De Coração

24 Me Beija?


Notas iniciais
Jesus Cristo, HÁ QUANTO TEMPO. Gente, eu nem sei como eu vou começar isso aqui, sério. Acho que, em primeiro lugar, eu devo me desculpar IMENSAMENTE pela demora COLOSSAL. Eu sei que se passaram QUASE dois meses desde a última att, e eu peço enormes desculpas por isso. É quase clichê culpar a escola por conta dessas demoras, mas é a única razão para que eu realmente demore tanto assim. Minha sala iniciou um novo projeto coletivo, e eu tenho que dar 100% de mim nisso (tô na parte de correção e revisão de textos, olha que ajskalda), porque, caso não, sobra pra mim. Em segundo, quero deixar bem claro que eu JAMAIS irei abandonar essa história, não no ponto em que chegamos, okay? huahua então, fiquem tranquilos porque isso não irá acontecer. E, EM TERCEIRO, MAS NÃO MENOS IMPORTANTE, eu quero agradecer a vocês, coisinhas fofas, que comentaram maravilhosamente no capítulo passado! Obrigada mesmo à LunaBiju, Kalki, Kim, Lua, rodrigo, ju, luf warie, Sekkai e Blue por mandarem tais mensagens de carinho! E, TAMBÉM, JESUS AMADO, OBRIGADA MESMO AOS LINDOS MIMIKA E IAN POR RECOMENDAREM, GENTE VAMOS COM CALMA PRFV Sério, obrigada mesmo, vocês são demais! ♥ Eeee, agora, espero mesmo que vocês gostem deste capítulo! ahuhuahau Boa leituraaa!

“And all I could think of is you in that sundress
And if there's a chance to be with you I promise

That I will speak no evil
And I will see no darkness
And I will only only hear your voice…”

Mexeu inconscientemente o pé, o afego do som preenchendo o quarto com uma grande facilidade, rapidamente absorvido pelo míope, que, seminu e de bruços, foi acordado confortavelmente naquela manhã de sábado.

Piscou, coçando os olhos enquanto se movia devagarinho sobre o colchão confortável, virando-se para encarar, ainda de forma borrada, o cômodo vazio e escuro, a janela ainda fechada, deixando apenas um fiozinho de luz entrar.

Percebeu a cama arrumada de Kale, a música passando pela porta entreaberta do quarto, obviamente vinda do banheiro.

Se sentou na cama, bocejando e se espreguiçando, pegando os óculos sobre a escrivaninha para conseguir enxergar a hora.

7:33”

— Qual o problema dele? — Já acordou reclamando com um resmungo rouco, a voz com preguiça de aparecer.

Puxou seu shorts de dormir para baixo quando se levantou, andando descalço e calmamente para fora do quarto, passando pelo banheiro onde uma verdadeira turnê estreando Magic! feat. Kale acontecia, o surfista tentando harmonizar de forma horrível e desafinada com a banda.

Lucas revirou os olhos, inspirando fundo e pegando todas as coisas que necessitava para fazer um lanche simples como café-da-manhã, abrindo a geladeira uma única vez para pegar o suco natural de laranja que Kale havia feito na noite anterior, sentando-se à mesa e dobrando sua perna boa, comendo calmamente enquanto desbloqueava seu celular, percebendo que havia recebido mensagens de Antony e de sua mãe.

Levou um susto quando Kale saiu de supetão do banheiro, grunhindo, grasnindo, engasgando, tossindo, gritando, berrando, morrendo — fazendo tudo, exceto cantando -, mais feliz do que pinto no lixo, vestindo uma bermuda jeans e camiseta regata preta, com born to surf, forced to work de estampa, os cabelos molhados e a barba feita. Uma nova música se iniciou em seu celular, fazendo-o deslizar pelo chão de madeira, fazendo sua mão de microfone.

Stupid me, I don't know how to slow down! — Começou com animação, inclinando o microfone imaginário na direção de Lucas, um apelo mudo para que ele continuasse a música.

— Como cantor, você é um ótimo surfista, Kale… — Lucas ignorou-o, voltando a prestar atenção em suas mensagens.

Kale o abraçou, se inclinando e retomando a música.

Why do ya play with my heart, why do do do yooou?— Tentou, pressionando sua bochecha contra a têmpora de Lucas num aperto nada confortável. — When ya know that I see right through through through yooooou?— Agarrou Lucas pelos ombros de forma dramática, virando-o bruscamente em sua direção. — But if you don't love me the way I looove you! — Desafinou, fazendo Lucas rir pela primeira vez no dia, tentando empurrá-lo para longe de si, aquela felicidade estonteante já contagiando-o aos pouquinhos.

— Pelo amor de Deus, Kale, ainda são sete da manhã, as pessoas deveriam ser presas por ficarem felizes neste horário, sério.

— Como você é mal-humorado, Luquinhas! — Kale o agarrou novamente, lhe depositando um ‘beijo de pai’ na testa, esfregando e deixando os cabelos negros do brasileiro um perfeito caos, rindo quando levou um soco no bíceps, encolhendo-se e correndo até o quarto, deixando seu celular sobre a mesa, Stupid Me ainda tocando no volume máximo.

Kale abriu a janela, deixando que a luz solar invadisse todo o quarto, adorando como aquele dia parecia perfeito. Passou desodorante, perfume, colônia e até mesmo roubou um dos cremes de Lucas, passando-o nas pernas, dedicando-se ao máximo para ficar o mais apresentável possível no ponto de vista de Kai.

Já havia falado com ele naquela manhã, deixando bem claro que iria estar em seu prédio às oito para conseguirem aproveitar ao máximo do parque, já que era sua primeira vez. Claro que Kai tentou barganhar, dizendo que era um pouco cedo para ele, mas Kale era insuportável quando queria alguma coisa, então foi fácil ludibriá-lo e obrigá-lo a acordar cedo.

Voltou à cozinha de forma energética, desligando a música, pegando seu celular e o guardando no bolso da bermuda, passando os dedos pelos fios meio úmidos de seu cabelo comportado, se despedindo de Lucas com um som esquisito que explicitava sua animação.

Era incrível como as pessoas pareciam ainda mais lindas quando felizes — qualquer um, não importava quem. Kale não era exceção. A única coisa visível em seu rosto era seu sorriso, os olhos tampados com os óculos de sol, os pés se movendo sozinhos à medida em que andava/dançava pela rua. Não importava quem, todos o olhavam, estranhando aquela aura bizarramente feliz.

Apenas fez um sinal de positivo para o porteiro do prédio de Kai quando chegou lá, sendo recebido com intimidade — não que Kale soubesse, mas ele era motivo de muita conversa entre as faxineiras, tornando-o bem popular entre as moças da limpeza dos prédios da região.

Entrou no elevador sem maiores dificuldades, olhando-se no espelho uma última vez, ajeitando suavemente os fios agora secos, inspirando fundo e calmamente, dizendo a si mesmo para não falar merda para os pais de Kai. Não que não tivesse causado uma boa impressão, mas era mestre em arruinar as coisas.

Engoliu em seco, tocando a campainha com hesitação, tirando os fones e desligando a música, concentrando-se no que iria dizer.

Dona Eliza o atendeu, seu rosto se iluminando ao vê-lo, surpresa e encantada.

— Ah, Kale! — Quase suspirou, agarrando-o pelo bíceps, o puxando para dentro. — Mas que saudade de ti, menino! — Não necessitou de cinco segundos para abraçá-lo de forma materna, ainda achando-o incrivelmente alto.

