Havia um tapete estreito no canto esquerdo do quarto, mas Jaskier não conseguia se recordar de qual tonalidade ele era; nem mesmo sabia por que tentava se lembrar, quando tudo o que podia visualizar era a figura do bruxo sobre ele, com os joelhos dobrados e o traseiro sobre as pernas. A pose da coluna era ridiculamente ereta, e os olhos se mantinham fechados religiosamente. A respiração do bruxo era descompassada quando o viu se isolar naquele canto, mas quando estava para sair do quarto, mal podia ouvi-lo, e tinha certeza de que quando retornasse, nenhum som poderia ser escutado, porque Geralt iria continuar ali, na mesma posição, dedicado em sua meditação, e indiferente a qualquer ação do poeta.

A porta do quarto foi aberta de maneira estabanada quando Jaskier viu exatamente o que esperava. Ele gritou sem motivo algum, e a mão que segurava com firmeza um caneco vazio foi apontada na direção do bruxo, completamente quieto e imóvel. A porta se chocou contra o batente, se misturando com os barulhos dos passos incertos do bardo. O caneco vazio foi notado apenas enquanto retirava as botas com os próprios pés, e o desequilíbrio o fez cambalear até as mãos impedirem a queda sobre a cama, em um colchão duro e desconfortável.

— Você não deveria estar aqui — ele falou com o objeto que pertencia ao bar da grande pousada. Embalado no estado embriagado, Jaskier riu para a alça de madeira e tocou os lábios com o indicador. — Fique quieto, Geralt está ocupado; ele está meditando! — Tentou sussurrar, mas as palavras risonhas eram um pouco altas demais.

A cama serviu como apoio novamente, e quando conseguiu manter os pés razoavelmente firmes sobre o assoalho de madeira, foi em direção do único canto do quarto que não era permitido.

— Ao menos eu espero que ele esteja — o bardo olhou o bruxo de cima. O corpo se movia de um lado para o outro, sem condições de manter o equilíbrio enquanto levantava o caneco em frente aos seus olhos claros. — Senhor Caneco Vazio, será que o nosso Geralt morreu embriagado com poções? — Como não houve resposta do caneco, ele voltou a abaixá-lo, e acabou derrubando-o quando as costas se curvaram e apoiou as mãos sobre os joelhos. O rosto sério do bruxo foi encarado de perto, e só então as vistas turvas do poeta se endireitaram. — Geralt — ele o chamou em tom baixo, e como o caneco vazio, o bruxo não concedeu resposta alguma, então, a voz se elevou de forma exagerada. — Você está vivo?

Nem mesmo um fio dos cabelos brancos se moveu com a voz que cantarolava a pergunta, mas isso não emudeceu o bardo, que cobriu os lábios com a palma da mão apenas para evitar uma risada alta.

— Certo, certo. Você só está concentrado em se recuperar. Acho que eu também deveria, não?

A brilhante ideia o fez abrir um largo sorriso enquanto continuava a falar sozinho, e com muita dificuldade e um tempo considerável, o bardo conseguiu dobrar os joelhos em frente à Geralt e sentou sobre as pernas. As costas, porém, não conseguiram permanecer eretas nem por cinco segundos.

— Sabe, meu amigo, minhas poções desta noite também foram muito fortes — ele olhou para trás, vendo o caneco abandonado. — Pergunte ao Senhor Caneco, se duvidar. Eu também venho trabalhando duro. Compus três músicas enquanto você esteve fora. Quer ouvir? É claro que quer. Você adora a minha voz! Só me dê um segundo — Jaskier tentou se levantar, porém, desistiu rapidamente, e as mãos serviram como apoio no assoalho, junto de seus joelhos que se arrastavam pelo quarto. — Onde está o meu alaúde? — Ele olhou para os lados, mas a visão ainda não estava boa, e o silêncio da outra parte finalmente começara a desanimá-lo. — Eu posso cantar amanhã — ele prometeu enquanto as mãos voltavam para o colchão duro, e os joelhos logo também tiveram o mesmo destino.

As costas foram jogadas sobre a cama, e mesmo com o desconforto, ele soltou um suspiro aliviado. O estômago já reclamava e o enjoo o fez fechar os olhos por um momento, que não foi o suficiente para mantê-lo calado. Junto dos efeitos negativos que o excesso da bebida trazia, ainda havia a sensação incômoda do peito, que o acompanhava antes mesmo do primeiro gole de cerveja naquela noite.

