De Coração

21 Recíproco


Notas iniciais
Olááá, fofos e fofas do meu coração! Como estão vocês? Bem? Mal? ahuauhahu Primeiro de tudo, deixa eu agradecê-los pelos MARAVILHOSOS comentários no capítulo passado! Muito obrigada Boleyn, Lua N, Zenya, Nihh, luf warie, Sekkai, Déb, LunaBiju, Kim, Fly, Snow Queen, rodrigo e Kalki pelos INCRÍVEIS comentários! Vocês fizeram minha semana com suas mensagens de carinho! Em segundo lugar, GENTE! Será que eu estou autorizada para fazer um merchandising aqui? Assim, só de leve? AOAOJAOJAOJAOJAOJ Fofos, eu tô fazendo um projeto (two-shot) novo, yaoi medieval, com direito à nobreza, guerra, cavaleiros lindões e tal. Interessados? HUAUHHUAHUA Tá aqui o link, caso você estiver interessado: https://fanfiction.com.br/historia/665923/EntreosCorvos/ HUAHUAHUAHU É só isso! Espero que vocês gostem deste capítulo! Boa leitura!

Lucas Rodrigues sempre teve um complexo corporal. Depois do acidente, nunca mais sentiu-se bonito ou até mesmo satisfeito com o que aparentava ser. Mas, a partir do momento em que Antony ganhou a mania de não parar de dizer o quão bonito ele era enquanto transavam, Lucas mordia os lábios, secretamente aliviado.

E, naquela sexta-feira, não era muito diferente.

Nicholas Thomas estava alojado na casa de Leonard, dizendo a seu irmão que iria caçar conchinhas na praia no sábado de manhã, antes da competição.

Era um pretexto perfeito para que Antony Thomas sugerisse que eles assistissem a algum filme no apartamento de Lucas. Obviamente que, quando o míope abriu sua porta às dez horas da noite, Tony não tinha nenhum filme consigo.

A camiseta de flanela vermelha de Lucas foi retirada com certa dificuldade no exato instante em que foi empurrado bruscamente contra o sofá, sua exclamação de dor sendo completamente afogada nos lábios de Antony, que não perdeu tempo em beijá-lo como se estivesse esfomeado há meses.

– Finalmente uma brecha... — Tony murmurou entre beijos, sorrindo de lado, tirando numa afobação estonteante sua própria bermuda, sentindo Lucas tremendo suavemente sob si. — Eu adoro aquelas crianças, Lucas, mas se eles assistissem mais um episódio de Peppa Pig, eu juro por Deus que iria me matar.

Lucas gargalhou, envolvendo o pescoço dele com ambos os braços, sentindo os lábios quentes de Antony explorando seu pescoço de forma esfomeada, não conseguindo ter a chance de achar uma posição mais confortável sobre o sofá — até pensou em dizer que preferiria ir até o quarto, mas a forma como era beijado nublou completamente o seu cérebro.

Não foram necessários nem dez minutos para que Lucas começasse a gemer alto, a face chorosa e a garganta manhosa, soltando gemidos arrastados e muito gostosos de se ouvir, o corpo níveo tremendo em expectativa, parecendo frágil como porcelana.

Entreabriu as pernas, permitindo completamente, pressionando com força sua nuca contra as costas do sofá, abafando um gemido quando Antony entrou dentro de si com uma única estocada tão forte que lhe retirou todo o ar de seus pulmões. Mordeu os lábios, apertando os ombros de Tony, puxando-o para um beijo, que veio tão lascivo quanto os movimentos que ele fazia dentro de si.

Sempre diziam que rotina era algo ruim, mas como aquilo podia ser ruim?

Não conteve um grito, esquecendo-se completamente que não estava sozinho no prédio. Antony pareceu não se importar, empenhando-se em fazê-lo gritar daquele jeito novamente, estocando mais fundo e mais forte, segurando-o vigorosamente pelos quadris, apertando seus glúteos no processo.

