De Kaer Morhen à Kaer Trolde
8 Novigrad E Oxenfurt

Foi preciso usar o dobro do tempo que normalmente levariam para chegar em Novigrad. Jaskier se recuperava aos poucos e não conseguia seguir com a viagem por tantas horas quanto antes. Seu estômago estava sensível, e a cabeça doía com facilidade. Clara e Aldron haviam aconselhado a mantê-lo em Tretogor por algum tempo, mas Geralt não confiava na promessa de Straus, muito menos na palavra de Brastol, e Jaskier também concordou em partir rapidamente. O tempo já havia sido estendido demais, e o seu compromisso em Oxenfurt não podia mais ser adiado.
Eles partiram no dia seguinte em que o poeta acordou. A caminhada era lenta; Plotka acelerava o passo, porém, dois homens com a estrutura de Geralt e Jaskier eram demais para ela aguentar por muito tempo. As paradas foram mais frequentes, assim como os cochilos que o poeta dava durante o dia. Por pelo menos quatro vezes ao dia, Geralt se sentava sobre o chão, tocava o tronco de uma árvore com as costas, e cedia o ombro para a cabeça do bardo. Os remédios eram tomados religiosamente, e aos poucos podia vê-lo melhorar.
Nos primeiros dias, Jaskier estava tão sonolento e cansado, que mal conseguia manter a pose por muito tempo. Geralt o segurava com firmeza pela cintura, tanto sobre Plotka quanto quando descasavam sob uma árvore. O abraço era recebido com o conforto e alívio que o poeta nem mesmo se esforçava para esconder, pelo o contrário, ele o retribuía e o apertava um pouco mais forte enquanto a cabeça deslizava do ombro para o peitoral do bruxo.
Geralt não tinha como reclamar do atrevimento, não quando ele mesmo se atrevia a usar a mão livre para acariciar os cabelos de Jaskier, quando já estava adormecido. Era difícil não agir daquela forma. Os dias passavam, e ele sentia cada vez mais a necessidade de estar mais próximo. Poderia até mesmo observá-lo tagarelar o dia todo, e ainda assim, sentia que precisava de mais. Mas, ele nunca falou sobre isso, nem mesmo Jaskier se abriu e contou que se sentia da mesma forma. Ainda que fosse claro nos olhares longos demais e a vergonha que antes não existia entre eles, não falar sobre aquilo fez a relação deles permanecer onde sempre esteve.
Com o passar dos dias, Jaskier precisou de menos cochilos, as caminhadas foram um pouco mais longas, e estando desperto e mais falante, os abraços aconchegantes não mais aconteceram com tanta frequência. Era estranho e constrangedor para dois homens que já haviam vivido tanto estarem em uma situação como aquela, então, eles resolveram deixar que tudo se resolvesse naturalmente, sem pensar que entre ambos tudo nunca fora simples e normal.
Jaskier ainda queria que Geralt o olhasse com mais seriedade, e o bruxo... só desejava não precisar falar para que o seu coração fosse visto pelo poeta. Eram dois tolos que se amavam há tanto tempo, mas não sabiam o que fazer com tal sentimento.
Eles entraram pelo portão de Tretogor ao meio dia. A ponte foi atravessada a pé, e Plotka foi deixada no primeiro estábulo que encontraram em Novigrad. Duas horas antes, Jaskier poderia ter tomado outro caminho para Oxenfurt, mas ele preferiu seguir o bruxo, alegando que poderiam dividir uma última refeição antes de se separarem. Uma refeição decente para variar, disse o bardo, e Geralt nem mesmo pensou em recusar.
Eles andaram até a praça principal, e Jaskier rapidamente se sentiu em casa. Havia um bardo em um canto, cantando uma animada balada; um pouco distante, um mercador oferecia seus produtos com a voz um pouco alta demais. Os estabelecimentos estavam cheios, assim como a praça, que no centro, tinha um sacerdote em cima de um pequeno palanque. As mangas brancas se agitavam com seus movimentos, mas a faixa vermelha no meio do peito era o que chamava a atenção. Em sua volta as pessoas se juntavam para ouvi-lo, e no meio de tantas vozes tentando aparecer uma mais que as outras, Jaskier pôde ouvir apenas trechos do que o sacerdote dizia, mas foi o suficiente para os seus lábios se curvarem com divertimento.
— Irmãos! Irmãs! Isso, se aproximem. O fatídico dia está para chegar... — ele era tão dramático. O bardo gostava disso. — Como Lebioda vos disse... — o nome do profeta trouxe mais atenção do público, mas Geralt e Jaskier continuaram a andar. — Eis aqui a prova do dia do juízo final — ele agitou um pergaminho aberto, e as pessoas começaram a murmurar entre si. — A igreja do Fogo Eterno acolherá seus fieis... — o sacerdote inflou o peito com orgulho. — Com uma doação, vocês poderão...
E Jaskier não quis mais ouvi-lo. Os lábios continuaram divertidos enquanto soltava uma baixa risada, e desviou o olhar do sacerdote que ficava para trás, para o sério bruxo ao seu lado.
