De Kaer Morhen à Kaer Trolde
1 Kaer Morhen
Notas iniciais

O som da água um pouco distante dali era relaxante. Os pássaros também podiam ser escutados, e Jaskier desconfiava que alguns deles não eram dos mais amigáveis, porém, ele não temeu, até mesmo se empolgou com uma nova história completamente inventada que surgira em sua cabeça. Ele se debruçou sobre a pequena mesa de madeira clara, e com pressa mergulhou a ponta de uma pena na tinta escura. Precisava ser rápido, ou outra letra para outra balada cobriria a ideia inicial. Sua imaginação era demais para acompanhar, era o que Geralt dizia, e o bardo no fundo concordava; até ele mesmo em algumas ocasiões sentia dificuldade para acompanhar tantas histórias e os acordes que surgiam em sua mente com uma naturalidade espantosa. Era exatamente por isso que Jaskier sempre tinha papel e pena em mãos, para não deixar escapar nenhuma palavra, e, mais tarde, talvez ele escolhesse cantá-las para o mundo ou guardá-las para si mesmo.
Desta vez, a estrela de sua balada seria uma sereia. Ele ainda não havia tido um contato profundo com uma delas, mas podia imaginar com clareza como poderia ser. Geralt já havia entrado em contato direto com elas diversas vezes, e segundo o bruxo, até podia falar a mesma língua, ainda que com imperfeição. Jaskier riu sozinho. Poderia ele escrever sobre um bruxo e uma sereia cantando juntos no mar ou no ar? É claro que poderia, até mesmo transformaria Geralt em um ser aquático no final da balada, se fosse empolgante o suficiente.
Ele riu outra vez, contente demais ao imaginar o quanto o bruxo ficaria furioso com aquela história, e com este incentivo, tocou o papel amarelado com a tinta preta. Foi apenas um ponto escuro, e nenhuma palavra saiu. Junto dos sons naturais do lado externo daquela fortaleza, viera outro, bastante curioso de início, mas que ao se repetir demais, passou a desconcentrá-lo e a irritá-lo.
“Tuc, tuc, tuc”, era madeira, com certeza era, e vinha do chão, bastante distante de onde era o quarto em que estava hospedado.
“Tuc, tuc, tuc”, as sobrancelhas de Jaskier se juntaram, o olhar foi para a janela, e voltou para o papel. A tinta havia se espalhado, o ponto expandiu no papel, que foi amassado e substituído rapidamente.
“Tuc, tuc, tuc”, o bardo fechou os olhos e respirou fundo. A pena foi molhada novamente, e antes de tocar o papel, a tinta pingou e o “tuc, tuc, tuc” continuou. Ele a apertou com força, e soltou um baixo xingamento. Já não se lembrava mais qual era a história que o fazia rir minutos atrás. Agora, Jaskier pensava em acordes que acompanhavam aquele “tuc, tuc, tuc” e não tinha letra alguma para aquela melodia.
A pena foi deixada de lado; a mesa foi manchada no lugar do papel, mas o bardo não notou por ter se levantado logo em seguida. Os passos foram rápidos até a janela, e o braço se apoiou na lateral enquanto inclinava a cabeça para baixo. Dali, podia ver o campo de treinamento dos bruxos. O “tuc, tuc, tuc” vinha de lá, onde três troncos grossos demais se moviam com rapidez e força enquanto pendurados, causando o barulho que o desconcentrou enquanto servia de obstáculo para o bruxo de cabelos escuros que se esquivava deles com maestria. Os pés eram ágeis e a espada de aço balançava no ar com bastante elegância enquanto treinava, era bastante empolgante de ver, porém, ainda assim, Jaskier torceu o nariz. A mão livre foi até a cintura, e o peso ficou totalmente sobre o braço encostado na janela.
— E depois, eu é que sou o barulhento — ele resmungou. — Como posso escrever deste jeito?
— Falando sozinho de novo?
Em um momento, Jaskier sentia o desanimo vir com a decepção por não conseguir se concentrar, e no outro, o coração acelerou com força, chegando a fazer seu peito doer com o susto vindo com a pergunta. Ele se exaltou por um segundo, o grito saiu pela metade e a mão tocou o peito enquanto se virava. A face pálida se manteve quieta enquanto o observava, mas o bardo o conhecia muito bem, e sabia que internamente o bruxo de cabelos brancos ria de sua reação; de uma maneira discreta até mesmo podia notar seus lábios se curvando com deboche.
