De Coração
19 Big Island I - Exceções
Notas iniciais
Kai se sentia como um soldado de dezoito anos partindo para a Segunda Guerra Mundial.
Sua mãe chorava num canto da sala, baixinho, enquanto seu pai tentava acalmá-la com cochichos suaves de ‘tudo irá ficar bem’. Kale, pela segunda vez naquela semana, estava na casa dos Mason. Apesar do choro de Elizabeth, o surfista sorria.
– Você não precisa se preocupar, Eliza, eu vou cuidar muito bem do Kai — garantiu, virando-se na direção do garoto, que o esperava com sua bengala perto da porta. — Prometo que irei fazê-lo te ligar assim que chegarmos, quando formos dormir e amanhã de manhã, o.k.?
Kai revirou os olhos, desejando que sua mãe parasse de tratá-lo como uma criança da quarta série. Mal se despediu dos pais, apertando o botão do térreo com pressa no elevador, ouvindo com certa indignação a fala de Kale:
– Você não deveria tratar sua mãe deste jeito, Kai.
– Eu vou parar de tratá-la ‘assim’ quando ela me parar de me tratar assim– resmungou, andando quando o elevador abriu.
Kale estralou a língua, sabendo que havia tocado num ponto sensível. Andou rápido, alcançando-o, envolvendo-o pelo pescoço e apertando-o bem contra si.
– Ah, para, não fica bravo comigo. Vamos nos divertir muito, eu te prometo! — Tentou animá-lo, chacoalhando-o de forma entusiasmada.
– Kale, são quatro e meia da manhã. Eu tô morrendo de sono e, consequentemente, tô mal-humorado. Você me puxou para essa viagem, arque com as consequências. — Resmungou, ajeitando os óculos escuros que às vezes utilizava para disfarçar a cegueira ou as olheiras.
– Why ya gotta be so ruuude? — Cantou, rindo ainda mais ao ver a sua expressão de ‘eu não mereço isso’. — Don’t ya know I’m human tooooo? – Fez questão de repetir o refrão o caminho inteiro até a entrada do prédio, esperando por uns cinco minutos pelo táxi que solicitaram.
– Pelo amor de Deus, para – pediu quase implorando, afastando-se dele um passo.
– I’m gonna marry her anyway! Marry that girrrl, yeah, marry her anyway, marry that girrrl, no matter what ya saay, marry that girrrl, and we’ll be a family! Why ya gotta be so ruuuude? – Continuou importunando-o, feliz mesmo após ter acordado às três e meia da manhã em plena quinta-feira, esperando um táxi no friozinho da madrugada.
Só parou e riu quando o táxi chegou, logo destravando as portas, muito iluminado e com um motorista aparentemente nada psicopata (no ponto de vista de Kale, a maioria dos taxistas queriam levá-lo a um beco escuro e nunca mais devolvê-lo ao mundo normal).
– Aloha! – Cumprimentou-os com um grande sorriso, virando-se para trás para encará-los. — Como vão nesta madrugada?
– Cansados e sonolentos.
– Bem, obrigado, e o senhor? — Responderam ao mesmo tempo, suas vozes embaralhando-se.
O taxista riu, preferindo indagá-los aonde eles iriam. Depois que a palavra ‘aeroporto’ fora registrada em seu cérebro, concentrou-se em seu trabalho, ligando a rádio no canal mais surfista dos Estados Unidos. Kale só faltou gargalhar quando ouviu “Rude” tocando, cutucando Kai na cintura, que apenas esboçou uma careta e acomodou-se melhor no banco, fechando os olhos, preparando-se para tirar um cochilo até chegarem.
Kale retirou a mochila que mantinha nas costas, socando-a do seu lado junto com a mochila de Kai, afundando-se no banco e circundando as costas do garoto, puxando-o para si. Acomodou-o sem problemas em seu colo, ouvindo-o ressonar no instante seguinte, dormindo feito uma pedra.
– Cara, ele dorme tão rápido que eu fico realmente assustado — confessou ao motorista, que observou-o de relance pelo retrovisor. — E o pior de tudo é que podem jogá-lo no meio do mato, ele vai dormir sem problema nenhum.
O taxista sorriu, as mãos bem presas ao volante.
– Há quanto tempo estão juntos? — Perguntou, obviamente referindo-se a eles como um casal.
– Ah, não, nós não estamos juntos… — Uma parte ridícula de si gritou um ‘ainda!’, mas decidiu sufocá-la em algum canto que não utilizava.
– Puts, sério? Me desculpe, não quis ofendê-lo, é que a forma como vocês agem… Pensei errado.
Se Kale já estava feliz naquela manhã, aquilo foi o estupor. Uma pessoa disse que eles pareciam um casal. Não era nada ruim, em seu ponto de vista, na realidade era excelente – sabia que provavelmente Kai não tinha a mesma noção de excelente que ele, mas Kai não tinha noção de nada, então preferiu pensar daquela forma (ou aquilo era apenas uma justificativa besta para seus pensamentos).
***
– Como assim você não tem a porra do lápis 2B? — Troye Owen soou realmente indignado, olhando em volta. — Isso aqui não é uma papelaria? Essa merda tem pra vender até caneca e não tem uma porcaria de um lápis?! — Quando a moça da recepção deu de ombros, como se fosse incapaz de lhe dar uma resposta, suspirou, girando os calcanhares e saindo daquela espelunca. – Tá foda hoje, Brandon. Foda, viu. O aniversário daquela malditinha tá chegando e eu não acabei aquela porra de desenho. — Reclamou sobre seus problemas ao garoto, que apenas olhou-o de esguelha, acompanhando o passo apressado.