— O dia do juízo final está chegando, Geralt, ouviu isso? — A nova risada foi curta. — Eu deveria aproveitar os meus últimos dias. Quer me acompanhar? — Sem esperar uma resposta, ele pegou uma moeda em seu bolso e a moveu entre os dedos. — Em tempos assim, é melhor uma coroa no balcão de uma taverna do que nos bolsos de aproveitadores.
No segundo seguinte, Jaskier sentiu seu pulso ser agarrado, e a moeda escapou por seus dedos, mas o bruxo fora rápido e a pegou antes que fosse ao chão. Logo as sobrancelhas claras se juntaram e encararam quem ainda segurava o bardo.
— O que você disse? — O homem alto e coberto por uma bela armadura perguntou. Sua expressão era ofendida, um pouco parecida com a de Jaskier.
— Ei, não o toque! — Exclamou o bruxo, pronto para ficar entre eles, porém, o poeta se livrou do aperto em seu pulso sozinho.
— Fique fora disso, aberração! Filho do demônio! — O homem apontou o dedo coberto pela luva de couro na direção do bruxo e logo olhou para o poeta novamente. — E você, como ousa debochar das palavras do Fogo Eterno?
Ele era tão orgulhoso e elegante, mesmo estando furioso com o que ouvira. O bardo e o bruxo olharam um para o outro depois de reparar em sua bela aparência, e o símbolo em seu peito explicou muito do que acontecia. Era um soldado da Ordem da Rosa Flamejante. Era claro que se ofenderia com as palavras de um infiel; ele existia para ajudar quem seguia o Fogo Eterno, e exterminar quem escolhia o caminho do ceticismo.
Ambos sabiam o que era provocar a igreja do Fogo Eterno em Novigrad, e Geralt xingou Jaskier internamente enquanto tentava procurar alguma palavra que esfriasse o soldado que bloqueava sua passagem. Mas ele não precisou abrir a boca, como já era o esperado, pois o poeta fora quem tomou as rédeas da situação. Quando se tratava de diálogo, Jaskier sempre ia na frente.
— Eu peço desculpas, nobre senhor — ele curou o pescoço levemente. — Não era um deboche, eu só queria convencer o meu amigo a relaxar um pouco. Nunca foi a minha intenção ofender o Fogo Eterno, que fique claro — Jaskier tocou o próprio peito. Estava bastante seguro enquanto falava, nem um pouco afetado pela expressão enojada em sua direção. — Eu mesmo fui um doador por muito tempo, quando residia em Novigrad. O quão tolo seria, debochando de mim mesmo desta forma?
Parecia que o soldado da Ordem da Rosa Flamejante queria rir, mas ele não deixou sequer que os lábios se curvassem enquanto o rosto se retorcia em uma careta e o olhava de baixo acima, só então notando as vestimentas e o instrumento nas costas de Jaskier.
— Seu papo fácil não me convence, bardo — ele cuspiu as palavras de forma ríspida, e finalmente reparou que o amigo do poeta carregava duas espadas e tinha um pingente em forma de lobo sobre o peito. As sobrancelhas se juntaram e os olhos se estreitaram. — O que fazem aqui? São negócios?
Ele desta vez fixou a atenção somente no bruxo, que soltou um suspiro impaciente. Ele queria passar despercebido enquanto estava ali. O contrato já havia sido pego no quadro logo na entrada da cidade, e planejava cumpri-lo, procurar a recompensa no endereço que estava escrito no papel e ir embora, se tivesse dinheiro o suficiente para comprar um lugar em um navio. Ser abordado por uma autoridade local sempre era sinal de problemas, e estava prestes a oferecer um pagamento de “impostos” para aquele homem, porém, Jaskier além de tomar sua fala novamente, ficou em na frente, como se assim pudesse protegê-lo do olhar desconfiado. Mas a cena acabou sendo um pouco cômica, e quase fez o bruxo rir quando o corpo de Jaskier não fora o suficiente para tampar o seu rosto. Ele ainda podia ver o soldado claramente, porque o poeta era um pouco baixo em comparação a ele, mas com sorte o homem desviou a atenção para Jaskier, e não viu os lábios do bruxo se curvando levemente.
— Eu, caro senhor, sou convidado da universidade de Oxenfurt. Me chamo Jaskier e serei um palestrante nos próximos dias — o poeta apresentou a verdade desta vez, e fez um rápido gesto para a pessoa atrás de si. — Estamos de passagem. Ele é meu amigo, e está aqui para me acompanhar. Não me dou bem com espadas, e a estrada é perigosa...
Geralt esperou que o soldado mostrasse a desconfiança de sempre e os pressionasse enquanto os ofendia um pouco mais, porém, só foi oferecida a última parte, e apenas para o poeta. Quando ouviu o nome do bardo e onde estava indo, os lábios do soldado se retorceram levemente, e só conseguiu focar nesta parte.
— Malditos estudiosos — ele cuspiu no chão, próximo ao sapado de Jaskier. — Pecadores sem fé.