Ele revirou os olhos e soltou um suspiro. As costas tocaram a janela, e buscando disfarçar seu estado, Jaskier cruzou os braços, montando uma pose tão falsamente tranquila que o deixava cômico. Ambos se encararam. Geralt permaneceu em silêncio, esperando uma resposta por pura provocação, sabendo que não teria nada além de palavras tolas, e foi exatamente o que recebeu.
— Eu sei que sou bonito demais, mas não precisa ficar me encarando assim — o bardo sorriu com provocação, mas as sobrancelhas se juntaram e as mãos desceram para a cintura quando os lábios do bruxo se curvaram um pouco mais. — Pelo Continente dizem que fui esculpido por anjos! — Reforçou as próprias palavras, que de início foram uma provocação sem muito pensar, mas que acabou ferindo o orgulho do bardo com o claro deboche no sorriso do bruxo.
— Você não é velho demais para acreditar nessas coisas? — Geralt manteve o divertimento enquanto se aproximava, mas foi pego na repentina mudança na expressão do bardo.
A intenção por trás da pergunta era sobre a crença em anjos, não na óbvia beleza do bardo, mas, ainda assim, o agitou por este motivo. Geralt esperava por um escândalo, porém, o que viu foi apenas o sorriso de Jaskier se abrir parecido com o seu de segundos antes.
— Realmente quer falar sobre idade, meu caro Geralt?
Tanto tempo havia passado; Geralt parou de contar após atingir os cem anos, então, ele apenas ignorou o divertimento do bardo e balançou a cabeça enquanto ouvia sua risada abafada ao se afastar. A mancha escura na mesa clara foi vista e o bruxo estranhou a folha vazia que seus dedos tocaram.
— Está se sentindo melhor?
O bardo se desencostou da janela e as mãos se agitaram com euforia.
— Sim! Perfeitamente recuperado.
Ele estava pronto para partir o mais rápido possível. Jaskier gostava do clima de Kaer Morhen, porém, nada o satisfazia mais do que a estrada cheia de belezas e inspirações, que eram vistas pelo bruxo como perigos e dinheiro. E apenas um bruxo é o suficiente para mim, o bardo pensou com convicção.
— É, foi o que ouvi — Geralt levantou o olhar. — Falei com Vesemir, ele disse que você e Lambert discutiram de novo.
Ouvir o nome junto dos sons do treinamento lá embaixo o fizeram revirar os olhos.
— Eu só estava procurando uma garrafa de vinho, não bisbilhotando — Jaskier garantiu com nervosismo. — Seu irmão é paranoico demais.
— Uhum — o bruxo simplesmente balançou a cabeça. Ele conhecia ambos perfeitamente bem, e não duvidava das palavras de nenhum dos dois. Lambert realmente era esquentado, pouco sociável, e desconfiado até o último fio dos cabelos pretos, enquanto Jaskier era falante demais e curioso na mesma proporção.
— O quê? Não acredita em mim? Para que eu iria querer saber os segredos de vocês? — O bardo se mostrou indignado com o silêncio, mas recuou um passo que dava em direção de Geralt quando recebeu o olhar que desacreditava a última questão. — Está bem, seria bastante interessante, e muito inspirador, quem sabe. Mas eu sou completamente inocente!
Lambert vinha pegando no pé do barulhento bardo desde que ele havia recuperado a consciência, era verdade, então, o bruxo de cabelos brancos não teve como ficar completamente do lado do irmão de guilda. O jeito de Jaskier também não era suspeito como Lambert insistia, e apesar de saber que a profissão de bardo não era a única do amigo, não se preocupou com informações vazadas. E mesmo silencioso quanto ao assunto, Geralt sentia que devia ao trovador, e ainda se preocupava enquanto analisava todos os seus movimentos ainda não completamente perfeitos.
— Eu acredito em você — ele enfim garantiu. A folha amassada ao lado foi pega, e com curiosidade, o bruxo a esticou enquanto andava até a cama, para se sentar sobre o colchão. — Mas você não pode andar por aqui sozinho fora das áreas comuns. A fortaleza é velha e grande demais, é fácil se perder e sofrer um acidente.
Os lábios de Jaskier crisparam.
— Eu não sou tão frágil.
— Sim, você é.
A face inteira do bardo se alterou, e assim que o bruxo conseguiu ver a simples mancha no papel, ele foi tirado de suas mãos e amassado novamente antes de ser jogado no chão.