Respirar era extremamente difícil naquele momento. Lucas tomou para si uma golfada de ar, tentando ao máximo se controlar; sua próstata era completamente esmagada, cada nova estocada o fazendo se contorcer sobre o sofá, sentindo seu corpo queimar.

O ápice estava tão próximo que Lucas teve a certeza que não conseguiria conter a voz — a menos que estivesse com sua boca tampada, de preferência com os lábios de Ant-

Seus pensamentos foram interrompidos quando Snow invadiu o parcial silêncio do cômodo, sobrepondo o barulho do sofá chocando-se contra a parede e os gemidos de ambos os lados. Lucas virou-se um pouquinho, o rosto rubro, a voz rouca e o corpo trêmulo e expectante — sem condições dele atender.

Mas, não conseguia prever.

E se fosse sua mãe? Se fosse o maldito Kale, pedindo por ajuda para qualquer coisa (séria e urgente, como caso ele fosse atropelado, esfaqueado, roubado, baleado e ou mutilado)?

Mordeu os lábios, olhando para Tony de forma culpada, esticando o braço na direção da escrivaninha.

– Você vai realmente atender? — O surfista indagou com dificuldade, o couro cabeludo úmido de suor.

– E-eu preciso… — Tentou o míope, agarrando o celular e deslizando a tela para conseguir atender. — A-alô? — Sua voz soou chorosa e frágil, como se estivesse com muita dificuldade de falar.

– Lucas?! — A voz de Kale soou do outro lado, parecendo realmente desesperada.

– Sim? — Tentou, abraçando-se a Tony quando ele se sentou no sofá, levando-o junto, não parando nem por um segundo. Sentiu quando o pênis do surfista entrou completa e profundamente em si, circulando as costas dele com as pernas, tampando o telefone ao gritar, o corpo ondulando nos braços de Antony, que mordia e lambia seu pescoço com veemência, obviamente visando deixar ali uma bela de uma marca.

– Cara, eu fiz uma merda muito grande. Tipo, muito grande.

– A-ah, sério? — Lucas tentou dizer, apertando os fios de Antony com força, quase arrancando-os. Ouviu o surfista grunhir abaixo de si, sentindo quando ele o apertou com um vigor descontrolado ambas suas nádegas, empurrando-o para cima apenas para puxá-lo para baixo com mais força, seu ponto mais erógeno sendo praticamente esmagado de um jeito enlouquecedor.

Apertou-se a ele com toda a força que tinha, os lábios partidos, sem energia nenhuma nos braços, no corpo ou em qualquer parte do corpo. Não dava para esconder que havia gozado — desde a sujeira entre ambos, até seu rosto de deleite profundo.

– Sim, cara. Eu beijei ele. Kale soltou a bomba do outro lado, fazendo Lucas apenas rascunhar uma expressão de surpresa, já que não tinha nem força para mover seus músculos faciais.

Lucas foi deitado no sofá, a respiração descontrolada, sabendo que Antony havia gozado instantes antes dele. Sorriu ao ver seu rosto suado, os fios louros respingando suor. Passou a mão nívea por seu rosto, alargando seu sorriso quando suas falanges foram beijadas, uma a uma.

Deixou Antony de lado por um instante, voltando sua atenção ao problema terrível no telefone.

– Mas, calma, foi rápido demais. Com beijar, você quer dizer ‘beijo na bochecha’, ou-

– Não, Lucas! — Quase gritou, desesperado. — EU METI A LÍNGUA NELE!

– VOCÊ O QUÊ? — Lucas quase gritou também, mas arrependeu-se segundos depois, a garganta raspando, totalmente dolorida.

– É! ISSO MESMO! Mas, só para me defender, deixa eu esclarecer: ele me pediu, o.k.?! A gente rolou no meio das pedras em Carlsmith, cara. Não tinha como resistir, tá? Esse garoto é… Argh, porra, irresistível! Eu quase enlouqueci, Lucas. Eu queria mesmo seguir seu conselho, ir devagar com as coisas, mas ele me pediu por um beijo!