– Ela não irá se importar se você deixar de sombrear uma escrivaninha, Troye…
– Ela não vai porque não entende porra nenhuma de desenho, mas eu vou. Quando aprendemos a sombrear sólidos? No primeiro ano? Porra, eu não quero deixar de fazer os mínimos detalhes se eu sei que posso fazer. Não tô dizendo que eu vou ser um Caravaggio ou algo do gênero, mas eu quero olhar pro desenho e pensar ‘o.k., não faltou nada’. Entendeu? — Explicou a situação, expressivo como sempre, movendo as mãos magrelas enquanto falava.
Brand sorriu de lado, prestando atenção nestes detalhes. Gostava da forma como ele tagarelava sem limites sobre pinturas e artistas que nunca ouviu falar na vida, só prestando atenção na forma que seus lábios se moviam devagar.
– Eu vou concordar contigo porque eu realmente não entendo — admitiu, andando lado a lado com ele quando viraram numa rua perigosa da cidade.
– Claro que não, você vivia dormindo nas aulas — resmungou, chutando uma pedra no chão. — Você só não repetiu em artes porque eu fazia as lições por você, seu inútil — sorriu, não sabendo brincar sem xingá-lo. — Na real… Eu adorava. Diferenciar duas vezes as arquiteturas e arcos só me fez ficar melhor nessa bosta toda.
Brandon iria dizer mais alguma coisa, mas preferiu ficar quieto, vendo-o abrir o portão de sua casa e destrancar a porta, seguindo-o pela residência modesta no subúrbio de Honolulu. Fechou a porta atrás de si, acompanhando com o olhar o corpo magricelo subindo as escadas enquanto berrava pelo nome da irmã mais nova.
– Lindsey! — Gritou quando já estava no primeiro andar, andando até a porta com “Não Perturbe”. — Lindsey, cê tem um lápis 2B para me… MAS QUE PORRA É ESSA?! — Bradou com todo o ar de seus pulmões, assustando a Brandon, que subiu as escadas correndo, indo ao seu encontro.
Viu quando Troye escancarou a porta, entrando no quarto da irmã com os braços arqueados.
– Que porra é essa, Lindsey?! — Ainda gritava, apontando incrédulo para a tela do monitor da irmã.
Lindsey tirou o headset, virando-se na cadeira com a maior cara de tédio do universo, o cabelo castanho escuro, quase negro, extremamente embaraçado.
– O que você quer, Troye? — Perguntou com monotonia, como se ver a cara dele a enojasse.
– Que caralhos você tá assistindo?
– Kill Your Darlings. Por quê? — Indagou como se não houvesse nada de errado com um Daniel Radcliffe fazendo um papel, em seu ponto de vista, muito bom como homossexual.
– Essa porra é o Harry Potter tomando no cu? É isso mesmo que você anda assistindo? — Começou a interrogá-la, incrédulo.
– Nah, já vi piores. — Respondeu-o com a exata expressão monótona. — Mas não é sobre um Harry Potter homo que este filme retrata, Troye. É um filme biográfico, o.k.?
– Até a cabeça do meu pau é mais biográfico que essa merda, Lindsey. Eu não quero saber, você vai desligar isso — mandou, apontando o dedo magricelo para a tela do computador.
A garota entreabriu a boca, ajoelhando-se na cadeira e erguendo o dedo, desta vez esboçando alguma reação.
– O que você disse, Troye? Você mandou eu desligar? Ah, o.k., vá sonhando. Quem trabalhou meio-período por um ano e meio para comprar este computador? Ah, é, eu. Eu sou a dona dele e eu decido o que eu quero assistir, quando eu vou assistir e se eu quero ou não desligá-lo. Não pense que só porque você é mais velho que pode simplesmente entrar no meu quarto e me mandar fazer o que bem entender. Você não manda porra nenhuma em mim, e se eu quero assistir a merda de um filme homo-biográfico, eu vou assistir – decidiu-se, rígida e gesticulando as mãos, assim como o irmão. — E, aliás, você é o único que tem essa merda de neura com homossexuais, o.k.? — Começou, descendo da cadeira e tentando encará-lo, mas sem sucesso, já que era mais baixa que ele.
– Neura?! NEURA, Lindsey?! — Incrédulo, gritou de novo, aproximando-se da figura desbocada a sua frente.
Os dois eram simplesmente idênticos – mas apenas na forma de agir e falar, porque suas ideologias eram completamente opostas.
– Sim, neura, Troye! — Gritou de volta, não tendo medo de erguer o tom de voz com ele. — Aliás, ele ligou hoje para mim, o.k.?! Me desejou um ótimo aniversário!
– Wow, que porra de homem bom, não é mesmo? Liga pra porra da filha cinco dias antes da porra do aniversário dela para desejá-la um feliz aniversário! Aparentemente, dar o cu encurtou a memória desse filho da puta — riu com escárnio, encarando-a com descrença. — Ou será que foi o vinho de mil dólares que ele anda tomando em Miami, na jacuzzi de ouro dele?!
– Ele foi corajoso e assumiu quem era, Troye! Ele tá feliz!
– Ah, claro que ele tá feliz, Lindsey! — Começou com ironia escorrendo pelas veias. — Ele come caviar todos os dias, acorda às dez da manhã e espera pelo marido dele na porra do hotel cinco estrelas com vista para o mar! E você? VOCÊ TÁ FELIZ?! O que você comeu hoje, mesmo? Ou será que você não comeu? Ah, é, eu me esqueci que a gente não tem PORRA NENHUMA! Ele foi uma maldita bicha egoísta que nem ao menos sabe a porra do dia do aniversário da filha, Linsey! É ISSO QUE ELE É! — Gritou novamente, fingindo não se abalar com as lágrimas que rolavam pelas bochechas dela.
– V-você só o odeia porque ele se admitiu homossexual, Troye! Você é o único, aliás! Nem eu e nem o Trenton nos abalamos com isso! Aliás, o Trent já namorou muitos caras! — Tentou, a voz sufocada pelo choro.