Não querendo perder tempo com tipos como Jaskier, o soldado deu as costas rapidamente. Ele não queria saber de estudiosos, que na maioria das vezes eram uma dor de cabeça para a fé. Se o pressionasse ainda mais, poderia chamar atenção, e Jaskier era famoso e bom de lábia. Não podia correr o risco de deixá-lo abrir a boca na frente de tantas pessoas que já estavam sendo convencidas a fazer doações para a igreja. Ele queria voltar e levá-lo à força, mas sua missão não era aquela naquele momento, então, apenas os deixou, jurando para si mesmo que, se os encontrassem novamente, seria um sinal divino para que não se segurasse.
— Sem fé? — Jaskier repetiu suas palavras com indignação, mas logo curvou os lábios levemente e desviou o olhar das costas do soldado. Seu tom diminuiu e olhou para Geralt enquanto cobria os lábios com a mão. — Eu realmente fiz doações no passado, mas foi para Melitele. Eu a tenho em meu coração, ora essa...
O bruxo o olhou com seriedade enquanto não sabia dizer se aquilo era mais um deboche ou realmente verdade. Quando se tratava de Melitele, Geralt nunca sabia se Jaskier realmente era um crente ou apenas falava da boca para fora. Mas uma coisa ele tinha certeza naquele momento; não importava se algum deles tinha fé em alguma coisa ou não, aquele não era lugar para demonstrar qualquer coisa.
— Jaskier — ele o chamou enquanto o ouvia continuar a falar sobre a deusa. O olhar animado se encontrou com o seu, e o bruxo soltou outro suspiro. — Cale a boca.
Como o esperado, Jaskier não o obedeceu. Ele riu animado e tentou se pendurar nos ombros do bruxo, mas a diferença de altura tornava a posição desconfortável, então o poeta apenas andou ao lado com uma das mãos apoiadas nele. A conversa foi levada apenas pelo bardo enquanto procuravam algum lugar bom para o almoço. O bruxo escolheu se calar desta vez, e aproveitou o momento para ouvi-lo tagarelar e fingir que não se importava com o fato de que após aquele dia, ficaria sem sua companhia por tempo indeterminado.
Era sempre daquela forma; eles passavam um longo tempo juntos, para depois ter o dobro de meses apenas ouvindo sobre os feitos um do outro. Não era o ideal, mas já haviam se acostumado com aquele estilo de vida, não deveria ser nada demais novamente, Geralt tentava se convencer enquanto sorria levemente de alguma bobagem que Jaskier contava.
Eles encontraram um lugar simples, mas que servia a melhor carne de carneiro de Novigrad. Jaskier não poupou elogios enquanto comia, e Geralt... mal soube dizer como era o gosto do pobre animal. A distração com a saudade antecipada o fazia perder a atenção até mesmo nos sabores e cheiros que eram bastante agradáveis naquele lugar. Ele observou o poeta sorrir enquanto contava sobre a balada que havia escrito, inspirado pela experiência de quase morte. Ele não parecia se importar com o que havia acontecido, até mesmo ficara orgulhoso por ter sobrevivido, no lugar de se enraivecer com os Vellferdudic. Aquilo era mesmo algo a se esperar de Jaskier, por isso o bruxo não o questionou, nem mesmo o forçou a contar sobre sua missão sob ordens do serviço secreto da Redânia. O assunto incomodava Geralt muito mais do que perturbava o poeta.
É claro que não incomoda, o bruxo pensou enquanto bebia um gole de cerveja gelada apenas por costume. Não foi você quem quase enlouqueceu com tudo isso. Eu quase te perdi por causa de um estúpido veneno.
Ele abaixou o olhar por um momento, inevitavelmente voltando alguns dias em sua memória. Após Straus deixar o quarto, Geralt quase desabou. Ele se sentia sufocado, desesperado com o sentimento de raiva e ao mesmo tempo, compreensão pelos sentimentos do empregado de Brastol. A mão que ele apertava continuava fria, e parecia que os olhos de Jaskier nunca iriam se abrir, que Clara estava mentindo para acalmá-lo. O sentimento quase o fez perder sua pose sempre tão segura e arrogante, mas o leve aperto dos dedos frios fez seu coração se agitar de uma forma diferente.
O peito aqueceu súbito e intensamente quando viu os olhos claros finalmente serem descobertos pelas pálpebras. Ele deveria chamar por Aldron ou Clara, como havia dito que faria quando Jaskier acordasse, porém, nem mesmo se lembrou de que aquela casa não lhe pertencia e que estavam sob os cuidados de outras pessoas.
Jaskier se mostrou confuso quando a consciência foi recuperada completamente, demonstrou dor quando se forçou a sentar na cama, mas não houve medo por estar em um lugar estranho, não quando Geralt ainda estava ali, apertando sua mão enquanto o olhava de uma forma terna demais. Por um momento, o poeta achou que estivesse tendo um sonho, ele até mesmo perguntou isso para o bruxo de forma fraca e cansada, mas não recebeu nenhuma resposta.