Lucas inspirou profundamente, sentando-se devagar no sofá. Tomou cuidado para não sujar nada, coçando a cabeça.

– Você tem certeza que ele te pediu por um beijo, mesmo?

Absoluta. — Seu tom não permitia dúvida. — E ele gostou muito. Na realidade, nós dois gostamos muito. Eu fiquei excitado, ele ficou excitado… Todos nós saímos ganhando.

– Espera… Vocês ficaram excitados com um beijo? — A incredulidade lhe bateu à porta, boquiaberto.

– Não foi ‘um’ beijo, Lucas. Foi o beijo. — Retrucou como se fosse óbvio.

O míope revirou os olhos, enxergando um borrão com tribal andando nu e desleixadamente pelo seu apartamento, na direção da geladeira.

– Se foi tão espetacular assim, porque diabos você está me ligando com essa voz de desespero?

– Porque… Ai, porra, deixei meu carregador cair bem no meu pé! — Grunhiu, dramático como sempre, enfiando aquilo dentro da mochila. — Calma, tô guardando as coisas para ir pro aeroporto. — Alguns segundos se passaram com Kale praguejando, enfiando roupas e cuecas na mala. — Tá, beleza. O ‘porquê’ é que, logo depois de beijá-lo, eu… Eu meio que, hm… Falei “eu te amo”.

Uma longa pausa foi feita antes que um deles dissesse mais alguma coisa. Lucas mantinha-se boquiaberto, incrédulo e paralisado.

Demorou um minuto para que o míope conseguisse esboçar alguma reação.

Eu te amo? Kale…

– Eu sei, Lucas, eu sei! Eu tô enlouquecendo! Enquanto você tá aí, claramente transando com o Antony, eu tô morrendo aqui! — Lamuriou-se, quase soluçando. — Eu nunca me senti tão não-confiante na minha vida. — Admitiu, jogando-se de bruços na cama.

Lucas inspirou fundo, aceitando o copo d’água que Tony o ofereceu. Viu quando o surfista sentou-se do seu lado, olhando-o de esguelha com curiosidade.

– Escuta, se você tá se sentindo assim, imagina ele — recomeçou o míope, encostando-se no sofá. — Cara, ele pensava que gostava de garotas até te beijar e ficar de pau duro. — Foi direto ao ponto, assim como sempre. — Ele é racional, então provavelmente ele vai querer pensar a respeito. Dê um tempo a ele. Dessa vez, de verdade. Você já expôs demais seus sentimentos, deixe que ele exponha os dele também. — Simplificou, coçando o olho. — E, pelo amor de Deus, você não vai morrer. — Encerrou com um sorriso. Ele estava sendo malvado, sabia disso.

Mas era divertido. Já havia passado por tudo aquilo há muitos anos, e sobreviveu, certo? Apesar ser o nerd desajustado e indesejável, ele sobreviveu. Se Kale, por ser quem ele era, não sobreviver, havia algo muito errado na humanidade.

Desligou com um sorriso depois de ouvir um suspiro e um “o.k., obrigado, boa noite — aliás, não tão boa assim, tá? Minha cama, não!

***

– TÁ OLHANDO O QUE, VIADINHO DO CARALHO?! — Troye Owen berrou em plena seis horas da tarde para um grupo de garotos num bar, tombando para cima de um poste, a garrafa de uísque pela metade nas mãos sujas. Não conseguiu se apoiar, trombando contra o objeto de concreto, metendo a cabeça contra o material duro. Afastou-se meio zonzo, apoiando-se nele para não cair, os olhos difusos, suas olheiras começando a ficar profundas. — Olha, eu só não acabo com você porque eu sei que vai doer, o.k.? — Avisou ao poste, apontando para ele. — Eu sou burro, mas não tanto… Mas, se você ficar no meu caminho de novo, eu realmente vou acabar contigo… — Deu alguns tapinhas num aviso de imóveis amarelo, afastando-se com os passos confusos, seu cérebro ébrio demais para ter alguma coordenação.