— Você não é nada divertido, Geralt — ele reclamou, logo em seguida os olhos se abriram. — Por que não me deixou ir junto? Era a minha chance de ver uma Bruxa Sepulcral. Eu ficaria distante, é claro. Não sou idiota...

Aproveitando o fato de que quando meditava, Geralt costumava fechar não apenas os olhos, mas também os ouvidos, o falatório sobre o contrato pego assim que chegaram em Ard Carraigh durou algum tempo, mas a reclamação não cessou depois disso, apenas mudou para o que mais incomodava o bardo com as atitudes do bruxo, e não tinha coragem de dizer quando ambos estavam sóbrios e de frente um ao outro.

— Você me trata como um idiota. Não me respeita de jeito nenhum. Todos vocês me olham assim — os punhos caídos no colchão se apertaram. — Vesemir disse que eu não penso antes de agir, mas eu penso! O que esperava que eu fizesse, hm? Eu o vi caído, pensei que tivesse sido pego desprevenido e ia morrer. Arrisquei a minha vida muito consciente do que estava fazendo. Porque fiquei com medo; pensei que ia te perder. E você nem mesmo liga, porque pensa que sou um idiota que não pensa e não sente com o coração — ele bufou, se lembrando de uma lembrança bastante antiga, quando discutiram por algum motivo que não recordava, mas o momento ficou gravado em sua mente, assim como as palavras do bruxo, que tinha certeza de que o bardo se movia pela vontade do que tinha entre as pernas. — Você é um bruxo tolo e egoísta, Geralt. Como pode ser o meu melhor amigo? — Jaskier bufou outra vez, e o corpo rolou na cama, até que o rosto encostasse na parede fria em que estava encostada. — Eu espero que engasgue com as suas poções!

A fala foi alta, porém, mais uma vez não causou reação alguma no bruxo, e o poeta duvidava que sequer tinha sido notado ali, ainda menos seria escutado. Ele bufou pela última vez quando fechou os olhos. O travesseiro foi segurado sobre o peito e em um tempo recorde, foi vencido pela bebida. O sono veio como se tivesse recebido uma pancada na cabeça, e no exato momento, os olhos do bruxo se abriram. Ele não virou o rosto para ver o bardo adormecido sobre a cama, mas não precisou. Desde o primeiro momento, Jaskier havia sido notado, e muito bem escutado. As últimas palavras haviam atingido o bruxo em cheio, porém, não houve coragem para se mostrar presente, nem mesmo para se levantar. Os efeitos das poções que havia tomado horas atrás já haviam passado, porém, mesmo assim, ele se manteve na mesma posição, e os olhos voltaram a se fechar. Havia uma estranha sensação em seu peito, do tipo que o incomodava por saber exatamente por quem era o sentimento, e o retorno para a meditação foi a saída para limpar não somente a mente, mas também o coração.

O sol ainda não havia nascido quando Geralt voltou a abrir os olhos. Não havia mais nem um traço das alterações das poções em seu corpo, e o coração, em um primeiro momento, estava leve. Os joelhos se desdobraram, e o bruxo não pôde evitar olhar par ao lado, onde o poeta dormia com a barriga para cima e exposta. O travesseiro estava caído sobre o chão, e os braços abertos tomando toda a cama, assim como as pernas. A boca estava aberta, mas nenhum som saía por ela além da pesada respiração. Todos os sinais da embriaguez estavam ali naquela pose desleixada, porém, não foi a visão que o fez se lembrar e juntar as sobrancelhas quando a sensação que o incomodava retornou. Ele sabia bem o que era; culpa, era o que o bruxo de Rívia sentia, mas não gostava de dar atenção para o sentimento. De nada adianta sentir culpa, ele pensou enquanto andava até a outra cama desconfortável. O aconteceu, não pode ser mudado. Eu só preciso evitar que se repita.

A chateação de Jaskier não foi escutada com surpresa, porém, o fez pensar até o amanhecer. As costas tocaram o colchão, e o bruxo não conseguiu fechar os olhos, mas novamente não se atreveu a olhar para o lado. Havia algumas verdades no que o bardo disse, e por isso, acabou se embaralhando em seus próprios pensamentos e crenças.