– Até porque o Trenton é completamente são, não é mesmo? Ele nem planta maconha no quintal e nada– novamente, foi irônico, apontando para o corredor. — Só ontem eu tive de arrancar três mudas de maconha, Lindsey! TRÊS! Ele é um maconheiro maldito que às vezes se esquece da porra do nome!
– ARRGH! — Ela gritou de repente, completamente frustrada, fechando as mãos como se quisesse socá-lo, mas conteve-se, apontando para fora. — SAI DAQUI! AGORA! — Berrou, começando a empurrá-lo para fora do quarto com toda a força que tinha.
Troye foi devidamente expulso do quarto da irmã. Estralou a língua, encarando a porta com fúria, andando com ódio até o seu próprio quarto, batendo a porta com tanta força que a estrutura da casa se abalou levemente. Virou-se, encarando um Brandon sentado só de bermuda e meias em sua cama, as pernas cruzadas feito um indígena.
Brand encarava-o com olhos preocupados e, apesar de toda a dor e angústia que Troye inconscientemente lhe causava, não evitava ficar preocupado com ele e no que seu ódio por seu pai poderia levá-lo.
Não perguntou se ele estava bem, porque a resposta era muito óbvia — só Brand sabia como Troye se importava com Lindsey, o quanto a amava e, apesar de não demonstrar, o quanto queria que ela fosse feliz e que o amasse como irmão. O amor de Troye era brusco, seco e opaco — nunca em sua vida ele teve um exemplo de amor verdadeiro para se basear, por isso ele simplesmente amava de uma forma brusca, utilizando-se de meios errôneos de preocupação e até um pouco de violência para se explicar.
Chutou o cesto de roupa suja no quarto, espalhando as peças pelo chão, começando a pisar no cesto, tentando descontar a raiva do momento em objetos menos importantes.
– Pare com isso — Brandon pediu, tentando acalmá-lo, levantando-se e pegando com gentileza o pulso fino, porém fortíssimo do amigo, afastando-o do objeto de plástico. — Pare, Troye — pediu, tentando olhá-lo nos olhos.
– Por que demônios eles não veem o que eu vejo, Brand? — Indagou-o com um suspiro, pressionando os olhos antes de encará-lo. — Eu sou mesmo o pior irmão do universo? — Às vezes, Brandon percebia, Troye aparentava ser… Frágil. Mas essa aparência durava, no máximo, cinco segundos, os olhos difusos, os ombros relaxados, a cabeça parecendo funcionar como um relógio, cheia de engrenagens em movimento.
– Não, você não é o pior irmão do universo. Não quero criticá-lo, mas às vezes você é muito extremista, entende? Ninguém é perfeito, Troye, toda família tem suas desavenças. A Lindsey só quer que você a entenda… Que entenda seu pai.
– Não chame aquele bosta de ‘meu pai’ — voltou ao normal, afastando-se do amigo dois passos. — A porra de um pai não abandona seus filhos na miséria para fugir com outro cara — deixou muito clara sua posição, apontando para ele.
Brand relaxou os ombros, olhando-o com certo pesar.
– Você tem razão, Troye…
– Claro que eu tenho razão! — Desesperou-se, sentando-se na cama e apoiando ambos os cotovelos nas coxas, enfiando o rosto nas mãos. — Claro que eu tenho razão, Brand… — Lá estava, novamente, o tom desolador de Troye Owen.
Ele não fazia ideia, mas se usasse aquele tom, Brandon seria capaz de fazer qualquer coisa.
Ajoelhou-se na frente do garoto, de repente todos aqueles anos acumulados dentro de si querendo escapar em forma de instabilidade, impulso e ilógica. Segurou com gentileza o pescoço do garoto de forma a quase obrigá-lo a permanecer encarando-o.
– Que é, mano? — Troye o indagou, achando bizarro aquela aproximação. — Vai fazer o que, assoprar a porra de um cílio do meu olho?
E, antes que ele falasse mais alguma coisa, Brandon aproximou-se, ainda segurando sua nuca e pescoço firmemente, de maneira a não deixá-lo escapar. Lambeu o lábio superior uma fração de segundos antes de esmagar sua boca na de Troye, num beijo urgente de quem havia esperado demais, de quem estava cansado de esperá-lo perceber sua identidade sexual para se entregar completamente. Beijou-o como se fosse — e provavelmente era — o último beijo que lhe daria, certificando-se de escorregar uma das mãos até a cintura do garoto, apertando-o mais contra si enquanto sua língua explorava a boca deliciosamente pequena de Troye.
Estático, perplexo e confuso – eram os três adjetivos que definiam o membro mais velho da família Owen. Há cinco segundos, conversava com seu amigo de infância e agora era beijado por ele. Num golpe de sanidade, recobrou a consciência, tentando empurrá-lo pelo tórax, sentindo repúdio ao ter sua língua envolvida pela dele e, de maneira completamente descabida, certo prazer.
O gosto de tabaco, Budweiser e talvez Imperia misturavam-se num complexo ilógico de beijos surpresas carregados de desejo contido e deliciosamente posicionados, juntando-se ao aperto forte de Brandon, que definitivamente estava decidido a não deixá-lo ir — se aquele fosse o primeiro e último beijo, daria conta de transformá-lo em inesquecível.
Troye parecia ter sido perfeitamente moldado para caber nos braços largos de Brand, ondulado sob o corpo do outro, que, rápido como um raio, apertou-o contra a cama, devoto aos lábios rubros e pequenos do garoto, escorregando as mãos até sua cintura, apertando-a incessantemente enquanto seu abdômen nu friccionava-se contra o baixo ventre de Troye.
– Ah, merda…! — Exclamou numa golfada de ar, conseguindo se livrar dos lábios de Brand por um instante, ainda mantendo um braço no tórax dele, a fim de afastá-lo. — Você f-ficou louco? — Indagou, surpreendendo-se com o timbre fraco de sua própria voz.
