nem mesmo quando a falsa sensação de conforto e segurança que o interior que cheirava a lavanda e pão fresco, junto do ar quente das lareiras e velas, o abraçou. O coração estava agitado e não escondeu o desespero que só soube explicar de onde vinha quando alcançou o maior cômodo da residência. O calor sumiu e o cheiro antes agradável se misturou com vinho, sangue e saliva.
Os vultos nas cortinas eram os criados desesperados; o grito que se repetia era de Lastitia, debruçada sobre o corpo de Jaskier, desacordado sobre o caro tapete manchado de vinho e cercado pela bagunça que seu tombo causara. As taças de prata voltaram a fazer barulho quando foram chutadas pelos pés apressados de Geralt, assim como Lastitia, que se apavorou com sua presença e se afastou do poeta rapidamente.
Ele se ajoelhou sobre o tapete, e com cuidado virou o corpo de Jaskier, podendo ver o queixo manchado de sangue e vinho, assim como a boca semiaberta. O frio se intensificou, e por um momento Geralt deixou de ouvir e sentir qualquer outra coisa que não fosse seu coração desesperado. Ele chamou pelo poeta, o chacoalhou e deu tapas em sua face, mas não conseguiu despertá-lo. Apesar de tudo, o coração ainda batia, e a respiração, ainda que fraca, funcionava.
De repente, um intenso calor tomou o corpo do bruxo. Os olhos acumularam lágrimas, mas não era tristeza ou mágoa; ele levantou o rosto para os que o observavam em silêncio e cautela, e a raiva foi claramente vista nas íris amarelas.
— O que houve com ele? — A voz grave soou pelo salão de uma forma pesada e ameaçadora, arrepiando a carne dos servos e dos donos da mansão.
— Ele adoeceu de repente — gaguejou a senhora Vellferdudic, tentando dar passos para trás, mas já havia alcançado o limite e as costas se espremiam na parede. — Pensamos que era apenas exaustão, ele mesmo disse, mas desabou pouco antes do senhor chegar. Eu não sei, não faço ideia do que aconteceu.
Ela gaguejava com o tom trêmulo, mas, ainda assim, se expressava muito bem. As sobrancelhas do bruxo se juntaram quando desviou o olhar para Lastistia, que, com os olhos arregalados, conseguia encarar apenas o bardo desacordado. Em nenhum momento ela se mostraram inclinadas a chamar por um médico ou qualquer outra ajuda. O choque poderia tê-las congelado, foi o primeiro pensamento lógico, mas o bruxo não podia confiar nos olhares de nenhum membro daquela família, ele não se permitiria mais encontrar desculpas para o comportamento estrangeiro. Ele exigiria respostas de forma explícita desta vez, porém, Geralt tinha outra prioridade, que o fez deixar qualquer questionamento para mais tarde. Primeiro, ele teria de levar Jaskier dali, para um lugar seguro e onde teria um médico para tratá-lo.
A decisão foi tomada rapidamente, assim como voltou a apertar o poeta contra seu peito. Ele se levantou com Jaskier nos braços, mas não tornou a olhar para o rosto pálido e manchado de vermelho. Não havia tempo para se desesperar ou se culpar, foi o pensamento para aquele momento. A pressa era o que o dominava, e nenhuma pessoa no grande salão o impediu ou disse qualquer palavra, mas os passos foram parados um pouco antes de alcançar a saída da mansão.
E ali estava ele.
Geralt sequer havia se lembrado de Brastol naquele curto tempo, mas ele tomou todos os seus sentimentos e atenção novamente.
— Deixe-o, bruxo!
As mãos trêmulas se levantaram quando se colocou entre o bruxo e a porta. O cabo de uma longa espada foi apertado, mas sem firmeza alguma; era a primeira vez que a segurava com a intenção de ferir, isso foi claro para o bruxo quando o viu balançar a lâmina em sua direção de forma desajeitada.
— Deixe-o — repetiu Brastol Vellferdudic. — Eu posso cuidar dele, já mandei que chamassem por um médico.
As palavras que deveriam transmitir segurança não tiveram nem um terço das intenções que Brastol tentava passar. A espada continuava levantada, e o olhar sequer estava no bruxo. Ele se manteve atento ao poeta em seus braços, e o estranho brilho nos olhos castanhos foram notados novamente.
Você não é um fã, Geralt pensou enquanto trazia Jaskier para mais perto do peito. Não tem intenção de casá-lo com sua filha. Mas, ainda assim, o quer, não é? Ele enfim desviou o olhar para o bardo, por breves segundos que o fizeram estremecer. Ele não estava doente, obviamente.
O calor raivoso voltou a incomodar o corpo de Geralt. Ele focou na espada trêmula, e não moveu os pés ou deixou de segurar o poeta com firmeza. Do corredor ao lado, ele ouviu passos, de Lastitia e sua mãe, e sabia que era questão de pouco tempo para que fosse rodeado por guardas e não um médico.
