De Coração
18 Poço dos Corações Quebrados
Notas iniciais
Lucas chegou em casa exausto naquela tarde de quarta-feira. Estava pingando de suor quando empurrou a porta de seu apartamento, os óculos escorregando sobre o nariz por conta do calor horrendo. Estava estressado, cansado, com calor e frustrado, já que teve de cancelar um “encontro” — segundo Kale — com Antony para poder ficar resolvendo as intriguinhas dentro da empresa.
Jogou sua mochila no piso frio, começando a se despir ali mesmo enquanto andava, olhando meio desconfiado pelo cômodo. O notebook de Kale estava sobre a mesa, conectado à câmera e ao celular do surfista.
Aproximou-se devagar, ajeitando os óculos com o indicador enquanto via o que diabos ele estava fazendo. Kale estava executando uma transferência de duzentas e trinta fotos da câmera para o notebook e mais sessenta do seu celular. Crispou os lábios, perguntando-se com que tipo de fotografias ele lotava a memória do computador.
Sentou-se na cadeira, a camiseta encharcada de suor já jogada no chão. Moveu o dedo sobre o mouse, clicando para visualizar as fotos.
Ergueu uma sobrancelha quando viu uma imagem estranha de uma tanajura carregando uma folha.
– Mas é um babaca, mesmo… — Resmungou consigo mesmo, com certa vergonha de ser amigo de alguém como Kale. Pressionou para visualizar a próxima foto, surpreendendo-se de verdade ao se deparar com ninguém mais, ninguém menos que Kai. Seu rosto tinha traços nítidos de surpresa e incredulidade, bem de frente. Era uma foto fofinha, tirada no momento certo. Inclinou a cabeça, sorrindo ao vê-lo daquele ângulo. Continuou sua pesquisa, nada surpreso todas as vezes em que se deparava com um Kai em diversos ângulos, em diversas situações, com diversas feições.
Em uma, ele vestia uma touquinha com galhadas de pelúcia; em outra, tocava um elefante, depois uma ave estranha que ele não conseguiu identificar; em outra, ele agarrava um hipopótamo gigante de pelúcia, depois ele de novo andando sob a sombra de uma árvore, depois tomando milkshake. Eram mais de cem fotos somente com o garoto, um verdadeiro book, onde em todas ele parecia extremamente feliz.
Lucas parou quando viu uma com finalmente os dois. Ambos vestiam a touquinha com as galhadas, abraçadinhos em frente a uma estante cheia de bichinhos de pelúcia. Kale estava com os óculos escuros, rindo enquanto Kai esboçava um sorriso contido, como se não soubesse tirar fotos.
Lucas sorriu também, observando a foto com atenção. Depois, olhou de esguelha para o celular do surfista. Fez uma aposta consigo mesmo: se a tela de bloqueio fosse aquela foto, como previa que fosse, ele iria obrigar Kale a preparar uma limonada para ele. Porém, caso não fosse, ele prepararia uma limonada para o surfista.
Riu satisfeitíssimo quando apertou o botão para ligá-lo, dando de cara com aquelas galhadinhas de pelúcia. Ainda rindo, virou-se quando Kale saiu do banheiro enrolado numa toalha, uma expressão de confusão estampando seu rosto.
– Ah, cê já chegou? — Expressou ao ver o míope sentadinho ali, aproximando-se com uma careta duvidosa. — Aproveita que cê já tá aqui e me responde uma coisa?
Lucas levantou-se, já sabendo que ouviria groselha.
– Até que idade o pênis cresce? — Kale indagou com muita seriedade, coçando a barba. — Porque eu acho que o meu esticou um centímetro, tô falando sério…
– Poxa, parabéns. E agora, você quer o quê? Um cookie, um prêmio ou uma camisinha extra grande? — Lucas sacaneou-o, passando por ele com a maior cara de tédio do mundo, ouvindo-o resmungar, indignado.
– Eu tô falando sério, Lucas! — Kale perseguiu-o quando o míope entrou no quarto, bocejando e começando a vasculhar roupas para dormir. — Mas, me fala aí, quanto mede o seu?
– Ah, não, para – Lucas permaneceu estático, olhando-o de esguelha, uma mão erguida em reprovação. — Pelo amor de todos os deuses, para. – Encerrou a discussão ali mesmo, voltando a se concentrar em achar seus pijamas. — Não tem mais ninguém para você enxuriçar, não? — Tentou despistá-lo, mal-humorado.
Kale fez um bico maior que a cara, jogando-se em sua cama de bruços, sem coragem para fazer nada além daquilo.
– Eu vou assumir que um pênis cresce até os vinte anos, o.k.? — Decidiu por si só, afundando a cara no travesseiro. — Eu te contei o que aconteceu ontem? — Quando Lucas fez um “hm”, Kale prosseguiu: — você estava certo, Lucas. Minha vontade de beijá-lo só cresce. Tenho medo disso me contaminar e eu acabar, de fato, o beijando.