— Como ousa dizer isso para o seu salvador? — Ele perguntou com seriedade, mas, ainda assim, ouviu a risada abafada de Geralt, o que o irritou ainda mais. — Seu... — os punhos se apertaram e o papel no chão foi pisado com força. Ele tinha muito para reclamar e abrir os olhos do orgulhoso bruxo, mas revolveu fechar os seus próprios e respirar fundo. O assunto não seria deixado de lado, porém, ele o adiaria para um momento em que pudesse ter palavras mais certas em sua boca. Em dias normais, Jaskier não hesitaria e diria o que estivesse em sua mente, mas os últimos dias o fizeram repensar na atitude tomada fora da segurança daqueles muros, e notou que precisava tomar cuidado desta vez. — Quando vamos embora daqui? — Ele desviou o olhar e o assunto enquanto dava as costas. As mãos tocaram os cabelos e puxou alguns fios. — Não aguento mais esse “tuc, tuc, tuc”.
Geralt seguiu com o olhar quando o bardo apontou para a janela. O barulho ainda entrava por ali, e o treinamento de Lambert foi lembrado.
— Estava pensando em hoje, mas será melhor amanhã — ele animou Jaskier com a resposta. — Eskel acabou de chegar, vamos jantar todos juntos.
— Finalmente alguém agradável! — O sorriso do poeta voltou, porém, se manteve apenas pela reação do bruxo. — Está bem, está bem, Vesemir também é.
As sobrancelhas brancas se levantaram, causando a baixa risada do bardo. Ele obviamente estava falando apenas de Lambert, mas não sentiu vontade de explicar isto, não quando Geralt parecia adoravelmente incomodado.
O bruxo se levantou antes que a graça de Jaskier terminasse. Não parecia mais afetado, e a expressão neutra de sempre retornou quando bateu levemente no braço do trovador.
— Deixe suas coisas prontas. Partiremos pela manhã.
O sorrido de Jaskier se alargou enquanto assentia, e em seguida, obrigou o bruxo a escutar todos os planos que tinha para a partir do próximo dia. Ele estava agradecido pela hospitalidade e todos os cuidados, mas era bom saber que faltava pouco para recuperar a liberdade que sempre prezou.
A noite não demorou para chegar desta vez. Jaskier se sentia menos ansioso e desceu para o salão principal bastante animado, porém, o nariz torceu ao ver primeiramente Lambert já sentado à mesa. O sorriso retornou quando cumprimentou o velho Vesemir e voltou a empolgação ao apertar as mãos com Eskel.
— Eu quero ouvir tudo o que tem passado. Com detalhes, por favor. Geralt nunca me dá detalhes, pode acreditar? — O bardo disse rapidamente, causando a leve risada do bruxo recém-chegado, que garantiu que acreditava sem dúvida alguma.
Eskel passou a mão sobre as cicatrizes profundas em seu rosto enquanto ouvia as incontáveis perguntas. Elas costumavam afastar as pessoas e trazer olhares assustados ou desconfiados, mas não era o caso do bardo, que via histórias empolgantes em cada uma delas. Todas eram inventadas, é claro; apesar de ser o bruxo mais agradável que Jaskier conhecia, Eskel ainda era bastante reservado quanto a sua própria vida, o que era um tremendo desperdício, segundo ele.
— O que há no Continente, Eskel? — Vesemir aproveitou quando o poeta precisou cessar o falatório para respirar e tomou a atenção.
A comida já estava sobre a mesa, e todos se serviram enquanto o bruxo recém-chegado prontamente respondeu o mentor enquanto abria oportunidades para outras questões de Lambert, Geralt, e obviamente, Jaskier. Tudo parecia normal na fala de Eskel; os nilfgardianos ainda avançavam, scoia'tael abraçavam a causa com mais afinco, e o que mais interessava aos bruxos de Kaer Morhen: os monstros ainda surgiam, e o trabalho só aumentava com a guerra. Eskel contou sobre rumores que não teve a oportunidade de conferir, e forneceu os nomes desses locais onde poderiam ter novos contratos à espera. Ele permaneceria na fortaleza por algum tempo, então, o dinheiro ganho no último ano já era o suficiente para se aquietar durante alguns meses e passar o inverno ao lado de Vesemir.
— Estão em Kaer Morhen há quanto tempo? — O bruxo perguntou enquanto rasgava um pão ao meio.