Um pouco desajeitado, Geralt o envolveu em seus fortes braços. Ele não o soltou por um longo tempo, e finalmente soltou um suspiro aliviado, quando Jaskier, mesmo ainda confuso e dolorido, retribuiu o abraço com o carinho que sempre o tratava.
Geralt se lembrava da sensação daquele abraço e de todos que vieram no caminho até Novigrad. Ele já sentia falta de Jaskier, mesmo ainda o tendo ao seu lado quando saíram do restaurante e parte do seu caminho na cidade. Ele não queria se despedir. Aquilo era novo e bastante incômodo. Seu peito doía, e nem mesmo o sorriso e os olhos brilhantes em sua direção suavizava aquela sensação, que piorou quando pararam em frente da pousada Bico de Gralha.
— Eu ficarei aqui — ele desviou o olhar para a placa pendurada em cima da porta de madeira escura.
— Então... nos despedimos aqui — Jaskier hesitou, mas acabou sorrindo levemente. — Se cuide, Geralt, não me faça me preocupar com rumores por aí.
O poeta tentou rir, mas a voz ficou travada na garganta.
— Você também — Geralt enfim teve coragem de olhá-lo novamente, e a sensação pesada se tornou ainda mais forte. — Tente não provocar ninguém poderoso por pelo menos um dia.
Eles ficaram em silêncio de repente, nenhum dos dois se moveu por um tempo, até que Jaskier retirou o pequeno chapéu da cabeça e fez menção de se curvar levemente. Mas ele não foi em frente com a ideia. Jaskier se sentiu tolo por temer agir como sempre; ele deveria abraçar o amigo que não veria por um longo tempo a partir dali, não tratá-lo com aquele estranho e distante respeito que usava com qualquer outro, mas jamais com Geralt. Ele balançou a cabeça levemente, e ainda com o chapéu em mãos, se aproximou e fez o que sentia que deveria. O abraço foi apertado, mas rápido, se comparassem aos que haviam acontecido nos últimos tempos.
— Eu estou indo, então — o poeta riu sem jeito, sem motivo externo algum para isso. Ele deu leves tapas nas costas de Geralt e enfim deu um passo para trás, mas o bruxo tornou o movimento inútil quando moveu os pés para a frente.
— Onde você passará esta noite? — Ele perguntou, se sentindo um pouco bobo por querer adiar a despedida que era inevitável.
— Ficarei com meu antigo professor — Jaskier explicou devagar, com o mesmo sentimento que o bruxo, mas também não querendo ser rápido na simples resposta. — Ele é bom um amigo, foi ele quem me convidou para fazer a palestra.
— Certo — o bruxo tentou parecer não muito interessado, mas o olhar fixo no seu o fez vacilar, e não resistiu aos próprios sentimentos. — Eu acho que seria melhor se eu o acompanhasse até Oxenfurt — ele disse rapidamente desta vez. — Aquele soldado não pareceu muito convencido com o que você disse, pode aprontar alguma coisa pelas nossas costas.
Apesar da oferta ser uma tola desculpa para passar mais algumas horas ao lado do bardo, ele não mentiu. Ainda havia um certo receio em como foram deixados de lado tão facilmente e mesmo sabendo que poderia ser nada demais, não queria deixar Jaskier sair de Novigrad completamente sozinho. Uma vez dentro dos portões de Oxenfurt, ele estaria seguro, e o bruxo gostava da ideia de mantê-lo assim. Ele poderia deixá-lo com mais facilidade desta forma.
Ele esperou ser questionado ao menos um pouco, mas sem nem mesmo pensar uma vez, Jaskier balançou a cabeça rapidamente.
— Eu acho que é uma boa ideia — o bardo o pegou pelo braço, e com urgência o afastou da entrada da pousada. — Ainda não tenho todas as minhas forças, sabe?
Os lábios de Geralt se curvaram levemente, enquanto deixava o bardo guiá-lo daquela forma. O peso em seu peito ainda estava ali, mas aos poucos suavizou com o olhar animado ao seu lado.
— Se tivesse totalmente recuperado, teria o suficiente para enfrentá-lo? — Ele o provocou com a pergunta, e sentiu o coração ainda mais contente com a baixa risada que ouviu.
— Bem, Lambert me ensinou alguns movimentos — Jaskier tentou ser convincente enquanto contava, mas a verdade era que levara mais sermões do que lições, e não havia aprendido tanto assim, por conta de seu próprio desinteresse.
Foi o bruxo quem riu em tom baixo desta vez, sumindo completamente com o clima hesitante que antes os rondava.
Oxenfurt ficava a Noroeste de Novigrad, apenas algumas horas sobre Plotka e o cavalo alugado de Jaskier, e já se viam em frente ao portão da universidade. Rápido demais, os dois pensaram ao mesmo tempo, mas não demonstraram a decepção quando a conversa por todo o caminho precisou ser interrompida.