Andou por alguns metros, fedendo como um cachorro morto, erguendo o braço apenas para tomar mais um pouco do uísque.

Troye não dormia desde que fora beijado por Brandon. Acabou gastando todo o dinheiro que havia ganhado com a venda de seus quadros com bebida, enchendo a cara por uma noite inteira, tentando preencher aquilo que chamava de “vazio” dentro de si — mas, bem encrustado no fundo, ele sabia que “vazio” era um eufemismo próprio para “dúvida”.

Parou de repente, apoiando-se no vidro de uma loja. Viu seu reflexo, encarando-o por diversos segundos.

– Sabe você? Você deveria mandá-lo se foder. — Disse, referindo-se a Brandon, apontando para si mesmo. — Como ele ousa ser um viadinho? Como? Ele já te viu pelado, sabia disso? — Riu, achando graça na desgraça de seu reflexo. — Ele é um malditinho. Você já comparou o tamanho do seu pau com o dele, se lembra? Quatro centímetros maior… Não o seu, trouxa, o dele, é claro. — Resmungou, inspirando fundo. — Você deveria mandar aquela filha da putinha para o inferno também. Ela gosta desses viadinhos, não gosta? — Resmungou, afastando-se do reflexo, tentando andar em direção ao Aloha Coffee.

Já a outra integrante da família Owen, Lindsey, estava detestando a tarde que estava tendo. Aparentemente, seu irmão estava desaparecido, provavelmente fazendo uma merda muito grande por aí.

Inspirou fundo, acariciando as sobrancelhas, não aguentando aquela situação — entrar em casa era um estresse gigante e absurdo, e tudo aquilo estava começando a sugá-la.

– Lindsey? — Tiffany Martin chamou-a, estralando os dedos na frente de seu rosto, despertando-a de seus devaneios.

Lindsey piscou, encarando a cara daquela garota com um pouco de nojo.

– Que é, porra? — Tão sutil quanto o irmão.

Tiffany não pareceu muito abalada, jogando os fios louros e platinados para trás dos ombros, empertigando-se para cima dela.

– Eu não sei se você já percebeu, mas eu realmente preciso entender trigonometria. — Disse ela como se a função da vida de Lindsey fosse ensiná-la a matéria que ela nunca fez questão de aprender, movendo os lábios devagar. — Mas, enquanto você viaja por aí, eu fiz uma questão de logaritmo. Resolva. — Praticamente mandou, empurrando o caderno em sua direção.

A vontade da caçula dos Owen era, na realidade, pegar aqueles livros e enfiá-los goela abaixo daquela garota simplesmente insuportável. Só estava se dando ao trabalho de tentar enfiar algo naquela cabecinha oca porque Tiffany estava a pagando, é claro.

Conteve-se para não revirar os olhos, sabendo que as duas cachorrinhas de Tiffany, Sabrina e Rachel, provavelmente iriam notar — e, caso elas notassem um gesto ofensivo, adeus dinheiro.

“Se concentre nos cinquenta dólares. Você consegue” pensou consigo mesma, pegando o lápis com determinação, uma música agradável de Oasis começando a tocar no jukebox.

Estava no Aloha Coffee com as três baratas tontas há horas, e nada de conseguir enfiar uma simples equação na cabecinha delas — eram tão mentalmente limitadas que tinha a impressão que, caso algum conhecimento entrasse em suas cabeças, explodiriam.

– Sabe o que eu soube, Ti? — Rachel começou, sorrindo maldosamente. — Soube que o Daniel chamou a Linda para sair ontem, depois do intervalo — riu de forma cínica, observando o sorriso surpreso e incrédulo de Tiffany. — Mas, claramente, ela deu o maior fora nele.