Não adiantava ter culpa, mas era o que sentia e não conseguia amenizar. Ele realmente acreditava que o poeta não pensava antes de agir, e muitas vezes não o levava a sério, porém, Jaskier era um amigo de longa data, um dos poucos humanos em quem confiava. O bardo dava trabalho, e se metia em muitos problemas, mas ele jamais deixou de estar ao lado do bruxo, principalmente em momentos em que era favorável não estar. Todos aqueles anos juntos, e eles brigavam, Jaskier falava e cantava, Geralt ouvia e teorizava junto do amigo, filosofavam sobre a vida sem nem mesmo notar o que faziam. O bardo era seu amigo e companheiro, e ainda assim, pensava tão pouco dele, e o chateava àquele ponto por conta de seus próprios medos. Não havia como voltar atrás, nem mesmo espantar o sentimento culpado; uma parte do primeiro pensamento se manteve firme, porém, Geralt não quis ouvir a si mesmo como realmente deveria, e evitar que tudo se repetisse permaneceu apenas sobre manter o trovador a salvo, não sobre deixar de chateá-lo.

Não demorou para que Jaskier despertasse. O sol já entrava pela janela, e o bruxo limpava suas armas com paciência, apesar de mentalmente ter marcado um horário próximo para partirem. Ele levantou o olhar quando ouviu o bardo murmurar de maneira dolorosa, e a mão que cobria a testa evidenciou a dor de cabeça que já era esperada.

Diante da visão que tinha, Geralt balançou a cabeça negativamente.

— Vá se limpar. Vamos comer e partir em breve.

A cabeça de Jaskier se levantou devagar, e com os olhos semicerrados por conta da claridade, o encarou. O fraco sorriso trouxe um inesperado conforto para o bruxo, que depois do que ouvira durante a noite, aguardava um tratamento um pouco mais frio, ao menos por algumas horas, até o bardo não aguentar o silêncio e voltar a tagarelar como sempre.

Após ouvir o bruxo, Jaskier teve sua vez de balançar a cabeça.

— Você ganhou o seu dinheiro ontem. Hoje, é a minha vez — ele avisou enquanto se levantava de maneira preguiçosa. — Eu vou cantar lá em baixo hoje à noite. A dona me ofereceu quinhentas moedas de ouro por três baladas.

O bruxo rapidamente parou de limpar uma das espadas.

— Quinhentas?

Jaskier endireitou a postura, posando com orgulho, alheio aos cabelos despenteados.

— Ora, eu sou famoso, não? — O sorriso do bardo se alargou quando os olhos do bruxo reviraram. Ele havia ganho metade daquilo para arriscar a vida contra uma bruxa sepulcral, enquanto Jaskier só precisaria abrir a boca e dedilhar um alaúde no conforto do salão da pousada. — Você pode descansar um pouco mais. Com esse dinheiro, também vamos poder pegar um quarto mais confortável em nossa próxima parada, então, pare de me olhar deste jeito — as mãos do bardo tocaram a própria cintura. Nada parecia diferente em seu sorriso fácil, o que mais uma vez deixou o bruxo menos sentimental.

— Então, beberei esta noite — ele avisou enquanto embainhava a espada completamente limpa, mas que ainda precisava ser afiada.

— Será por minha conta — o bardo sorriu orgulhoso.

Apesar de assentir, Geralt não planejou tocar no nome do trovador para quem o servisse. Ele ganharia bastante dinheiro naquela noite, é claro, mas diferente do que Jaskier imaginava, esteve bastante atento em seus passos, e a bebedeira da noite passada com certeza lhe arrancaria metade do orçamento, o bruxo tinha certeza. Eu não pretendo beber demais, e precisamos guardar dinheiro, ele decidiu internamente, e novamente deu atenção para as armas sobre a cama. Ele começaria a afiá-las, e o bardo, e afinar o alaúde e preparar a voz.

A notícia sobre a presença do bardo Jaskier em Ard Carraigh se espalhou rapidamente. O grande salão da Pousada da Rocha pareceu menor com tantos curiosos e fãs das baladas do homem conhecido por todo o Continente. A dona do local, uma senhora baixa e magra, mas com um olhar feroz e habilidosa em jogos de cartas, sorria satisfeita ao lado do pequeno palco. As quinhentas coroas gastas no homem que quase secara os barris de vinho já haviam sido repostas com o grande movimento no salão, e seu sorriso apenas aumentava com os lucros que vinham a partir dali. Sem descanso ou sinal de que iriam parar em breve, os clientes enchiam as barrigas com bebidas e carne para suprir a ansiedade que era ver Jaskier tocar pela primeira vez naquela parte da cidade.