– Talvez — desconversou, apertando a mão espalmada em seu peito, levando-a até seus lábios, beijando cada uma das falanges. — Não é você quem sempre tem razão? Diga-me.
– V-você ficou louco! — Troye decidiu, erguendo um dos joelhos para lhe meter um golpe. Mas, antes que foge atingido, Brandon sentou-se em suas coxas, impedindo-o de se mover. — Porra, sai de cima de mim! Você também é um viadinho de merda, Brandon? Que porra! — Espremeu os olhos, tentando afastar a mão dos lábios dele.
– Sou tão viadinho quanto você — respondeu-o evasivamente, prensando ambas as mãos de Troye ao lado de sua cabeça, posicionando-se bem acima dele, os narizes milímetros de se encontrarem. — Eu acabei de perceber que isso nunca vai sair de você, Troye. E, acredite em mim, eu sou o seu amigo há bastante tempo para conhecê-lo como a palma da minha mão, e só fiquei do seu lado por tanto tempo porque eu gosto de você pra caralho. Mas eu tô cansado, Troye. Tô cansado de tantas mentiras, e não são mentiras minhas, porque eu sei que você sabe.
Troye gelou; ficou quieto, sentindo a respiração quente e ébria de Brand em seu queixo, permanecendo com o olhar fixo em seus olhos intensos.
– Eu sei, Troye… — Recomeçou ele, tão baixinho que não soube exatamente como pôde ouvi-lo. — Você também me conhece como a palma da sua mão; você sabe. Sempre soube. Mas negou até o último fio de cabelo porque você me ama demais para me odiar por eu ser quem sou. Eu sou sua exceção, não sou?
Troye mordeu os lábios inchados e rubros, espremendo os olhos e franzindo a testa. Com uma voz fraca e quase frágil, dirigiu-se a ele não menos duro:
– Vá para o inferno.
A expressão de Brandon vacilou apenas por um segundo antes dele se afastar. Recolheu suas roupas no chão e, não dizendo mais nada, abriu a porta do quarto, os passos pesados sendo perfeitamente ouvidos quando alcançaram o hall de entrada, a batida na porta denunciando sua ida.
Troye permaneceu deitado em sua cama bagunçada, os lábios formigando, a cabeça girando e um desconforto que julgou ser loucura em seu baixo-ventre.
***
– Então você já viajou de avião diversas vezes? — Kale indagou a Kai assim que embarcaram, colocando sua bagagem de mão no vão sobre os assentos, acomodando-se no banco ao lado da janela. Kai se sentou ao lado dele, no banco central, suspirando enquanto assentia.
– Meus avós moram no Canadá. Muitas vezes, no fim de ano, eu vou visitá-los — começou, tirando do bolso seu celular e plugando os fones. — Se importa se eu der uma dormida?
– De novo? — O surfista riu, olhando-o surpreso. — Você dormiu no táxi, dormiu enquanto esperávamos o anúncio do voo, quase dormiu comendo um hambúrguer e já quer dormir de novo?
Kai riu, deixando o fone esquerdo pendendo.
– É mais ou menos duas horas de viagem, né? Se eu dormir esse pouquinho, já completo minhas oito horas de sono…
– Oito? Eu jurava que cê dormia umas doze diárias…
– Babaca — riu, lhe dando uma leve cotovelada.
Kale virou no instante em que o avião levantou voo. Pegou sua câmera, filmando o momento inteiro pela janela, presenciando o crepúsculo matutino, o interior do avião sendo iluminado pelos primeiros raios de sol, o horizonte colorido com tons púrpura e salmão, a imensidão azul marítima recebendo os primeiros salpicos de cor.
O oceano Pacífico estava magnífico como sempre, uma verdadeira tela arredondada e finita, encontrando-se com o horizonte colorido. Tudo era mergulhado numa calmaria e silêncio até mesmo perturbadores, todos os olhos atentos à paisagem deslumbrante na janela, enfeitiçados pela magnitude do mar.
Suspirou, girando a câmera para filmar o rosto adormecido de Kai, que, plácido e parecendo muito relaxado, desfrutava de uma melodia provavelmente apaziguadora. Filmou-o por apenas alguns instantes, não querendo prolongar o vídeo.
Relaxou, muitíssimo preparado para encontrar seu velho e apresentá-lo devidamente a Kai e vice-versa. Acabou não só dormindo, mas sim despencando sentado, babando no vidro do avião, sendo acordado depois de uma hora por Kai, que coçava os olhos, também sonolento.
– A gente chegou — começou o garoto, empurrando o ombro rijo de Kale, bocejando. Podia ouvir a movimentação lá fora, assim como o resfriamento dos motores do avião. Fora uma viagem tranquila, muito confortável e recheada de Coldplay. Ainda sentia aquele friozinho na barriga na hora do pouso, mas achava que era algo frequente em todas as pessoas.
Kale bocejou alto, como sempre escandaloso, vendo todas aquelas pessoas caminhando lentamente até a portinha do avião. Levantou-se, pegando a pouca bagagem que ambos carregavam, seguindo Kai pela miúda fila até sair da aeronave. As aeromoças os agradeciam por escolher aquela companhia aérea, os desejando um adorável dia.
Sorriu satisfeitíssimo, pisando com o pé direito em Hilo, sua terrinha natal. Como ambos só tinham bagagem de mão, não se preocuparam em ir à procura de malas. Colocaram suas mochilas, Kai acionando sua bengala, envolvendo Kale pelo braço, ambos com a cara amassada de sono, mas parecendo felizes.
– Você tá com fome? — Kale perguntou ao garoto, que negou com a cabeça. O surfista observou-o com mais atenção, percebendo que ele não parecia tão animado assim. Decidiu aliviar a tensão: — você sabia que tem uma avenida chamada Kamehameha? — Perguntou de repente, caminhando pela pista em direção ao aeroporto.