Kale, não sabendo ao certo o que fazer, apenas a abraçou também, sorrindo quando ela se afastou às pressas, dizendo que ele poderia se sentar e se sentir à vontade.

O surfista se afundou num dos lugares estofados do sofá da família Mason, olhando em volta com curiosidade. Deu de cara com diversos porta-retratos, as paredes pintadas num bege calmo e diversos vasos de plantas espalhados nos cantinhos. Inclinou-se, verificando uma das fotografias.

Kai deveria ter, no máximo, quinze anos. Estava sentado entre seus pais, sorrindo tímido para o nada, esmagado pelo abraço fraternal que recebia.

Sorriu, tirando uma foto daquela moldura, adicionando uma nota mental de passar aquilo para seu computador.

— Eu não sabia que você era tão pontual. — Ouviu, fazendo-o se virar rápido para a porta da cozinha. Kai aproximou-se devagarinho, vestindo bermudas jeans simples e uma camiseta do Darth Vader.

— Eu não sou pontual… Quer dizer, depende bastante para qual compromisso eu tenho que ir. — Sorriu, tirando os óculos e os enganchando na gola de sua camiseta. Acabou assustando o garoto, já que o agarrou num abraço forte sem pensar duas vezes, mergulhando o rosto nos fios recém lavados, adorando a forma como eles cheiravam.

Kai riu com sarcasmo, sentindo-se quente nos braços apertados do surfista.

— O que é isso? Você andou lendo alguns livros da Jane Austen? — Achou graça de seu comentário repentinamente galante.

— Não, só estou animado para ir para o parque, mesmo — confessou numa risada nervosa, afastando-se dele ainda com o sorriso pendurado no rosto. — Qual é, vai me dizer que também não está?

— Estar, eu estou, mas… Não tô muito confiante em relação à montanha russa… E muito menos para a roda gigante. Só de me imaginar dentro de um círculo de ferro como um hamster, me dá arrepios. — Admitiu, esfregando os braços como se só a ideia o aterrorizasse.

Então, o.k., vamos deixar as duas para o final. — Kale abriu um sorriso malévolo, abraçando-o pelos ombros.

Kai juntou as sobrancelhas numa óbvia careta descontente.

— Você é horrível.

***

Multidão.

Multidão para cá, multidão para lá, e tudo isso bem na hora em que abriram o local, às exatas nove e quinze da manhã.

Todos andavam na mesma direção, o ventinho fresco e o sol caloroso ajudando no humor daquelas milhares de pessoas que entravam no parque novinho. Crianças rodeavam suas pernocas nos pescoços de seus pais, vestindo bonés para protegerem seus rostos. Namorados entrelaçavam os dedos, correndo para a barraquinha de algodão-doce. Grupos de amigos se embreavam na multidão, contando piadas, gargalhando com besteiras, sorrindo sem motivo aparente.

Kai sentia-se perdido.

Eram sons, toques e vibrações demais. Tudo vinha até ele com grande intensidade, para apenas se dispersar, dando lugar a outros e mais vários sons. Não conseguia contar quantas vezes esbarraram nele, quantas vezes ouviu gargalhadas, quantas vezes ouviu preços.

A única coisa que não mudava era o aperto caloroso em sua mão.

Kale o agarrou de um jeito absoluto, entrelaçando seus dedos e o mantendo firme, quase acorrentado a ele. Sempre que sentia-se desnorteado, o surfista logo tratava de botá-lo nos eixos, indicando aonde estavam indo.

Assim que entraram no parque, foi logo guiado até a esquerda, perdido com todos aqueles passos.

— Aonde vamos? — Perguntou, seu estômago embrulhando ao ouvir o barulho da estrutura da montanha russa tremendo, os gritos das pessoas se tornando um misto de desespero e medo. — Não estamos indo para a montanha russa, né?

— Eu não disse que só iríamos à noite? — Sorriu de forma malvada, guiando o braço de Kai para dentro do seu, enlaçando-os. — Se formos à noite, teremos mais chance de sentarmos na frente, já que a maioria das pessoas já vai ter ido embora. — Riu com a expressão de desespero de Kai, que deixou seu queixo cair suavemente.

— Você tá brincando, né?

— Não. — Respondeu de forma simples e direta, provocando em Kai um arrepio comprido, que se prolongou até seu dedinho do pé. — Mas enquanto isso, você me disse que nunca veio num parque, certo? Então, logicamente, você nunca ganhou aqueles ursões de pelúcia que são dados em barraquinhas de tiro ao alvo, né? — Previu, o arrastando na direção de uma barraquinha grande, cheia de bichinhos pendurados em varais, lotada de gente apontando para diversas pelúcias.

— Se você tem essa certeza, por que tá me perguntando? — O mais novo juntou as sobrancelhas, confuso por um instante, sentindo que estava sendo espremido por muitas pessoas. A barulheira de objetos sendo acertados, pessoas gritando e vendedores rindo inundava seus ouvidos. Riu quando Kale lhe fez cócegas como vingança por sua grosseria, encolhendo os ombros.

— Entre uma baleia assassina e um urso panda zumbi, qual você escolhe? — Kale ignorou seu mau humor habitual, encarando encantado para as pelúcias quase do tamanho dele.

— Não tem outras opções?

— Ter tem, mas elas não são tão legais quanto essas. — Abriu um sorriso de orelha a orelha, apertando o pé acolchoado do urso, vendo a tabelinha de preços que estava pendurada no meio da barraquinha.

Para ganhá-los, era necessário acertar um número diferente de patinhos, que ficavam “deslizando” na parede oposta ao do balcão, às vezes acelerando, às vezes calminhos. Para conseguir ganhar os pequenos, era necessário acertar cinco patinhos em dez chances. Para os médios, dez patinhos em quinze chances. E, para os grandões, quinze patinhos em apenas dezessete chances.

Mas era claro que Kale queria ganhar os grandões.

Decidiu que iria, de todas as formas possíveis, pegar a baleia assassina para Kai, pagando ao vendedor e empurrando algumas pessoas, mesmo que sem querer, para conseguir se locomover ao mirar nos patinhos.

— Do que você vai chamar a nossa baleia assassina, Kai? Que tal Rebecca? Eu acho que é um nome bem legal. — Disse, completamente avulso, mirando corretamente e conseguindo acertar um dos patinhos com uma facilidade até que impressionante, julgando por suas (não) qualidades gerais.

O garoto fez uma careta ao ouvir o nome de Rebecca, apoiando-se ao lado do surfista, aleatório ao que estava acontecendo.

— Não, Rebecca não… — Desviou facilmente do assunto, mordendo os lábios. — Você já jogou Donkey Kong Country?

— É claro que eu já joguei Donkey Kong! — Kale sorriu, lembrando-se de seus tempos de pivete, em que muitas vezes preferia uma prancha a um video-game novo.

— Tinha uma garotinha, não tinha? Qual era o nome dela? — Tentou se lembrar, coçando a cabeça, forçando seu cérebro. — Jessie?

— Não, era algo com “D”... — Kale estralou a língua, errando a quinta bolinha, praguejando e pegando a próxima com ódio, amaldiçoando aqueles malditos . — Acho que era Dixie, não?

Isso!— Kai estralou os dedos, afirmando com determinação. — Era isso mesmo!

— O.k., então nossa baleia assassina se chamará Dixie. — Kale sorriu, olhando-o de esguelha. Ele não percebeu, nem mesmo desconfiou, mas apenas o fato de chamar a orca de ‘nossa’ fez o coração de Kai apertar. Pela primeira vez, eles teriam algo para cuidar, juntos.