Ele não demorou para descer, a grande estrela daquela noite, e chamou a atenção na mesma velocidade. Seu sorriso galanteador contagiava as moças, mas o olho que piscou foi apenas para uma bela elfa de cabelos dourados que estava sentada em frente ao balcão do bar. Ela não mostrou reação alguma em suas feições com aquele gesto, mas desviou o olhar envergonhado quando o belo sorriso de Jaskier também foi apenas por ela.

As pessoas estavam eufóricas, e sequer teriam notado o bruxo que se arrastou no salão de forma discreta, até apoiar os braços no balcão, bastante distante da elfa que agora também só tinha olhos para o bardo, que se juntou ao amigo no bar. Imediatamente a dupla foi reconhecida, e o falatório nada discreto aumentou, pois, além de ser a primeira vez que escutariam o trovador, ele ainda teria o protagonista da maioria de suas baladas ao lado. Aquele com certeza era o dia de sorte para o lado artístico de Ard Carraigh.

A pedido da dona da pousada, o bardo esperou ser anunciado, e relaxou ao lado de Geralt, com a certeza de que sua vez não viria de imediato. Jaskier não seria o primeiro a se apresentar naquela noite. Sabini Tertone, uma jovem trovadora que ainda tentava tomar um lugar fixo na profissão, abriria a apresentação. Jaskier não havia escutado o nome dela até se hospedar na Pousada da Rocha, e estava curioso para conhecê-la, e acima de tudo, ouvi-la. A dona da pousada o bajulou e elogiou até esgotar todas as boas palavras que conhecia, mas também havia reservado algumas para a trovadora, o que rapidamente capturou o interesse do bardo. Ele ouvira que a moça tinha suas próprias composições, mas vez ou outra dedilhava as baladas de outros, em especial, as suas.

Mas que atrevimento. Eu gosto disso. Jaskier sorriu com o próprio pensamento, e os lábios se puxaram ainda mais quando enfim pôde ver a trovadora subir no palco. Os cabelos eram dourados como os da elfa ao lado, mas eram curtos, acima dos ombros. A roupa de seda azul era bonita, mas não tinha aparência cara, não como o pequeno chapéu no topo de sua cabeça; um presente de um nobre admirador de sua arte.

— Ela parece uma versão feminina sua — o bruxo comentou ao lado, fazendo-o rir com divertimento, mas resmungou quando o ouviu dizer que esperava que a semelhança parasse na aparência.

Sabini olhou na direção do bar. Não estavam distantes do palco, por isso, tinham uma boa visão um do outro. A pele clara corou ao encarar os olhos encantadores do bardo, que se encheu de orgulho próprio com o feito, mas logo esfriou quando o olhar envergonhado se tornou malicioso e não estava mais em sua direção. Sem qualquer ter intenção, o bruxo chamou a atenção de Sabini, e perdeu todo o interesse do bardo, que subitamente se tornou descontente com a mulher tomando as primeiras palavras em sua apresentação.

Ela sentou em banco de pernas altas. O alaúde pousou sobre o colo, e os dedos longos e delicados da trovadora pressionaram os primeiros acordes.

“Lá vem o Lobo Branco”

Era a apenas a primeira frase. A voz era bela e o dedilhado era preciso, mas suave, agradável, porém, ainda assim, Jaskier soltou um pesado suspiro e se segurou para não revirar os olhos. A atenção de Sabini estava no Lobo sobre quem ela cantava, e o incômodo do trovador só aumentava.

“Oh, Lobo do Norte!

Coroas, Lintares, Orens ou Florins

Não importa a moeda, ele só precisa ser pago para livrá-lo da morte

E os seus pesadelos desaparecerão”

“Preto ou branco,

Azul ou dourado,

Eles pagam por um mundo dividido em cores

Quando o Lobo do Norte só vê tons de cinza”

— Ela não consegue nem mesmo rimar — debochou o bardo, em tom baixo e discreto, ciente de que podia ser escutado apenas pelo bruxo, porém, outro suspiro pesado foi dado quando notou que a atenção de Geralt estava totalmente na mulher no pequeno palco.