– Seu autocontrole é bom. Se eu fosse você, não me preocuparia com isso — Lucas desprezou a situação, achando sua camiseta limpa. — Aliás, cê tá me devendo uma limonada. — Anunciou com tranquilidade, ignorando o ‘por quê?!’ indignado do surfista. Saiu do quarto quando o telefone começou a tocar, atendendo no quinto toque. — Alô?
– Luquinhas?! — Uma voz rouca e já desgasta se pronunciou do outro lado, parecendo entusiasmada demais para ser verdade.
– Senhor Iwin?! — Lucas exclamou com certa surpresa, feliz por ouvir a voz do seu praticamente “segundo pai”. — Ah, eu não acredito! Quanto tempo!
– Eu quem digo isso! Vocês não me ligam há milênios, seus vagabundos! — Tão dramático quanto o filho, William Iwin exclamou do outro lado da linha, balançando-se preguiçosamente em sua cadeira na orla da praia. — Tava morto de saudades de vocês, seus desgraçados! — Anunciou com muito carinho, mesmo que estivesse os xingando.
Lucas riu, acostumado àquela brusquidão carinhosa. Caminhou tranquilamente até o quarto enquanto papeava com o pai de Kale, feliz por finalmente estar conversando com ele depois de tanto tempo. Sentou-se na beirada da cama do surfista, que o observava de esguelha.
– O inútil do seu filho tá aqui do meu lado… Sim… O.k., eu vou passar para ele. Também fiquei feliz em falar contigo, Will! Até mais! — Despediu-se sorrindo, cutucando Kale com o telefone antes que ele o pegasse.
– E aí, meu velho! — Kale logo cumprimentou-o todo risos, levantando-se só de cueca e indo para a cozinha descalço.
– Velho é o seu passado, moleque, se orienta! — O sermão parecia grosso a ouvidos alheios, mas Kale sabia que seu pai dizia tudo com um grande sorriso no rosto. — Só porque tá em primeiro nessa competiçãozinha mixuruca aí, pensa que pode tirar uma com o seu pai?
Kale riu alto, abrindo a geladeira à procura de limões, prensando o telefone entre seu ombro e o rosto.
– Cê viu como eu fui bem? Pena que o desconto de pontos por falhas técnicas foi um pouco alto, porque senão eu provavelmente teria uma nota perto de dezoito… — Papeou, tirando três limões de dentro da geladeira, fechando a porta com o pé e depositando as frutas na pia.
– E eu também acho que eles descontam pontos por você surfar só de cueca, filho — gracejou, fazendo o surfista rir encolhido, um pouco embaraçado enquanto lavava as frutas sob a água corrente. — Sérião, Kale, o Havaí inteiro viu essa sua bunda branca. Sabe como estão me chamando por aqui? William pai de pé-de-cabra.
A gargalhada estrondosa de Kale invadiu o edifício inteiro, assustando pombos que estavam sobre a calha do prédio. Lucas censurou-o do quarto enquanto o surfista mordia os lábios, tentando conter a risada. Kale tirou uma faca da gaveta, ouvindo seu pai também gargalhando — igualmente estrondoso — do outro lado.
– Porra, pai, não pensa assim… — Kale começou, cortando no meio as frutas, deixando seis pedaços sobre o mármore. — Seria pior se você fosse chamado de “William pai de ‘brinquedo nanotecnológico’– gracejou, arrastando o liquidificador para perto de si, rindo juntamente com o seu pai, novamente.
– Ah, o.k., você ganhou! — Ele riu do outro lado, ajeitando-se melhor na cadeira. — Mas, me conta aí, cê tá usando esse pé-de-cabra para conquistar as mocinhas de Honolulu?
– Sim, tanto quanto o Lucas — fez uma careta ao se imaginar com alguém senão Kai.
– Engraçadinho – Will crispou os lábios, sabendo da sexualidade de ambos. — Mas pelo menos você está sendo correspondido? — Perguntou com genuína curiosidade, querendo apenas o bem dele. — Ou você tá tentando com algum homem normal? — Aquilo poderia soar ofensivo a ouvidos alheios, mas William já era velho e não entendia absolutamente nada de sexualidade.
Se esforçava para compreender, aceitando e auxiliando Kale e Lucas da melhor forma que podia, tentando ficar longe dos preconceitos — e, de fato, ele conseguia. Mas havia alguns conceitos que mesmo sendo explicados a ele, Will não os entendia.
Kale revirou os olhos, jogando os limões dentro do liquidificador junto com água, um pouco de leite, açúcar e gelo.
– Pai, ‘normal’ não é o termo correto, eu já disse isso pra você, não disse? Mas, sim, infelizmente eu caí nas garras da heterossexualidade — grunhiu, fechando o liquidificador e ligando-o, contando mentalmente até sete, vendo todos os ingredientes rodopiando velozmente. Se batesse demais, a limonada iria ficar azeda. Desligou quando chegou no número primo, vendo aquela gororoba dentro do eletrodoméstico.
– Você é burro, Kale? — Seu pai censurou-o, balançando a cabeça. — É para você se envolver com gente que gosta do que você gosta!