Estava certo que não passava de um bichinho de pelúcia, mas poderia até mesmo ser um cachorro, ele ainda teria arrepios do mesmo jeito, só ao imaginar que ele pertencia a ambos.

O céu estava tão límpido, tão azul e tão ensolarado que a temperatura não tardou a aumentar de vinte e oito graus para trinta e três com uma velocidade incrível. Kai sentia-se como um picolé derretido, rindo todas as vezes que Kale gritava, berrava ou grunhia em frustração quando errava uma bolinha. Àquela altura, ele havia perdido todas as vezes em que se era permitido perder, sendo que faltavam apenas três patinhos.

Ele estava mesmo disposto a levar Dixie para casa, como se fosse uma criança de três anos, teimosa e persistente, almejando pegar doces.

Ergueu o punho, berrando em felicidade quando o último patinho foi acertado, fazendo algumas pessoas ali perto sorrirem com sua felicidade desnecessária. Kale agarrou Dixie, puxando-a do varal com força, abraçando-a e logo cutucando a bochecha de Kai com a cabeça do bicho, rindo quando ele se afastou, levantando-se de onde estava sentado para estapear o vácuo.

— O que é isso?! — Perguntou com um grande receio, tocando assustado o material fofo de sua barbatana. — Calma, isso é a barbatana da Dixie? Meu Deus, Kale, é enorme— resmungou baixinho, como se de repente estivesse arrependido de tê-la escolhido. Abraçou-a, tentando medir. — Ela é maior que eu?!

— Não, exagerado — o surfista riu, agarrando-a e a botando sob o braço, bagunçando os cabelos desorganizados do mais novo. — Ela é só um pouquinho menor que você… Mas deve ser confortável para dormir. — Ponderou, apertando-a contra o corpo. — Ela é como uma namorada.

Kai juntou as sobrancelhas, sentindo sua mão ser envolvida pelos dedos de Kale, que começou a puxá-lo pela multidão, andando lado a lado com ele.

— Por que sempre que saímos, você fala sobre romance com animais?

— Eu não- — tentou falar, mas piscou, pensando melhor no assunto. — É, realmente, eu não posso negar isso.

— Nós precisamos conversar sobre alguma coisa, Kale? — O mais novo começou a rir, não resistindo a tentação de irritá-lo. — Podemos falar sobre fetiches, se você quiser…

O surfista revirou os olhos, mordendo os lábios enquanto evitava rir do mau gosto na fala de Kai, aproximando-o de si.

— Para de bancar o espertinho, seu sujo. — Resmungou, não evitando e sorrindo quando ele riu. — AH! Olha, uma máquina de socos! — Exclamou, animado, arrastando Kai para lá quase que imediatamente.

Então, como se uma lembrança lhe invadisse, Kai explodiu em risadas, segurando a barriga enquanto era arrastado até a pequena fila.

— E-eu lembro que, uma vez, o Alex inventou de tentar pontuar mais que quinhentos pontos nisso aí. Ele errou e o saco rebateu na cara dele… Só deu para ouvir o barulho dele caindo no chão, chorando. — Contou como se fosse o dia mais engraçado de sua vida, não parecendo nada culpado de estar rindo histericamente da desgraça de seus amigos.

— Meu Deus, Kai, que horrível… — Kale pareceu, no entanto, chocado. — Ele se machucou muito?

— Que nada, o Derek o socorreu e viu que nem ao menos sangrou. — Deu de ombros, não se importando realmente. — Mas tudo bem, eu nunca fui o tipo de cara que desmaia ao ver sangue. — Gracejou, fazendo Kale empurrá-lo suavemente no ombro, rindo de suas próprias piadas.

Entraram na pequena fila, o som ambiente apenas se intensificando. Muitas pessoas entravam no parque e pouquíssimas saíam. Os carrinhos de algodão-doce, pipoca e sorvete estavam indo à loucura, a demanda alta demais para o que conseguiam produzir. Kai conseguia ouvir o som dos urros das pessoas que tentavam, depois da máquina anunciando o resultado. Uma chuva de gritos inundou seus tímpanos quando um grupo de adolescentes se alterou quando uma garota conseguiu pontuar mais que três garotos anteriores.

Caraca — Kale sussurrou, olhando espantado e impressionado para a menina, que saía da máquina com braços abertos, rindo com suas amigas. — Meu Deus do céu, uma mina acabou de pontuar 848 nisso. É o recorde do dia. — Anunciou para Kai, erguendo as sobrancelhas, parecendo surpreso de verdade. Então, como se uma ideia brilhante lhe salpicasse a mente, virou-se para o garoto, sorrindo de canto. — Se você quebrar esse recorde, eu te compro alguma coisa e a gente não anda na montanha russa. — Tentou fazer um acordo, matreiro.

Kai inspirou fundo, sabendo claramente que era impossível quebrar aquela joça de recorde. Não podia sair por baixo daquela pequena aposta.

— Tá tudo bem. Mas só se você também participar. — Colocou seus termos, cruzando os braços. — Se você quebrar o recorde dela, você pode pedir alguma coisa para mim. Mas, se você perder, eu vou pedir algo pra você.

Kale sorriu, pegando a mão de Kai com força.

— Feito.

Os minutos seguintes foram banhados de vergonha alheia. Mas, é claro, se estavam com Kale Iwin, os momentos de embaraçamento vinham naturalmente. O surfista arregaçou mangas imaginárias, mirando por alguns segundos no saco vermelho, a máquina piscando, pronta para receber o soco.

Kai se assustou com o barulho alto e repentino ao seu lado, pulando suavemente quando Kale grunhiu com a dor em suas falanges — a força que aplicou voltou para si, no fim das contas. Ergueu as sobrancelhas, esperando ansioso o resultado.

— NÃO! — O surfista gritou de repente, enfiando as mãos nos cabelos, cético. O grupinho de adolescentes ainda estava ali, observando os concorrentes. Todos também gritaram, num misto de incredulidade e surpresa. — NÃO, NÃÃO!— Kale continuou na gritaria, tendo ânsias de arrancar seus olhos. — POR DOIS PONTOS, KAI, DOIS!— Chacoalhou o garoto, apontando ofendido para o número 846.— O QUE É VOCÊ, UM HUMANO GENETICAMENTE MODIFICADO?! — Kale virou-se, apontando para a garota, que riu histericamente junto com seus colegas.

Mas, não adiantava brigar naquele momento — ele havia perdido, isso era um fato. Kai nem ao menos tentou, sabendo que iria pontuar bem abaixo de 700. Seu ponto forte não era sua força, isso estava bem óbvio na sua falta de músculos. E, ademais, já havia ganho um pedido e iria, de qualquer forma, andar de montanha russa.

Apesar de Kale ter pedido, ambos saíram satisfeitos. O grupinho de adolescentes ainda ria da reação exagerada de Kale — que, mesmo após de ter saído do brinquedo, permanecia indignado.

— Eu não acredito que aquele cotoco em formação tem mais força do que um cara de dezenove anos… — Permaneceu resmungando, sua mão grudada na de Kai, o puxando para mais dentro do parque. — Francamente… O que essas minas andam tomando? — Virou-se para Kai, lhe dirigindo a pergunta como se ele fosse capaz de desvendar o universo. — Você está com fome? — Mudou de assunto antes mesmo que ele abrisse a boca para responder.

— Um pouco, sim.