“Do Norte em Kaer Morhen

Ao Sul em Nilfgaard

O Lobo do Norte viaja em busca de seu Destino”

“Há monstros que trazem fortuna

Há coroas de ouro

Há feiticeiras que o fazem gastar

Mas seu Destino é uma pequena coroa, não de ouro, mas de penas, de Nilfgaard”

Jaskier segurou uma risada. Ele podia visualizar algumas feiticeiras que ficariam bastante irritadas com aquela parte da letra, e desta vez não foi surpresa ver as sobrancelhas claras do bruxo se juntarem por um breve momento. Geralt não gostava quando falavam sobre ele e Ciri em canções. Porém, era mais fácil numerar coisas que o bruxo gostava do que desgostava, e uma delas trouxe um estranho sentimento para o peito do bardo. Ele não gostara daquela música, é claro, mas Geralt de Rívia com certeza gostava de mulheres belas, e aquela era uma delas.

“Oh, Lobo do Norte...”

Ela continuou com a balada, mas o trovador fechou os ouvidos para o lado externo, e prestou mais atenção em seus próprios pensamentos, que lhe diziam que os planos para aquela noite estavam arruinados. A noite passada havia sido agitada por conta da raiva e a bebida, mas naquela, ele tinha uma visão confortável de como deveria terminar. Na mente de Jaskier, estava ele e Geralt após sua apresentação. Não havia bebidas fortes, apenas cerveja e uma boa conversa, a que ele aproveitaria para demonstrar de maneira discreta o que vinha sentindo. Seria apenas uma faísca, ele tinha certeza, pois nem o próprio Jaskier entendia completamente o que havia em seu peito que se sentia pesado desde que acordara em Kaer Morhen, e piorara quando a balada de Sabini chegara ao fim e a trovadora descera do palco, indo diretamente até eles.

— Seja gentil — mostrando que estava atento aos dois trovadores desde o início, Geralt sussurrou enquanto a via no meio do caminho, cumprimentando os ouvintes, e aceitando presentes que mais tarde Sabini tinha certeza de que seriam deixados para trás.

O bruxo e Jaskier trocaram um rápido olhar, um pouco antes da trovadora enfim conseguir se aproximar.

— Eu sempre sou — garantiu o poeta, que em seguida, segurou a mão estendida em sua direção.

Sabini parecia ainda mais bela de perto, e o que normalmente animaria Jaskier, o fez lamentar sem saber o motivo exato para tal. Inveja, talvez? O bruxo e ele jamais tiveram desavenças por conta de mulheres, então, seria algo novo e surpreendente, mas Jaskier duvidava, e colocou sua máscara sorridente quando a palavra “ciúme” acertou sua mente. Eu, com ciúme? Eu nem mesmo conheço essa mulher direito. Ele quis rir enquanto beijava a pele macia da mão da trovadora, que se mostrou ansiosa e um pouco tímida apenas com Jaskier e seus elogios. Eu devo ser o ídolo dela, com certeza sou; ele balançou a cabeça com a própria afirmação. Isso massageava seu ego, mas não diminuía o peso que se tornou um leve aperto no peito, quando os olhares da trovadora e do bruxo se encontraram de perto desta vez. E o que ele é para você, Sabini Tertone? Até mesmo uma balada sobre o bruxo de Rívia ela havia escrito. Inspirada pelas baladas de Jaskier, talvez? Ele queria saber, e teria ficado entre eles para descobrir, porém, no palco, seu nome foi anunciado com alegria, e a reação dos ouvintes o desviou dos dois apoiados na bancada do bar.

O sorriso se alargou, e Jaskier desta vez não olhou para a bela elfa. O corpo estava aquecido pela reação tão boa apenas com sua presença, e o ciúme foi substituído pelo amor que tinha por suas próprias baladas.

O alaúde foi tocado com segurança e orgulho, e Jaskier se dedicou a primeira balada daquela noite. Era uma nova composição, da noite passada. Ele cantou sobre Ard Carraigh e a Pousada da Rocha, e foi muito bem recebido pelos ouvintes. A segunda, era uma de suas mais famosas: Inalcançável.

Houve silêncio enquanto sua voz soava pelo salão.