— Você vai me deixar passar — a voz de Geralt soou ainda mais grave do que era. Brastol tentou respondê-lo, mas se calou ao vê-lo dar um passo para a frente. — Vai me deixar passar, ou cortarei as gargantas de todos vocês, começando por sua esposa.
Brastol balançou a cabeça de um lado para o outro com desespero. A espada subiu um pouco mais, assim como a tremedeira aumentou.
— Você mente — ele gaguejou com desespero. — Você é um bruxo dos Lobos, só mata monstros.
— Eu não estou trabalhando — Geralt respondeu simplesmente. No mesmo instante, a senhora Vellferdudic, a pouco passos do bruxo, prendeu a respiração e congelou no lugar onde estava, assim como Lastitia, que como o pai, tremia de forma visível, mas apenas por um breve instante, pois, após o momento em que as palavras do bruxo ameaçaram a família, uma de suas mãos se moveu de forma discreta e todas as chamas que iluminavam a mansão foram sopradas.
A escuridão elevou o pavor de todos os humanos, enquanto o bruxo sentia o mesmo por um motivo completamente diferente, o que permanecia desacordado em seus braços, e passara a respirar de forma ruidosa.
— O que fizeram com ele? — Geralt rosnou alto e raivoso.
Não houve resposta. Apenas respirações pesadas e murmúrios apavorados soaram por perto. Nenhum deles se moveu, temendo o escuro e o bruxo que podia enxergá-los sem esforço algum, e para o infortúnio deles, já não tinha mais paciência para nada.
A mão de Geralt se moveu novamente, com dificuldade formando o sinal Aard. O feitiço foi propositalmente fraco, o suficiente para balançar os vestidos das Vellferdudic e causar um pouco mais de pânico, e funcionou muito bem. Ambas gritaram desesperadas, correram sem rumo na escuridão, até voltarem a se encontrar por acaso e se abraçarem enquanto as pernas, fracas pelo medo, cederam e as obrigaram a sentar sobre o chão.
— O que está fazendo? — Brastol chacoalhou a espada mais uma vez, um pouco mais corajoso enquanto dava passos para a frente, cortando o ar, pois o bruxo já havia se afastado há algum tempo, esperando apenas aquele movimento para alcançar a saída junto de Jaskier.
Ele não podia esperar por uma explicação, ainda que sentisse que precisasse de uma, e não hesitou, até tocar a maçaneta que enfim lhe traria a saída daquela mansão que tanto o incomodava.
— Por favor, não faça nada, eu imploro — choramingou Brastol Vellferdudic, fazendo o bruxo manter a mão parada na maçaneta. — Não as machuque. Eu...
Ele hesitou, respirou fundo e fungou. Estava afastado da entrada, perdido no escuro, mas o bruxo podia ver claramente que estava chorando. Mas não houve pena por parte de Geralt.
— É tudo culpa desse maldito bardo! — O homem gritou enquanto levantava a espada para uma estátua de mármore. — Ele vem na minha cidade, sorridente e cheio de si, se achando o maior de todos. Eu digo no que ele é o maior, bruxo, ele é um grande merda! Maldito, filho da puta! — Brastol riu com nervosismo. — Você sabe? Provavelmente não, e anda por aí com essa cobra que vaza informações suas pelo preço mais alto — ofegante, ele se moveu novamente, chacoalhando a espada no ar, perto da escada, bem longe de Geralt. Vendo que não recebia nenhuma resposta, ele riu outra vez, mas com deboche. — Sim, sim. Seu grande amigo é um maldito espião! Foi ele, foi o maldito Jaskier que abriu a boca e causou a morte do meu irmão. Meu único irmão, bruxo! Eu o amava, ele era o meu melhor amigo.
Brastol tomou fôlego e finalmente atingiu algo. A pequena escultura no final do corrimão perdeu a cabeça, e seu dono soltou um grunhido de frustração.
— Ele tinha manias, meios mais fáceis de ganhar dinheiro, mas nunca machucou uma alma boa, eu tenho certeza — ele explicava com desespero, com esperanças de ganhar empatia do bruxo e com isso, também a cabeça do poeta. — O erro dele foi se aproximar do bardo, o maldito bardo que contou ao Rei que o fisstech que atrapalhava seus ganhos vinha do meu irmão. Era apenas fisstech, não um golpe de estado — cansado e injuriado, Brastol jogou a pesada espada no chão. — Ah, maldito Jaskier, falastrão filho de uma meretriz! Me pergunto o quanto ele ganhou para entregar o meu irmão.
Ele passou a falar sozinho, andando de um lado para o outro como um louco. O bruxo o observou em silêncio, tendo suas respostas sem nem mesmo se esforçar para isso. Aquele claramente não era o plano inicial da vingança dos Vellferdudic; ter que lidar com o bruxo enquanto Jaskier ainda lutava pela vida de alguma forma desesperou Brastol.
