De Coração
20 Big Island II - Isso Foi um Beijo
Notas iniciais
– A melhor parte dessa história, Kai, é que, quando o Kale foi rejeitado pela garota, ele foi na formatura sozinho mesmo, só com o terno e a coragem! — Will estava completamente bêbado de absinto. Relaxado em sua cadeira de praia, se aconchegara perto da fogueira, desfrutando do calor e da brisa noturna. — Depois que ele dançou com o esfregão, convidou uma garota que também estava sozinha na festa pra dançar. Qual era o nome dela? Hanna? Diana? Paulina? Não sei, não me recordo…
Kai sorriu, encontrando dificuldades em falar qualquer coisa com a quantidade de cheesecake que havia colocado na boca. Kale estava certo: era o melhor cheesecake que havia comido na vida. Seus lábios estavam sujos de calda de morango e mel, desfrutando daquela deliciosidade preparada pelo surfista.
– Eu lembro que o Lucas dançou com a namorada do quarterback do time da escola. Ela tava carente e não tinha noção que ele era gay, e, vocês sabem, ele é um amor de pessoa, que acabou a consolando a festa inteira. Só sei que a mina beijou ele no final, e o quarterback viu, cara — Kale parou de falar para rir, bêbado de absinto igual ao pai. — Foi uma treta intensa, porque o cara queria pegá-lo de qualquer jeito, e ele era um monstro. Nós dois quase morremos aquele dia, porque, claro, eu tive de tretar junto com ele.
William riu longamente, numa gargalhada gostosa de quem se lembrava perfeitamente da cena inteira.
– Só dava os dois com os ternos rasgados, descabelados e todos sujos de sangue. — Completou, despejando em seu pequeno copo mais da bebida transparente, um grande sorriso pendurado em seu rosto. — Ah, deuses, esses meninos aprontavam muito. Mas, e você, Kai? Cê aprontou muito com os seus pais?
– Não muito… — Começou ele, lambendo os lábios para limpá-los. — É que, do contrário da minha família, eu sempre aceitei muito bem a minha cegueira. Então eu vivo fazendo piadas de mal gosto a respeito disso, o que não deixa meus pais muito felizes, entende? — Sorriu, lambendo a colher.
– Ah, sim, claro — Will assentiu, apesar de não ter ouvido nenhuma piada. O absinto estava começando a fazer efeito. — Você quer um pouco de absinto, Kai? — Decidiu oferecer, pegando a garrafa.
– De jeito nenhum, pai — Kale arrancou a garrafa da mão de seu velho, levantando-se para guardá-la. — Essa bebida é o diabo encarnado, meu Deus. Setenta por cento de álcool não é para qualquer um, não. Eu tô morrendo porque tomei três doses, imagina o Kai, que não é acostumado. Além do mais, já são três da manhã. Bora dormir — mandou, tampando a garrafa e observando quando Kai se levantou, coçando a cabeça.
– Ah, eu concordo. Também tô caindo de sono. — Espreguiçou-se, andando até onde ouviu a voz do surfista, ouvindo a reclamação de Will, no fim rindo baixinho e acompanhando os dois surfistas até a casinha, subindo os degraus e caminhando sobre as tábuas velhas, sendo guiado por Kale, que levou-o até seu antigo quarto.
– Pode se jogar na cama, Kai — disse ele, fechando a porta e enfiando as mãos na camiseta, observando com os olhos difusos o colchão no chão. Retirou a peça, jogando-a num canto do quarto. Em seguida, retirou a bermuda, observando enquanto Kai simplesmente despencava na cama de bruços, afundando a cara nos travesseiros. Sorriu, chutando a peça jeans para outro canto, laceando o elástico de sua cueca, apagando as luzes um segundo antes de se jogar de costas no colchão, inspirando fundo para relaxar. — Kai, cê não tá dormindo, né?
– Ainda não. Por quê? — O ouviu responder ao lado.
Uma brisa suave entrava devagarzinho no cômodo, envolvendo-os. Estava quente, abafado e confortável, um clima nostálgico e prazeroso pairando no ar.
– Ah, nada... Eu só queria te agradecer por vir.
– Hm...
– “Oh, imagine, Kale, eu quem te agradeço por me convidar” — gracejou, tentando imitar a voz do garoto.
Riu quando um travesseiro o atingiu em cheio na cara, mordendo os lábios e pressionando o objeto contra o peito, dobrando uma das pernas.
– Sabia que eu fico carente quando tô bêbado? — Informou-o aleatoriamente, seus neurônios ébrios.
– Sério? Parabéns, quer um biscoitinho? — Kai tentou cortar aquele papo de bêbado antes que Kale o enxuriçasse eternamente.
– Eu quero um abraço.
– Ah, não, Kale, fica quietinho na sua aí.
– Vou cantar “Rude” pra você de novo.
– Pelo amor de Deus, não. São três da manhã, é pedir demais pra você ficar quieto e dormir?
– Só vou dormir se você me der um abraço.
– Acabei de descobrir que você fica mais insuportável bêbado.
– É verdade — ele riu, como se estivesse muito orgulhoso. — Mas, por favor, me dá um abraço?
– Não — grunhiu, a cara enfiada no travesseiro restante.