— Que tal uma casquinha? — Ofereceu prontamente, seguindo caminho para uma barraquinha. — Meu Deus, eles têm casquinhas de melão! Vem, vamos pegar uma! — Riu, o puxando animadamente, seguindo quase saltitante para o senhor da barraquinha.

Kai apenas revirou os olhos, dividindo a conta e tomando cuidado para não se sujar com o sorvete. Não soube como conseguiu se manter limpo, na realidade. Kale não parava quieto, andando de um lugar para o outro, o puxando, repuxando, o protegendo de toques, às vezes o abraçando para que outras pessoas pudessem passar sem que os empurrasse. Em todos os momentos, sua mão calorosa estava apertando a sua, seu corpo sempre em contato com o seu.

Não importava quantas pessoas tinham ali e em que temperatura a cidade estava, o corpo mais quente sempre seria o de Kale — o que era paradoxal, falando sinceramente. O surfista estava bem longe de ser quente, já que sua temperatura corpórea era sempre fria.

Mas, naquele momento, ele nunca esteve tão caloroso.

Não sabia exatamente o que irradiava aquele calor, só sabia que ele simplesmente… Irradiava. Não conseguia ver seu sorriso, mas sabia que sorria. Não conseguia ver como seus olhos sempre pairavam sobre ele, mas sentia que era carinhosamente observado. Não conseguiria, jamais, vê-lo inteiramente, mas desde o princípio conseguiu senti-lo na íntegra.

Kale era uma daquelas pessoas especiais que não precisavam ser vistas para serem sentidas.

***

— Tem certeza que já fomos em quinze brinquedos? — Kale perguntou com um bocejo, sentando-se no banco de madeira ao lado do mais novo, que assentiu com convicção. — Pelo tempo que estamos aqui, parece que fomos em mais… — Grunhiu, agarrando seu celular do bolso para verificar a hora. — Já são quatro e meia.

— As filas estão enormes, Kale. Era de se pressupor que demoraria, mesmo. — Disse com certa tranquilidade, afundando no banco por um instante, sentindo-se confortável naquela posição.

O sol das quatro horas já estava manhoso, se aprontando para ir deitar. Seus raios já estavam frágeis, não tão quentes, mas luminosos como nunca. Eram finos como cortinas de seda, transpassando pelas nuvens, transformando-as casualmente em algodão doce flutuantes. Alguns desses fios sedosos passavam pela roda gigante, sendo refletidos pelo vidro da cabine, espalhando-os mais e mais pelo parque.

Uma brisa confortável com cheiro de mar invadia todo o espaço, suavizando o calor das pessoas que passavam por ali. Apesar de estar um pouco tarde, o local ainda continuava lotado. E, muito provavelmente, continuaria lotado até madrugada, quando eles fechariam.

Kai inspirou, deslizando pelo banco, apoiando sua cabeça no ombro do surfista, fechando os olhos, sentindo a brisa confortável e aconchegante, que o trazia uma mistura gostosa de aromas: era pipoca, pipoca doce, algodão doce, chocolates derretidos, frituras do fast food mais próximo e, por incrível que parecesse, o aroma das flores do parque — desde camélias, damas-da-noite, jasmins e azaleias.

— O que você quer fazer agora? — A voz de Kale interrompeu o silêncio confortável que existia entre os dois, sua mão acariciando os fios sedosos na cabeça de Kai. — Podemos fazer qualquer coisa, se você quiser. Óh, ainda temos que comprar umas lembrancinhas, temos que tirar fotos, andar na roda gigante, montanha russa… — Kale foi erguendo dedos à medida em que ia contando.

— Eu queria comer churros. — Kai disse repentinamente, afastando-se para se ajustar no banco.

— Churros? — O surfista piscou, coçando a nuca, olhando em volta, à procura de alguma barraquinha. — O.k., sem problemas. Podemos procurar por churros… AH, eu sei onde tem! — Gritou repentinamente, assustando ao mais novo. O pegou pela mão, entrelaçando seus dedos, levantando-se rápido. — Vem, é aqui pertinho. É bem ao lado de uma cabine de fotos! — Sorriu, animado, apalpando o bolso de sua bermuda, certificando-se se ainda tinha algum dinheiro consigo.

— Se vamos tirar fotos, precisamos de molduras… — Kai sugeriu, repentinamente animado com a ideia.

— Ah, sim, é verdade! Vamos passar numa lojinha depois disso. O que você prefere? Comer churros e depois tirar fotos, ou tirar fotos e depois comer churros?

— Podemos tirar fotos enquanto comemos churros. — O mais novo sugeriu, erguendo o dedo para completar sua explicação. Jamais deixaria comida de lado. Kale riu, assentindo e envolvendo-o pelos ombros com um dos braços, caminhando diretamente para a barraquinha de churros.

Um senhorzinho negro com óculos de meia lua os atendeu, simpático, mostrando-lhes um sorriso branco e caloroso. Kale pediu dois churros de chocolate com MM’s, pagando-o e logo se encaminhando para a curta fila da cabine de fotos.

Kale riu, observando as fotos que saíam da máquina, com um grupo de garotas fazendo contorcionismo para caberem nas fotos, muitas delas gritando de dor pelo peso que outras faziam sobre elas. Virou-se para Kai, que parecia concentrado em sua comida, não se importando em se lambuzar um pouco com o chocolate.

— Cê tá todo sujo aqui… — O surfista resmungou, utilizando-se de seu polegar para limpar os cantos da boca do garoto. E, como em todas as outras vezes, Kale acabou lambendo seu próprio dedo, distraído pelo gosto do chocolate.

— Você poderia ter apenas me dito… — Kai resmungou em resposta, ainda não acostumado por seus gestos.

— Larga de ser chato… — Kale resmungou de forma distraída, prestando atenção quando as garotas saíram da máquina, agarrando o pulso de Kai e praticamente o empurrando para dentro, fechando a cortina e engolindo o último pedaço de churros antes de se sentar no banquinho ao lado do garoto, envolvendo-o pelos ombros com o braço, olhando diretamente para a câmera. — O.k., espera, ergue mais a cabeça… — Kale indicou, olhando atentamente para Kai no reflexo da câmera, vendo se ele estava, no mínimo, virado na direção certa. — Pronto, agora sim. Vamos lá, Kai, sorria. — Pediu, encostando sua têmpora a dele, sorrindo largamente para o objeto depois de enfiar uma moedinha para ligá-lo.

Inúmeras fotos foram tiradas dos dois: em inúmeras posições, inúmeros sorrisos, inúmeros olhares. Os olhos de Kai nunca pareciam estar direcionados à câmera, mas aquilo não importou nem um pouco para nenhum dos dois — um estava aproveitando a presença do outro, e isso era mais do que o suficiente.

Kale o beijou na testa para uma das fotos, o abraçou bem forte em outra, fingiu que iria mordê-lo em seguida, bagunçou seus fios castanhos na seguinte e o cutucou na bochecha. Já Kai, por outro ângulo, só ria e pressionava os olhos, nunca sabendo ao certo o que fazer em horas críticas como uma simples fotografia.

— Eu quero todas. — Kale disse assim que saíram da máquina, retirando as fotos da reveladora, olhando-as com um sorrisinho.

— Por acaso só você está nelas? — Kai resmungou, tateando em busca das fotos. — Eu quero metade!