— Agora que sabe, ainda vai defendê-lo? — Ele enfim parou de andar, e suas palavras foram diretamente para o bruxo. — Tenho certeza de que ele já o enfiou em situações terríveis por causa de sua língua. Este é o seu momento de se livrar desse peso — sua voz soou tranquila novamente, uma completa farsa. — Deixe-o e vá embora.
Geralt sentiu vontade de rir. Brastol era esperto, mas não o suficiente. Se fosse um pouco mais atento, sequer teria gastado saliva com o bruxo, e saberia que ele jamais soltaria o homem em seus braços, mesmo se sua própria vida estivesse em risco. Em qualquer momento ele nunca daria as costas para Jaskier, porém, naquele, a situação fazia o sentimento protetor se tornar ainda mais intenso. Era culpa dele estarem ali. Se tivesse escutado Eskel, teria ido direto para Novigrad, mas ele insistiu em arriscar, porque queria dinheiro, e ainda culpara Jaskier pela falta das moedas.
Geralt fechou os olhos e respirou fundo.
— Eu era o bruxo para este trabalho — ele se lembrou do que ouvira mais cedo. — Porque sou o bruxo acompanhado do bardo.
— Todos sabem disso — a voz de Brastol soou debochada. — Eu sabia que uma hora ou outra, os dois apareceriam em minha porta.
— Então, o seu irmão traficante dificultou a vida de Radovid, e o culpado é o bardo — Geralt não mais demonstrou o que sentia. Sua voz era fria, sem emoção. — Sim, Jaskier também dificultou a minha vida, Brastol Vellferdudic. Já cheguei a pensar em jogá-lo no fundo do Jaruga e deixá-lo para trás — as sobrancelhas do bruxo se juntaram com a lembrança em que explodia com nervosismo e dizia aquelas palavras para o bardo, e o peito doeu ainda mais. — Um maldito falastrão, como você mesmo diz.
— Sim, você me entende, bruxo — Brastol disse com uma tola animação esperançosa. Um grande idiota ele era, por não notar que a voz fria do bruxo significava perigo, e não a calmaria que imaginou.
— Sim, entendo. É por isso que não posso perdoá-lo — Geralt finalmente o fez fechar o tolo sorriso que se atreveu a abrir. — Jaskier... Ele é o meu melhor amigo, meu irmão, meu... — ele hesitou e olhou para baixo. Mesmo com a boa visão que tinha, era difícil enxergar as feições do poeta, mas, ainda assim, ele sentiu um intenso calor no peito. — Não importa o que o seu irmão fez, ainda quer vingá-lo, ainda o ama. Eu digo o mesmo deste estúpido homem — Geralt abaixou a cabeça e a tocou na de Jaskier. — Se ele morrer em meus braços, eu voltarei por você, sua família e as suas éguas. Na mesma rapidez que acabei com a luz desta mansão, eu posso trazê-la de volta. Eu queimarei tudo e não deixarei sequer um pedaço de grama viver.
A ameaça foi dita ainda com calma, mas desta vez Brastol soube exatamente o que aquele tom representava. A resposta do bruxo era tão óbvia que se sentiu envergonhado, mas não antes de se enraivecer.
— Maldito...
— Sim, eu sou. Há algum de nós aqui que não é? — Geralt o interrompeu, conseguindo calá-lo com sua pergunta. — Então, me diga o que fizeram com ele e minhas palavras poderão se manter desta forma: apenas palavras.
A pressa ainda o deixava inquieto. Toda aquela conversa não o estava levando a lugar algum, mas sem saber o que estava acontecendo com Jaskier, poderia demorar ainda mais para conseguir ajudá-lo. Ironicamente, a única pessoa que podia salvar o bardo naquele momento, era quem menos o queria vivo.
— Brastol... — o chamado choroso viera de algum canto da mansão. Era a esposa de Brastol, desesperada e sem mais forças para apoiar a vingança do marido. Ela agora só queria proteger a família que ainda estava viva.
— É veneno — Brastol enfim se rendeu. A voz estava trêmula, mas ainda bastante orgulhosa. — Eu não sei o nome ou do que é feito. Comprei há muito tempo, quando decidi atraí-lo. Não tenho antídoto.
A respiração do bruxo se tornou pesada, e ele apertou Jaskier um pouco mais quando o pé se levantou para chutar a porta de entrada. O barulho dela sendo forçada a se abrir fez Laslistia soltar um grito apavorado.
— Se tentar nos seguir, se no futuro enviar alguém por ele, eu voltarei — o tom ameaçador estava de volta, mas ainda mais duro e tão carregado de ódio que fora facilmente sentido pelos que ouviam na escuridão. — Eu prometo a você, farei de sua vida um inferno. Pode me ouvir, Brastol Vellferdudic?