– Why ya gotta be so ruuude? Don’t ya know I’m human toooo? – Começou a cantar, desafinado e desconexo, balançando a perna num ritmo que só existia dentro de sua cabeça.
Kai inspirou forte, implorando por paciência. Então, desistido, deslizou pela cama, caindo do lado direito, bem em cima de Kale. O surfista soltou um espasmo de susto, surpreso e incrédulo que Kai estava, de fato, fazendo aquilo. No fim das contas, sorriu quando o garoto o envolveu parcialmente, talvez hesitante em abraçá-lo. O surfista fez isso por ele, envolvendo-o forte num abraço possessivo, virando-se de lado para mantê-lo mais confortavelmente ao lado dele.
– Tá, o.k., cê já me abraçou, parabéns. Me larga, por favor? — Pediu, sentindo a pele quente e o cheiro de absinto emanando dele.
– Largar o quê? — Gracejou, enfiando o rosto no cabelo cheiroso dele, sorrindo e apertando-o ainda mais.
– Eu.
– “Eu”o quê?
– Não você, eu.
– Quem é “eu”?
– Eu, Kai, eu.
– O que é que tem “eu”?
– Não voc- ah, foda-se, fica quieto e dorme. — Resmungou com quase raiva, acomodando-se no abraço confortável dele, inspirando fundo mais uma vez, sentindo o corpo começar a relaxar.
** *
Kai acordou com uma horrível dor de cabeça. Não estava de ressaca, não havia escutado música alta e não estava estressado — havia dormido pouco, com seu precioso sono sendo interrompido por algo que julgou ser um troll grunhindo do seu lado.
Remexeu-se, repentinamente desconfortável, sentindo-se quente e amassado de um lado do corpo. Apoiou a mão esquerda no local onde sua cabeça estava deitada, sentindo-o quente e, impressionantemente, móvel. Abaixava e se erguia gradual e lentamente, num ritmo que o deixou embalado por um instante.
Forçou a abertura de seus olhos, coçando o rosto enquanto começava a se situar. Passado dez segundos de “o.k., onde estou?” boiando em sua cabeça, levou um susto quando o barulho do troll morrendo soou novamente, bem próximo de si.
Notou no instante seguinte, dando um peteleco em si mesmo. Não era um troll morrendo, e sim apenas o ronco de Kale Iwin, que, na ocasião, mantinha-se abraçado a ele enquanto dormiam.
Largou a cama para ir dormir num colchão apertado no chão.
– Nem bebi, mas fiquei louco — resmungou consigo mesmo, erguendo-se levemente, apoiando sua mão do outro lado do tronco do surfista, arqueando-se para conseguir levantar. Assim que moveu a perna, seu joelho pressionou Kale.
Não pressioná-lo por pressionar, e sim pressioná-lo…
– AH! — Não soube exatamente o porquê de ter gritado; por pensar que havia algo muito errado com suas partes ou porque o surfista acordou num pulo, dolorido e assustado, levantando-se num tranco que acabou empurrando-o contra a cama.
– AI, PORRA! — Berrou mais para si mesmo do que para o garoto. — TÔ APERTADO! — Gritou para os sete mares, levantando-se num ímpeto assustador, grogue e desnorteado, tropeçando no lençol e trombando com o guarda-roupa, acordando metade de Hilo.
– É, EU NOTEI QUE VOCÊ TÁ APERTADO! — Kai gritou-o, massageando a nuca dolorida pela batida, ainda grogue e magoado pelo empurrão.
Ninguém merecia ser acordado daquela forma logo pela manhã.
Voltou a bocejar, caindo de encontro ao travesseiro, afundando seu rosto na maciez convidativa. Inspirou fundo, sentindo o cheiro de Kale pregado ao objeto — era forte e marcante, idêntico ao mar. Cochilou por mais meia hora, tempo na qual o surfista demorou dentro do banheiro.
Saiu de lá de banho tomado, dentes escovados e cabelo penteado, a pele amorenada e úmida refletindo a luz que vinha da janela. Uma toalha branca estava enrolada em sua cintura, impedindo que as gotículas que escorriam por seu tórax o molhassem ainda mais, tão molhada quanto sua pele.
Riu ao encontrar Kai jogado no colchão, as pernas branquelas arrepiadas por conta do vento que entrava na janela.
– Kai, chega de moleza! — Tentou acordá-lo, pegando um travesseiro da cama e jogando em cima dele. — Vamos, vamos, já são onze horas, preguiçoso! — Riu quando ele o xingou, movendo-se manhosamente pelo colchão, enfiando ainda mais o rosto contra o travesseiro.
Kale jogou-se em cima dele, esfregando o cabelo molhado e espetado em sua nuca, esmagando uma gargalhada quando ele pulou, assustado e arrepiado, usando os braços para empurrá-lo para longe.
– Ah nah, olha a rebeldia! — Gracejou, agarrando seus pulsos, esquivando-se com habilidade dos chutes desordenados de Kai. Sentou em cima de suas pernas, prendendo-o totalmente. — Óh, cê para com o mau humor matinal, hein?