“Tu voas sobre úmidos telhados,

Mergulhas entre nenúfares amarelos,

Mas hei de compreender-te,

Obviamente se chegares a tempo…”

Ele gostava daquela forma; quando todos se aconchegavam uns aos lados dos outros para ouvirem suas palavras com atenção e deslumbre. Havia aqueles que precisavam de mais tempo para entender perfeitamente, outros, entendiam melhor até mesmo que o bardo, o dono daquela letra, e Jaskier adorava todos eles, ainda que se irritasse e na maioria das vezes escapasse dos que o questionavam sobre algumas baladas um tanto exageradas.

A última fora a que também era bastante popular no Norte, e detestada em algumas partes do Sul. Era sobre Ciri, apenas sobre ela, e Jaskier encerrou a noite sem sombra das baladas que contavam histórias de Geralt De Rívia, o Lobo Branco. Não havia feito de propósito; seus instintos apenas o fizeram escolher outras canções na última hora, e só notou que o havia evitado quando foi questionado por um dos ouvintes enquanto passava por eles. Assim como Sabini, Jaskier precisou dar atenção para o público, mas sua situação era ainda mais acalorada e demorada.

Entre uma conversa e outra, ele desviava o olhar para os dois, ainda no balcão do bar. Sabini era falante, aparentemente, e o bruxo não parecia incomodado em ouvi-la. O rápido pensamento nervoso, em que o bardo se comparava a ela o fez desfazer o sorriso que era constante para os que o bajulavam. A realização foi demorada, mas o sentimento ficara mais evidente, e não era pela atenção que Sabini dava, mas pela a que recebia do bruxo.

Ele rapidamente inventou uma desculpa, um pouco exagerada demais, para se afastar daquelas pessoas. A cerveja oferecida em uma bandeja não foi aceita, e o bardo só parou os pés apressados quando já estava no andar de cima, ouvindo a agitação do salão de forma abafada e lenta, enquanto o coração batia alto e rápido, mas não de um jeito bom.

O lenço no pescoço foi tirado com pressa e nenhuma delicadeza. As mãos estavam trêmulas, e as dúvidas de antes se transformaram em medos que o faziam negar em voz alta, sem especificar o que o levara a balançar a cabeça com tanta ênfase. As botas foram retiradas com a mesma pressa, e o bardo trocou as vestes um pouco antes de notar que mal podia respirar dentro daquele quarto. As janelas foram abertas. Estava frio, mas Jaskier não se importou, e o tremor em sua pele sequer fora pela temperatura que mostrava que o inverno estava próximo, ele viera junto com os olhos arregalados e o coração descontrolado, assim que a porta do cômodo se moveu.

— Está tudo bem? — A voz do bruxo fez o tremor se repetir, mas o bardo desta vez colocou a culpa no vento, e voltou a fechar a janela, ainda sem olhar diretamente para ele. — Pensei que iria querer ficar mais tempo lá embaixo. Algumas pessoas estão te esperando, dizendo que vão pagar suas bebidas de hoje.

Seria bom poder beber hoje de novo, o poeta pensou, mas logo voltou atrás. Ele não queria companhia, muito menos a de Geralt, por isso, de cabeça baixa, andou até uma das camas. As cobertas foram arrumadas, e logo se cobriu com elas.

— Eu estou cansado, o vinho de ontem ainda está fazendo efeito — mentiu enquanto virava o corpo na cama, e encarou a parede. — Diga a eles que sinto muito.

— Quer um pouco de água?

Ele suspirou devagar, tentando se manter calmo. Não sabia o que estava se passando com Geralt, com sua súbita preocupação e estranha hesitação em se afastar, porém, Jaskier só queria um tempo sozinho para encontrar uma boa desculpa para a agitação interna, que continuava a crescer com a atenção do bruxo.

— Não, obrigado — respondeu da maneira mais calma que conseguia naquele momento.

— Eu vou descer e...

— Sim, sim, desça! — Ele enfim se alterou, cortando a fala do bruxo. A necessidade de ficar sozinho ainda existia, mas para ele, era óbvio o motivo de Geralt querer voltar a descer, e seus sentimentos foram tomados por raiva. — E pague uma bebida para Sabini. Dê a ela as minhas que estão oferecendo.

O nome da trovadora soou com desgosto pelo quarto, e o bardo rapidamente se arrependeu. Os olhos se fecharam quando ouviu um profundo suspiro próximo de sua cama, e mesmo sem olhá-lo, pôde imaginar com perfeição Geralt encostado na parede onde ficava a cabeceira, de braços cruzados e a expressão vazia.

— Dividir o palco é assim tão ruim para vocês trovadores?