— Três semanas — Lambert lembrou. No dia em que colocara os pés dentro da fortaleza, o primeiro que o recebeu foi o bruxo de Rívia. Não houve aperto de mãos ou as provocações que sempre trocavam. Geralt tinha olheiras e parecia cansado, e Lambert só viu grandes reações minutos depois de explicar sua presença ali. Vesemir logo apareceu, e o aviso de que o bardo Jaskier havia acordado causou a agitação do Lobo Branco.
— Um mês — Geralt respondeu ao mesmo tempo que Jaskier, mas a frase do poeta acabou saindo com um leve tom de dúvida, como se não tivesse certeza há quanto tempo estava sob o teto dos bruxos da Escola do Lobo.
— E o que o trouxe até aqui, Jaskier? — Eskel fingiu não notar os tons nas respostas, e continuou com a conversa enquanto o olhar estava na comida que era engolida devagar.
— Confusão.
O tom divertido do bardo o fez levantar o olhar e rir igualmente.
— Nada novo, então.
— Tudo é novo para mim — Jaskier tirou a colher de madeira da sopa e a agitou na direção do bruxo. — A confusão nunca é igual.
Os dois riram outra vez, alheios ao revirar de olhos de Lambert e a seriedade de Geralt que não era a costumeira. A testa do bruxo de Rívia estava franzida enquanto se concentrava em tomar a sopa, e, ao lado, Vesemir tomava fôlego para interromper os comentários dos que conversavam.
— Desta vez este garoto se meteu em problemas sérios, Eskel, não o encoraje — o mentor disse com seriedade, assim como olhou para o poeta.
— Garoto... — Jaskier murmurou com desgosto, mas nada pôde dizer para rebater o tratamento. Vesemir sempre era daquela forma. Ele se preocupava, o bardo sabia, e andava pelo Continente há muito mais tempo do que todos que estavam à mesa.
— Ele quase morreu — Vesemir continuou. — Se tivesse chegado aqui um pouco mais tarde...
As sobrancelhas de Eskel se juntaram e o olhar foi do mentor que balançava a cabeça de forma negativa para o poeta, que sorria sem graça.
— Quem irritou para chegar a este ponto?
— E precisa de muito para ele irritar alguém? — Lambert zombou após um gole de gin.
Jaskier manteve o sorriso, mas mudou a aura encabulada para uma que provocava ainda mais o bruxo.
— Para te irritar, quase nada, não?
A testa de Lambert franziu e a mão bateu com força sobre a mesa. Os copos tremeram, os bruxos não se surpreenderam, nem mesmo o bardo, que apoiou os cotovelos sobre a madeira e segurou o rosto com as mãos enquanto mantinha o olhar divertido sobre o outro.
— Você não pode calar a boca um segundo?
— Lambert, por favor — depois de um longo silêncio, Geralt finalmente deixou a voz soar entre eles. Não havia alteração alguma em seu tom, e se não fosse pelo olhar sério, poderiam dizer que o bruxo estava pedindo algo banal para o outro.
Todos os olhares foram para ele, mas logo voltaram para Lambert e seu riso soprado.
— Não apenas Yennefer, o bardo também te faz de cão de guarda — o bruxo zombou enquanto se servia de mais gin.
— Lambert! — Vesemir usou seu tom repreendedor, mas continuou com o volume da voz inalterado, assim como a postura relaxada de Lambert.
— Sim, velho? — Ele perguntou com uma calma proposital, enquanto movia o copo de maneira circular, agitando a bebida.
O lobo mais velho não se deixou provocar e apenas com o olhar, deixara claro que mais tarde eles teriam uma conversa que não era opcional. Lambert não precisou de muito para entendê-lo, e os olhos reviraram antes de virar o copo na boca.
Ignorando o que acontecia ao lado, Eskel voltou a dar atenção para Jaskier e Geralt. Lambert e Vesemir sempre eram daquela forma, e com o tempo, tinham picos em que melhoravam ou pioravam, ele nem mesmo cogitava se intrometer entre as discussões dos velhos lobos.
— O que houve? — Ele perguntou com cautela. A maneira com que Jaskier olhava para Geralt dizia que não era algo tão simples como uma provocação do bardo para alguém, e como o bruxo de Rívia agia incomodado com tudo aquilo, só reforçava suas teorias.
— Eu peguei um contrato — Geralt contou. — Não foi do jeito que todos esperavam.