– É bem difícil ficar bem humorado quando se tem você como despertador — grunhiu entre dentes, sabendo pela textura que Kale usava apenas uma toalha. — Você sempre acorda assim? Que merda, hein…
– Depende da companhia — gracejou, seus olhos sorrindo por ele. Soltou-o rapidamente, erguendo-se do colchão para lhe dar espaço. — O.k., vambora que a gente tem que comer rapidão para eu te levar e te mostrar um lugar legal — começou, andando até sua mochila. — Quer dizer, não te mostrar… Fazer com que você sinta bem num lugar legal… — Tentou se consertar, arqueando a sobrancelha à medida em que não ia consertando, e sim piorando. — Eu tenho certeza que o que eu disse agora está escrito em algum lugar de “50 Tons de Cinza”. — Fez uma careta desgostosa, decidindo ignorar a situação.
Kai riu alto, tateando à sua volta para conseguir levantar, sentindo-se ainda mole pela sonolência. Guiou-se até sua mochila, abrindo-a sem dificuldades e começando a tatear as peças de roupa, querendo encontrar um short e uma camiseta de manga curta. Tocou o que lhe pareceu ser algodão, retirando de dentro da mochila e começando a vasculhá-la em busca de mangas curtas.
O que achou foi botões e colarinho. Descartou imediatamente, procurando por outras.
Kale estava de costas para ele, já começando a se vestir com uma camiseta azul marinho e shorts jeans pretos, pegando seus óculos de sol, depositando-os na gola da camiseta, saindo à procura de um tênis.
Quando virou-se para ir procurar no quarto de seu pai, quase teve uma síncope. Kai estava paradinho em pé, apenas de cueca, alisando uma bermuda, procurando por pontos que pudessem descartá-la de seu uso.
– Kale, essa bermuda aqui combina com isso aqui? — Indagou, erguendo uma camiseta marrom com ondinhas azuis desenhadas no peito.
– Camuflada — disse o surfista, seu cérebro processando a pergunta como “de que cor é a bermuda?” e não se combinava, ocupado demais prestando atenção na região lombar do garoto.
– Hã?
– Quê? — Piscou, momentaneamente acordado.
Kai sorriu, encarando aquilo como um ato idiota diário do outro. Vestiu-se num instante com aquelas roupas, pegando sua bengala dobrável de dentro da mochila. Deixou Kale sozinho no quarto, pedindo licença ao se sentar ao lado de Emily à mesa, sorrindo quando Débora lhe ofereceu um mundaréu de comida, insistindo para que ele se sentisse à vontade para comer o que bem entendesse.
Agradeceu com veemência, decidindo pegar um mamão para cortá-lo, ouvindo a voz de Kale apenas quando já havia comido o primeiro pedaço.
– Bom dia! — Entrou na cozinha espreguiçando-se, inclinando-se sobre a cadeira e beijando Débora no topo da cabeça. — Bom dia, Debbie. Bom dia, meu velho — cumprimentou-o igualmente, esfregando a careca brilhosa de seu pai em seguida, rindo e beijando Emy na bochecha. — Bom dia, Emyzinha… E, humpf — fingiu desprezo, puxando uma cadeira para se sentar ao lado de Kai. — Bom dia, agregado — antes de se sentar, inclinou-se e beijou-o embaixo da orelha com um estralo, sua barba rala lhe fazendo umas cócegas extremamente confortáveis. Afastou-se com uma risadinha, pressionando a orelha contra o ombro, tentando impedi-lo de beijá-lo novamente.
– Mas hoje você tá cheio de gracinhas, né, Kale? De manhã a gente te ouviu importunando o Kai… — Debbie brincou com ingenuidade, interpretando tudo aquilo como se fossem grandes amigos, quase irmãos.
– Sabe o que é isso? — William, que já sabia muito bem que tipo de relacionamento havia ali, ousou dizer, lançando a Kale um olhar malicioso. — Isso é falta de ro-
– RESPEITA SUA FILHA, WILL! — Kale interrompeu-o ao jogar em sua cara, com toda a força que tinha, uma casca de banana.
– Mas, veja só isso, Debbie! — Reclamou indignado, ameaçando pegar uma laranja para jogar nele. — Eu iria dizer “falta do que fazer!”.
– AH, SIM, com certeza você iria dizer isso, né, William?! — Kale censurou-o com certa vergonha, entreolhando Kai para verificar se ele havia notado alguma coisa. O garoto mantinha-se sorridente, comendo o mamão como se nada tivesse acontecido.
Apesar das brincadeiras, o café da manhã foi extremamente agradável. Kai, como sempre, deixou sua marca ao pedir a jarra de suco. Todos observaram em silêncio quando ele pegou a asa do objeto, segurando uma xícara bem abaixo da jarra, começando a derramar o conteúdo cítrico gradualmente dentro dela. O som de alguma coisa sendo preenchida invadiu a cozinha, os olhos de todos atentos à xícara transparente, que se enchia de forma rápida.
Quando o suco tocou a borda do objeto, muitas mãos voaram na direção da jarra, almejando impedir que derramasse — porém, para sua surpresa, milésimos de segundos antes de tocaram no objeto de vidro, Kai parou abruptamente, esboçando um sorriso malévolo de quem sabia perfeitamente o que estava fazendo e que tipo de reação as pessoas teriam.
– Nossa, hein, como você é sem graça — Kale resmungou, agarrando a jarra da mão dele, tentando disfarçar sua preocupação.
– Não sou eu o sem graça, você que tem o humor limitado — rebateu, bebericando a xícara cheia.
– Como você sabe quando está totalmente preenchido? — Emy perguntou do seu lado, genuinamente curiosa.