O portão foi aberto quando Jaskier se identificou, e Geralt já se preparava para a despedida definitiva desta vez, porém, o poeta não demonstrou que pretendia deixá-lo naquele momento, e só olhou para trás quando já havia entrado na universidade de Oxenfurt. Ele olhou para a expressão tola do bruxo e sorriu quando fez um sinal para que o seguisse. Geralt reclamou, quando o ouviu brincar com a confusão em sua face, mas logo deixou a carranca de lado, quando notou que de repente cada vez mais pessoas se aglomeravam, à medida em que se aproximavam do centro da grande universidade.
Ainda estavam do lado de fora quando viu as longas mesas cobertas por frutas, queijo temperado e generosas porções de carnes. Jaskier então explicou o motivo de tê-lo anunciado como acompanhante no portão da universidade. Aquela era uma reunião entre professores, alunos e ex-alunos. O poeta não pretendia participar naquele ano, porém, seu atraso adiou a palestra e a chegada coincidentemente fora no dia da confraternização.
Havia muitos estudiosos ali; eles discutiam, trocavam teorias e risadas que o bruxo nem mesmo tentava entender. Não fazia nem cinco minutos que haviam chegado, e Geralt já se sentia deslocado e desconfortável e Jaskier rapidamente notou.
— Não se preocupe — ele se aproximou, tocando as costas tensas do bruxo. — Vamos apenas comer e beber um pouco. Está cheio, ninguém irá nos reconhecer e incomodar.
— Julian Alfred Pankratz! — Eles ouviram o chamado empolgado, no exato momento em que Jaskier terminou de falar.
O poeta sorriu com nervosismo para Geralt, mas não teve opção além de se virar e cumprimentar um antigo colega da universidade. Ele sabia que o bruxo não gostava de multidões, muito menos festas com pessoas que falavam uma língua da qual não estava interessado, mas não ficou surpreso quando o viu cumprimentar seu colega com educação, nem mesmo enquanto se esforçava para ao menos fingir que o ouvia.
Jaskier quis rir de Geralt, mas a graça se foi quando o assunto começou a interessá-lo, pois o colega levemente embriagado se tornou saudoso da época em que eram estudantes, e passara a contar histórias bastante vergonhosas sobre a juventude do poeta. Geralt, é claro, sabia muito sobre o passado de Jaskier, mas alguns detalhes foram deixados de lado por todos aqueles anos, e o colega finalmente estava preenchendo as lacunas, para o divertimento do bruxo.
Ele estava pronto para arrastar Geralt dali, porém, o assunto foi mudado quando mais uma figura de tempos atrás se juntou a eles. Desta vez, o bruxo não se sentiu desconfortável quando a cumprimentou, apenas surpreso e deslumbrado pela beleza que não mudara nem um pouco.
Ele aceitou o delicado abraço de Shani, assim como Jaskier. Era incrível como depois de todos aqueles anos, ela continuava a mesma. Os cabelos ruivos continuavam curtos e muito bem cuidados, a pele ainda era lisa e coberta de suaves sardas, os olhos verdes brilhantes e cheios de determinação... era como se não tivesse envelhecido nem mesmo um ano.
Jaskier e Shani se conheceram na universidade, quando ambos tinham mais sonhos do que números em suas idades. Ela havia se tornado uma médica notável e respeitada, e isso fazia Jaskier se sentir orgulhoso enquanto a ouvia contar o que vinha fazendo nos últimos tempos. Ele sentia amor e inspiração quando olhava para aquela mulher, mas perceber que o bruxo ao seu lado a olhava ainda mais admirado o esfriou aos poucos.
Era um sentimento estúpido, ele sabia. Não era novidade sentir a necessidade de uma atenção exclusiva de Geralt, e quando se tratava de interesses românticos de seu amigo, ele sabia que não tinha espaço, por isso raramente demonstrava o sentimento incômodo que o apertava naqueles momentos, e foi exatamente o que fez ali. O sorriso continuou intacto enquanto dava atenção para o primeiro colega que o havia cumprimentado. Ele não conseguia mais ouvir com atenção o que o outro dizia, e o olhar vez ou outra desviava para o lado, onde Shani ria sobre algo que o bruxo dissera. Uma das mãos dela soltou a taça que segurava e tocou o braço de Geralt, e então Jaskier viu que não era mais o mesmo sentimento de sempre. Aquela não era uma mulher qualquer, era alguém que já tivera laços com o bruxo, que era não apenas cobiçada, mas também apreciada. Ele se sentiu estúpido por conta do próprio sentimento, e resolveu que seria melhor fechar os olhos do que simplesmente ficar ali e aguentar o agito nervoso de seu coração.
Jaskier pediu licença e se afastou com a desculpa de que uma festa para ele não começava enquanto não tivesse uma taça de vinho em mãos. Os amigos riram, e o bruxo simplesmente o observou ir até a mesa mais distante sem nem mesmo olhá-lo. Apesar de todo o esforço de Jaskier, Geralt havia notado desde o início a mudança em seu humor. Aquele não era o sorriso animado de sempre, era falso e desanimado. Ele ficara feliz por rever Shani e saber que ela estava bem. Quando se viram pela última vez, a separação havia sido apressada e sem planejamentos, era bom vê-la vivendo ainda melhor do que na época passada. Mas qualquer alegria sempre sumia quando Jaskier estava daquela forma. Era preciso de muito para roubar a animação do poeta, e o bruxo se preocupou, a ponto de manter a atenção em suas costas, longe dali, por tempo demais.