Ele não podia mais vê-lo. Geralt estava de costas, com os pés para fora da casa, mas ainda assim pôde ouvir o covarde Vellferdudic.
— Sim — a resposta trêmula e simples normalmente faria o bruxo insistir um pouco mais, porém, ele enfim deixou aquela mansão sem mais nenhum contato entre eles.
O coração estava agitado e dolorido enquanto suportava o peso de Jaskier. Os cabelos claros grudavam na testa, suava de nervosismo. O bardo foi colocado sobre Plotka, e Geralt só se deu um tempo para lembrar da direção da saída principal daquelas terras, para então fazer a égua correr até o seu limite.
Havia uma pequena vila não muito longe dali, e tinha esperanças de encontrar algum médico, feiticeira ou herbalista, qualquer profissão que fosse capaz de ao menos ceder algum tempo para poeta, até que conseguissem descobrir como se livrar do tal veneno. Seria complicado sem um nome ou uma amostra, ele sabia, mas não se permitiu ser pessimista naquele momento. Primeiro, ele teria que tirar Jaskier dali, deitá-lo em um lugar seguro em mãos capazes; depois, pensaria no que poderia ou não acontecer.
Ele estava atordoado, com os sentidos confusos, mas, ainda assim, não foi pego de surpresa no grande portão principal. Os guardas o esperavam ali, alguém já os havia avisado enquanto a conversa com Brastol acontecia, e as espadas estavam apontadas em sua direção. Plotka parou poucos centímetros antes de esbarrar nas afiadas laminas, e o bruxo rapidamente a fez recuar. A fúria queimou em seu interior, enquanto olhava aqueles homens que o mandavam descer da égua, e não houve hesitação para mover os dedos, na intenção de jogar suas chamas sobre todos eles. Geralt não mais se importava se eram inocentes ou não, se só cumpriam ordens ou tinham medo, ele só queria tirar Jaskier daquele lugar.
As chamas iluminaram sua palma, mas não passaram dali. Ele logo as fechou quando outra égua se aproximou. Ele não notou, mas era a égua de Klaus Vellferdudic, e sobre ela, Geralt reconheceu rapidamente os cabelos escuros que batiam nos ombros cobertos pelo tecido caro.
— Deixe-o passar! — Straus gritou com autoridade, assim que se aproximou do portão.
Os homens hesitaram enquanto olhavam uns para os outros, mas no fim, recuaram como fora mandado. Straus não era um membro da família Vellferdudic, mas ele era o empregado com mais autoridade naquelas terras, e jamais desrespeitou Brastol. A confiança que todos tinham nele espantara a necessidade de questioná-lo, e o fez soltar um discreto suspiro aliviado. Ele estava ali por conta própria, e sabia que seria punido ou descartado pela família mais tarde, porém, não teve medo quando conseguiu ao menos liberar o caminho para o aflito bruxo.
Ainda sobre a égua, Straus se aproximou de Geralt, enquanto os outros homens se ocupavam em abrir o grande portão. Eles se olharam nos olhos, vendo sentimentos distintos um no outro. O bruxo estava hesitante e confuso com aquela ajuda, e o empregado, dividido entre aflição e decepção, mas isso não impediu Straus de segurar a mão de Geralt e pousar um pequeno frasco nela.
— É o veneno que está nele — avisou com seriedade, sentindo tudo o que o afligia se intensificar com o olhar esperançoso à sua frente. — Ele precisa de cuidados rapidamente — Straus desviou o olhar. Ele queria olhar para Jaskier, mas não conseguiu, então focou na direção do portão que já estava aberto. — Se seguir para a vila mais próxima daqui, vai encontrar pessoas capazes de curá-lo.
Geralt se agitou novamente, ansioso para encontrar alguém que pudesse ajudá-lo. Com o veneno em mãos, seria mais rápido encontrar uma cura, e mesmo focado apenas nisso, não pôde deixar o sentimento de gratidão de lado. Ele rapidamente segurou a mão que se afastava devagar.
— Straus, obr...
— Não me agradeça — Straus o interrompeu com urgência. Os olhares novamente se encontraram, e o bruxo o sentiu tremer levemente com seu toque. — Fui eu quem comprou o veneno — mais uma vez, ele não aguentou encarar os olhos de Geralt, mas podia imaginar muito bem o espanto e a decepção neles. — Eu sinto muito — sussurrou enquanto se soltava do toque. Straus fez a égua dar as costas para o bruxo e apertou as rédeas com força. — Vá, ou será tarde demais para salvá-lo.