– Eu ouço. Sempre que enchemos algo, há o barulho do vácuo sendo preenchido momentaneamente. Assim que o barulho vai se tornando mais agudo, eu paro de encher, porque já está quase derramando — sorriu, os lábios úmidos de suco natural de laranja. — É divertido ouvi-los desesperados — admitiu, rindo antes de devorar mais um pedaço de mamão.
Emy piscou, anuindo, ficando quieta como se estivesse pensando fielmente no assunto.
***
Assim que terminaram de comer, Kai escovou seus dentes, ouvindo a movimentação lá fora. Pelo o que entendera, Kale tentava batalhar pela moto de seu pai, sendo devidamente recusado por ele.
– Você não está sozinho, Kale. O garoto é cego e nunca andou de moto antes na vida, não quero que vocês dois fiquem com essa responsabilidade.
– Porra, pai, ele tem dezoito, sabia disso? — Kale contra-argumentou, fazendo Kai erguer as sobrancelhas enquanto escovava os dentes. — Ele já o dono do próprio nariz, e se ele falar ‘não, o.k., vamos’, vamos e ponto final! — Decidiu-se, sabendo perfeitamente que era dono da razão naquele momento.
Kai limpou o queixo quando saiu do banheiro, guardando suas coisas e caminhando devagar até o quintal, sentindo que ambos se interromperam quando pisou do lado de fora.
– Eu nunca andei de moto antes na vida, Kale — disse, não disfarçando seu conhecimento da conversa, armando sua bengala e guiando-se até perto dele. — Não sei se tenho coragem.
– Claro que tem! — O surfista se empolgou, agarrando-o pelos ombros. — Vamos, vai ser muito legal, eu prometo pra você.
Kai inspirou por um momento, pensando acerca, ligando as palavras chaves: ele, Kale, moto, agarrados, milhas de distância.
A quarta em especial o perturbou profundamente, fazendo com que suas mãos tremulassem.
– Hã… Eu realmente prefiro ir até seja lá onde de carro, Kale. Seguro, rápido, prático…
– Cômodo– resmungou, mal-humorado, andando até a garagem da casa. — O lado bom é que eu vou poder levar minha prancha, e não alugar uma. — Falou consigo mesmo, agarrando o portão, fazendo força para erguê-lo, os músculos do braço tornando-se rígidos sob a camiseta. — Qual o problema de vocês, francamente? Não gostam de emoção, porra… O melhor de andar de moto no Havaí é que não é necessário capacete, apenas óculos de sol… — Resmungava audivelmente.
Kai ergueu as sobrancelhas com a notícia, surpreso de verdade.
– Isso é sério? Sem segurança até pode ser, mas sem estilo? Nunca. — Gracejou, acompanhando Kale até dentro da garagem, assustando-se com a gargalhada que o surfista soltou, ecoando por todo o local.
– E as piadas não param, incrível — ele sorriu, pegando uma de suas pranchas que estavam penduradas na parede. Aquela era uma das primeiras pranchas que já teve em toda a sua vida, sendo de uma cor salmão já desgasta. — Entra no carro, Kai, eu vou pregá-la no carro — pediu, não hesitando em subir no automóvel, ajoelhando-se sobre o teto, posicionando a prancha entre suas pernas, pronto para amarrá-la.
Kai concordou sem reclamar, acomodando-se no banco do passageiro, vasculhando os bolsos à procura de seu celular.
– Kai, diga-me… — A voz de Will inundou a garagem, parecendo curiosa. Segurava um bloquinho de notas e um lápis preto. — Qual é sua altura?
– Não faço ideia — admitiu, pressionando os olhos com culpa.
– Ele deve ser uns quinze centímetros menor que eu, pai — Kale sugeriu de cima do carro, olhando para o bloquinho. — Escreve aí “1,70”.
– No inferno que você tem 1,85. — Kai entreabriu a boca, chocado por um instante.
– Ele tem 1,87– Will esclareceu, escrevendo em seu bloquinho a altura dele. — Você tem alguma preferência por cor, forma…?
– Hã… — Kai perdeu-se por um instante, não sabendo o que dizer.
– Ele vai querer uma evolution azul-marinho — Kale decidiu por ele, fazendo um nó de marinheiro na corda que prendia sua prancha ao carro, certificando-se que ela não iria cair pelo caminho. Quando averiguou que tudo estava o.k., pulou para o chão, entrando no carro de uma vez, sorrindo para o pai, que rascunhava a prancha no bloquinho.
– Dá próxima vez que vier aqui, Kai, juro pra você que terá uma prancha só sua — Will garantiu, erguendo o lápis como se ela fosse uma varinha mágica.
– Ah, sério? — Kai ergueu as sobrancelhas, mais feliz impossível. — Obrigado, Will, de verdade.
– Imagina, Kai! Mas eu tô em dúvida… Será que eu a dou na próxima vez, ou… — E, com uma expressão maliciosa, disse sem produzir som algum, apenas movendo os lábios: - será que deixo para dar como presente de casamento?– Sorrindo logo em seguida, feliz ao ver a cara de “eu não mereço isso” de seu filho.
– Tá bom, pai, já entendemos que você é piadista, beleza? Até mais tarde — resmungou, talvez ainda um pouco mal-humorado por lhe renegarem a moto. Ligou o motor do carro, ajeitando os óculos e saindo da garagem devagar.