– Eu sei, pai! Eu sei, sério, juro que eu sei. Mas não dá para simplesmente controlar isso. É maior que eu. E eu não sou racional que nem o Lucas, eu sou burro e me entrego, e quando eu vi, já tô afundado no poço dos corações quebrados. — Resmungou, tirando da gaveta o coador e pegando do escorredor de louças um copo. — E, pode me chamar de louco, mas eu realmente não me importo de estar nesse lugar. Até gosto, desde que eu esteja perto… Você sabe, desse cara. — Confessou, posicionando o coador sobre o copo e despejando o conteúdo do liquidificador dentro dele.
A limonada de Kale estava no ponto certo. O leite havia formado uma espuminha deliciosa nas bordas, sem estar doce demais e nem azedo demais. Colocou um canudinho de adorno enquanto ouvia de seu pai sermões sobre como ele deveria aprender a parar de ser burro e se apaixonar por alguém que, no mínimo, gostasse dele da mesma forma.
Kale foi para o quarto devagarzinho, segurando o copo enquanto discutia com o seu pai. Sentou-se na borda da cama de Lucas, que estava deitado de bruços, parecendo dormir. Colocou o copo gélido sobre suas costas nuas, fazendo-o despertar, assustado.
– Tó, sua limonada — deu a ele, praticamente esfregando o copo em sua cara. — Mas, enfim, pai, vamos mudar de tópico, conversar sobre isso me dá nos nervos — tentou mudar de assunto, apoiando suas costas nas pernas distendidas do míope, que, sentadinho sobre o colchão, tomava calma e relaxadamente sua limonada.
– O.k., sem problemas… Quando é a segunda parte da competição?
Kale repetiu a pergunta para Lucas, já que não fazia ideia de quando seria.
– Sábado — disse ao pai quando o míope lhe respondeu.
– Cê não tá a fim de vir aqui amanhã e voltar sexta à noite? — Sugeriu, repleto de saudades. — Chama o Luquinhas, também.
Kale arqueou as sobrancelhas, feliz pela ideia.
– Claro, pai! Achei uma boa… — Olhou para Lucas, mas soube que ele não aceitaria ir, já que tinha trabalho e o lado funcional do seu cérebro, o pervertido, avisou-o que provavelmente Lucas usaria aqueles dias sem ele no apartamento para chamar Tony. — E o Lucas não vai poder ir, meu velho. Ele tem trabalho – disse fazendo uma careta de deboche, levando um chute no ombro. Riu, rolando de lado na cama. — Mas eu vou, sim. Talvez eu convide o garoto que tá me deixando no poço dos corações quebrados.
– Você é idiota? — Foi a única coisa que Will conseguiu dizer perante àquilo.
***
Depois de muita conversa, risadas e medições penianas com o seu pai, Kale estava muito mais do que agitado. Conseguiu, como sempre, tirar Lucas de seu quadradinho antissocial, convidando-o para tomar sorvete no Aloha Coffee — na realidade, ele sabia que no fundo só fazia isso porque passavam das seis e cinquenta da tarde e com certeza Kai estaria lá, como era habitual.
– Por que você não convida o Tony? — Kale sugeriu enquanto vestia uma camisa social branca, deixando três botões abertos e dobrando as mangas até os cotovelos. — Vocês iriam sair hoje, não?
– Não fica estranho eu convidá-lo para sair depois de ter cancelado um… — Lucas tentou dizer, mas freou perante à expressão maliciosa de Kale. — Ah, o.k., foda-se, depois de ter cancelado um encontro? — Usou a palavra, despertando em Kale um ‘positivo’ e um ‘muito bem!’.
– Não, porra. Ele não é burro, é só você explicar — simplificou a situação, apoiando a sola do tênis no encosto da cadeira, amarrando-o. — E eu tenho a leve impressão de que quando chegarmos lá, já estarei cheirando feito um cachorro morto — grunhiu consigo mesmo, pressentindo que Kai iria muito provavelmente chamá-lo de porco.
Lucas riu daquilo, aparecendo na porta do quarto enquanto digitava a Antony, meio nervoso, meio tímido. Sempre fora inseguro, isso era uma característica que não iria sair de si tão cedo, ele sabia. E, apesar de todos os sinais estarem praticamente jogados em sua cara, ele ainda insistia em ficar preocupado.
Nem que seja com algo mínimo, ele arranjava uma desculpa e ficava com a pulga atrás da orelha, sentindo que a qualquer instante ele iria dizer ou fazer algo que iria estragar tudo.
Por isso, suspirou completamente aliviado quando Antony lhe mandou um:
“O.k.”
E, logo em seguida, muito provavelmente sendo obra de Nicholas, recebeu uma sequência de emojis desconexos. Riu, guardando o celular no bolso e seguindo Kale, que já havia aberto a porta.
– Mas, me fala aí… — O surfista começou, destrancando o portão e pisando na calçada quente. O céu já se pintava de azul escuro, a lua brilhando potente bem acima deles. — O que vocês têm… É só sexo, ou, sei lá, você tá gostando dele?