Em pouco tempo, Jaskier já estava novamente rodeado de pessoas, mas o sorriso falso continuava o mesmo, balançando o ansioso bruxo. Ele não esperava estar cercado de tantas pessoas, muito menos e estar em uma festa no final da tarde. Havia um contrato para cumprir durante a noite, mas ele foi até ali para ficar um pouco mais com Jaskier, e não era o que acontecia naquele momento. Sem notar, seu fraco sorriso para Shani se tornou tão falso quanto o do poeta, e seus sentimentos só mudaram quando a sentiu tocar em seu braço novamente. Ela precisava dar atenção para outros amigos, e o aviso veio junto com uma promessa de que se veriam mais tarde e um olhar demorado e bastante claro.
Geralt não teve tempo de se despedir definitivamente. Antes que pudesse dizer algo, ela deu um leve beijo em sua bochecha e o olhar do bruxo rapidamente foi para o outro lado, onde Jaskier virava a cabeça rapidamente para a taça que segurava.
Ele não viu para que lado Shani havia ido. Os pés se moveram rapidamente em direção da larga mesa mais distante de onde antes ele estava. Alguns dos colegas do bardo já haviam se afastado quando se aproximou, e precisou cumprimentar apenas dois deles, antes de poder ter total atenção. Mas Jaskier evitou olhá-lo novamente enquanto falava sobre a comida e lhe oferecia uma taça de vinho. Isso incomodou ainda mais o bruxo, que junto da taça estendida em sua direção, segurou a mão de Jaskier de forma discreta. No fundo, ele sabia o que incomodava o poeta, mas era difícil acreditar que o pensamento não era apenas um tolo desejo de seu coração.
— Não é o que está pensando — ele se explicou com urgência, sem nem mesmo o assunto voltar para Shani. Era claro o que os gestos de minutos atrás pareciam, e a intenção da mulher também não podia ser mais óbvia.
— Eu não penso em nada — Jaskier forçou um fraco sorriso novamente, e mesmo que falasse com o bruxo naquele momento, os olhos estavam atentos em algumas pessoas que o cumprimentavam de longe, e ele retribuía com entusiasmo exagerado. — E mesmo se pensasse, por que teria que se explicar para mim?
— Eu não sei — o bruxo deu de ombros e soltou sua mão, mas ele sabia exatamente porque, só não tinha coragem para dizer.
Eles ficaram em silêncio por um tempo longo demais. O vinho nas taças já estava quase acabando, a o clima entre ambos ficava cada vez mais estranho e sufocante. Geralt queria dizer algo, qualquer coisa, mas novamente não conseguiu, e passou a se perguntar se havia sido mesmo uma boa ideia tê-lo seguido até ali. Ele imaginou se aquela aura continuaria a pesar sobre eles, mas a pessoa à sua frente era Jaskier, e quando não mais aguentou os próprios pensamentos, o poeta enfim abriu a boca.
— Então — ele o olhou por um breve momento —, não é nada, hm?
— Não.
Aos poucos, o bruxo se sentiu um pouco mais leve, e até mesmo teve vontade de sorrir, mas não o fez. Ele apenas manteve o olhar atento em como Jaskier parecia ansioso.
— Não quer mesmo ficar com ela? — O bardo insistiu em tom baixo. Todas aquelas pessoas em volta subitamente o deixou atipicamente tímido. — Aquilo foi claramente um convite.
— Já disse que não — o bruxo disse rapidamente, um pouco ríspido desta vez, mas isso não abalou Jaskier, que enfim fixou o olhar em seu rosto. As sobrancelhas se juntaram por um momento, e nos olhos claros, Geralt viu com bastante clareza o sentimento que até ali ainda teimava em duvidar que o poeta poderia ter.
— Por quê? — Perguntou Jaskier. Ele havia se cansado de fingir que não sentia nada ou que não via o mesmo nos olhos amarelos que não desviavam dos seus.
A vontade de sorrir veio novamente para Geralt, e ele não se segurou desta vez. Aquilo em sua frente não era um delírio de seus desejos, era real, e ainda que chatear o poeta não fosse algo que o agradasse, havia um tolo sentimento de satisfação ao ter certeza de que os olhos irritados eram carregados por ciúme.
— Eu acho que sabe — apesar dos lábios ainda estarem levemente curvados, ele disse com seriedade. Mas sua pose vacilou por um momento, quando viu o rosto de Jaskier se tornar levemente corado. Aquilo era inesperado, e o coração do bruxo se descontrolou com a expressão que via.