– Aonde nós vamos? — Kai decidiu perguntar, sentindo seu celular tremendo no bolso, sinalizando uma mensagem recebida.
– Carlsmith Beach Park– respondeu como se Kai vivesse ali há anos. — Eu adoro esse lugar porque ele é diferente de todos. Primeiramente, não há areia, só rochas vulcânicas. Há pequenas lagoas que são cercadas por essas rochas. Resumindo: é demais. E, ah, tem tartarugas– disse como se aquela pequena informação pudesse mudar uma perspectiva inteira.
Kai sorriu, satisfeito com a informação que recebera. Deu atenção ao seu telefone, que apitava com a chegada de uma mensagem de Alex.
“Onde vc tá??!?” seu celular lhe transmitiu a mensagem, a voz robótica inundando o carro.
– “Onde vê cê tá, ponto de interrogação, ponto de interrogação, ponto de exclamação, ponto de interrogação”. — Kale tentou imitá-la, fazendo uma voz irritante.
– “big island”– digitou enquanto falava, os dedos ágeis contra as teclas, que anunciava cada botão apertado. — “mais especificamente, com o kale”.
– Dá aqui para eu tirar uma foto pra mostrar pra ele… — Pediu o surfista, pegando o celular do garoto quando pararam no sinal, selecionando a câmera frontal e fazendo paz e amor para a fotografia, Kai sorrindo, se possível, fofamente atrás de si. — Pronto, agora ele acredita. — Disse, colocando o telefone em seu colo.
A espera foi de apenas cinco segundos.
“QUÊ??”
“COMO ASSIM?”
“COMO VC FOI?”
“QUANDO”
“COM QUEM”
“EM QUE ESTADO VC TÁ”
“SUA MÃE DEIXOU MSM??”
– Jesus — Kale fez uma careta com a quantidade de perguntas.
– Ele sempre foi assim, sério. É meio irritante às vezes, mas eu gosto dele. Nessas horas eu acho que o Derek é feliz por ser surdo. — Grunhiu, começando a digitar. — “Eu prefiro evitar a fadiga e te deixar curioso. Adeus”– encerrou a conversa, fechando o aplicativo e bloqueando-o momentaneamente.
A risada do surfista preencheu o silêncio do carro, sua gargalhada escandalosa denunciando o quanto havia adorado aquela ação. Kai era como uma caixinha de surpresas — se irritado, podia fazer coisas que ninguém jamais havia imaginado que pudesse fazer.
– Ai, caralho, você é a melhor pessoa — Kale conseguiu dizer depois de enxugar os olhos marejados. — Mas, enfim, Carlsmith Beach fica a uns quinze minutos daqui. Já, já a gente chega.
– Não tô muito preocupado, tem tartarugas — usou o mesmo tom de voz que Kale usou ao se referir aos animais, fingindo-se de extremamente animado.
– Idiota — o surfista lhe deu uma ombrada nada dolorida, rindo entre dentes. — Ow, eu tava pensando aqui…
– Wow, que mal sinal… — Kai gracejou, torcendo a bengala nas mãos.
Kale ignorou-o com um revirar de olhos, ambas as mãos bem presas no volante.
– Eu tava pensando– retomou com mais ênfase. — Eu preciso treinar pra competição amanhã, e você quer se divertir e não ficar sem fazer nada. Que tal se nós surfarmos um pouco hoje?
Kai ficou em silêncio por um instante, apertando sua bengala com força. Lembrou-se imediatamente do dia após o zoológico, onde se masturbou pensando em Kale. Iria, francamente, se matar com uma paulada caso perdesse o controle novamente e ousasse ter uma ereção naquele momento.
Tinha sim uma atração inegável por Kale — tudo nele parecia magnetizá-lo, atraí-lo, lhe fazer sufocar por um instante, como se o oxigênio ao seu redor ficasse gradativamente mais escasso quando o surfista ousava se aproximar.
Era irrefutável que Kale possuía uma alma naturalmente calorosa, atingindo a todos, principalmente a ele num estímulo muito além da visão.
Não necessitava de olhos para enxergar a natureza de Kale.
– Hã… Eu realmente não sei. Eu não tô muito a fim de me molhar hoje — deu a desculpa mais esparrafada do universo.
– Kai, pelo amor de Deus, tá fazendo trinta e cinco graus hoje. — Olhou-o com incredulidade, o vento forte empurrado pelo mar entrando com tudo dentro do carro, inundando o veículo com um aroma maravilhoso de água salgada, terra molhada e corais. — Sente isso, Kai! Isso aqui é vento de ondas grandes!
– Por que você não treina hoje? Eu tô mesmo com o audiobook de “O Apanhador no Campo de Centeio” baixado aqui há um tempão, sempre procrastinando para ouvi-lo. Vou aproveitar a paz de Hilo — falou com tranquilidade, plugando seus fones no celular.
– Tá de boa, mas promete não me matar depois que você ler, o.k.? — Kale ousou fazer a piadinha, pressionando os olhos em seguida, mergulhado em arrependimento. — Ai, merda, isso foi horrível, desculpa Deus, prometo nunca mais fazer essa piada na minha vida. — Pressionou a testa contra as mãos no volante, sentindo-se a pior pessoa da humanidade. Kai ria alto do seu lado, adorando a piada.