— Tá bom, você pode ficar com metade, mas me deixa tirar foto de todas elas antes, assim eu posso revelar as fotos que eu não fiquei… — Retrucou como uma criança persuasiva, separando a cartela das fotos bem na metade, puxando seu celular do bolso e fotografando cada uma das fotos antes de entregá-las a Kai, que sorriu e agradeceu, satisfeitíssimo.

— Pronto, agora sim eu tenho o que botar em cima da minha escrivaninha vazia… — Resmungou consigo mesmo, tendo cuidado ao colocar as fotos dentro de seu bolso. — O que iremos fazer agora?

— Você sabe o que iremos fazer agora. — O tom de voz de Kale expressava um certo tom de crueldade.

— Você- ah, não, Kale, você ainda tá com isso na cabeça?!

— Tô sim, senhor. A gente vai na montanha russa, Kai, e não há nada que você possa para mudar isso. — Disse com convicção, agarrando-o fortemente no pulso, começando a arrastá-lo na direção do brinquedo. — Óh, só pra você saber, quase não tem fila. Tem uma brisa agradável e o céu tá lindo, caso a gente morrer, a gente vai morrer com estilo e com conforto.

Sim, ele estava botando medo no pobre e inofensivo Kai.

Não que ele estivesse exagerando, sejamos francos. A queda da montanha russa era repentina e profunda, os gritos histéricos até dos mais “héteros” apavorando o pobre coitado garoto, que caminhava de mãos dadas de Kale como se estivesse caminhando para a morte.

O surfista pediu para que o ajudante do brinquedo, um garoto mal encarado, com cara de poucos amigos e com um boné pink com o logo do parque, segurasse Dixie, praticamente a enfiando através da lacuna do vidro, enfiando em seguida o dinheiro para duas pessoas.

— Olha, para o nosso azar, uns adolescentes se sentaram na frente… — Kale estralou a língua, empurrando Kai pelo piso de concreto ao lado dos carrinhos, achando um na quarta posição. — Vai, se enfia aqui… — Começou, ajudando o pobre garoto a se sentar no carro frio e duro, sentando-se bem ao lado dele de forma relaxada, a brisa morna do quase crepúsculo afagando seus rostos.

— Kale, eu não quero… — Kai começou, se agarrando à barra de ferro a sua frente com todas as forças, se encolhendo no banco duro, suas mãos tremulando suavemente. Seria uma experiência de quase morte, ele sabia disso.

Sentia com mais intensidade do que as outras pessoas, seus órgãos externos mais sensíveis ao mundo, principalmente sua pele.

O garoto mal encarado com boné cor de rosa passou por todos os banquinhos, travando a barra de segurança, o barulho do “trec” assustando a Kai, que pulou sentado.

— Hey, hey, hey, calma… — Kale começou, rindo, passando um braço por detrás dele, olhando hesitante para o garoto, que saiu da área onde os vagões passariam, trancando o portãozinho e se enfiando na cabine de controle, amassado contra Dixie, a baleia assassina. — Relaxa, Kai…

— Você fala isso como se não tivesse se cagando também… — Ele grunhiu, podendo sentir o quão tenso ele estava pelo toque em suas costas. Quis gritar quando o veículo deu um tranco para trás, apenas para conseguir ganhar o impulso que precisava para continuar. — Ai, meu Deus, Kale! — Desesperou-se, agarrando-se na barra e, ao mesmo tempo, procurando o braço do surfista para agarrá-lo também.

O surfista sorriu, agarrando ambas suas mãos, dizendo silenciosamente que ele estava ali, que estava tudo bem, que era só um brinquedo.

Ah, ledo engano.

Kai conseguia sentir a subida. Conseguia sentir que estavam altos o suficiente para que, caso caíssem, morressem. Ele não tinha medo exatamente do perigo em si, mas do que aquilo poderia acarretar.

— Kale, eu sou jovem demais para morrer… — Começou a murmurar, apertando com mais força o surfista, tremulando. — Eu ainda tenho sonhos, sabia disso?! E-eu não quero morrer dependente dos meus pais! — Rangeu os dentes, um vento forte da altitude bagunçando totalmente seus cabelos. — JESUS CRISTO!— Berrou bem na orelha de Kale quando sentiu a velocidade do carro diminuindo, sinalizando que estavam próximos da descida.

Os adolescentes do vagão da frente começaram a exclamar uns “OH, É ALTO MESMO!” e “dá pra ver toda a cidade daqui!”. Kale engoliu em seco, arrependendo-se suavemente de ter arrastado o garoto para aquele brinquedo. Deveria ter se mantido nos menos mortais.

Não porque estava com medo, nah, longe disso… Deveria ter se mantido nos carrosséis por questões sociais, já que era um dia especial para Kai, não para ele.

— Para de ser paranoico, ninguém vai morrer hoje… — Kale sussurrou, apertando suas mãos sobre a do garoto, tentando convencer mais a si mesmo do que a ele.

— Eu sei que você tá com medo sim! — Kai exclamou, sua voz falhando, tendo vontade de se encolher ainda mais.

Um nervosismo tomou conta de todo o seu corpo, seu estômago embrulhando, sua pele quente mesmo sob a ação do vento forte, sua nuca molhada como se estivesse à caminho da morte. O nó de seus dedos estava branco, o aperto tão forte como se ele fosse capaz de amassar a barra.

Então, numa questão de segundos, tudo aconteceu.

Os carrinhos chegaram ao ápice da subida, parando por exatos três segundos antes de, simplesmente dizer, despencar.

O frio na barriga se tornou uma nevasca, congelando-o por dentro. Seu grito foi sufocado pelo golpe de ar que tomara com a queda repentina, seus sentidos mais aguçados do que nunca. Como não conseguia prever o que aconteceria, cada curva, cada impulso, cada subida ou descida era uma nova descoberta, um novo motivo para seus órgãos se revirarem, todo o conteúdo que havia ingerido durante aquele dia tendo ânsias de voltar.

Até ouvir o primeiro grito de Kale, que foi exatamente vinte segundos pós-descida.

Se Kale estava o apertando antes daquilo, depois seu aperto se tornou numa estrangulação. Jogou seus pulmões fora com o seu berro rouco, grave e “bastante” hétero, agarrando Kai com ambos os braços, pressionando suas têmporas, fechando os olhos para não ver sua morte.

— A GENTE VAI MORRER, KAI! — Começou a gritar, objetivando abraçá-lo até que ele estivesse seguro em seus braços. Na cabeça dele, caso o carrinho caísse, de alguma forma, Kai seria protegido (por ele) e ficaria bem. — A GENTE VAI MORRER! — Seu tom, à medida em que ia gritando, ia ficando cada vez mais agudo.

Kale sentiu algo em seu interior se revirar, seu café-da-manhã voltando para lhe cumprimentar. A montanha-russa só desceu para subir novamente, fazendo o mesmo processo anterior, só que dessa vez numa inclinação maior, indo mais alto.

— Que ideia de merda, Kale! — Kai tentou dizer, não recusando seu abraço, no entanto.

— CARALHO, NÃO PASSA NEM WIFI! — Ele esbravejou de volta, esquecendo-se de observar a vista ao redor dele. Honolulu estava começando a parecer uma constelação à medida em que o dia estava indo dormir. Era como se cada casa, cada apartamento, cada rua ou esquina tivesse uma estrela, todas elas decidindo se acender, montando seu próprio museu de luzes.

Kai iria rir, se não fosse trágico — na realidade, iria rir se não se identificasse.

— EU NÃO POSSO MORRER VIRGEM, KALE! — Gritou de volta quando os carrinhos deram outro impulso para descer, sua respiração falhando à medida em que o vento atingia bruscamente sua face, seu humor negro não o abandonando nem nos momentos mais críticos.