A raiva de Geralt voltou a ser intensa enquanto o via se afastar com urgência. Covarde, ele pensou, e a vontade de ir até Straus o fez se agitar junto de Plotka, que reagia a maneira que seu dono segurava as rédeas. Mas ele não cedeu à vontade de no mínimo socar a bela face do principal empregado de Brastol. Geralt endureceu a expressão que já não era amistosa e enfim deu uma direção para Plotka.
Nem mesmo voltou a olhar para trás, depois que passou pelos grandes portões. Ele abraçou Jaskier com um dos braços enquanto segurava as rédeas com a mão livre. Plotka correu até a exaustão, chegando a um ponto em que o bruxo achou que ela cederia a qualquer momento. Houve preocupação, mas ele não pôde dar a atenção e cuidado que Plotka precisava, e só a deixou descansar quando os pés pisaram no chão da pequena vila mais próxima.
Já era tarde, e não havia muitas pessoas para consultar andando pelas ruas, mas, ainda assim, Geralt não se deu um tempo para pensar ou hesitar. O corpo do bardo foi colocado em seu ombro. Parecia cada vez mais pesado, e a respiração voltara a ser ruidosa, como se estivesse sentindo dor.
— Só aguente mais um pouco — o bruxo pediu, tentando manter a calma. — Eu não vou perdoá-lo, se me deixar assim.
Ele estremeceu por conta da própria fala. Desde o momento em que recebeu o aviso de Lilian, havia uma imensa aflição que o incomodava, porém, até ali, não tinha passado por sua cabeça que poderia mesmo perder Jaskier. O rápido pensamento o apavorou ainda mais, e apressado, o bruxo bateu na primeira porta que teve acesso. Ninguém o atendeu, assim como na próxima. Ele foi capaz de falar com alguém apenas na quinta casa, pois as batidas se tornaram tão fortes e desesperadas, que irritou o morador.
O homem o atendeu com a expressão fechada. Parecia sonolento, obviamente o bruxo o havia acordado, mas os olhos se arregalaram no mesmo momento em que viu o homem desacordado em seus braços. O pedido de ajuda o despertou, e rapidamente trocou a carranca pela urgência e solidariedade. Ele indicou o caminho, perto dali, onde disse que um casal com certeza poderia ajudá-lo.
Clara e Aldron eram seus nomes, e assim como o homem sonolento havia dito, os acolheram sem nem mesmo perguntar quem era o bruxo e o desacordado em seus braços. As perguntas vieram, mas todas eram sobre a situação de Jaskier, o que ele havia comido, bebido e até mesmo se havia vestido algo diferente. Geralt explicou o ocorrido e entregou o pequeno frasco nas mãos de Clara; ela era herbalista e não demorou para reconhecer o que tinha ali dentro. Aldron era um médico cuidadoso, e deitou Jaskier em sua própria cama, para examiná-lo com cautela.
Ambos pediram para que Geralt se afastasse por um momento, e foi um pouco difícil obedecer. Queria ajudar a limpar o rosto de Jaskier, livrá-lo do casaco ou simplesmente permanecer ao seu lado, mas com muito custo os obedeceu e apenas observou Aldron cuidar do bardo.
Ele se encostou na janela enquanto o casal andava de um lado para o outro, murmurando termos e nomes de algumas ervas que Geralt reconheceu apenas um terço. O nervosismo só aumentava e o deixava inquieto enquanto mantinha o olhar atento na larga cama e o rosto pálido sobre o travesseiro.
Aldron permaneceu ao lado de Jaskier por um longo tempo, até Clara retornar para o quarto. Ela se aproximou e pediu que segurasse o rosto do bardo, e a concentração no que fazia era tanta que nem mesmo ouviu a pergunta preocupada do bruxo, que queria saber o que estavam fazendo. Mas no fim, ele não precisou de uma resposta. O casal forçou um líquido verde para a garganta de Jaskier, um antidoto que a esposa de Aldron tinha bastante confiança de que funcionaria. Por conta da agitação, o poeta engasgou e finalmente abriu os olhos. Vendo-o daquela forma, Geralt não pôde mais se deter. O coração estava acelerado, a vontade de envolvê-lo em seus braços o fez se aproximar, mas só teve tempo de segurar uma das mãos frias até que Jaskier fechasse os olhos novamente.
— O que houve? — Ele perguntou apavorado, nem um pouco preocupado com a aparência completamente vulnerável na frente do jovem casal.
Eles o tranquilizaram, dizendo que aquilo era normal. O veneno havia causado um grande estresse para o bardo, e no momento, ele permaneceria adormecido. Apesar de precisar de cuidado continuo a partir dali e por um tempo um pouco mais longo, Aldron garantiu que Jaskier não corria o risco de perder a vida. Ele sorriu fraco para o bruxo, que se sentou na cama enquanto apertava a mão do poeta com pouca força. Geralt queria agradecer, olhar tão confiante para Aldron e Clara como era olhado, porém, nem mesmo suspirar aliviado conseguiu. Ele observou o rosto, agora um pouco sujo pelo antidoto que escorrera pelos lábios, e só conseguiu sentir tristeza.