– Já anotei pra minha listinha pessoal. É desse tipo de piada que eu gosto, Kale. — Sorriu, não se sentindo nem um pingo culpado. — A vida fica melhor quando se ri dela.
– Eu me sinto a pior pessoa da face da Terra — o surfista admitiu, virando o volante para estacionar o carro no acostamento coberto por árvores. O barulho do mar inundava os ouvidos de Kai, uma brisa aconchegante atingindo-o quando abriu a porta do carro, guiando-se até a calçada.
Ouviu Kale cortando a corda que prendia a prancha ao carro, os nós sendo impossíveis de serem desfeitos, muito bem dados. Um arrepio lhe atingiu quando o surfista se aproximou, agarrando-lhe a mão e o puxando para andar. Seguiram um caminho de cimento coberto por árvores, logo seus rostos sendo apalpados por raios solares bem intensos.
Carlsmith Beach Park estava salpicada de gente, com muitas crianças nadando nas lagoas, tirando foto com as tartarugas, que estavam pouco se importando com a presença delas. Rochas saltavam entre a grama, protegidas por árvores robustas, recheadas de folhas verdes e volumosas.

Kale sentou-se ao pé de uma árvore, protegido em sua sombra, o frio da pedra sob si incomodando-o um pouco. Retirou sua camiseta, observando quando Kai também sentou-se ao seu lado, acomodando suas costas no tronco da árvore, inspirando fundo o aroma gostoso que aquele lugar exalava.
– O.k., não tô preocupado em te deixar sozinho com um Iphone porque o índice de roubo aqui é praticamente nulo. Então, pode ficar tranquilo, descansa mesmo que eu vou estar a uns cinquenta metros de distância de você, tá? Qualquer coisa, grita — sorriu, acariciando a bochecha do garoto.
Kai apenas assentiu com um sorriso, aconchegando-se melhor no tronco, ouvindo o surfista desabotoar o short.
– Pera, você vai surfar só de cueca de novo? — Entreabriu a boca, chocado quando Kale, só por sacanagem, jogou a bermuda jeans em sua cara.
– Alguns costumes nunca mudam! — Exclamou na maior cara de pau, pegando sua prancha e a mantendo sob o braço esquerdo, correndo em direção à lagoa, pronto para ultrapassá-la e entrar no mar.
– Mas é um idiota, mesmo — Kai resmungou, tateando o tecido e dobrando-o, colocando-o sobre a camiseta que Kale também tinha retirado.
Acomodou-se novamente na árvore, relaxando e apertando o play para o audiobook que há décadas queria ouvir. A narrativa iniciou-se lenta e acompanhável, logo fazendo-o perder a noção de tudo e todos — estava submerso, completamente preso no universo de Salinger. Um vento agradável afagava-lhe o rosto, o cheiro de mar inebriando-o ainda mais.
Longe, bem longe do lugar aonde sua mente viajava, vozes de crianças e moças falavam baixinho, ansiosas e intrigadas, uma afobação típica de quem estava adorando estar ali.
Seu rosto mantinha-se plácido e sereno, os olhos bem fechados e os lábios entreabertos, sua testa levemente franzida com a concentração absoluta que dava ao narrador. Quem quer que passasse por ele o olhava, era inevitável.
Alguns fios que acomodavam-se em sua testa eram, por vezes, levemente bagunçados pela brisa que provinha do mar, mas não é como se ele estivesse prestando atenção em qualquer coisa.
Kale sentia-se revigorado.
Estava surfando depois de bastante tempo no lugar onde aprendeu a surfar, sentindo a natureza materna daquele véu extenso e intensamente azul que às vezes parecia intergrar-se ao céu límpido de Hilo.
Não caiu nenhuma vez, mantendo-se firme em cima da prancha como se ela fosse parte de seu corpo, correspondendo-o perfeitamente. Se dependesse inteiramente de suas vontades, passaria sem problemas mais de um dia dentro do mar, sentindo-se em casa. Mas, como seu corpo sofria diretamente os maus tratos do Sol, da desidratação e do ressecamento, decidiu sair da água assim que suas costas queimaram.
Arrastava-se pela lagoa, tomando cuidado com as tartarugas submergidas, temendo pisá-las — as crianças o olhavam com certa curiosidade, talvez afobadas com a presença de um surfista ali, perto delas. Já os pais o olhavam com outro tipo de curiosidade (principalmente as mães, diga-se de passagem), talvez perguntando-se se ele tinha ou não vergonha na cara.
“Pelo menos não é branca” pensou, rindo sozinho à medida em que andava na direção de Kai. Calma e silenciosamente, colocou sua prancha molhada no chão, andando sem problemas até o carro. Praticamente nu, abriu o veículo, inclinando-se para vasculhar os bancos, à procura da garrafinha d’água e uma toalha.
Jogou a toalha sobre o ombro, voltando para onde o garoto estava, acabando com a garrafinha em questão de minutos, os goles colossais fazendo seu pomo-de-adão dançar por uns instantes.