A adrenalina, o medo, a expectativa e a nevasca interna os atingiam com a mesma força de um soco, todas as curvas e todas as inclinações o atingindo intensa e incompulsivamente, aquele caos de gritos, apertos e promessas de vida só se encerrando quando pararam no mesmo local aonde partiram.

Kale saiu correndo do carrinho assim que o garoto mal humorado destravou as barras de ferro, empurrando as pessoas para passar, pulando as grades da recepção do brinquedo, agachando-se perto de uma moita ali perto, vomitando seu estômago, pulmão e afiliações.

Kai foi ajudado pelo garoto mal encarado, agarrando-se ao ombro dele, guiado até a cabine de controle, tendo Dixie de volta. Passou meio incerto pelas pessoas, ouvindo murmúrios de pessoas falando sobre um garoto vomitando ali do lado. A julgar pelo caráter e idiotice de Kale, o garoto presumiu que fosse ele.

— Kale? — O chamou, meio tonto e com a voz falha, segurando a baleia mais forte. Sua garganta doía só ao abrir a boca, seus músculos faciais doloridos. Assustou-se quando alguém começou a tossir, o som de quem estava cuspindo seus órgãos o assustando. — Que música você quer que toque no seu funeral? — Perguntou de forma curiosa, percebendo que ele estava tudo, exceto bem.

Kale sentou-se na grama limpa, jogando-se no chão, sentindo-se dolorido. Sua garganta ardia por conta do ácido do seu estômago, o gosto nojento de comida à caminho de ser transformada em outra coisa inundando sua boca, sentindo-se fraco e, acima de tudo, meio morto.

— Eu juro pra você que eu vi a luz, Kai… — Começou, tossindo logo em seguida, sua garganta declarando desistência.

— Não sei quem tá pior: você, que viu a luz, ou eu, que vi tudo preto, mesmo… — Kai recomeçou, acariciando sua garganta, também tossindo. — Mas você tá bem?

— Não… — Ele gemeu, tentando se sentar. — Jesus Cristo, que fracasso… — Murmurou um pouco alto, fazendo Kai espremer os olhos e gargalhar.

— Pelo menos foi engraçado, Kale. Você gritou como uma senhora, eu declarei que sou virgem para umas vinte pessoas ouvirem e nós dois, maiores de idade, nos agarramos como adolescentes de treze anos. — Riu, estendendo a mão a ele, aonde quer que ele estivesse. — Vem, vamos comer alguma coisa, você precisa recuperar o líquido que perdeu.

Kale não sabia se voltava a se deitar, querendo ficar ali e morrer, ou se ria, aceitando a mão do garoto. Decidiu que a segunda opção era a melhor, agarrando a mão magra de Kai, tendo a ajuda dele para se levantar.

— Pelo menos o líquido dá pra recuperar, né… — Kai recomeçou, ajeitando Dixie nos braços. — Já a nossa dignidade fica mais difícil.

Kale riu alto, o empurrando de forma fraca pelo ombro.

— Babaca.

***

— Deu 8,90 dólares pra cada um… — Kale decidiu rachar a conta, visto que ambos pediram coisas pra comer. Kai assentiu, retirando do bolso de trás de sua calça sua carteira, com preguiça demais para contar notas.

Entregou sua carteira ao surfista, pedindo para que ele separasse o dinheiro por ele.

— Você tem certeza que tá melhor? — Reforçou a pergunta que vinha fazendo há alguns minutos desde que entraram numa pequena lanchonete dentro do parque.

— Tenho sim… Quer dizer, ainda bem, né, visto que eu sequei o bebedouro deles… — Grunhiu, separando as notas com um real a mais, lembrando-se de dar o troco ao garoto mais tarde, devolvendo sua carteira e deixando o dinheiro sob seu copo. — Hm, você pegou com manga, né? — Indagou, dando uma garfada no seu bolo de chocolate com cobertura de morango.

— Peguei sim. Você quer? — Ofereceu uma garfada, comendo o dele primeiro. — É bem gostoso, na realidade… — Comentou, mastigando e tateando em busca de seu milkshake. Adorava tomar milkshake com comida no geral, como se fosse sua bebida.

— Ah, não, obrigado… — Kale continuou comendo seu bolo de chocolate, olhando pelo vidro. — Eu acho que temos tempo para ir na roda gigante, Kai. O que você acha? — Perguntou, sabendo que o parque só iria fechar às duas da manhã, porém. Ainda eram sete e meia, e os dois tinham tempo de sobra.

— Pode ser… — Ele concordou, alheio ao tempo. — Você já sabe o que vai fazer na última parte da competição?

— Como assim, “o que”? Eu vou surfar… — Riu, vendo a cara de “eu sei disso, seu idiota” que se formou na cara dele.

— Obrigado pelo esclarecimento, Sherlock. Eu tô falando das suas manobras.

— Ah, sei lá. Não dá para planejar isso, já que não dá para controlar o mar. No dia, ele pode estar calmo, mas também pode estar agitado. Depende só e unicamente dele… — Disse de boca cheia, batucando no seu copo cheio de suco de maçã. Algumas criancinhas estavam brincando pelo corredor, a lanchonete completamente lotada. — Mas por quê?

— Não sei, só queria saber. — Desconversou, encostando-se em Dixie, que estava sentada ao seu lado, meio caída na direção do vidro. — Quando vai ser, você sabe?

— Hm… — Tentou pensar, forçando os olhos por alguma razão. — Acho que daqui a… Um? Dois meses? Não sei ao certo. Geralmente eles dão mais tempo para nos prepararmos quando é a final… Mas, falando francamente? Não tô preocupado, eu sei que vou estar entre os três primeiros colocados, de qualquer forma.

Kai riu, chocado pela confiança que Kale tinha em si mesmo.

— A pessoa que mais te ama depois do seu pai é você mesmo, Kale, porque, meu Deus… — Gracejou, encerrando o bolo, encostando-se no banco para beber o resto do seu milkshake.

— Mas é claro… — Recomeçou, sentindo-se ofendido. — A única pessoa mais bonita do que eu aqui dentro dessa lanchonete é você, sabia disso?

Kai começou a rir, internamente envergonhado pelo elogio repentino. Se tinha uma coisa que ele definitivamente não sabia, era o que “belo” significava. Já havia perguntado a seus amigos se era uma pessoa atraente, e, apesar de achar suspeito os comentários de “mas é claro que sim” vindo das pessoas na qual era mais próximo, sentia-se confortável consigo mesmo.

Não sabia se seria assim caso pudesse enxergar, falando francamente.

Esqueceu-se do elogio de Kale, lhe direcionando uma pergunta:

— O que você considera “bonito”, Kale? — Perguntou, genuinamente curioso. — Até hoje eu não sei.

Kale parou para pensar na questão, indagando-se como infernos iria explicar o que “belo” significava a um garoto cego.

Kai não sabia o que era ter uma aparência. Não conseguia enxergar nada físico ou passível de julgamentos.

Ele apenas… Sentia. Sentia-se atraído pelo o que a pessoa era — não exteriormente, e sim internamente. Sentia-se atraído pelo o que ela tinha a oferecer, e isso era uma das coisas que mais gostava nele. Francamente falando, quanto mais pensava no assunto “Kai”, mais gostava dele.