Lindsey inspirou fundo, odiando aquele apelido na boca delas. Continuou a resolver a fórmula, escrevendo com mais força, a ponta do lápis sendo esmagada.

– O quê? Daniel Jenkins convidou você para sair? — Ela indagou com uma voz irônica, obviamente desacreditada. — Wow, incrível, Linda — ouviu-se risadinhas. — Ele nunca nem conversou com a gente antes.

– Ah, sim, ele provavelmente tem uma queda por gente com o Q.I maior que dez — disse em alto e em bom som, sorrindo para si mesma.

Rachel juntou as sobrancelhas, olhando para Sabrina com certa dúvida.

– Mas do que você está falando? — Sabrina indagou, rindo como se Lindsey fosse louca. — Mudando de assunto do nada. Você é muito estranha, Lindsey.

A garota iria respondê-la a altura, já levantando a cabeça para xingá-la. Mas, graças aos céus, Luana chegou de repente, sorrindo simpaticamente para elas, segurando uma chaleira vermelha e fumegante com um pano de prato, começando a despejar chá na xícara vazia da integrante dos Owen.

– Boa noite! — Ela as cumprimentou-o, inclinando-se. — Ah, vejam só: noite das garotas? — Indagou com um sorriso inocente, oferecendo chá para Tiffany. Quando ela negou com uma expressão enojada, Lua virou-se para Lindsey, sorrindo para ela. — Isso é logaritmo? — Linda assentiu. — Eu lembro que logaritmo foi a única matéria em que eu tirei dez. — Riu, boas lembranças da escola retornando a ela. — Tenham uma boa noite, meninas!

Ah, quem dera.

Quem dera.

– Às vezes me pergunto o porquê dela não estar acorrentada — Tiffany sorriu maldosamente, provocando nas outras baratas tontas risadinhas malignas. Lindsey ergueu a cabeça, segurando a xícara ardente com cuidado, olhando-a diretamente nos olhos. — Porque, você sabe, com uma cor daquelas, provavelmente é o único lugar onde ela deveria estar!

Todas estavam rindo, exceto Lindsey Owen.

Apertou a xícara com força, olhando para o conteúdo transparente e fumegante dentro dela.

Ela poderia negar o quanto quisesse. Poderia discordar, debater, choramingar, espernear, gritar ou simplesmente bater em que a dissesse tal coisa.

Mas, em seus genes, estava lá: o DNA dos Owen não mentia. Era hereditário, simplesmente impossível de ser transmitido a quem quer que fosse. Só os Owen possuíam aquela indômita peculiaridade, aquela impulsiva ousadia. Não temer nada e a ninguém, não se importando com as consequências.

Foda-se” foi a última coisa que pensou.

Tudo aconteceu muito rápido, na realidade. A expressão de Lindsey não se alterou nem um pouco durante todo o processo, o olhar sádico mantendo-se sempre.

A maquiagem cara foi a primeira coisa a escorrer pelo rosto de Tiffany Martin. Depois, o grito estridente de dor excruciante invadiu o estabelecimento, todos os olhares voltados para a garota que se levantou correndo, o rosto recheado de bolhas cobertas sob uma camada grossa de maquiagem.

O único movimento de Lindsey foi o de levantar, dando espaço para que Rachel e Sabrina conseguissem sair do banco, ajudando a amiga, que corria desnorteada, a pele do rosto em carne viva, as bolhas tão grandes quanto sua burrice. Algumas pessoas gritaram, apavoradas com o estado monstruoso da garota, muitas delas — inclusive Luana — correndo em sua direção, ligando para a emergência quase que automaticamente.