Prendeu seu olhar na expressão plácida de Kai, lambendo seus lábios por um segundo, sentindo-os quase secos. Seu desejo naquele instante era beijá-lo, não dava para negar. Repreendeu-se com uma balançada suave de cabeça, aproximando-se devagar e, apenas a fim de irritá-lo, agarrou-o com tudo nos braços, chacoalhando-o e berrando:
– KAI! — Gritou bem na frente de seu rosto, gargalhando ao presenciar sua expressão assustada, vendo-o se levantar no rompante realmente desesperado, como se sua vida dependesse daquilo, os olhos arregalados e as sobrancelhas arqueadas. A culpa pegou Kale com tudo, arrependendo-se imediatamente de tê-lo assustado daquele jeito. Apesar disso, não deixou de rir o tempo inteiro, abraçando-o fortemente, acabando por molhá-lo inteiro. — Desculpa por ter te assustado! — Gargalhou, esquivando-se quando Kai tentou socá-lo.
– Você não parece nem um pouco arrependido! — Rosnou, acertando-o com um chute na canela, exatamente no ossinho.
Kale curvou-se, mordendo os lábios, evitando gritar de dor. Desequilibrou, acabando por levar Kai consigo ao chão. Caíram numa parte com grama sobre as rochas, sob a sombra da árvore. Kale ria alto, apesar de estar todo dolorido. Sentou-se sobre as pernas branquelas de Kai, tentando se esquivar dos socos que o garoto distribuía aleatoriamente, visando acertá-lo. Seus punhos eram fortes, ágeis e extremamente esquivos, contribuindo com seus joelhos, que tentavam empurrá-lo para longe de si.
– Kai, violência não! — Tentou agarrar sua mão direita, grunhindo quando Kai atingiu-o no tórax, encolhendo-se por inteiro. — Ai, dói, caralho! — Tentou, rindo e percebendo que o garoto não parecia muito nervoso também. — Cê nem tá bravo de verdade! Tá batendo em mim de graça!
– Talvez seja por conta de suas faltas passadas! — Riu, sentindo-o sobre seus quadris. Kale era pesado e estava completamente molhado, mas, apesar disso, ficou feliz que ele fosse tão notável, já que podia acertá-lo facilmente. — Sai de cima de mim, Kale! — Pediu com certa afobação, remexendo as pernas e gemendo quando sua mão esquerda foi pega pelo surfista e prensada ao lado de sua cabeça.
– Para com a violência que eu te solto — tentou fazer um trato, finalmente conseguindo agarrar sua mão direita, prensando-a do outro lado de sua cabeça, rindo satisfeitíssimo ao vê-lo rubro e claramente insatisfeito por ter sido pego.
– Se você não percebeu, eu parei de tentar te bater quando você prendeu minhas mãos.
– Mas se eu te soltasse, você tentaria me bater de novo, eu tenho certeza — sorriu de lado, ajeitando-se melhor sobre os quadris magros do garoto.
– Se você não sair de cima de mim, sim.
Kale riu, inclinando-se sobre ele, as gotículas de água presas em seus fios respingando lenta e gradualmente no chão, atingindo muitas vezes a camiseta do mais novo. Kai remexeu-se, sentindo aquelas gotas em si.
– Você tá me molhando… — Grunhiu insatisfeito, esboçando uma careta desgostosa.
Kale, pela primeira vez no dia, ficou quieto. Permaneceu encarando-o fixamente, o aperto depositado contra as mãos de Kai se suavizando aos pouquinhos, tornando-se nada menos que apenas sua mão sobre a dele. Não se importou com seu cabelo encharcado nem com as reclamações do mais novo sobre aquilo.
Apenas sorriu quando uma gota caiu sobre sua bochecha, fazendo-o piscar e se esquivar, levemente assustado com o que poderia ser.
– Você me ouviu? Cê tá me molhando… — Disse de novo, sentindo a gota contra a sua pele.
– Deus, como você é reclamão… — Resmungou, aproximando seu rosto do dele e, com uma sutileza dificilmente contrariável, beijou-o serenamente na bochecha, no local onde a gota havia caído. — Pronto, já sequei — avisou num sussurro, sua barba roçando na pele sensível de seu rosto.
Kai piscou, pego completamente de surpresa pelo gesto inesperado. Seu corpo inteiro travou, os músculos rijos de tensão e a expressão mais surpresa impossível. Manteve-se com a boca suavemente aberta, as sobrancelhas arqueadas como se esperasse uma explicação para o que acabara de acontecer. Piscou mais algumas vezes, sentindo as mãos de Kale apertar as suas com um pouco de força, talvez recriminando-se pelo o que tinha feito.
Podia senti-lo bem perto de si, sua respiração misturando-se a dele de um jeito turbulento e afoito, como se ambos estivessem processando a situação.
Kai não conseguiu entender. Aquele beijo havia sido tão ingênuo quanto todos os outros, mas, mesmo assim, o afetou mais do que todos eles juntos. Os beijos de Kale eram bizarros, ele percebeu. Todos eles eram iguais: eram dele e unicamente dele; simples, mas carregados de sentimentalidade. Mas, ao mesmo tempo, todos eram diferentes.
Seus beijos representavam uma complexidade que ele não conseguia compreender. Gostava de recebê-los, mas apenas por serem os beijos dele.
Não se importaria nem um pouco se recebesse um beijo de Kale Iwin ali, naquele exato instante, sem interrupções. Não se importaria caso fosse abraçado e molhado por ele, mas apenas por ser ele.