– Nunca é só sexo para mim, você sabe disso… — Lucas encolheu os ombros, ouvindo o baque surdo que Kale deu no portão para fechá-lo, começando a andar. — Mas, eu não sei… Não sei se eu gosto dele.
– Por quê? Você tem medo? — Kale pressupôs, baseando-se no histórico emocional completamente fracassado do amigo.
Lucas foi pego de surpresa pela pergunta. Ergueu a cabeça rápido, encarando-o com as sobrancelhas erguidas, como se não soubesse o que dizer, ao certo. Ficou o caminho inteiro até o café pensando arduamente no assunto, ignorando a noite animada de Honolulu.
Tudo estava claro, quente, colorido. Era como se ainda fosse de dia, com um cheiro de comida, música e dançarinas de hula pelos cantos. Parecia que a cidade nunca dormia, sempre agitada e coloridamente bela. Chegaram na lanchonete depois de dez minutos e, mesmo àquele horário, ela estava lotada.
Luana andava de um lado para o outro, exausta e devagar — seu turno estava acabando, por isso não tinha sentido em andar rápido. Sorriu para os dois quando eles entraram na lanchonete, aproveitando para anotar os pedidos de seus sorvetes — quatro bolas de chocolate com cobertura de morango para o Kale, e três bolas, duas de creme e uma de morango, para Lucas, com cobertura de mel.
Correu em direção à cozinha, os saltos de dez centímetros batendo fortemente contra o chão, produzindo um som alto. Lucas fez uma careta com o tamanho daquele sapato, pensando o quão difícil era usar um daqueles. Quando virou-se para olhar para Kale, percebeu que ele havia sumido entre a multidão do café, por isso focou seus olhos no banco azul.
Revirou os olhos ao vê-lo praticamente jogado sobre o pobre Kai, que, assustado com a aproximação repentina, quase pulou.
– Ele dá muita pinta — resmungou consigo mesmo, aproximando-se calmamente dos dois. Sentou-se de frente para eles, sorrindo quando Kai cumprimentou-o, tentando se desvincilhar do abraço do surfista. — Oi, Kai… — E revirou os olhos com a demonstração de afeto de Kale. — Você quer que eu chute esse panaca para longe de você?
– Eu acho que só chutá-lo não resolverá o problema… — Kai tentou brincar, mas Lucas percebeu sua risada nervosa. O garoto estava todo tenso, muito acima de surpreso, como se ter Kale perto dele, ali, naquele instante, fosse algo que o incomodava profundamente.
Estreitou os olhos, tentando lê-lo melhor, mas o surfista dificultava tudo, já que todos os seres racionais ficariam aflitos ao serem apertados e espremidos por ele, um perfeito grude babão.
Mas estava além, ele percebeu. Teve mesmo vontade de indagar na cara dura o que estava acontecendo, mas conteve-se fortemente, usando o cérebro e não bancando de Kale.
No lugar de se concentrar em ver o que estava acontecendo com Kai, sorriu para Luana, que vinha com dois potes gigantes de sorvete na mão e no antebraço direito, e, na mão esquerda, uma jarra com café.
Acomodou-se ao lado de Lucas, colocando os respectivos pedidos na frente deles, enchendo a xícara vazia de Kai com café, aproveitando o fim do seu período. Kale largou o garoto quase que instantaneamente, ficando mais comportado ao lado dele enquanto enchia sua colher com sorvete de chocolate, oferecendo com a boca cheia para Luana e Kai, que negaram educadamente.
– Ai, meu Deus, eu tô morta! — Reclamou a garçonete, abaixando-se e retirando seus saltos, chutando-os para embaixo do banco, dando um longo suspiro e apoiando as costas no estofado azul, cansada e com os pezinhos marcados. — Sábado, cadê você? — Indagou para o teto, erguendo ambas as mãos, para apenas deixá-las caírem sobre o colo. — Eu tô considerando fortemente pedir para o Manu me levar pra casa no colo dele, sérião.
– Tipo recém-casados? — O sorriso torto de Kai acompanhou aquela frase, sumindo atrás da xícara. Riu quando sentiu o chute de Luana.
– Muito engraçadinho, Kai. — Resmungou, olhando de esguelha para Lucas, que parecia perdido no sorvete, lambendo a colher de um jeito distraído. — Mas, e aí, Lucas, quais são as novidades? — Indagou de um jeito simpático, colocando a mão pequena sobre o ombro do míope, que acordou do transe em que estava inserido.
– Ah! As novidades? Bom, não há muitas, na realidade — riu, afetado pela simpatia de Luana, que era espontaneamente gentil, muito diferente dele. — Mas eu tô feliz, já que esse panacão vai para Big Island — riu, olhando para Kale, que devorava o sorvete como um morto de fome. — Uns dias sem ele me enchendo o saco é tipo o Paraíso — falou de forma sincera, rindo quando o surfista lhe olhou indignadamente.
– Hey! — Kale pareceu ofendidíssimo, erguendo a colher e apontando para ele. — Eu vou ir amanhã e voltar sexta, que grande tempo, hein? Só por causa disso eu não vou lhe trazer lembrança! — Emburrado, decidiu, enfiando outra colherada na boca.