Então é isso o que você acha? Ele quis perguntar, mas no fim, achou que seria melhor daquela forma.

— Não — ainda assim, ele respondeu, mas não deixou de mentir no final. — Eu só não gostei da música dela.

— Uhum.

Finalmente o silêncio dominou o quarto. Jaskier apertou o cobertor com força, próximo ao rosto, e tentou controlar as batidas pesadas de seu coração. Você não ia descer? Ele pensou. Ainda sentia a presença do bruxo, no mesmo lugar de antes, sem mover nem mesmo os braços. O olhar em suas costas também era sentido, impossibilitando que viesse a se acalmar como queria, e todas as emoções que o perturbavam naquele instante se juntaram para se tornar em uma explosão de raiva e mágoa infundada.

— O que ainda está fazendo aqui? — A pergunta soou abafada pelo cobertor que havia puxado para cima, porém, não impediu que a alteração em seu tom fosse disfarçada. — Vá de uma vez! Escute a voz da bela Sabini, dê inspirações reais para a moça. E diga para ela não ficar reciclando o meu trabalho — as últimas frases foram ditas cada vez mais baixas, até se tornarem murmúrios que reclamavam e lamentavam ao mesmo tempo. — Nunca gostou ou prestou atenção de verdade nas minhas baladas, e agora fica me rondando, em vez de ir até quem ele gosta de ouvir — ele suspirou pesadamente, bravo, indignado e magoado, mas também amedrontado com a ideia do bruxo obedecer suas palavras nada sinceras. — Por Melitele, Geralt...

O bruxo, exatamente como o bardo imaginava, com os braços cruzados e o ombro apoiado na parede, quase sorriu com os murmúrios que diziam muito mais por conta de seu tom do que pelas palavras. Houve uma estranha satisfação em vê-lo daquela forma, mas o humor logo morreu e o raro embaraço o fez desviar o olhar e se desencostar da parede. Os braços se descruzaram quando sentou na outra cama, e devagar, as botas de couro foram retiradas, e a lembrança de minutos atrás, no salão da Pousada da Rocha, intensificaram o calor em seu rosto.

A bela Sabini era de fato falante, mostrando que não era semelhante a Jaskier apenas na aparência. Ela se empolgou com a presença do bruxo, e assim como todos os trovadores que já conhecera na vida, quis histórias, detalhes sobre seus dias, as paixões e decepções. Ele já era acostumado com o atrevimento daquelas pessoas, e não se incomodou e nem mesmo se abriu como a mulher queria. Era interessante observá-la, por isso não a interrompeu, até que o bardo que tocava no pequeno palco perto dali foi o centro da conversa.

— Você gosta do Jaskier, não? — Ele perguntou o óbvio enquanto a via desviar o olhar para o trovador, bastante empolgado ao encerrar a última balada. Ele recebia a atenção de todos, e era bajulado sem restrições, exatamente como gostava.

— Sim, ele é um dos melhores do Norte — Sabini voltou a olhar para o bruxo. Apesar de falar sobre Jaskier, ele sentia que o total interesse dela estava em sua pessoa. — Todos o conhecem, o estilo dele é incomparável — ela sorriu de maneira charmosa. Os cabelos dourados foram jogados para o lado, e os cotovelos tocaram o balcão. — Quem não gostaria, hm? Qual trovador não quer ser como ele?

Ele poderia nomear os bardos que gostariam de matar Jaskier pessoalmente, apenas isso, mas preferiu permanecer quieto quanto ao assunto, pois, realmente haviam muitos que buscavam ser como Julian Alfred Pankratz. E desde a primeira vez em que notara a presença da mulher ao seu lado, ele soube que ela era uma dessas pessoas, que apesar de saberem tanto, não entendiam certos detalhes sobre o melhor amigo do bruxo de Rívia.

— Você não pediu a minha opinião, mas vou dá-la de toda a forma — ele foi direto. O último gole da cerveja foi dado quando a viu sorrir mais uma vez enquanto se aproximava um pouco mais. — Você deveria procurar o seu próprio estilo.

Ele conhecia os detalhes de Jaskier que poucos viam, e notar isso o balançou de uma forma diferente. Os olhos claros e sedutores de Sabini eram tão belos, assim como os cabelos dourados, o corpo e modo de agir e se vestir; sem dúvidas era alguém que o atraía sem precisar de esforços, e este fato tornava tudo ainda pior.