Enquanto os gritos de dor assolavam o estabelecimento, Lindsey Owen guardou seu material escolar em sua mochila de pandinhas, fechando o zíper e pegando uma nota de dois dólares do bolso, colocando-a sob a xícara vazia de chá. Jogou a mochila sobre as costas, andando pelo corredor calmamente, desviando de Tiffany, que pulava no lugar, chorando e gritando alto, puxando as portas de vidro, suspirando ao receber a brisa confortável do fim da tarde direto no rosto.

Pensou no que iria fazer àquela noite: muito provavelmente tomar banho, se aconchegar no sofá e assistir RuPaul’s Drag Race.

Sorriu satisfeitíssima com o que havia planejado para aquela noite, contemplando, tamanha sua felicidade, o mar. Lindsey não era muito fã do mar — gostava de observá-lo, de admirá-lo, mas não entendia o amor incondicional que os outros tinham por ele.

Inspirou, focando, de repente, os olhos num ponto maltrapilho a alguns metros de distância, rodeado por outros quatro pontos que, apesar da distância, lhe pareciam hostis. Seus lábios se partiram quando percebeu quem era.

– Aaah, eu não acredito! — Um dos garotos que rodeavam Troye Owen exclamou, sua felicidade sendo contagiante. Um deles estralou as mãos enquanto o restante ria, fechando o círculo. — Será um milagre o que estamos vendo agora, rapazes?

– O que, sua bicha? Um homem de verdade? — Grunhiu, desbocado como sempre.

– Não, Troye. Você sem o seu namoradinho — um outro rapaz respondeu, sorrindo de lado. — Brandon, não é? Ele te tratava como uma maldita boneca de porcelana com a boca imunda. Você falava o que queria, sem sofrer nada de volta. Mas, já que a banda dividiu… — Não perdeu tempo: agarrou-o pelo colarinho, lançando-o contra um poste de luz de maneira forte.

– Você tá louco?! — Troye grunhiu, encarando-o fixamente nos olhos. — Eu não preciso daquele porrinha para me proteger, seu merda do caralho!

Claro que precisa. — Riu ele, dando uma joelhada no abdômen magro do garoto, que esbugalhou os olhos, a dor não tão excruciante por conta do efeito analgésico da bebida. — Bons sonhos, Troye.

Levou três socos no rosto e duas joelhadas no abdômen antes de ser jogado no chão. Foi chutado na cara, pisado no meio das pernas e socado nas costelas, e tudo isso simultaneamente por quatro caras, numa intensidade alucinante.

Tornou-se, de fato, irreconhecível quando o chutaram na cabeça, seu supercílio jorrando sangue para todo o seu rosto, seu corpo tomado naquele grená doloroso, as lamúrias, a dor e as risadas misturando-se num vórtice horrível de injustiça, apesar do mínimo mérito.

Ficou um pouco inconsciente nos segundos seguintes, a cabeça latejando, o corpo parecendo ser feito de vidro. Sentiu quando eles o agarraram sob os braços e pernas.

– Agora, seu filho da putinha, a gente vai te levar ao lugar que você pertence — disse um deles, sua risada sendo seguida pelos outros.

Não soube exatamente no que o jogaram, só soube que o cheiro era insuportável. Tentou se mover, mas todas as partes de seu corpo encontravam-se numa dor pujante. Viu quando eles se afastaram aos risos, olhando para sua camiseta encharcada de seu próprio sangue.

Desmaiou no instante seguinte, sem forças para fazer nada.

– TROYE! TROYEE! – Lindsey nunca correu tanto na vida. Era doloroso vê-lo apanhar, mas nenhuma sensação se comparou quando eles o jogaram no lixo. Lágrimas de ódio escorriam por sua face ruborizada, o desespero a alcançando à medida em que via o estado miserável do seu irmão. Quando percebeu que ele estava inconsciente, parou, atônita, pensando por dois segundos no que faria.

Passou a mão pelo rosto, completamente perdida. Não tinha como ligar para a emergência, porque, de qualquer forma, não tinham como pagar médico nenhum.