– V-você vai para Big Island? — Kai indagou, meio surpreso, contorcendo a barra de sua camiseta, parecendo tenso.
– Aham — Kale somente concordou quando, num lampejo de, no seu ponto de vista, mais pura genialidade, virou-se para Kai, agarrando-o pelos ombros com as mãos gélidas. — Falando nisso, você tá a fim de vir comigo?! — A ideia lhe pareceu estupenda:
Kai conhecendo seu pai, comendo açaí sentadinho na areia, perto da casa na praia de seu velho, o céu límpido e maravilhoso recolhendo-os enquanto desfrutavam da praia mais linda de todo o arquipélago. Iriam, além de andar de avião, andar de moto (coisa que sabia fazer, impressionantemente), tentar surfar novamente e, já imaginando a cena, pedindo a seu pai para que fizesse uma prancha especial para ele.
Era perfeito.
E coisas perfeitas, em seu ponto de vista, não podiam, nunquinha, serem desprezadas.
Kai foi alvo da excitação incomum de Kale, novamente. Suas ideias desfuncionais atingiam-no como uma metralhadora, não lhe dando espaço algum para respondê-lo apropriadamente. Tudo o que fez foi ouvir com atenção, a cabeça a mil, muito quieto, sentindo as mãos rijas e gélidas agarradas aos seus bíceps, obrigando-o a, pelo menos, ficar na mesma direção que ele, praticamente chacoalhando-o.
– Hã… Kale, eu realmente não sei… — Tentava dizer, incerto sobre o que poderia acontecer consigo mesmo caso embarcasse num avião com Kale Iwin.
Se já estava louco só por ficar ao lado dele menos de doze horas diárias, o que diabos iria acontecer com a sua sanidade caso passasse praticamente dois dias na casa dele?! Iria morrer pensando asneiras!
Kale obviamente não percebeu a incerteza e hesitação de Kai, feliz demais com a sua própria ideia para perceber. Já Lucas… Quase socou o amigo, compreendendo totalmente o que se passava ali.
– Kale… — Tentou argumentar, esticando a mão para tocá-lo. — Isso é…
– UMA ÓTIMA IDEIA! — Luana irrompeu de repente, animada demais para controlar a voz, que passou despercebida em relação ao barulho do café. Inclinou-se no banco, assustando aos três, quase sentando-se sobre a mesa. — É genial, Kale! Eu sempre quis ir para Big Island! Dizem que lá vendem a melhor água de coco do estado! — Disse, dando tapinhas gentis nas costas de Kai. — Pelo amor de Deus, Kai, vá! Se seus pais não deixarem, eu e o Manu iremos falar com eles, o.k.?! — Começou a tagarelar animadamente, sendo acompanhada por Kale. — Ai, lá deve ser maravilhoso! Fico imaginando a Raibow Falls e Puna! Por Rangi, deve ser magnífico! — Ela suspirou, apoiando o queixo em ambas as mãos.
– Puna é um dos distritos mais lindos de Big Island, isso é verdade, mas nada se compara a Hilo, Luana. A capital é fantástica, quero muito levar o Kai para lá, principalmente para conhecer as avenidas que passam sob as árvores, que formam arcos naturais. É incrível — resumiu tudo, muito animado com a ideia.
Kai estava perplexo. Simplesmente não teve voz para se erguer e dizer “não, eu não quero ir”, porque a animação dos dois estava atingindo-o como um jato de felicidade momentânea que ele não conseguia escapar.
Apertou a asa da xícara, sabendo que acabara de ganhar uma passagem para Big Island. Não se pronunciou mais, permanecendo quieto e mergulhado em devaneios. Ouvia a conversa ao seu redor, assim como o jukebox, que tocava Beatles, o som da porta ao ser aberta, o óleo fritando na cozinha, o som do sapato das pessoas andando de um lado para o outro, a maré alta do outro lado da praia, a buzina dos carros… Tudo isso o distraía das complicações psicológicas que deveria enfrentar no dia seguinte.
Porém, acordou quando ouviu Kale rangendo os dentes do seu lado, parecendo nervoso com alguma coisa. Também percebeu quando a atenção de todos que estavam na mesa concentraram-se num único ponto.
Lucas inspirou fundo, pedindo por paciência quando a dupla aterrorizante de homos entrou no estabelecimento. Troye mantinha consigo aquela pose arrogante e relaxada de sempre, com Brandon a seu encalço, a carranca pendurada na cara.
– Eu tava mesmo ficando de bom humor, né… — Lucas resmungou para Kale, que fechou o punho, franzindo as sobrancelhas.
– Se esse maldito vier com papinho preconceituoso, Lucas, juro por Deus que eu não vou responder por mim — disse entre dentes, acompanhando quando Troye os viu, sorrindo cinicamente de lado como se tivesse ganho na loteria.
– Pelo amor de Deus, não, fica calmo — Lucas tentou apaziguá-lo, ciente que Troye, apesar de ser um malditinho que merecia uns tabefes, era acompanhado por um rapaz mais forte que eles. — Pensa, Kale. Você dá um soco no Troye, recebe um do Brandon.