O casal ofereceu panos limpos e água morna, para que Geralt pudesse limpar a pele de Jaskier. Desta vez, ele conseguiu agradecer em tom baixo, e por um momento, fez o trabalho em silêncio, ouvindo apenas os próprios pensamentos enquanto Clara e Aldron limpavam a bagunça que eles mesmo haviam feito.
Geralt pensou em meses atrás, quando cuidou de Jaskier da mesma forma. O rosto e o corpo tinham aparência muito melhor do que naquela época; não havia inchaços ou manchas roxas e esverdeadas, causadas por pancadas. A visão não era tão ruim, e a pele pálida demais era a única anormalidade para o rosto que sempre era tão vivido, mas, o sentimento parecia pesado da mesma forma, e o medo e culpa eram estranhamente maiores.
Ele não teria como prever aquilo, ou sequer fora por um assunto que o envolvia, mas o que sentia por Jaskier naquela época em Kaer Morhen era grande, mas não tanto quanto crescera até ali. O amor e carinho eram claros e não havia mais como negá-los, assim como o pavor de não saber o que faria se o tivesse perdido. Ele já havia sentido o mesmo medo diversas vezes no passado, naquela viagem em especial, e chegou a se perguntar se seu coração aguentaria tanto, se continuasse daquela forma.
Os sentimentos dolorosos continuaram a perturbá-lo enquanto permanecia fielmente ao lado de Jaskier e segurando sua mão, mas desviaram para as pessoas da mansão Vellferdudic. O que ouviu de Brastol explicava muito, porém, ele sentia que não era o suficiente, ainda que, ao mesmo tempo, tinha certeza de que não deveria mais cutucar aquele assunto. Ele se segurou o quanto pôde, mas sabia que Brastol e sua família eram muito conhecidos em Tretogor, e não resistiu perguntar sobre os membros da mansão para o casal, que terminava a limpeza em silêncio.
Geralt foi direto ao mencionar Klaus, e Aldron e Clara se encararam por um momento, hesitantes diante da questão sobre o que sabiam sobre aquele homem.
— Não é um segredo em Tretogor, de todo o jeito. Apesar do senhor Vellferdudic querer enterrar o assunto. — Aldron deu de ombros, falando apenas com a esposa naquele momento, mas logo olhou para o bruxo. — Mas é uma história simples e sem muita surpresa, na verdade. O irmão dele era bem visto e adorado; tinha uma casa de leilões no centro. Mas a fortuna dele, na verdade, não vinha de lá.
— Ele vendia fisstech — o bruxo se adiantou —, é tudo o que sei.
Aldron assentiu e se aproximou. O braço se apoiou em uma cômoda alta ao lado da cama, enquanto Clara também estava por perto, trocando o travesseiro de Jaskier por um mais limpo. Ela permaneceu quieta, cuidando do bardo enquanto Aldron contava para Geralt que Klaus fazia parte de uma gangue que era bastante conhecida em toda Redania. Klaus usava um nome falso, por isso ninguém sabia que estava envolvido com aquele tipo de gente. Ele não sabia o quanto aquilo afetava o Rei, mas Radovid V mandou pessoalmente os seus espiões ficarem de olho nos passos de todos eles, e quando marcaram um encontro com compradores, foram emboscados pela guarda real. Foi um escândalo, pois o rosto de Klaus era bem conhecido em Tretogor. O senhor Vellferdudic pediu desculpas públicas pelo irmão, mas não o repreendeu e tentou evitar que fosse para a forca. Não deu certo, o homem morreu uma semana depois.
— Foi uma época terrível para os Vellferdudic — Clara se juntou a conversa. — Alguns rumores que o irmão de Brastol se deitava com um dos empregados também vieram, um pouco antes de ele ser enforcado.
Klaus não era casado, nem mesmo tinha alguém publicamente que fosse uma pretendente, mas o fato do tal empregado ser um homem teve um peso ainda maior, e mesmo que Clara e Aldron não tivessem tocado no assunto diretamente, Geralt notou que suas opiniões eram as mesmas que ele pensara brevemente. O crime o levou para a forca, mas os Vellferdudic tinham influencia, poderiam ter chegado em um acordo sem que Radovid soubesse. Ele se envolver com um homem foi a última gota, pensou o bruxo. É possível que não quiseram um acordo porque não aceitavam a relação. Brastol já sabia disso? Ele também o repudiou? Geralt sentiu um leve aperto no peito, quando voltou a encarar a face adormecida de Jaskier.