Em um riacho há meio dia de Kaer Morhen havia rumores de que uma estranha criatura surgiu. A descrição era variada; alguns diziam que era um peixe gigante, outros, que ela tinha penas e cantava enquanto estraçalhava suas vítimas, havia até mesmo os que juravam que era uma bruxa aquática, mesmo sem saber exatamente como era a aparência de uma. Não havia nada que provasse o que era e se realmente tinha algo naquele local, mas Geralt aceitou o contrato. Plotka precisava de um novo alfoje, e ele, de um novo par botas de couro, e todo o dinheiro que tinha fora colocado nas mãos do estalajeiro que enchia o estômago de Jaskier com vinho e frutas secas.
O poeta insistiu em acompanhá-lo. Geralt recusou de imediato e partiu sem avisá-lo, pois sabia que seria seguido mesmo com todos os avisos sobre perigos e inconveniências. Ele queria conhecer a criatura primeiramente, se ela realmente existisse, e por isso precisava de tranquilidade e silêncio, o que não teria com Jaskier e seu alaúde ao lado. E foi uma sábia decisão a que tomou. Os medos do povo da pequena vila um pouco longe dali se mostraram verdadeiros quando o bruxo sentiu o peso que equivalia a dois homens com o mesmo físico que o seu próprio apertá-lo sobre o chão. A bocarra maior que sua cabeça era fedorenta e formava um som trêmulo; não havia penas ou escamas, mas sim pelos eriçados e olhos sangrentos. As orelhas eram pontudas e a calda longa; as garras o ameaçavam, mas não o perfuravam ou sequer arranhavam, como se quisesse apenas afugentá-lo dali. Era a primeira vez que Geralt via uma criatura como aquela. Não havia um nome em sua mente que pudesse se encaixar no que via, mas a breve semelhança fora com um gato selvagem e gigantesco.
O bruxo de Rívia conseguiu se livrar do aperto. O corpo rolou sobre o chão e o cabo da espada foi segurado quando os joelhos se equilibraram sobre a terra, porém, antes mesmo de desembainhá-la ou ficar em pé, o novo som que saíra do gato gigante o fez recuar. Os olhos amarelos se estreitaram enquanto encarava os vermelhos que aos poucos não pareciam tão ameaçadores quanto em um primeiro momento. As garras se esconderam nos pelos escuros, e a voz soou novamente, mostrando para o bruxo que aquele não era um monstro, mas sim um homem amaldiçoado.
Levou algum tempo. Geralt ouviu sua história, e após os preparativos, a noite caiu. No meio da madrugada, uma fogueira estava acesa e o bruxo de Rívia já se despedia do homem de tamanho comum, assustado e completamente ansioso para retornar para casa.
A maldição não era complexa, o que o fez agir com bastante rapidez, foi o que contou para o intendente da pequena vila. O homem deu um passo para trás ao ouvir o final da história, e as sobrancelhas se juntaram acima dos olhos desconfiados. As pessoas se aglomeraram com curiosidade por conta do que ouviram, e assim como o líder, preferiram acreditar nos próprios contos mentirosos. Não havia vítimas ou criaturas como haviam descrito, e se ofenderam quando o bruxo foi direto e os desmascarou. A única coisa real entre eles era o medo e nada mais. Eram um bando de covardes e fofoqueiros, nada anormal para um lugar tão pequeno, e isso fez o bruxo baixar a guarda.
Após as primeiras reações pela manhã, ele esperava que o contrato fosse rasgado e o dinheiro não recebido por falta de uma prova de seu cumprimento. Foram incontáveis vezes em que teve o desgosto das pessoas que o contratavam. Alguns xingavam, cuspiam e o amaldiçoavam, e havia os que tentavam agredi-lo. Ele esperava por tudo, menos que um garotinho próximo de suas pernas, incitado pelos xingamentos dos adultos que o cercavam, o apunhalasse com uma pequena faca.
Geralt não se desequilibrou, mas a dor chamou sua atenção, que deveria estar nos adultos, não nos olhos arregalados e arrependidos do garoto. A faca foi tirada rapidamente, mas uma pancada em sua nuca durante a distração finalmente o fez cambalear. O bruxo se xingou internamente pelo descuido, e como pôde, se defendeu das pedras, panelas e até mesmo facas lançadas em sua direção.
Era uma pequena vila, mas ainda havia guardas. Apenas três homens armados de verdade, que aproveitaram que o bruxo se ocupava em se defender sem atacar as pessoas comuns, e também o pegaram desprevenido. Os primeiros socos foram aguentados, e ao notar as espadas sendo desembainhadas, Geralt sentiu a liberdade de fazer o mesmo, e poucos minutos, os três homens estavam deitados no chão, cercados por sangue fresco.