Kai espremeu os olhos, a bengala acompanhando seus passos.
– Quê? — Riu, achando aquele fato engraçado. — Sério isso?
– Aham – sorriu quando entraram no aeroporto, as portas duplas se abrindo com o sensor de movimento. Kale caçou em sua bermuda seu telefone, pronto para ligar para seu pai e avisá-lo que já haviam chego. — Meu pai mora umas seis ruas dessa avenida — contou, discando o número. — Bom, na realidade, ele mora em Kailua, do outro lado do Condado, mas ele veio para essa casa só para nos alojar.
– Ele tá sozinho aqui em Hilo?
– Muito provavelmente não. Talvez minha madrasta tenha vindo junto — contou, esperando seu pai atendê-lo. — Ah, aliás, eu já preparei o que iremos fazer hoje e amanhã.
– O quê? Já? — Ergueu os cantos da boca, surpreso de verdade. — Pela primeira vez na vida você se programou, wow.
– Eu me programo para coisas importantes — conversou sem notar como aquilo havia saído, distraído demais com a ligação para perceber. — Ah, oi, meu velho! Cê tá onde? A gente já chegou… Cê tá na frente do aeroporto? Ah, valeu, já estamos indo. Té daqui a pouco — e, num movimento simples, desligou o telefone, guardando-o no bolso dianteiro da bermuda. — Meu velho já tá aí — contou a Kai, começando a andar levemente mais rápido.
O garoto não se importou em ser puxado pelo outro, mas se importou com o tom de voz usado por ele. Não fazia sentido algum. Kale não se programava nem para uma competição de surf — coisa que mais gostava de fazer na vida -, mas se programava para um passeio com ele. Alguma coisa dentro de si fez um ziguezague estranho, acelerando os seus batimentos cardíacos de uma forma descomunal, fazendo-o se sentir quente.
Kai era mais importante.
– O-o que nós iremos fazer hoje? — Decidiu perguntar, tentando inutilmente aliviar a tensão que ele mesmo havia criado.
– Hoje? Nós iremos comer, comer e comer. Depois iremos soltar fogos, nadar à noite e dormir até morrermos, o.k.? — Na sua cabeça, aquilo era perfeito. – Eu vou fazer para você o melhor cheesecake que você já comeu na vida. Se tem uma coisa que eu sei fazer, é cheesecake. — Alegou, completamente convicto do que dizia, seu braço ainda apertando Kai bem forte.
– Não sei se consegue ser melhor que o do Manu — riu, sabendo das habilidades culinárias extraterrestres do amigo.
– A vida fica melhor sem comparações — gracejou, passando a mão pelos cabelos assim que saíram do aeroporto, as portas duplas abrindo-se a eles com o sensor de movimento.
– Isso é desculpa de quem não sabe faze- — iria continuar se Kale não tampasse sua boca, não deixando que ele o zoasse daquela vez.
Mas só daquela vez.
***
– VOCÊ É CEGO?! — Will, Débora, a madrasta de Kale e Emily, sua filha, exclamaram no exato instante em que notaram sua bengala.
– Na maior parte do tempo, sim — Kai sorriu, acostumado àquilo. — Na outra parte, eu durmo — respondeu-os com o mesmo humor de sempre, ouvindo a risada estonteante de Kale perto de si, espremendo os olhos ao perceber que aquela não era a melhor forma de se apresentar a pessoas. — Tô brincando. Quer dizer, não na parte de ser cego, mas no geral… — Desistiu, apenas estendendo sua mão. — Olá, sou Kai, amigo do Kale.
Will apertou a mão do garoto, sentindo-se besta e encantado. Seu filho trouxa — o único — havia se apaixonado por um rapazinho adorável que não demonstrava se interessar por outros caras. Mas, tão inteligente e discreto quanto o filho, desandou a dizer:
– Oi, Kai! Sou Will. Você é gay? — Aproximou-se, tentando enxergar quaisquer vestígios de homossexualidade nele.
Débora lhe deu um tapa na nuca, recriminando-o pelo comportamento desconfortável do marido, vendo quando Kale entreabria a boca, chocado com a pergunta do pai, encarando Kai como se esperasse alguma resposta.
– Hã… — Kai começou, juntando as sobrancelhas. “Idênticos”, pensou com certo desgosto, não querendo aguentar dois Kale’s. — Que eu saiba, não. — Gracejou, ouvindo a risadinha de Emily.
– Que é? — Will virou-se para sua mulher, parecendo nada preocupado. — É só uma pergunta comum, como “qual a sua cor favorita”. — Se explicou quando viu seu olhar cortante.
– Bom, hã… Vamos indo? — Kale fez um sinal com a mão para eles irem em direção ao carro, circundando Kai pelos ombros, começando a andar vagamente. Pegou Emily pela mão, comentando sobre seu aniversário de oito anos com entusiasmo, feliz por estar novamente perto da irmãzinha de consideração.
A primeira vez em que Kale conheceu Emily, ela tinha um ano e três meses, gorda e amante de seus próprios pés, adorando lambê-los. Agora ela já alcançava sua cintura, os cabelos presos num rabo-de-cavalo, gordinha e extremamente alegre.
– Mas, Kai — Will indagou novamente assim que entraram no carro, Debbie ao seu lado no banco do passageiro e os três mais novos no banco traseiro. — Seus olhos são perfeitos, não são? Por que você é cego?
– Eu nasci prematuro e com o cordão umbilical enrolado no meu pescoço — começou, acomodando-se ao lado da janela. — Tive uma hipóxia cerebral e o meu lobo occipital, o responsável pelos estímulos visuais, teve um traumatismo permanente. — Explicou da mesma forma como fora lhe ensinado, arrumando o cabelo. — Diferentemente de muitos bebês que nascem com esse problema de visão, o meu é irreversível. Mas, bem… — Sorriu, dando de ombros, não se importando realmente. — Eu já estou tão acostumado, que só me lembro que sou cego quando me falam — riu, sentindo as mãos de Kale em sua cabeça. — O que é isto, Kale? Um cafuné de ‘tenho pena de você’? Para, você sabe que eu odeio isso.