Ele não queria comparar nada ou pensar em um cenário pior para ambos; o estado do poeta já era demais para suportar, então, afastou os questionamentos, e aceitou de bom grado a mudança de assunto oferecida pelo casal. Ele finalmente se apresentou de maneira apropriada. Não houve surpresa quando disse que era um bruxo; o visual já era bastante óbvio, mas os olhos de Clara e Aldron se arregalaram levemente quando souberam que a vida que haviam salvado era do famoso bardo Jaskier. Eles não souberam quem o havia envenenado ou o motivo e nem mesmo perguntaram. O casal era discreto e comedido, e no fim, ainda deu privacidade para ele em seu próprio quarto. Uma refeição foi oferecida, antes que fosse deixado sozinho com o poeta, mas o bruxo recusou. Não havia fome ou qualquer outra vontade além de ficar ali, esperando que Jaskier abrisse os olhos em breve.
Geralt apreciou o silêncio no cômodo. Ele arrumou os cabelos bagunçados de Jaskier, ainda segurando firmemente sua mão. O coração ainda pesava no peito, e por algumas horas, ele permaneceu na mesma posição, atento a qualquer mudança que pudesse haver na expressão adormecida.
Clara entrou no quarto algumas vezes, para checar se tudo ia bem. O bruxo se acostumou com a batida leve na porta, o cumprimento silencioso, e ter que dividir os cuidados com Jaskier com aquela pessoa, por isso, nem mesmo perguntou quem era, quando uma hora antes do nascer do sol ouviu o toque na madeira, ainda que soasse um pouco diferente da delicadeza de Clara. Ele virou o rosto, esperando ver o sorriso fraco e tranquilizador, mas o que recebeu foi um par de olhos sérios e um silêncio incômodo, não confortável.
Geralt rapidamente se levantou da cama. Ele não pensou muito e agiu apenas seguindo a raiva que voltara a queimar em seu interior. A roupa cara foi agarrada pelos punhos do bruxo, e o corpo menor que o seu foi jogado com violência e pressionado contra a parede ao lado.
— Senhor, por favor, me solte — a voz de Straus finalmente soou pelo quarto; era baixa, vacilante. Em seus olhos, Geralt viu medo, que aos poucos, vendo que o bruxo não pretendia soltá-lo, se misturou com outro sentimento que o fez voltar a seriedade. — Está bem. Se deseja me matar, vá em frente. — O empregado dos Vellferdudic tremia enquanto segurava os braços que o forçava contra a parede. — A vida não me serve mais, de toda maneira.
O olhar se abaixou quando o medo se foi completamente, e uma estranha sensação incomodou Geralt, que se alertou com os sentimentos daquele homem. Ele rapidamente o soltou e também desviou o olhar. O bruxo deu as costas, decidido a não se envolver mais com nenhuma daquelas pessoas, e voltou a sentar na cama e a segurar a mão de Jaskier.
— Saia.
A voz grave e ameaçadora fez o corpo de Straus estremecer com intensidade, mas ele não se moveu dali.
— Eu apenas vim trazer os seus pertences — ele explicou em tom baixo — e o alaúde do bardo de volta. Ouvi que é importante para ele.
Tomado por uma súbita coragem, Straus deu alguns passos na direção das costas do bruxo, mas os pés pararam antes de chegar até a cama.
— Não se aproxime — ordenou Geralt. Ele não gostava de como sua paciência parecia estar sendo testada, mas também não se virou para ser mais claro com o empregado. A mão continuou segurando a de Jaskier com cuidado, e olhar estava fixo em seu belo rosto.
Ele ouviu um fraco suspiro, e sentiu a presença se afastar devagar.
— Eu falei com a dona da casa. Ela disse que ele se recuperará com o tempo. Isso é bom.
O bruxo bufou com impaciência, e pela primeira vez, desgostou da herbalista. Ele não a culpava, sabia que os Vellferdudic tinham influência e não podia fazer muito quando alguém os abordava usando aquele nome, ainda que este não lhe pertencesse, mas a raiva Geralt não pôde cessar.
— É mesmo? — Ele perguntou com ironia. — Mesmo que ele tenha causado a morte do homem que você amava? — Sua voz saía com certeza, quando o que falava era apenas uma teoria, mas, ainda assim, ele virou a cabeça por um breve momento, para ver o rosto surpreso do empregado, e sorriu de uma forma nem um pouco alegre. — Não me tome por um tolo, Straus.
Geralt se mostrou sério em seguida e desviou o olhar novamente. Ele continuou firme por fora, mas, por dentro, não sentia verdade no que havia dito. Eu sou sim um tolo, o bruxo juntou as sobrancelhas quando o pensamento o incomodou. Desde o início, senti que havia algo errado. O jeito dos empregados eram sinais claros de que eu estava certo; você, Straus, era o maior sinal, mas, ainda assim, fui um idiota teimoso. Tudo por um contrato, por ouro.