Mordeu a si mesma quando as lágrimas voltaram a salpicar seus olhos, impedindo-se de chorar. Com certa hesitação, enfiou suas mãos nos bolsos da calça de Troye, à procura de seu celular.

Encontrou o aparelho banhado de sangue fresco, o cheiro de chorume começando a afetá-lo. Desbloqueou-o com as mãos trêmulas, o estresse, o nervoso, o desespero, a dor e todos os outros sentimentos que geralmente sentia em sua casa, geralmente direcionados a Troye, eram ocasionados, agora, por causa dele.

Quase caiu no chão, as pernas frágeis, apertando com força desnecessária o único contato que fora adicionado aos favoritos — o único contato que precisava, que sabia que estaria ali o mais rápido que podia.

BRANDON?! — Quase gritou assim que o garoto a atendeu do outro lado, a boca trêmula, sua voz saindo em forma de grunhidos. — B-Brandon, por favor, me ajuda… O Troye… E-ele…

– Lindsey?! — Não eram necessárias perguntas como ‘o que aconteceu?’ naquele momento. Pela voz fragilizada da garota, estava na cara que não era uma coisa boa. A única questão que interessava era, na realidade: — onde você está?!

– E-eu tô perto do Aloha Coffee… Por favor, vem rápido, ele tá sangrando demais… — Ela tentou dizer, não conseguindo olhar para o seu irmão. — B-bateram muito nele, Brandon… Eu preciso levá-lo para casa, mas não consigo… Por favor, me ajuda…

A ligação foi encerrada segundos mais tarde — ela não necessitava de uma resposta, porque sabia que Brandon já estava a caminho.

***

Às vezes Lindsey se perguntava se Troye merecia o carinho que recebia.

E ela definitivamente não se referia a ela mesma e nem ao seu irmão do meio, Trenton — porque, se dependesse dos dois, Troye provavelmente seria abandonado no primeiro comentário ofensivo.

Brand encarregou-se de levá-los para casa naquela tarde. Seguia Lindsey rapidamente, seu desespero controlado, visando não estressar a garota ainda mais. Tinha Troye sobre os ombros, apertando o corpo mutilado gentilmente sobre o seu, não se importando com o cheiro alcoólico misturado ao chorume, espantando todas e quaisquer moscas que tentavam pousar em seus ferimentos expostos.

Brandon o tratava com o maior esmero que conseguia oferecer, seu coração mutilado junto com o garoto. Quando chegaram na residência dos Owen, uma pequena comoção aconteceu. Trenton estava acendendo um baseado quando chegaram, as almofadas sendo jogadas para longe a fim de conseguir acomodá-lo no sofá, Lindsey gritando para que Trent fizesse algo de útil, correndo para pegar o kit de primeiros socorros.

– Eu só acho que deveríamos ligar para uma ambulância — Trenton opinou, soltando a fumaça pela boca, aproximando-se devagar do corpo imobilizado de seu irmão.

– Ah, sim, e com qual dinheiro, Einstein?! — Lindsey desesperou-se, correndo para trazer os curativos até Brandon, que se preocupava em lhe tirar as roupas encharcadas de sangue e lixo.

– Eu posso vender minhas ervas para os enfermeiros — explicou ele despreocupadamente. — É da boa, eles irão aceitar.

– Caralho, Trenton, sai daqui! Vai providenciar algumas roupas e toalhas para ele! — Mandou a garota, rígida como uma muralha, apontando para os degraus. Trent se afastou, anuindo, subindo as escadas com a maior moleza do universo. Quando Lindsey se virou para olhar o estado de seu irmão, o choque a atingiu como uma facada. — Ai, porra, Troye…

Seu corpo estava irreconhecível. Os ferimentos mais graves localizavam-se na área das costelas, arroxeados e inchados. Seu corpo era uma mistura de roxo forte, verde musgo e vermelho escarlate, o lábio inferior cortado, o supercílio arrebentado, as maçãs do rosto inchadas, o olho esquerdo quase invisível por conta do inchaço.