— Geralt... — Jaskier deu um passo para ficar um pouco mais próximo. Ambos se tornaram ainda mais ansiosos; o clima entre eles havia mudado novamente, e não sabiam mais como agir ou o que dizer.
A aproximação de professores e outros colegas do trovador subitamente interrompeu o que silenciosamente acontecia entre eles ali. Fora como pular em um rio gelado depois de rolar o corpo em um chão coberto de brasa. A vergonha de Jaskier foi rapidamente disfarçada, e o bruxo compartilhou do sentimento reprimido. Mas, com o tempo ouvindo mais das conversas que naquele ponto o interesse era nulo, o pavor se sobrepôs no interior de Geralt. Desta vez, era ele quem não conseguia encarar o poeta. A ansiedade de antes veio por um motivo diferente, e subitamente não acreditava que conseguiria se manter ali por mais tempo.
O bruxo se acovardou, e sabia muito bem disso quando enfim encarou os olhos esperançosos de Jaskier, que logo se tornaram tristes. Ele se despediu, sem abraços desta vez. Eles apertaram as mãos e deram leves tapas nas costas um do outro. Era estranho, e estarem rodeados de pessoas que mantinham os olhares curiosos neles não os ajudou a melhorar a sensação de distância.
Geralt notou que Jaskier queria falar algo mais, mas como ele mesmo, voltou atrás e fingiu que tudo estava bem, que minutos atrás nenhum deles estava prestes a ser completamente sinceros um com o outro pela primeira vez em suas vidas. O bruxo hesitou com o olhar sobre si, mesmo já tendo se afastado um pouco, ele virou o rosto e Jaskier ainda o observava. Ele se dividiu entre querer voltar para o lado do poeta, abraçá-lo e beijá-lo na frente de todos, ou fugir dali o mais rápido possível, e acabou cedendo para a última opção, que naquele momento fazia muito mais sentido e parecia ser a escolha certa. Ele desviou o olhar rapidamente, e os passos aceleraram para fora da universidade e logo para longe de Oxenfurt.
O que eu fiz? Ele se perguntou desesperado. Não tinha sido muito, pelo o contrário, suas palavras foram rasas e pobres, mas era o mais claro que já havia sido com Jaskier sobre os seus sentimentos, e o pânico se misturou com a vergonha para mais tarde se transformar em arrependimento. Hora era por ter dito aquilo, outra, por ter fugido antes de ter sido ainda mais claro. Ele queria Jaskier, mas não sabia se estava pronto para isso. Por toda a sua vida havia sido livre, até mesmo quando estava com Yennefer, o sentimento de liberdade ainda o abraçava, mas com o poeta era diferente. Ele sabia que não seria forçado, mas tinha grandes suspeitas sobre si mesmo e a medonha vontade de estar preso a Jaskier.
Os pensamentos não pararam por toda a viagem de volta a Novigrad. Já era noite, e criatura do contrato que havia pego precisava de atenção, mas mesmo enquanto cravava a espada de prata em sua barriga, tudo o que conseguia pensar e ver era Jaskier. O rosto corado e a maneira com que chamou seu nome o fazia estremecer levemente; a lembrança dos abraços aconchegantes e da risada que se misturava com o som do alaúde aquecia o seu peito. Era bom, e o fazia sorrir sozinho ao lado do cadáver de uma segunda criatura que aceitou o contrato no dia seguinte.
Ele precisava de mais dinheiro para embarcar até Skellige, mas também se esforçava pela distração, que em momento algum veio. Se sentia tolo e não conseguia apagar o sorriso em um momento, para no outro se xingar quando as lembranças de suas próprias atitudes vinham. Ele não sabia mais o que fazer. O dinheiro no alforje de Plotka já havia passado do suficiente, mas ainda não tinha ideia se deveria embarcar no navio encontrado antes do almoço ou se o certo era correr de volta para Oxenfurt, a tempo de ouvir a palestra. Porém, mais uma vez, Geralt escolheu o caminho solitário e mais fácil.
Ele se despediu de Plotka em um novo estábulo. A égua havia lhe rendido um bom dinheiro, mas não queria se livrar dela.
— Eles disseram que se eu voltar um pouco depois da virada do ano, poderei te recuperar — conversava com ela enquanto acariciava a crina preta. — Eu darei um jeito de avisar Jaskier, para que ele possa te visitar — a voz se tornou baixa quando o nome do poeta soou por seus lábios. Fazia algumas horas que havia conseguido mantê-lo fora de seus pensamentos, e queria continuar tal forma, então, voltou a focar em Plotka.
O inverno estava chegando, e não poderia levá-la no navio. Era mais sábio e econômico vendê-la e usar outra montaria em Skellige. Mas, apesar de tudo, ele não queria se livrar de sua velha égua, e levou o tempo mais a sério quando o dono daquele estábulo lhe ofereceu aquela oportunidade. Ele teria que pagar um pouco mais para recuperá-la, mas Geralt se sentia tão estupidamente emocional nos últimos tempos que sequer hesitou para concordar.