— Sim, é bom — Straus interrompeu os pensamentos de Geralt, que o sentiu se mover pelo quarto novamente. — Eu odiei o bardo por muito tempo. Mesmo agora, mal consigo olhá-lo — ele respirou fundo, e a voz se aproximou outra vez. — Eu amava Klaus, como está ciente. Ele não merecia aquilo, não quando se envolveu com aquelas pessoas apenas porque foi um pedido do irmão — Straus se interrompeu por um momento, e acabou rindo de forma ácida. — Ele conseguiu sair com a imagem limpa, depois de tudo. Mas este era um desejo de Klaus...
— Eu não quero ouvir a sua história — Geralt o interrompeu. Ele queria gritar e expulsá-lo dali a força, mas a situação de Jaskier o fez recuar com os desejos raivosos.
— Está bem. Eu só pensei que lhe traria conforto saber o que realmente aconteceu.
Straus parecia compreensivo, e isso o irritou ainda mais. A voz estava mais próxima, o que fez os músculos se enrijecerem, apreensivo com o que aquela aproximação resultaria. Ele se imaginou reagindo a qualquer ameaça ou até mesmo palavras que ofendessem Jaskier, mas por momento algum esperou o que sairia pelos lábios do empregado a seguir.
— Eu sei que o ama, pude ver em seus olhos durante o jantar — a voz de Straus agora era suave e bastante respeitosa.
Geralt, com o coração acelerado e o corpo subitamente aquecido, levantou o olhar rapidamente. Onde há algumas horas Aldron estava encostado e contando a história de Klaus Vellferdudic, estava Straus, com o olhar perdido em algum canto do quarto, como se houvesse uma quarta pessoa ali.
— Me lembrou Klaus — disse em tom baixo —, ele me olhava daquela forma também — por um momento, Straus sorriu levemente. Não havia o medo ou rancor em seus olhos, mas estes sentimentos aos poucos retornaram quando voltou a olhar para Geralt. — Ele fez coisas estúpidas, o seu bardo também, ainda que de forma indireta — o suspiro foi trêmulo, e o olhar foi para as mãos que estavam juntas sobre o colo do bruxo. — Eu não o conheço, Geralt, mas não desejo o vazio que sinto sem ele para ninguém. Sei que o bardo só cumpria ordens, mas ainda o culpo. Mesmo assim, não pude ir em frente com o plano de Brastol. O veneno foi dado a ele através do vinho apenas no primeiro dia; no segundo, eu apenas fingi, por isso ele será capaz de se recuperar normalmente. Não haverá sequelas, assim espero.
O bruxo tentou rir com deboche, mas tudo o que conseguiu foi que sua voz soasse estranhamente afetada pelo o que ouvira.
— Eu deveria agradecê-lo? Tocar a sua mão e dizer que sinto muito por seu amante?
A raiva ainda estava ali, mas, mesmo assim, não conseguia mais agir com a rispidez que queria. Nos olhos escuros de Straus ele viu dor, magoa e arrependimento, e descobriu que o que sentia naquele momento era parecido, com a diferença de que aquele homem à sua frente não tinha mais saída daqueles sentimentos; a dor era companheira de Straus, porque Klaus não mais existia em sua vida.
— Não há necessidade — mesmo com o deboche do bruxo, Straus não se afetou. Até mesmo fingiu não entendê-lo enquanto se desencostava da cômoda. — Eu só quero que saiba que ninguém irá atrás de Jaskier. Eu garantirei isso a partir de hoje, é uma promessa — ele dizia com segurança, mas, ainda assim, não tinha coragem para olhar para o poeta ao lado. O olhar permaneceu em Geralt, que não soube reagir diante da súbita e inesperada promessa. Ainda assim, Straus sorriu novamente. — Não precisa acreditar em mim, pelo o contrário. Cuide dele como se fosse a única coisa que importasse, não feche o seu coração para ele, como eu fiz com Klaus. Se seguir pelo mesmo caminho que eu segui, você se arrependerá pelo resto de sua vida.
Geralt novamente não o respondeu. Ele encarou Jaskier novamente, e não pôde ver a tristeza no olhar de Straus quando se afastou. Mais uma vez ele sentiu medo, mas não procurou motivos como antes. Geralt apenas se deixou sentir o peso em seu peito.
A porta do quarto foi aberta, e o barulho despertou o bruxo. Straus estava de saída finalmente, mas indo contra o que queria, o impediu de ir de uma vez.
— Não é como se fosse — Geralt disse em tom claro e decidido. O olhar continuou em Jaskier, e a mão fria foi apertada levemente. — Ele é a única coisa que importa para mim. Ele e minha filha.
Ele podia ouvir o próprio coração batendo com força. Havia uma nova ansiedade em seu peito, que vinha junto do desejo de que o poeta acordasse o mais rápido possível, por isso ele não ousou mais desviar o olhar, e isso o impediu de ver Straus sorrir pela última vez naquele quarto.
— Então, você sabe o que fazer.
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