Deixou que suas mãos se libertassem do aperto das mãos do surfista, começando a erguê-las devagarzinho, incentivando-as a procurar por seu rosto. Achou seus braços, que se mantinham rijos lado a lado do seu corpo, tocando em seus bíceps molhados e escorregadios. Sua pele estava quente, muito provavelmente queimada. Kale não moveu nem um músculo quando Kai subiu paralelamente suas mãos, tocando-o carinhosamente nos ombros largos, começando a subir em direção a sua cabeça.
A barba rala fez cócegas em seus dedos macios, fazendo o garoto sorrir suavemente, contornando sua mandíbula até chegar em sua nuca, tocando-a suavemente.
Seu peito doía, algo dentro de si retumbando forte, como se seu coração fosse capaz de simplesmente saltar para se suicidar nas costelas, tamanha era sua força com que batia dentro do peito. Com a aproximação, pressentia que Kale sentia-se da mesma forma, sua respiração densa misturando-se facilmente a dele.
Envolveu o pescoço do surfista com ambos os braços, não sabendo exatamente o que estava fazendo, simplesmente o fazendo. Fechou suavemente os olhos, levantando a cabeça, num sinal mais claro impossível.
Queria beijá-lo, mas só porque era ele. Queria sentir, queria descobrir como seria aquela variação de beijo, esperando por um salgado sabor mar — não se importaria nem um pouco caso o fosse, já que sabia que apesar dos sabores, Kale continuaria sendo o mais doce por ser, simplesmente falando, ele.
Ofegou quando o surfista lhe beijou suavemente no canto dos lábios, num contato efêmero e cálido que só ele sabia proporcionar.
Kale sentia como se algo tivesse estourado dentro de si, o conteúdo derramando em seu interior de forma quente, fazendo-o derreter devagarinho. Mentiria caso dissesse que algum dia esperava por aquilo, porque não, nunca que imaginaria um Kai pedindo a ele por um beijo.
Sorriu antes de pressionar com certa força seus lábios contra os dele, sentindo que poderia morrer naquele exato instante. Derreteu quando o mais novo apertou-o com volúpia, repuxando seus fios úmidos com força, como se quisesse tê-lo mais perto de si.
Tocou Kai no queixo, puxando-o para baixo lentamente, introduzindo sua língua na boca quente e extremamente deliciosa do garoto. Senti-lo pela primeira vez daquela forma era maravilhoso, como se ele estivesse totalmente entregue em seus braços, as mãos apertando sua nuca, arranhando-o suavemente nas costas, os lábios parecendo magnetizá-lo para tomá-los.
E Kai, de fato, estava entregue.
Sentia espasmos escorrendo por toda a sua pele com os toques do surfista, seu corpo ameaçando incendiar com todos aqueles toques. Seus lábios eram mordidos, sugados e beijados numa paixão contagiante, suas mãos deslizando até o rosto de Kale, apertando-o com quase brusquidão, sentindo os arranhões suaves que a barba mal feita causava em seus dedos.
Kai ofegava audivelmente, seu corpo inteiro correspondendo ao surfista, surpreendendo-se quando ele saiu de cima de seu colo, afastando gentilmente suas pernas para se posicionar entre elas, nunca desgrudando seus lábios dos dele. Não resistiu quando Kale puxou sua perna direita para cima, num incentivo mudo para que circundasse suas pernas em sua cintura.
Assim que ele o fez, Kale quase instantaneamente sentou-se, puxando o garoto consigo, apertando com força desmedida a parte de trás de suas coxas, recebendo em resposta um ofego doído e manhoso, sentindo suas costas serem abraçadas com mais força.
Kai afastou-se com um inspiro afobado, os pulmões esvaziados. Respirou uma única vez antes de cerrar suas pernas contra os quadris de Kale, um arrepio delicioso assolando seu corpo quando o surfista beijou-lhe delicadamente no ombro, as mãos tremulando ao agarrar-lhe com força as costas.
Kale afundou seu rosto na curva do pescoço níveo, adorando a forma como ele simplesmente cheirava maravilhosamente bem. Marcou aquela área com beijos, lambidas e mordidas nem um pouco doloridas, certificando-se de abraçá-lo o mais forte que pôde, o corpo delgado modelando-se em seus braços — com certeza ficaria vermelho e marcado depois, mas nenhum dos dois estava realmente ligando para aquilo.
O mais novo arfou baixinho, completamente surpreso e assustado, quando sentiu e não conseguiu conter uma ereção. Se era loucura ele não sabia, mas tinha noção de que aquilo só aconteceu porque estava com ele. Kale olhou para cima, quase cético quando percebeu em seu abdômen a ereção do mais novo. Quase que automaticamente, sua coxa moveu-se de forma lenta contra ele, fazendo Kai morder os lábios com força e enfiar o rosto no pescoço do surfista, como se qualquer ação vinda dele o fizesse ficar cada vez mais excitado.
Kale quase sorriu, encostando seus lábios atrás da orelha do mais novo num beijo terno e demorado, sentindo que ele tremia suavemente.
– Eu te amo, Kai — sussurrou lentamente contra sua pele sensível, apertando-o ainda mais em seu abraço, percebendo como quase seu corpo inteiro tremeu, completamente surpreso.
Naquele exato instante, os dois eram os únicos que existiam no mundo.
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