– Quem vai socar quem?! — Luana e Kai indagaram ao mesmo tempo, alarmados e sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo.
Kale permaneceu com os olhos cerrados quando Troye aproximou-se, rindo para Lucas, que olhou-o com tédio.
– Eu não sabia que o Aloha se tornou um café gay — importunou-o, olhando de esguelha para Brandon, que apenas encarava a situação sem mover um músculo.
Kai não precisou de dois segundos para compreender a situação inteira. E, ajeitando-se ao banco, não mordeu a língua:
– Sim, é por isso que você está aqui esta noite. — Soltou antes que alguém dissesse alguma coisa, erguendo o queixo na direção da voz que soltava comentários homofóbicos, cruzando os braços sobre o peito e tentando passar uma pose confiante.
Kale desfez toda a pose marrenta, mordendo os lábios e tentando conter a risada que quis soltar, forçando as sobrancelhas a se juntarem novamente, numa careta cômica.
Troye não se abalou; muito pelo contrário, avaliou Kai de cima, tentando se lembrar de onde o conhecia, porque, sim, o conhecia de algum canto. Sorriu torto quando se lembrou.
– Wow, Lucas, eu não sabia que você recrutava anormais para proteger essa sua cara. Ah, imagino a mãe desse moleque: além de ter um filho cego, ainda por cima tem um filho bich- — Troye iria continuar. Óbvio que ele iria continuar com toda aquela falação preconceituosa, é a coisa que ele mais fazia na sua existência.
Mas, a partir do momento em que ele chamou Kai de anormal na frente de Kale, ele não somente causou uma faísca.
Ele causou uma explosão.
A mesma pessoa que naquela manhã estava rindo sozinha com vídeos de gatinhos no Youtube, estava, naquele exato instante, muito mais do que furiosa. Kale ergueu-se de ímpeto, as mãos voando na direção do colarinho de Troye, puxando-o para perto de si enquanto o erguia alguns poucos centímetros do chão com a mesma força que usaria para socá-lo.
– Que porra que você disse?! — Kale quase gritou, mas seu tom de voz estava rouco, como se estivesse engasgado com um gole de ódio que havia tomado há instantes. Muita gente percebeu, parando de repente, boquiaberta. Luana levantou-se naquele instante, desesperada, e, utilizando-se de seu tamanho pequenino, esgueirou-se sem ninguém perceber por detrás deles, correndo descalça pelo café.
Brandou agiu naquele instante, percebendo em que lençóis havia se metido. Era sempre assim, desde que se lembrava. Troye era o bocudo que arranjava briga e ele era a pessoa que tentava resolver tudo, e, juntos, voltavam ensanguentados para casa. Espalmou a mão esquerda no peito de Kale, afastando-o com um empurrão forte o suficiente para fazê-lo se desequilibrar por um instante, sendo amparado por Lucas, que havia se erguido.
O surfista avançou em Brandon, nada intimidado, disposto a acabar primeiro com ele e, depois, socar Troye o suficiente para que ele se esquecesse do próprio nome. Lucas apertou-o no ombro, puxando-o para trás antes que uma confusão maior acontecesse, empurrando Troye levemente para trás, evitando maior contato.
– Tira essa sua mão de mim, sua bicha! — O garoto lhe deu um tapa doído nos dedos, afastando-o com genuíno repúdio no olhar, ódio manifestando-se por suas veias ao vê-lo tão perto de si. Desejou do seu âmago que Lucas morresse, desaparecesse do universo, que sua existência, por ser tão errada e repudiada, sumisse como fumaça pelo ar, nunca mais entrando em seu caminho. Encarou Lucas com o olhar carregado de tudo isso que se passava em sua alma, conseguindo transmitir perfeitamente, escurecendo o azul de suas íris.
Troye teria avançado no míope se a situação não perdesse o controle naquele instante. Em ângulo diagonal, uma faca com a lâmina do tamanho da cabeça de Kale perpassou pelos quatro num lampejo de segundos, assustando-os a ponto de irem para trás. E, completamente aterrorizados, observaram quando ela se fincou numa profundidade de três centímetros na mesa de madeira, tremulando levemente.
O café inteiro estava silencioso. O único que ousava emitir som era o jukebox, num embalo agitado de “And I Love Her”. Por conta de todo aquele silêncio, foi fácil a voz de Manu ser ouvida por todos:
– Mas que merda é essa? — Respeitou a clientela infantil ao suavizar nos palavrões, mas a sua real vontade era mesmo de gritar um belo “que porra que tá acontecendo?!”.
A começar, odiava ver Luana assustada e ou chorando, e a primeira coisa que viu há dois minutos foi a garota entrando chorando e assustada na cozinha, apontando para fora e falando desconexadamente, os olhos úmidos e a boca mole.
Em segundo lugar, quando saiu para ver o que infernos estava acontecendo, deu de cara com um Kai encolhido no banco e quatro marmanjos babacas atrapalhando a clientela.
Realmente, um péssimo dia para ter acordado.