Sabendo que Plotka estaria em boas mãos, após o meio-dia, ele seguiu para o porto de Novigrad. Seu lugar no navio já havia sido comprado, e tudo o que precisou fora entregar suas coisas para que fossem guardadas.
Ele manteve as espadas nas costas, apesar de já estar dentro no navio. Havia um acesso da terra para o transporte, e muito ainda poderia acontecer mesmo segundos antes de zarparem. O capitão riu de sua cautela, mas não o criticou enquanto conversavam sobre o tempo que os levaria até as Ilhas, sem saber que o bruxo estava mesmo prestes a ser surpreendido, mas não de uma forma que precisasse usar qualquer uma das duas espadas.
Os homens estavam prontos para partir, e o capitão prestes a recolher as esteiras que davam passagem da terra até o navio, porém, uma agitação no meio do povo de Novigrad o fez se calar antes de dar as ordens.
— Espere! — O pedido eufórico fez o capitão levantar as sobrancelhas e o coração do bruxo acelerar.
Geral se aproximou e apoiou as mãos na borda do navio, no mesmo momento podendo ver o rosto animado do dono daquela voz. Ele estava ofegante pela corrida, e o rosto corado pelo esforço o fez relembrar do que tentou tanto afastar de sua mente, mas a presença de Jaskier, já dentro do navio, juntou todos os sentimentos e memórias no interior do bruxo.
— Você não me contou o que tem naquela carta — os lábios do poeta se curvaram enquanto se aproximava —, então vou descobrir por mim mesmo — a risada foi curta quando viu a careta no rosto de Geralt, e sem cerimonias, deixou suas coisas nos braços do primeiro membro da tripulação que passou por perto. — Eu irei até Skellige com você.
O primeiro instinto do bruxo fora recusar a companhia, mas ele não conseguiu quando viu a animação nos olhos claros do poeta. Por aquele tempo em que esteve em Novigrad, ele não conseguiu nem mesmo dormir direito, perturbado pela expressão que vira pela última vez naquele belo rosto, e vê-lo daquela forma novamente, além de confortar seu coração, o fez se apegar novamente ao desejo de ter muito mais.
Ele não recusaria nada desta vez, mas o capitão do navio pensava o contrário.
— Senhor — o capitão se aproximou —, infelizmente não temos mais vagas.
Geralt estava pronto para convencê-lo, até mesmo cogitou procurar outro navio, porém, como sempre, Jaskier tomou a frente. Ele colocou uma pequena bolsa carregada de moedas sobre a palma do capitão, e manteve o fraco sorriso e a pose polida.
— Edber Waldferum manda seus cumprimentos, capitão.
A feição do capitão mudou completamente quando sentiu o peso em sua mão e ouviu o nome sair pelos lábios do poeta. Geralt o observou se atropelar nas palavras, e compreendeu seu jeito. Waldferum era bastante conhecido e respeitado, todos conheciam seu nome, e ele era o amigo e antigo professor de Jaskier.
— Claro, claro! — O capitão exclamou, mas o sorriso que abriu devagar acabou se tornando envergonhado. — Mas temo não poder lhe dar todo o conforto que merece, senhor...
— Jaskier — o poeta estendeu a mão que foi rapidamente apertada —, é um prazer, capitão — ele riu de forma travessa quando desviou o olhar para Geralt. — Não precisa se incomodar com isso, eu posso dividir um lugar com o bruxo.
Geralt sabia que ele diria algo parecido, mas, ainda assim, não teve como evitar o peito se agitar com o olhar em sua direção. Ele desviou o olhar e apoiou os dois braços nas bordas do navio enquanto ouvia o capitão dar as boas-vindas ao bardo de forma enérgica, um pouco antes de enfim dar as ordens para recolherem as passagens para que partissem.
Ao seu lado, sentiu um calor confortável, e não precisou desviar o olhar da cidade agitada para saber quem havia se apoiado ali.
— E a palestra? — Geralt perguntou em tom baixo, não querendo mostrar tanto de sua animação, mas falhou quando virou o rosto para ver Jaskier acomodar as costas e os cotovelos nas bordas do navio.
— Aconteceu pela manhã — ele soltou uma risada curta, mas animada. — Você deveria ter estado lá para ver; fui aplaudido de pé!
O queixo se levantou com orgulho, um pouco antes de virar o rosto para olhá-lo nos olhos. Ele esperou por alguma provocação do bruxo, mas recebeu apenas silêncio. Eles estavam bastante próximos; os braços se tocavam enquanto os olhares atentos um no outro diziam o que os lábios ainda tinham medo de proferir. Jaskier queria beijá-lo; o bruxo pensava mais além, e desta vez não se repreendeu com o desejo de tomá-lo para si.
Novamente os sentimentos eram óbvios em seus olhares. Não precisaram de palavras, e naquele momento chegaram a pensar se algum dia realmente precisariam. Eles sabiam, e decidiram parar de fingir que não, mas as companhias de dentro do navio o fizeram se limitar em apenas aquele olhar e fracos sorrisos, fazendo-os desejar chegar nas Ilhas Skellige o mais rápido possível.
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