– Claro que não! — O surfista exclamou, sentindo-se caluniado. — Eu só queria tirar uma poeirinha do seu cabelo! Por que diabos as pessoas sempre esperam o pior de mim?!
– Porque nada que vem de você é bom, Kale — Will sorriu pelo retrovisor, ligando o carro.
– Isso, Lucas II, estraga minha moral na frente dos outros, mesmo — resmungou com certa mágoa quando todos riram do comentário de seu pai.
– Não se preocupe, Kale, você sozinho consegue fazer isso muito bem — Kai riu, encolhendo os ombros quando todos no carro gargalharam, recebendo do surfista um apertão nas costelas. — Óh, não, para, cócegas não!
Mas conversar com Kale e conversar com uma parede era a mesma coisa. Dali a cinco segundos, Emily e Kai eram vítimas das cócegas impiedosas do surfista, que fazia questão de acertá-los nos pontos mais baixos, como axilas e pescoço.
Fora isso, a viagem até Ponahawai Street, local onde William Iwin possuía uma casa humilde a alguns metros do mar, fora bem tranquila e recheada de conversas aleatórias. Kai ria que se matava das baboseiras colossais de Kale, que, inutilmente, tentava impedir seu pai de contar histórias bem constrangedoras de quando ele era garoto.
– O.k., pai, todos nós já entendemos que fiquei sem sobrancelhas durante um ano e meio, obrigado, não precisa ficar repetindo… — Tentou, esfregando o rosto.
– Pelo amor de Deus, filho, não são todos capazes de explodir um Coquetel Molotov e sair somente sem as sobrancelhas — e voltou a rir, girando o volante para entrar na rua aonde estaria hospedado naquele fim de semana. — Eu lembro que o do Lucas ficou perfeito, e ele ganhou aquelas medalhas azuis estranhas, sabe? Com babados escrito “1°”. Só sei que ele ficou com dó do Kale e explodiu a medalha — sorriu, espremendo os olhos já enrugados, lembrando-se perfeitamente de como eles eram altos e desengonçados, um com óculos fundo de garrafa e o outro sem sobrancelhas. — Eu tenho uma foto deste momento, Kai, eu te mostro depois…
O carro ficou em silêncio por alguns segundos, a idiotice obviamente hereditária. Débora enfiou o rosto na mão, morta em constrangimento. Kai tentou conter a risada, mas foi impossível; riu baixinho, esperando-o notar.
– Ah, não — foi a única coisa que William exclamou, no exato instante em que estacionou o carro. — Eu esqueci o álbum em Kailua! — Bateu em sua própria testa, recriminando-se por ser tão burro e esquecido.
– Não é exatamente com isso que você tem de se preocupar, Will… — Debbie suspirou, abrindo a porta do carro.
– Ah, por que não, querida? — O senhor saiu do carro, indo atrás da mulher e perguntando baixinho que estava acontecendo.
Kai, Kale e Emy saíram logo em seguida, a garotinha pedindo cavalinho para seu irmão mais velho de consideração, sendo respondida muito prontamente, já que Kale a pegou sem dificuldades e a sentou sobre seus ombros, rindo junto com ela enquanto guiava Kai até a casa simples, isolada num quadrado de areia e coqueiros.
O som do mar, das gaivotas, dos navios cargueiros e dos aviões decolando e pousando no aeroporto a algumas milhas de distância estava deixando Kai perdido. Não havia barulho de pessoas, somente de objetos, animais selvagens e o mar. Podia ouvir as ondas requebrando e quebrando na costa, muito provavelmente sendo utilizadas por surfistas. O vento era quente e tinha cheiro de terra, o sol ardido bem em cima da cabeça.
Era diferente e era igual, ao mesmo tempo. A temperatura, o clima, os animais e a convivência eram idênticas, mas sentia-se deslocado e até mesmo nervoso com a presença dos Iwin.
– Kale, cê deixa o Kai dormir na sua cama e joga um colchãozinho pra você no chão, o.k.? — O pai aconselhou, abrindo a porta da velha casa de madeira, as tábuas sob os pés rangendo levemente. — Ou sei lá, um de vocês dorme no sofá.
Kale apenas ignorou-o por alguns segundos, deixando Emy no chão, perto do sofá, e correndo para enlaçar Kai pela mão, levando-o até um cômodo. Jogaram suas mochilas no chão do seu antigo quarto, quarto na qual estava recheado de posteres de surf, troféus dourados de competições da Liga Juvenil, fotos de quando era criança, adolescente e algumas de alguns meses atrás, a maioria com Lucas — e, em uma delas, o míope era jovenzinho, ainda com o joelho intacto, segurando sua prancha sob o braço esquerdo, abraçado a Kale, sorrindo como se fosse a criatura mais feliz do mundo.
E, de fato, ele era.
Kai foi empurrado contra a cama, sentando-se nela e quase caindo. Ouviu quando Kale abriu sua mochila, procurando alguma coisa.
– Você não trouxe nada além de tênis para calçar? — O surfista lhe indagou, revirando as roupas e objetos dentro da mochila do garoto.
– Prefiro ficar descalço — lhe explicou, inclinando-se e começando a tirar seu tênis, enfiando a meia dentro do calçado. — Gosto de sentir a textura das coisas.
Kale sorriu, levantando-se e retirando sua camiseta, jogando-a num canto do quarto.
– Muito bem, então somos dois — concordou plenamente, também retirando seus tênis. — Aaaaah, caraca! Como é maravilhoso estar em casa! Esse arzinho nostálgico me faz querer ficar aqui para sempre, de verdade.