— Por quê? — Ela perguntou, sem demonstrar que havia se ofendido, porém, o bruxo não notou, pois seu olhar seguiu as costas de Jaskier, que subitamente se afastara do público, e sumira nas escadas um pouco distantes dali.

Geralt fechou os olhos por um momento. O pesado suspiro veio quando a mão buscou algumas moedas em seu bolso, e se irritou consigo mesmo. Os olhares se encontraram novamente, e a atração continuava ali, mas com a sensação de que não era o suficiente. Ela falhava em certas partes artísticas, porém, a aparência era impecável, e parecida demais com a do belo trovador que subia as escadas naquele momento com raiva e decepção, e este era o maior problema. Era como se tivesse Jaskier em sua frente, e ainda assim, seu corpo não queria recusá-la por isso, apenas por um detalhe, grande demais e perturbador para o bruxo de Rívia. Você não é ele.

— Porque ele... — Geralt hesitou — é incomparável — as palavras que imitavam as dela saíram com sinceridade, e surpreendeu a trovadora. As moedas foram deixadas sobre o balcão, e o bruxo a olhou novamente. — Boa noite, Sabini Tertone. Eu gostei da sua balada —antes de receber uma resposta, ele deu as costas, mas não se afastou de imediato. O rosto virou, o suficiente para que ela o visse e não o contrário. — Mas não a cante novamente.

Ele havia sido rude, como impediu o bardo de ser, porém, não houve arrependimentos quando seguiu pelo mesmo caminho que Jaskier. Seus sentidos o alertavam de que o amigo não estava bem como alegava, e se mostrou certo com a alteração e falta de coragem para encará-lo.

As botas foram deixadas de lado enquanto o arrependimento não vinha, mas sim a vergonha que só aumentava. O peito estava surpreendentemente agitado, e hesitava enquanto ainda observava as costas tensas cobertas por um grosso cobertor, porém, não resistiu a pelo menos um terço de seus desejos. Geralt se levantou, sentindo o chão frio sob seus pés descalços. A jaqueta de couro foi retirada e jogada sobre a cama, pois não pretendia usá-la naquela noite. Devagar, ele andou até o bardo. Os dedos da mão direita se moveram para cima, e todas as velas do cômodo se apagaram no mesmo momento em que os estralou. A coberta foi levantada, e sem palavra alguma, se deitou ao lado, tocando suas costas com as de Jaskier. Não demorou muito, e o sentiu se agitar.

— Você tem uma cama — a voz soou manhosa, mas sem o tom nervoso de antes, por conta do fraco sorriso que tentava segurar.

— Que não é melhor do que esta.

Jaskier acabou rindo em tom baixo, trazendo um ar menos tenso e mais divertido entre eles.

— É praticamente a mesma.

— Sim, mas você não está na outra.

As duas tinham colchões duros e desconfortáveis, ele queria dizer, porém, assim como a risada, a resposta sumiu rapidamente. O coração acelerou de uma forma nova, e o corpo se aqueceu suavemente. O que Geralt queria dizer com aquela frase tomou vários caminhos na mente do bardo, que fechou os olhos novamente, e não conseguiu evitar um sorriso mais largo desta vez.

— Boa noite, Geralt — ele enfim achou a voz, que soou um pouco frágil demais, o envergonhando, sem saber que havia deixado o bruxo de forma parecida com as simples palavras.

— Boa noite — Geralt sussurrou aliviado. Suas palavras haviam sido espontâneas e despreparadas, e agradeceu internamente pelo bardo não ter tornado aquele momento ainda maior, ou o arrependimento seria demais para aguentar.

Os sentimentos que o perturbavam pareciam novos e bastante enérgicos, fora o que pensou em um primeiro momento, mas quando os olhos fecharam e pôde sentir com certa calma, o bruxo soube que não era exatamente assim, e até mesmo que não permaneceria daquela forma por muito tempo. O que sentia pelo bardo não era novo e evoluía a cada ano passado, isso o assustava, porém, não o suficiente para querer afastá-lo, mas sim para querer Jaskier ainda mais perto.

Notas finais
Oie! A balada que não rima, assim como a Sabini são minhas. Por isso peço que ninguém as use em outras histórias. A balada do Jaskier é da obra original (acho que da pra ver claramente, né kkkk) Espero que tenham gostado do capítulo. Aguardo vcs nos comentários~ Bjs