O povo se agitou ainda mais. Alguns correram assustados, outros, usaram o pavor como incentivo para continuar a atacá-lo. O bruxo estava com um dos joelhos sobre o chão, irritado com o próprio sangue que saia da perna e o fazia escorregar. Ele pretendia segurar o braço do que se aproximava com um pedaço de madeira, com a clara intenção de acertá-lo na cabeça, porém, os gritos desesperados que se aproximavam chamaram a atenção de todos, e seu dono só foi visto por Geralt quando já estava entre ele e o homem com a madeira. O traje elegante, perfeitamente bordado com a cor roxa o fez prender a respiração. Ele só podia ver suas costas, mas o pequeno chapéu e a voz atrevida eram inconfundíveis. O bruxo chamou pelo poeta, que como sempre, não calava a boca, tentando convencer o homem a abaixar o pedaço de madeira e também que todo o resto se afastasse.
— E eu os distraí com isso — o poeta disse orgulhosamente, porém, bastou um olhar do bruxo de Rívia para desinflar o ego. — Geralt conseguiu se levantar nesse tempo. Mas, bem... depois disso eu levei uma pancada na cabeça e desmaiei. Acordei aqui em Kaer Morhen, muitos dias depois.
Antes que Eskel pudesse comentar o que fosse, Lambert apoiou o braço em seu ombro e soltou um pesado suspiro enquanto tinha sua atenção.
— O idiota foi espancado enquanto Geralt lidava com a situação sozinho.
— Não sou idiota por querer salvar um amigo — Jaskier se mostrou ofendido. O dedo rapidamente foi apontado para Lambert. — Aposto que não teria metade da coragem.
O bruxo de cabelos escuros riu.
— Eu não precisaria salvá-lo, porque estaria lutando ao lado dele desde o início.
A troca de palavras foi o começo de uma acalorada discussão. Os olhos de Eskel reviraram antes de voltar a comer. Vesemir soltou um pesado suspiro um pouco antes de fazer o mesmo que o antigo aprendiz, enquanto Geralt voltou para a quietude, desta vez sentindo o peito mais pesado do que estava naquela manhã, como se ao repetir aquela história tivesse revivido o mesmo desespero que o tomou ao ver o bardo desacordado após derrubar o último homem daquela vila. Ele correu para Kaer Morhen sem muito pensar, e por dias cuidou do poeta; ansioso, culpado e nervoso ao vê-lo desacordado por tanto tempo por conta de um tolo deslize que seria facilmente recuperado.
Ele tentou afastar os pensamentos e a sensação que o incomodava, mas ficar atento na conversa dos bruxos com o poeta também não lhe parecia convidativo naquela noite. As brigas já haviam cessado, assim com a comida. O gin teve mais espaço na mesa, e Lambert dava dicas sobre facas e lugares estratégicos para escondê-las.
— Eu tenho uma na minha bota — Jaskier revelou.
— Você deveria colocar uma também no seu estúpido chapeuzinho — Lambert sugeriu, subitamente empenhado a ajudar o bardo que sempre se metia em histórias perigosas.
Apesar da situação, não foi estranho para nenhum deles. Lambert era cínico e áspero com todos, e no fundo, não desgostava tanto de Jaskier quanto mostrava. Geralt sabia, todos sabiam, menos o próprio Lambert e o poeta, que tinham as conversas mais absurdas e compatíveis quando eram carregados pela bebida.
Houve algo, porém, que chamou a atenção do bruxo de Rívia. Em meio a conversa que havia evoluído para espadas e armaduras, o elogio de Eskel para o poeta não passou despercebido. Você foi corajoso, Geralt repetiu as palavras do irmão de guilda mentalmente. Não o encoraje, ele também imitou as palavras passadas de Vesemir. A vontade de dizer tudo o que pensava era grande, mas o que sentia foi o que freou a língua do bruxo de Rívia. Ele então se levantou em silêncio; o cumprimento foi um breve balançar de cabeça e devagar deixou os Lobos e o trovador para trás.