– Você sempre viveu aqui? — Kai perguntou de repente, curioso. Caso a resposta fosse positiva, ele iria entender o porquê de Kale ser daquele jeito. A casa, apesar de velha, tinha um ar confortante, amigável, quente, como se fosse o melhor lugar do mundo.
– Sim! Por isso cê deve imaginar como eu fiquei perdido em Honolulu. — Começou, aproximando-se do garoto. — Vem, meu pai vai fazer churrasco.
– Eu preciso ligar para a minha mãe — Kai contou assim que saiu do quarto, pedindo licença a todos e saindo da casinha, pisando na areia quente. Will estava perto da entrada, tentando ligar a churrasqueira, coçando a cabeça e perguntando-se o que deveria fazer com aquela peça velha. Kai discou o número, ouvindo claramente os resmungos duvidosos do surfista aposentado, rindo baixinho toda a vez que ele xingava no melhor estilo “não quero falar palavrão porque há crianças por perto”. — Ah, alô, mãe?
– Kai! Ah, meu querido, eu já estava morrendo! — Dramática, dona Eliza não poupou as hipérboles. — Tudo bem com você?!
– Na realidade, não, já que o avião caiu. Pelo menos você vai me ver no noticiário hoje. Sempre quis aparecer na TV — sorriu, ouvindo os xingamentos de sua mãe, que, no fundo, estava mais do que aliviada em saber que Kai estava suficientemente bem a ponto de fazer piadinhas.
Depois de beijos, fotos e abraços desejados, Kai desligou o telefone com o cheiro da carne assada inebriando-o por um instante, tentando se recordar da última vez em que havia comido churrasco — sua mãe o proibia na maior parte do tempo a consumir carne, já que temia o excesso de antibióticos dominando o corpo frágil de seu filho.
Revirou os olhos com o pensamento, dando meia-volta e entrando na casa, assustando-se quando Kale o abordou sem mais nem menos, enlaçando seu pescoço com o braço e puxando-o para perto.
– Que tal se a gente der uma voltinha antes que o churrasco fique pronto? — Kale propôs, adorando a ideia de passear um pouquinho pela orla da praia. — Acho que você vai adorar sentir o mar daqui.
– O mar é igual em todos os lugares, Kale — Kai sorriu, achando-o bobo. Mesmo assim, não discutiu quando saíram novamente da casinha, sentindo a areia quente sob os pés, ouvindo de perto o barulho aconchegante do mar.
– Óbvio que não, Kai! Imagine só, nem mesmo as estrelas são iguais dependendo do lugar para aonde vamos, imagine só o mar, que sofre imediatamente ações nossas? O mar daqui nunca será igual ao mar de Honolulu, e o mar de Honolulu jamais será igual ao mar do Brasil, que nunca será igual ao mar da costeira africana ou da Austrália. Tudo depende de que tipo de gente existe naquele local e com quem você está. — Explicou tudo como se Kai fosse seu pior aluno, mantendo-o muito bem apertado contra si.
Uma brisa úmida e quente lhe atingiu o rosto quando seus pés tocaram na água morna, beirando os vinte e seis graus. Ouvia, ao longe, navios cargueiros e a família Iwin divertindo-se em sua casa, mas, fora isso, tudo estava mergulhado num singelo silêncio. Hilo não era uma ilha turística, por isso não havia nem sinais de entusiasmo e festa, como em Honolulu.
– Você está certo — disse de repente, desgrudando-se do braço do outro e começando a andar pelas ondas, sentindo a água em suas canelas. — Tudo parece mais calmo por aqui, inclusive o mar. Parabéns, Kale, seus quatro neurônios são funcionais — sorriu, sabendo que não iria se safar daquela.
Riu alto quando o surfista lhe agarrou nos quadris, lhe dando uma rasteira (que de rasteira não tinha nada, já que Kale abraçou-o bem forte, impedindo-o de cair com tudo na água), tombando-o juntamente consigo naquela parte rasa.
Engoliu uma quantidade desconfortável de água, pressionando os olhos enquanto sentia o furdúncio provocado pelos dois na água, baseando-se de lutinhas bestas, cócegas em áreas covardes, puxões, empurrões, chutes e socos que de doloridos não tinham nada.
Ainda rindo, arrastou-se até a orla da praia, deitando-se de barriga para cima na areia úmida enquanto sentia sua camiseta ensopada, grudando na pele salgada, os cabelos desordenados e caindo sobre sua testa. Kale caiu do seu lado, o peito subindo e descendo, igualmente ensopado — eram dois cachorros molhados e cansados.
– Você, alguma vez na vida, já pensou em fazer uma coisa diferente de surfar? — Kai indagou de repente, assim que recuperou seu fôlego.
O surfista inspirou fundo, virando a cabeça para olhá-lo.
– Francamente? Não. Já tive vontade de fazer outras coisas, mas desde o momento em que mergulhei, soube instantaneamente que minha alma já pertencia ao mar. — Respondeu-o da melhor forma que pôde, repousando as mãos sobre a barriga. — Por quê?
– Ah, por nada… É que, às vezes, eu penso que talvez fazer faculdade não seja tão ruim assim. Sério, eu não sou bom em nada! Talvez ache meu caminho em logística ou em Direito… — Tentou manter a voz firme, mas nem ele mesmo entendeu o porquê de ter tremido ao dizer aquilo.
– Bobagem, Kai — o surfista sorriu, lhe dando uma leve cotovelada. — Não adianta nada você fazer faculdade por fazer, já que estará infeliz. E, qual é, tenho certeza que você é bom em alguma coisa, porque não faz sentido que eu seja bom em alguma coisa e você, não — resumiu a situação, quase indignado.