Na realidade, se ele respondesse o que pensava sobre tudo isso, eles iriam ficar ali para sempre. Então, de uma forma abrupta, seus lábios se rasgaram num sorriso matreiro. Decidiu, então, perturbá-lo, evitando a questão.

— O que eu considero bonito? Você.

Kai começou a rir, nada afetado. Sabia que ele estava brincando com sua cara.

— Como você é romântico, Kale. Até dói, sabia? — Gracejou, encerrando seu milkshake. — Você já acabou de comer? A gente pode ir agora, certo?

— Ah, sim, claro… — O garoto concordou, levantando-se suavemente, chamando uma garçonete.

Saíram de lá de braços dados, conversando sobre aleatoriedades, fazendo o caminho até o brinquedo. A fila não estava enorme, mas estava considerável. As cabines da roda gigante comportavam quatro pessoas de uma maneira confortável, como se fossem mini vagões com banquinhos estofados e uma vista para toda Honolulu.

— Você não está fazendo outro book meu, né? — Kai perguntou repentinamente, ouvindo o barulho conhecido da câmera de Kale.

— O quê? — Indagou, fingindo calúnia. — Eu jamais faria isso! — E então sorriu, culpado por estar tirando tantas fotos dele naquele dia. Mas, não podia evitar: aquele dia havia sido bom demais para não ser registrado.

Assim que o passeio se encerrou e todas as pessoas desceram e mais algumas entraram nas cabines, Kale e Kai seguiram a multidão, instalando-se numa cabine só para eles. O mais novo enfiou Dixie ao seu lado no banco, abraçando-a e deitando-se gentilmente sobre o bicho de pelúcia, confortavelmente sentado no banco estofado. Assustou-se quando a máquina se moveu, erguendo-se suave e gradualmente do solo, apenas se movendo para que outra cabine fosse ocupada por pessoas.

— Você sabe qual é a altura máxima que a roda chega? — Kai indagou com certo receio, uma afliçãozinha em seu estômago começando a crescer.

— Não faço ideia… Mas dizem que dá para ver Honolulu inteira mais um pedacinho para lá de North Sore... É bem alto. — Encerrou, mantendo sua câmera ligada para filmar a subida calma da cabine. Não sabia para onde olhava: para o céu límpido e arroxeado, salpicado de estrelas, ou para o véu negro e terrivelmente iluminado que era aquela cidade. Luzes extremamente coloridas começaram a aparecer entre as casas, a areia da praia sendo palco de pequenos festivais e, se Kale não estivesse enxergando errado, um pequeno casamento. — Você vive aqui desde sempre… Quantos casamentos na praia você já presenciou?

— Nossa… — Kai começou, fazendo uma cara de desgosto. — Quase todos os dias têm algum, sério. Lá perto da minha casa é quase todos os sábados aquela música matrimonial desgraçada.

— Casar à beira-mar não deve ser tão ruim assim… — Kale ponderou, olhando para as figurinhas minúsculas na praia, ainda filmando.

— O ruim não é o local, e sim o que você vai fazer lá. — Kai gracejou, abrindo um sorrisinho. — Estamos no século vinte e um e as pessoas ainda se casam, francamente…

— Não tenho nada contra casamentos, desde que eles sejam feitos com, você sabe, amor. — Pegou-se pensando em que ponto da “pieguice” ele havia chego.

Lispector, Kale.

— É sério! — Kale resmungou, virando a câmera para filmar o garoto. Ele estava meio deitadinho sobre o banco, a cabeça encostada em Dixie, a orca. Olhando por aquele ângulo, Kai parecia um pouco cansadinho. O.k., era meio óbvio, visto que Kale o puxou e o arrastou para cima e para baixo o dia inteiro. Foi quando lembrou-se de algo importante: — ah, você tem um pedido para mim, não tem?

— Nossa, é verdade, eu quase me esqueci disso… — Kai começou, enterrando o rosto no material fofinho e confortável que cobria Dixie, pensando no que poderia dizer ou pedir. — Eu vou pensar nisso, pode deixar.

— Não me faça fazer coisas vergonhas, Kai… Sério. — Tentou barganhar, sabendo que sua vida já era um show de stand-up e que ele não precisava de mais gente piorando sua situação. — Me faz abraçar uma árvore no meio da avenida, mas não me faz… Sei lá, andar de cueca por aí.

— Mas… — Kai espremeu as sobrancelhas, e Kale soube que algo viria. — Eu pensei que você já fizesse a ambos diariamente. — Riu alto quando levou um tapa no joelho, encolhendo-se no banco.

Após isso, ambos ficaram em um silêncio confortável dentro da cabine. Uma brisa suave entrava por um vão no teto, o vidro ao lado deles refletindo as luzes da própria roda gigante. Kai piscou, sentindo a necessidade de saber o que estava acontecendo ali.

— Kale?

— Hm? — Virou-se, perdido na vista.

— Você poderia descrever o que está vendo e o que você sente vendo isso?

— Luzes. — Começou prontamente, voltando a encarar a paisagem. — Muitas luzes. Acima e abaixo de nós, atrás, à frente. Todas coloridas, exceto as de cima, que são completamente brancas. — Encarou o mar, surpreso por um instante. — Você gosta de ondas, certo? Ficaria decepcionado caso visse o mar agora. Está calmo, apenas refletindo a luz da lua e das estrelas. Parece um cobertor, se você quer saber. — Riu, olhando-o.

Queria continuar.

Queria dizer que, então, Kai estava lá.

Queria dizer que não importava quantas luzes, quantas estrelas ou quantas ondas aparecessem.

Ele continuaria sendo a criatura mais adorável e bonita que já havia visto na vida, e ele poderia estar em um milhão de rodas gigantes, vendo um milhão de paisagens, nada se compararia a ele.

E como ele se sentia sobre tudo isso? Como se sentia sobre todas as palavras ditas e não ditas?

— Eu me sinto certo. — Resumiu, passando os dedos por seus joelhos, sentindo-se tenso repentinamente.

Lucas sempre disse que ele tinha amores efêmeros — passageiros, nada doloridos, facilmente esquecidos.

Descobriu naquele momento que jamais havia amado.

Piscou quando Kai repentinamente se sentou no banco, arrumando os fios desajustados, piscando para ele. Aproximou-se um pouco, estendendo sua mão para tocar em seu cabelo, arrumando-o para ele. Seus joelhos se tocaram, criando uma espécie de choquinho.

Deslizou a mão em que estava em seu cabelo suavemente para seu rosto, acariciando-o nas bochechas, não parando um segundo sequer de encará-lo. Kai não podia ver, mas sentia um calor no meio de seus olhos, como se Kale estivesse criando um buraco de tanto encará-lo.

Sentiu-se tenso, de repente.

Ele iria beijá-lo, não iria?

Por três segundos, seu coração esqueceu de bater. Se Kale o beijasse, o que raios iria fazer? Não sabia se sentia mais assustado com o pensamento propriamente de que alguém iria beijá-lo, ou com o fato de que provavelmente iria gostar. As palmas de sua mão suaram contra seus joelhos, e sentiu a necessidade quase gritante de pular do brinquedo para ir beber água.

— S-sabia que eu tô pensando em voltar a fazer piano? — Interrompeu completamente o pequeno momento dos dois que jamais aconteceu, afastando-se sutilmente, coçando os joelhos nervosamente, engolindo em seco.

Kale sentiu-se perdido. Quando estava prestes a selar seus lábios, o garoto se afastou, mudando de assuntos. Xingou-se mentalmente de idiota apressado e limpou a garganta, também se afastando, deixando que seus joelhos se desencostem.