Brandon pressionou uma gaze com água oxigenada em seu supercílio, tentando estancar o sangue.

– Ele tá perdendo muito sangue, Brand… — Ela o avisou, vendo o sofá já manchado com o líquido escarlate.

– A maior parte do sangue está vindo do supercílio dele. As áreas vitais só foram machucadas a ponto de deixar arroxeados — disse, olhando para o corpo magro abaixo de si. — Provavelmente ele deve ter quebrado algumas costelas. O Trenton está certo. Precisamos chamar uma ambulância. — Estava implícito em sua voz o desespero, mas ele estava ali, com toda a certeza.

– Não se preocupa, já chamei — Trent desceu as escadas, o celular na mão. — A gente compra os caras, Linda. Eu já fiz isso uma vez, posso fazer outra. — Pelo jeito, ele era a única pessoa calma naquele cômodo. — Ou eu posso, sei lá, dar o cu pra alguém — deu de ombros, não preocupado realmente. — De um jeito ou de outro, a gente compra eles.

Brandon sorriu pela primeira vez em meia hora, conseguindo estancar o sangue do supercílio de Troye. Lindsey deu um tapinha na testa, a vergonha alheia muito grande. Trent aproximou-se do irmão, vendo seu estado.

– E, sejam menos dramáticos, se ele tá respirando, ele tá bem. Ele vai sobreviver. Ele é um Owen. A única coisa capaz de nos matar é a crise — resumiu bem a situação, colocando o baseado de volta na boca quando ouviu uma sirene. — Eu acho que eles chegaram. Vou pegar o lubrificante.

– Me desculpa por isso — Lindsey revirou os olhos quando Trent desapareceu, pegando as toalhas que ele trouxera, limpando o irmão no tórax.

– Tudo bem, Lindsey, eu já sei como o Trent é. — Brand ignorou a situação, levantando-se, sua camiseta úmida de sangue e chorume.

– Não, o Trent não, foda-se ele. Eu tô me referindo ao Troye. — Cruzou os braços, a luz vermelha da ambulância invadindo sua sala.

Brandon balançou a cabeça, despreocupado.

– A gente é amigo há muito tempo. Eu já o vi em estados piores — sorriu, tocando-a no ombro.

A garota permaneceu inexpressiva, seu olhar parecendo cortá-lo ao meio.

– Não minta para mim. — A frase foi curta, mas soou tão poderosa aos ouvidos de Brand que o fez murchar suavemente. — Eu sei. Desde o início, na realidade. Desde o momento em que você pisou nessa casa, eu soube. Meus pais jamais foram capazes de olhar para mim com o mesmo amor que você olha para o meu irmão inútil. E, por mais que eu tente, eu não consigo imaginar quanta dor você guarda para si mesmo.

Brandon afastou-se um passo, virando-se parcialmente, ouvindo quando as portas da ambulância foram abertas e viu pela janela quando dois homens saíram, segurando uma maca.

– É difícil amá-lo, não é? — Lindsey esfregou os braços.

Permaneceram em silêncio, vendo quando Trent desceu as escadas, indo atender ao rapaz na porta.

– Não. — Brandon a respondeu de repente, mantendo uma pose sisuda. — O mais difícil é saber que é recíproco.

Notas finais
Ai. É, eu sei, passei um pouco dos limites nesse capítulo. Sorry ahuahuhuahuaa Gente, a única foto que eu tenho para vocês hoje é do Trent em seu habitat natural: http://i46.beon.ru/13/54/785413/15/67299615/tumblr_lnt07tyZdR1qiyxdfo1_500_large.jpeg (Jeremy Kapone. Acreditem, ele só está fofinho nessa foto ahuahuauah) HUAUHAUHAHUAAHU O.k., por hoje é só, crianças. Enquanto isso, parto em busca da foto da Lindsey q Obrigada se você leu até aqui! Grandes beijoos!