Sentiu quando as mãozinhas de Luana o tocaram na cintura, e ela, ficando na pontinha dos pés, sussurrou um resumo de cinco segundos do que estava acontecendo.
“Homofobia”, foi a palavra-chave. Inspirou fundo, pensando num universo paralelo onde as únicas pessoas que existiam eram aquelas que ele amava, por isso se acalmou instantaneamente, não cometendo uma loucura. Achava ridículo o fato de que, em pleno século XXI, deveria se preocupar em brigar com pessoas que não aceitam amor mútuo.
– Você é o babaca que cuspiu no pé de um competidor homossexual naquela competição de merda, não foi? — Dirigiu-se a Troye, que mantinha os olhos presos nele. Manu aproximou-se devagar, estralando os ombros numa pose prepotente. — Eu não vou me dar ao trabalho de indagar o porquê de alguém como você estar aqui, atrapalhando a paz alheia. Só vou pedir para que você e esse seu amiguinho mandado se retirem antes que eu perca a paciência e os chute até a saída — ‘pediu’ com falsa educação, dando um passo para o lado enquanto ainda os encarava. Permanecia com os olhos semicerrados de forma animalesca, como se a qualquer momento pudesse explodir e socá-los.
Pronto. Bastou um segundo de um Manu furioso, e tudo se acalmou.
Brandon não se pronunciou, sendo lógico e percebendo que, apesar de ser forte, Manu era muito mais e poderia de fato acabar chutando-os até a saída. Não olhou para trás; apenas começou a andar, enfiando a mão no bolso e, quando saiu, colocou um cigarro na boca, acendendo-o. Olhou de esguelha quando Troye também saiu, rindo cinicamente, nada abalado com a situação.
– São um bando de cuzões viadinhos — concluiu, olhando para Brandon. — Dá um aí — pediu, aceitando de bom grado o cigarro, tragando quando foi aceso por Brandon.
Manu permaneceu encarando-os, alheio às palmas e assobios que eram direcionadas a ele. Aproximou-se da mesa, não olhando para Kale e Lucas, pegando a faca que havia atirado e arrancando-a da madeira com uma grande facilidade, girando-a na mão.
– Ow, cara, valeu mesmo — Kale agradeceu, sentando-se com um suspiro. — Eu iria perder a cabeça com eles.
– Se for para agradecer alguém, agradeça a Luana, porque por mim eu continuaria fazendo meu trabalho — curto e grosso, respondeu-o, avaliando-os e verificando que estavam bem. Andou pelo piso xadrez, girando a faca na mão, abrindo a porta da cozinha e dando de cara com uma Luana encolhida sobre a pia, o rosto afundado nas pernas.
– Que isso? — Manu sorriu pela primeira vez naquele dia, achando-a engraçada por estar toda encolhidinha num local inapropriado. Guardou a faca na gaveta, aproximando-se dela. — O que foi, Lua?
– Você viu como o Troye encarava o Lucas? — Ela sussurrou, triste de verdade.
– Olha pra mim — Manu agarrou-a pelas pernas, puxando-as para baixo com delicadeza, obrigando-a a encará-lo. O cozinheiro inclinou-se para conseguir olhá-la nos olhos, apoiando ambas as mãos do lado de seu quadril. Ergueu uma sobrancelha ao vê-la com os olhos marejados e produzindo um bico enorme. — Você tá de novo absorvendo para si e chorando a dor dos outros?
– Desculpa, e-eu não consigo evitar… — Admitiu, limpando o nariz com as costas da mão. — E-ele o olhava com tanto ódio, Manu… Ódio de verdade, como se quisesse que ele morresse. E por quê?
Manu inspirou fundo, limpando com o polegar uma lágrima que passava por sua bochecha.
– Eu já disse para você que o passatempo preferido das pessoas é odiar por odiar, não disse? — Começou, passando os braços ao redor dela para abraçá-la. — É mais fácil odiar, Lua. — Resumiu a situação, acariciando os longos cachos cor de ébano. Afastou-se dela devagarzinho, vendo-a fungar. — Sabe o que você merece neste exato instante? Uma haupia – disse, afastando-se levemente.
Uma haupia era uma sobremesa tradicionalmente havaiana à base de leite de coco. Era deliciosa, e, se feita por Manu, queria dizer: “eu vou acrescentar tudo o que você mais gosta nessa haupia e fazer um sanduíche calórico irresistível.”
– Ah, não, Manu! — Luana exclamou, boquiaberta quando ele tirou da geladeira uma bandeja cheia dos doces quadrados, botando-a sobre a pia. Logo em seguida, ele tirou uma latinha de Coca, chocolate, morango, amoras e framboesas, deixando tudo ao lado do doce. — Sério que você vai colocar chocolate?
– Aham — respondeu ele, sorrindo, pegando uma faca e cortando todos os ingredientes, abrindo a latinha e despejando numa panela grande. Jogou as frutas dentro do refrigerante, botando tudo no fogo por alguns instantes. Ele já havia feito aquilo antes, misturando ingredientes na Coca-Cola para ver o resultado, aprovando todas as tentativas e misturas.