– Eu sou bom em alguma coisa, Kale, mas não nas coisas que eu gosto, entende? — Riu, achando engraçado a controvérsia na frase. — Por exemplo, eu sou muito bom tocando piano e-
– VOCÊ TOCA PIANO?! — Kale interrompeu-o de repente, virando-se de supetão para encará-lo como se fosse Beethoven do seu lado. — COMO você nunca disse isso pra mim?!
– Por que, sei lá, eu não achei importante — deu de ombros, surpreso de verdade pelo ataque do surfista.
– É claro que é importante! Vem aqui, agora! — O puxou possessivamente, levantando-o num impulso único. Kai foi pego pelos cotovelos, sendo arrastado desordenadamente pela praia, sentindo seus pés tropeçando na areia quente e úmida. Entraram na residência dos Iwin, sendo alvos de indagações de aonde estavam indo, mas Kale apenas os ignorou e, ensopados, entraram no antigo quarto de Mahina, um local pequeno dedicado a ela e todos os seus pertences.
Uma escultura com seu rosto enfeitava um mobília alta de madeira, protegendo um vaso de cerâmica que continha suas cinzas — era um cômodo feito especialmente para ela, em sua memória. Um piano estava localizado do outro lado do cômodo, sujo de pó e transmitindo certa melancolia. Kale limpou o banquinho almofadado, sentando Kai nele, empurrando-o para perto do instrumento.
– O que é isso, Kale? — Perguntou meio assustado, sentindo-se num cômodo estranho da casa.
– Este é o piano da minha mãe — começou, erguendo a tampa do teclado, deslizando os dedos pelas teclas como um inexperiente, tirando o pó delas. — Ele é antigo, mas é funcional — explicou, sentando-se ao lado dele. — Ele está parado há bastante tempo, quero dizer… Eu, particularmente, nunca o ouvi. Meu pai me dizia que minha mãe adorava tocá-lo, mas desde que ela morreu, ninguém mais o tocou.
Kai sentiu o peso daquelas palavras como uma facada, bem no centro do peito, atravessando-o por inteiro. Tocar por tocar era uma coisa — tocar com valor sentimental era outra completamente diferente.
Passou os dedos pelas teclas, ouvindo o som característico das notas, banhadas com um teor a mais de melancolia. Era uma sensação engraçada, já que jamais havia tocado num instrumento tão carregado de sentimentalidade — apesar de velho, aquele piano tinha consigo uma história longa para contar.
Posicionou seus pés nos pedais, ignorando a respiração entusiasmada de Kale ao seu lado.
O primeiro contato foi tímido e desacostumado, as teclas parecendo manteiga sob seus dedos.
Lembrou-se de Mozart, Vivaldi e Beethoven, mas nenhum deles pareceu apropriado o suficiente. Decidiu, mesmo que contra sua vontade, tocar Moonlight Sonata, recordando-se de suas aulas na infância — francamente, não achava que nenhuma música era apropriada ao momento, mas esforçou-se para tocar corretamente.
As notas fluíam por ele com maestria e naturalismo, deixando bem claro que ele era bom no que fazia. A melodia escorregou por seus dedos, inundando o cômodo com a melancolia reconhecida por Beethoven. Kale sorriu ao ouvir, pela primeira vez em dezenove anos, o som daquele piano. Estava um pouco enferrujado e talvez até desafinado, mas não se importou; Kai estava tocando-o muito bem, com o cabelo molhado, respingando pelas teclas, a pose ereta no banquinho, o cheiro de mar emanando dele enquanto mantinha-se sério, completamente concentrado, o instrumento parecendo agradecê-lo e agraciá-lo por aquele momento, correspondendo-o perfeitamente.
William entrou no quarto devagarzinho, os olhos arregalados, segurando o espeto do churrasco forte nos dedos, sentindo-se tremer um pouco.
Assim que ouvira a primeira nota, um ataque de pânico corroeu-o; pensou que Mahina havia retornado, sentando-se em frente ao piano e tocando-o novamente, como fazia questão de fazer todos os dias. Largou a churrasqueira ligada, os passos tímidos em direção ao cômodo, a melodia inebriando-o e hipnotizando-o, levando-o direto até o quarto.
Não sabia ao certo o que fazia: se chorava de tristeza ou se sorria de alívio ao encontrar Kai tocando-o — decidiu, então, fazer os dois, seus soluços exagerados sendo afogados por sua mão suja de carne, os olhos marejados parecendo uma cachoeira de sentimentos reprimidos por anos.
Quando Kai começou a rir com Kale, porque estava errando quase todo o terceiro movimento, o mais difícil deles, aliás, riu também, chamando a atenção de Kale, que olhou-o com um sorriso enorme, não se abalando pela face chorosa e risonha de seu pai.
– Ah, o.k., eu desisto! — Kai riu, parando de tocar e deslizando os dedos por todas as teclas, finalizando a melodia com um grande sorriso. — Nossa, faz muito tempo que eu não toco! — Admitiu, suspirando aliviado por ter tocado depois de tanto tempo.
Will inspirou fundo, querendo agarrar o garoto num abraço apertado, agradecendo-o por aquilo. Kale fez isso por ele, envolvendo-o forte com ambos os braços, pressionando a cabeça ensopada contra seu peito forte, apertando sua nuca, certificando-se de mantê-lo bem próximo de si, sentindo que Mahina havia ficado tão feliz quanto eles.
– Obrigado por isso — agradeceu-o bem baixinho, observando seu pai sair do cômodo, limpando os olhos no avental. — E, francamente, acho que eu me apaixonei por você de novo – admitiu por impulso, pressionando seus lábios contra sua cabeça, decidindo pensar se aquilo fora certo ou não mais tarde.
Kai retesou, quieto, sentindo a respiração de Kale contra si.
Pressionou os olhos, prevendo que aquela viagem iria ser mais complicada de lidar do que havia imaginado.
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