O olhar de Jaskier o acompanhou até que sumisse na escuridão da fortaleza, e por um momento, desejou fazer o mesmo. A bebida e a conversa eram boas, porém, o jeito orgulhoso que via em Geralt o desanimava. Eles se conheciam há tempo demais para se surpreender, porém, nunca seria o suficiente para não se chatear por completo. Pela primeira vez, ele não queria bajulações, apenas o reconhecimento de suas ações seria o suficiente, mas em momento algum recebeu do bruxo palavra alguma sobre o ocorrido. Ele não o repreendeu ou agradeceu, Geralt simplesmente cuidou de suas feridas e se fechou, tocando no assunto apenas naquele jantar. E ele voltou a se calar.
As doses de gin o deixaram sem equilíbrio, mas teria aceito mais uma oferecida por Lambert, se outra vontade não fosse maior. Em seu peito havia uma sensação incômoda que nem mesmo a bebida acalmou, e aproveitando que ainda podia mover os pés cambaleantes sozinho, finalmente abraçou a escuridão da fortaleza. As escadas foram alcançadas com muito custo, e a visão levemente turva o fez parar antes de subir os degraus. Os olhos se fecharam e a mão cobriu o rosto enquanto soltava um suspiro. A conversa no salão era alta, e mesmo distante, ainda podia ouvi-los contando histórias sobre ninfas e aparições. Que tipo de contrato maluco foi esse? O bardo ficou bastante interessado, e se perguntou se deveria voltar para ouvir, porém, quando a visão melhorou ao menos um pouco, a vontade de subir os degraus novamente foi muito maior.
Ele demorou o triplo do tempo comum, mas conseguiu alcançar a porta velha sem ser derrubado pela própria embriagues. Apesar da reação corporal, sua mente ainda funcionava, e não foi engano entrar no quarto que não era o seu. As botas foram tiradas no caminho até a cama que era larga, mas não o suficiente para acolher dois homens com conforto, porém, ainda assim, o poeta se jogou ao lado do bruxo que ainda estava acordado, mas não se moveu nem mesmo quando sentiu o baque em suas costas. Os olhos apenas se abriram, e um suspiro foi dado.
— Geralt — Jaskier sussurrou. — Eu deveria aprender a lutar?
A pergunta era séria, mas também uma desculpa para entrar no assunto, que desde o início queria discutir apenas com aquele bruxo, que permaneceu quieto por um tempo longo demais, e moveu a boca apenas quando o bardo estava prestes a desistir de ouvir uma resposta e já se aprontava para outra frase.
— Pare de dar ouvidos ao Lambert — Geralt enfim disse o que queria. Em suas costas, sentiu Jaskier se agitar e esperou por mais questionamentos, porém, o bardo apenas se aconchegou ao lado.
— Eu vou dormir aqui — ele avisou simplesmente, cansado demais para subir mais duas dúzias de degraus e também nem um pouco motivado a se afastar do bruxo. Apesar da curta resposta, não se sentiu chateado, ao menos não por ela.
— Você tem uma cama, a melhor que temos por aqui — o bruxo o lembrou, já antecipando o mau-humor dos chutes e socos que receberia do bardo enquanto adormecido, mas Jaskier sequer o respondeu desta vez, e o álcool o nocauteou rapidamente.
Geralt não se sentiu aliviado com o silêncio, nem mesmo com a falta de movimentos do poeta. O peito estava agitado, e doeu levemente quando se virou na cama e viu a maneira relaxada que Jaskier dormia, completamente confiante de que estava seguro ao lado do bruxo de Rívia, que pensava o contrário.
Quando acordou Jaskier, Geralt não estava no quarto. A falta de cortinas naquela fortaleza já não o incomodava mais, e os olhos não se irritaram com a luminosidade intensa da manhã, mas a cabeça doeu levemente quando se levantou, o lembrando que havia bebido um pouco demais na noite passada, mas não tanto quanto era o costume. Em noites comuns, o bardo beberia até precisar ser carregado, e mal conseguiria abrir os olhos no dia seguinte.
Ele já tinha os pertences arrumados, e não se surpreendeu ao ver pouco deles no quarto acima do de Geralt. O bruxo já estava lá em baixo, preparando a partida de ambos. Ele se apressou para ficar pronto com o que havia sido deixado no quarto, e rapidamente se colocou ao lado de seu novo cavalo, enquanto Geralt dava total atenção para a égua do lado direito.
— Ela está bem? — Foi as primeiras palavras do poeta para o bruxo, que com um fraco sorriso assentiu. Quando Jaskier foi ferido, Plotka foi forçada a correr além de seu limite, preocupando o bruxo quando o perigo para o bardo já havia passado. Ele gastou horas ao lado dela no último mês, cuidando e testando-a, e assim como o trovador, ela se mostrou bastante resistente e pronta para mais uma viagem junto de seu dono.