— Ah, sério? E quando você voltou a ter vontade? — Seguiu a linha de raciocínio, encarando seus pés.

— Desde quando eu toquei na sua casa. — Admitiu, mexendo na barra de sua camiseta. — Não sei, apenas me deu uma vontade absurda de voltar a tocar, a tocar em partituras, sabe?

Kale assentiu, e eles recomeçaram uma conversa agradável sobre música, piano e partituras, ignorando o que aconteceu há segundos.

***

Kai foi acompanhado até em casa, como já era de costume. O porteiro apenas destrancou o portão quando os viu, acenando gentilmente para Kale, que acenou de volta, extremamente caloroso.

Já era de noite quando eles chegaram no apartamento de Kai, o táxi buzinando antes de ir embora rapidamente, o custo da viagem dividida entre os dois.

Kai manteve um pé dentro do quintal do edifício e um pé na calçada, onde Kale permanecia apoiado nas grades, encarando-o.

— Então, eu acho que é isso, certo? — O surfista tentou confirmar a despedida, não podendo ficar mais satisfeito com o passeio que tiveram.

— Certo. — Kai confirmou, apertando Dixie nos braços. — Você tem certeza que eu posso ficar com ela?

— Claro que sim, você pode cuidar dela melhor do que eu. — Sorriu, enfiando as mãos nos bolsos. — Falando francamente, você se divertiu hoje?

— Foi tão divertido quanto o passeio no zoológico, Kale. Quer dizer, não tanto assim, já que você não foi bicado por ninguém… — Tentou encerrar a frase, já começando a rir ao se lembrar da cena. — AH, minto! Foi sim! Você se cagando como um vovô na montanha russa também foi hilário.

Você adora me caluniar, né? — Resmungou, sentindo-se negligenciado. — Eu cuido de você tão bem e você só sabe rir da minha cara… — Dramático, encolheu os ombros, seus sentimentos superficialmente feridos.

— Ah, como assim? Eu pensei que você servia pra isso… — Kai riu alto quando o surfista lhe deu um empurrão no ombro, acabando por rir junto do quão desaforado Kai era. — Mas, brincadeiras à parte, eu realmente me diverti hoje, Kale. Obrigado por ganhar a Dixie, eu vou cuidar bem dela, o.k.?

— Tá o.k., eu confio em você, apesar de você estar cagando e andando pra mim… — Fingiu mágoa, rindo quando o garoto tentou chutá-lo, errando por centímetros.

— Me manda uma mensagem quando chegar em casa? — Queria garantir que ele iria chegar vivo.

— Te mando uma mensagem quando chegar em casa. — Confirmou, sorrindo para ele. — Até qualquer hora, Kai.

— Até. — Deu um tchauzinho, entrando no edifício e trancando o portão.

Aquele dia havia sido ótimo, Kai constatou assim que andava calmamente pela estradinha de cimento que dava acesso à porta.

Apesar de ter sido obrigado a andar na montanha russa, ter de limpar o rosto sujo de vômito e suor de Kale num banheiro de uma lanchonete qualquer no parque e estar morto de cansaço de tanto andar, já que o maldito fez questão de ir em todos os brinquedos, aquele dia havia sido…

Parou por um segundo, abraçando Dixie quando um pensamento lhe ocorreu, seu coração afundando alguns centímetros no peito, sentindo-o revidar ao bater como um louco, suas mãos suando de repente.

Não foi perfeito”, pensou com certa amargura, inspirando fundo, sentindo suas roupas leves quentes demais para seu estado febril.

Havia algo faltando.

Algo importante.

Algo tão importante que foi capaz de fazer Kai parar na noite cálida de Honolulu e refletir o porquê daquele sentimento. O porquê daquele sentimento de abstinência, sendo que ele tinha tudo o que queria. Sentiu uma pontada forte em seu peito, obrigando-o a tocar seu tórax com angústia, a dor parecendo física.

No fundo, ele sabia que só faltava uma única coisa para aquele dia se tornar, de fato, perfeito.

Agradeceu internamente por Dixie não ter sentimentos, porque assim ela não iria se importar em ser jogada no chão com descaso. Agradeceu internamente por já ser maior de idade, porque assim iria tomar toda a responsabilidade caso o porteiro ficasse magoado com o grito rouco que deu, pedindo para ele abrir aquela merda de portão.

Sua respiração estava alterada, mas nada tinha a ver com a curta corrida que deu até as grades. Sua cabeça estava girando, mas nada tinha a ver com seu cansaço.

Sua garganta doeu quando gritou o nome de Kale ao sair do seu apartamento, seu coração batendo feito um louco. Kale, obviamente, virou-se na velocidade da luz, mal conseguindo colocar seus fones quando seu nome foi berrado. Ergueu as sobrancelhas, correndo até onde Kai estava parado, quase deixando suas pernas para trás.

— Kai? — O chamou, genuinamente surpreso e preocupado, parando na frente do edifício. — Aconteceu algo?

— S-sim… — Começou, sentindo seu peito inchado, querendo logo liberar toda aquela angústia que tinha dentro de si, virando-se rápido na direção de onde a voz de Kale provinha, erguendo as mãos para tentar alcançá-lo. O surfista terminou aquela distância entre os dois, agarrando sua mão para dizer aonde estava.

— O que aconteceu? — Usou de seu tom mais desesperado, preocupação enchendo seus olhos.

— Eu, bem… — Tentou, não conseguindo raciocinar direito sobre o que estava prestes a dizer. — Você ainda me deve um pedido, não é?

— Ah, é sobre isso? Meu Deus, Kai, não me mata antes, por favor… — Inspirou fundo, um peso de toneladas parecendo desaparecer de suas costas.

— Você me deve, não deve? — Insistiu, aproximando-se dele.

— Devo sim… — Kale estreitou as sobrancelhas, perdido.

— Eu já decidi o que eu quero que você faça, Kale. — Começou, sua cabeça rodando com a ideia absurda que repentinamente o invadiu.

Mas, não tinha outra alternativa. Ele sabia qual a única forma de fazer aquele dia de fato perfeito.

— Me beija? — Seu pedido soou baixo para que ninguém em volta deles ouça, mas todo o seu corpo soava alto o suficiente para que Kale ouvisse cada parte dele. As palavras escorreram de sua boca com timidez, mas as batidas em seu coração transmitiam outra coisa. Talvez sua postura estivesse firme, mas o toque vacilante e febril da ponta de seus dedos na nuca do surfista dizia uma coisa bem diferente.

Kale estava estático, encarando-o como se ele repentinamente enlouquecesse — mas, não, Kai estava bem sadio, o rosto mais rubro que um tomate maduro, mas ainda permanecia lá, firme em seu pedido. Então, com um sorrisinho nos lábios, Kale o beijou.

O beijou como se fosse o primeiro beijo deles.

O beijou como se ele fosse — e, de fato, ele era — a coisa mais importante e delicada do mundo. O beijou como se necessitasse de seus lábios para sobreviver e, que alguém o ajudasse, mas acabara de criar uma dependência quase química com o contato cálido da tez de Kai contra a sua, de suas mãos o abraçando, de seus lábios se encostando e se movimentando juntos como se estivessem em uma total e perfeita sincronia, assim como havia sido todo aquele dia.

O beijou da mesma forma em que o amava: cálida e intensamente.

Notas finais
É EU SEI OS FEELINGS VIERAM FORTE BATEU AQ TMB Espero que tenham gostado! Qualquer errinho, pls, me avisem!