Luana fechou os olhos quando ele começou a enfeitar o doce. Cortou um pedaço enorme de chocolate, botando sobre o pudinzinho de coco, logo em seguida derramando a calda doce e borbulhante, que cheirava tão bem que Luana quis morrer.
– Vai, abre a boca — disse ele, pegando um pedaço com uma colher, aproximando-a de seus lábios.
– Não – Lua resistiu, forte, inclinando-se para trás à medida que ia sentindo o aroma devastador da sobremesa. Quando a colher tocou seus lábios, não resistiu. Abocanhou como se não comesse há meses, gemendo em deleite ao experimentar. — Você deveria ser processado por acabar com dietas — disse de boca cheia, pegando o pratinho e começando a devorar a haupia inteira.
– Na realidade, eu deveria ganhar um Nobel por fazer garotas desmioladas pararem com dietas sem sentido — disse muito sério, mesmo que estivesse brincando.
Luana riu, a colher ainda na boca. Lhe deu uma leve cotovelada, inclinando-se na sua direção.
– Obrigada por fazer isso por mim, Manu. Te amo, sabia? — E sorriu, muito sincera.
Claro que ele sabia.
Quer dizer, ele sabia que ela o amava, mas não da forma que ele queria que ela o amasse. Era complexo, mas não menos doloroso.
– Meu Deus, vocês ainda estão aqui? — Alena entrou de repente na cozinha, surpresa por vê-los mesmo após o expediente ter encerrado. — Vocês são desatarefados ou o quê? Vão para casa, Mathias já chegou há éons, mas tá lá papeando com uma cliente — e revirou os olhos, andando até o freezer, reclamando do cozinheiro do turno da noite. — Deuses, o que foi aquela treta agora? Eu pensei mesmo que você iria matá-los, Manu!
Alena iria continuar papeando para sempre, mas Luana, antecipando isso, apenas concordou, oferecendo e deixando um pedacinho de sua haupia para sua amiga, descendo da pia e puxando Manu pelo pulso para fora dali. Ao abrir o balcão, quase derreteu ao olhar para fora do café e ver Lucas conversando com um rapaz louro e mais alto.
– Eu não sabia que ele tinha namorado — sussurrou ela para Manu, que apenas ergueu uma sobrancelha.
– Eles só estão conversando – descartou a possibilidade.
– Naah, eles se olham como se estivessem apaixonados. Acredita em mim, eu consigo perceber quando uma pessoa tá apaixonada.
– Ah, sério? — Manu gracejou, desta vez não escondendo o grande sorriso.
Luana parecia indignada. Virou-se para ele com ambas as mãos na cintura, parecendo uma pulguinha incrédula.
– Sim, sério! Por quê? — Ergueu o queixo, tentando parecer confiante. — Eu posso muito bem trabalhar com isso, se eu quiser.
– Você ia morrer de fome — curto e muitíssimo grosso, respondeu o cozinheiro, passando por ela e andando até Mathias, retirando o avental e jogando nele, não se importando se ele flertava com uma moça ou sei lá o quê. — O Kai vai ficar, né? — Perguntou à garota quando voltou a ficar perto dela, já que ela havia ido se despedir de Kai e buscar seus saltos perdidos.
– Sim — respondeu, saindo do estabelecimento assim que mais clientes entraram, seguida por Manu.
Fazia muito tempo desde que eles não saíam juntos, apenas os dois — não que Kai fosse um problema, muito pelo contrário; o amavam profundamente, mas existia certos assuntos que evitavam conversar perto dele, como pagamento de aluguel, pagamento, décimo terceiro e um monte de outra coisa chata.
Botaram a conversa em dia, rindo juntos e até mesmo combinando de fazer uma vaquinha para comprar o presente de aniversário de Kai daquele ano, também topando em fazer uma maratona de The Walking Dead, mesmo que Luana odiasse, junto com Kai, séries de terror.
Mesmo que inconscientemente, Luana e Manu tinham seus corações interligados. Já não possuíam um único batendo em cada respectivo peito; quebrado ao meio, dividiam metades. Não era apenas uma amizade de quinze anos, eles sabiam e, acima de tudo, temiam isso.
Temiam porque Luana era prometida a um rapaz que nunca conheceu desde que nascera — talvez fosse surreal demais, mas a aliança de ouro branco enterrada no fundo de sua gaveta a lembrava, todos os dias, que não, era realmente a sua realidade e ela definitivamente não estava sonhando.
Em algum ponto de sua vida, iria se casar com um completo estranho por conta de uma tradição estúpida de família. Aconteceu o mesmo com seus pais, com seus avós, bisavós e tataravós, e o mesmo iria se repetir com seus filhos, netos e bisnetos.
E tudo por causa de um maldito pedaço de terra.
Era a sua maldição pessoal.
Por exatamente esses motivos, Lua tentava retirar de seu peito todo aquele sentimento sufocado e aprisionado, sofrendo quieta com toda aquela opressão silenciosa que recaía a ela.
Corações iguais a este jamais serão remendados novamente.
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