Eles não demoraram no estábulo. Surpreendentemente, os três bruxos compareceram para se despedir. Mesmo com Lambert mais ácido do que o costume, por conta da ressaca, ele se deu ao trabalho de descer e simplesmente chacoalhar a cabeça para Geralt e Jaskier. Eskel apertou a mão do poeta com tanta força que o fez soltar um fraco gemido, e fez os bruxos segurarem os risos. Vesemir foi mais gentil na despedida, mas o manteve próximo quando segurou sua mão.
— Na próxima vez, pense direito antes de agir — o velho lobo aconselhou. Os olhos amarelos desviaram do bardo e focaram nas costas de Geralt, que já pulava sobre Plotka. — Eu nunca o tinha visto tão desesperado.
O poeta se surpreendeu com a revelação, e rapidamente olhou para trás, onde o bruxo de Rívia o apressava para partirem. Jaskier logo voltou a atenção para Vesemir e assentiu devagar, ainda sem saber o que dizer sobre o que ouviu. O Lobo riu em tom baixo, e fez o bardo soltar um murmúrio desgostoso quando a pesada mão bagunçou seus cabelos e derrubou o pequeno chapéu, que rapidamente foi recuperado.
— Volte apenas para cantar, na próxima vez.
Jaskier enfim sorriu para o mentor dos bruxos, e a cabeça balançou com mais certeza desta vez. O agradecimento foi feito com a energia costumeira, e logo o alazão o recebeu sem mais demoras. Nenhum dos dois olhou para trás, mesmo com o bardo sentindo que deveria. Em sua mente outros assuntos voltavam a perturbá-lo, e a visão das costas do bruxo de Rívia só fazia intensificar os pensamentos que causavam um estranho sentimento em seu peito. Ele então, apressou o cavalo, e sem avisos tomou a liderança do caminho na pequena ponte que deixava a fortaleza de Kaer Morhen.
— Aonde pretende ir, Geralt? — Ele perguntou. Tinha algumas pistas do caminho do bruxo; não havia certezas de onde, porém, ainda assim, Jaskier já tinha tomado uma decisão.
O bruxo levou um momento para entender a pergunta. Ele estava concentrado nos próprios pensamentos enquanto o olhar estava fixo no alaúde preso nas costas do poeta, e foi desperto pela voz curiosa.
— Eu visitarei Crach an Craite— disse Geralt. — Peguei algumas direções com Eskel. Pretendo aceitar contratos no caminho e, em Novigrad, subirei em um navio até Skellige.
As costas do poeta continuaram eretas enquanto guiava o cavalo na estreita trilha. Geralt continuou atento em seus movimentos, sabendo que a curiosidade do amigo havia sido ativada quando dias antes vira o selo do Clã an Craite na carta que tinha em mãos. O conteúdo não era um segredo ou algo grandioso, porém, o bruxo decidiu mantê-lo longe do bardo, que se soubesse o que o esperava nas geladas ilhas, não hesitaria em se convidar para ir junto.
— Eu o acompanharei no caminho — avisou Jaskier, alertando o bruxo. — Tenho assuntos que precisam de minha atenção em Oxenfurt.
Geralt soltou um suspiro aliviado. O caminho até Novigrad era longo, e mesmo com os contratos que tinha em vista, ainda era mais seguro se o bardo viajasse com companhia. Ficarei mais atento a ele desta vez, pensou o bruxo. O dom em se meter em perigos do poeta não era novidade, porém, ele se preocupava em como sua falta de escrúpulos parecia cada vez maior. Por muitas vezes ele quis falar sobre o assunto, enquanto estava sentado na beirada da cama em que Jaskier se manteve imóvel por tempo demais. Ele poderia ouvi-lo com menos agitação daquela forma, porém, Geralt se acovardou em todas as vezes em que a boca se abriu, e outros assuntos saíram por ela. Quando outros e até mesmo Jaskier tentavam abordar o assunto, ele se esquivava, apavorado com o sentimento culpado e impotente que o abraçou ao ver o poeta desacordado no chão sujo com seu próprio sangue. Ele não queria que aquilo se repetisse, por isso, não se importou em concordar em acompanhá-lo pelo caminho e quando a noite viera e precisaram parar para descansar, a carta com o selo de An Craite foi queimada em segredo.
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