De Coração

25 Paraíso


Notas iniciais
OLÁÁÁ, MEUS AMOREEEES! ♥ Como estão vocês? Bem? Mal? Apertados por conta dessas provas malditas? *suspira* os entendo perfeitamente! Antes de mais nada, quero agradecê-los imensamente por todos os reviews que recebi capítulo passado! Infelizmente eu tô na pressa aqui, porque era - ERA - pra eu estar estudando para um seminário pra amanhã, e adivinha quem está postando capítulo? ISSO MESMO, EU AHSJAKDASAJSK Aluna número um HAKASA AAAAH, POR FAVOOOR, leiam as notas finais! HUAHUAHUA espero que estejam preparados pra fossa pq ela tá profunda beijão, amo vocês!

Troye Owen era o tipo de cara que nunca conseguiu nada que queria, mas tinha absolutamente todas as coisas que não desejava. Sua infância não foi um mar de rosas, visto que seus pais entravam em constantes brigas e discussões, principalmente após o nascimento de Lindsey, onde seu pai (em seu ponto de vista um viado de merda) abandonou os três filhos e a esposa, dizendo que não conseguia mais viver uma mentira.

Não sabia o que mais machucava: a lembrança de ter sua mãe dizendo que seu pai havia ido embora e nunca mais iria voltar, ou o modo com que disse aquilo.

Ele nunca amou você.

Uma mulher magoada como ela não deveria descontar sua frustração numa criança como ele, apesar de que, sim, ela estava certa, não estava?

Ele é um viado de merda, Troye.

Claro que ele era.

Ele nos deixou para ficar com outro cara. É isso que gentinha como ele faz, Troye.

Eu odeio ele e o que ele é.

Troye também.

O odiava amarga e profundamente, e nunca em sua vida iria perdoá-lo ou perdoar o que ele era — um viado de merda.

Pressionou os olhos com força, com ódio, quando lembrou-se de si mesmo, há muitos anos, indagando a sua mãe, com lágrimas escorrendo pelas bochechas: “ele nunca mais vai voltar? Ele me prometeu que iríamos à praia amanhã” para apenas receber um seco e doloroso: “ele foi com outra pessoa” de volta.

Rangeu os dentes, abrindo os olhos devagarzinho, suas pupilas retraindo com a claridade que invadia seu quarto pelas cortinas. Encarou o teto branco por um determinado tempo, tentando se lembrar onde raios estava e o porquê de estar ali.

Olhou em volta, sentindo-se como um machucado ambulante. Seu braço esquerdo estava engessado, seu outro braço ferido e arroxeado. Não conseguia se mover direito, seu tórax dolorido demais para conseguir fazer qualquer coisa.

Levou um susto capaz de fazê-lo parar de respirar por uns segundinhos quando virou a cabeça para a direita, dando de cara com Brandon estirado na poltrona ao lado de sua cama, a cabeça jogada para trás, dormindo como se estivesse por cem anos exausto.

— Caralho, que susto da porra… — Resmungou, lamentando profundamente ao fazer, visto que sua garganta parecia mais seca que o Saara. Tossiu, facas afundando-se em seu esôfago, o gosto de cabo de guarda-chuva tomando conta de sua boca. Suas costas doíam como se ele estivesse há cinco anos em coma, e a única coisa que ele queria, naquele instante, era se lembrar da merda que havia acontecido para ele estar assim.

Brand acordou com a tossida que Troye deu — aparentemente, seu sistema nervoso era programado a reagir todas as vezes em que Troye fazia alguma coisa.

— Troye? — Ele resmungou, rouco de sono, coçando os olhos.

— É. — O outro tratou de dizer, tocando a garganta com a mão “boa”, fazendo uma careta. — Mas que bosta aconteceu?

Brandon se levantou, encaminhando-se para a mesa na frente da cama. Contou até dez enquanto o olhava diretamente nos olhos, enchendo um copo com água.

Ele iria se lembrar uma hora ou outra. E, quando se lembrasse, iria odiá-lo novamente.

E, de fato, Troye se lembrou.

Do beijo.

Do dinheiro gasto com bebidas alcoólicas.

Dos socos que recebeu.

Travou os dentes, pegando o copo de água que Brandon o oferecia e o bebendo com goles profundos, matando a dor de sua garganta, sentando-se devagarzinho sobre o colchão, todo dolorido.

— O que você está fazendo aqui? — Perguntou num tom seco, encarando o copo.

— Eu achei que seria um pouco solitário se você acordasse e percebesse que ninguém estava aqui para te receber. — Resumiu a situação, enfiando as mãos em seus bolsos, permanecendo em pé do lado da cama. Troye não percebeu, mas Brandon o escaneou dos pés à cabeça.

Apesar de todos os ossos quebrados, ele estava bem.

Troye Owen estava bem, apesar de tudo — estava acordado, falante e com a memória imaculada.

Tinha certeza de que caso Lindsey conseguisse ouvir seus pensamentos, iria lhe dar um chute no meio das pernas por ser um masoquista idiota, mas não conseguia evitar: não conseguia ficar mais feliz ao saber que o seu Troye estava bem e que iria se recuperar.

Ele não era masoquista, e sim um cara apaixonado.

O que era, sem sombras de dúvidas, muitas vezes pior.

O que doía mais não era o fato de estar apaixonado por ele e nem ouvir de Troye que o odiava, e sim saber que jamais conseguiria odiá-lo de volta e muito menos esquecê-lo em dois segundos. O amava há tempo demais para simplesmente esquecer em questão de segundos.

O amava há tanto tempo que, acostumado à ideia da possível rejeição e do para sempre estado platônico, decidiu enrijecer o sentimento, o tornando tão duro quanto uma rocha.

Aquilo acarretava em duas consequências: por ser tão maciço, seu próprio sentimento não iria traí-lo. Iria se acostumar àquilo. iria se conformar — não iria chorar por ele, não iria mostrar interesse, não iria olhá-lo demais, não iria tocá-lo, não iria demonstrar. Em contrapartida, por ser indestrutível, iria durar demais. Iria durar até depois dele decidir enfraquecer.

Naquela noite, enquanto tentava dormir encarando o rosto pacífico de Troye Owen, Brandon tomou uma decisão.

Iria desistir daquele sentimento.

Iria tentar enfraquecê-lo, tentar derreter a rocha imaculada que havia se formado em torno de seus sentimentos.

Iria tentar chorar por Troye enquanto virava um copo de uísque num bar qualquer no canto medíocre da cidade, deixar de dormir por algumas noites e, quando se cansasse de ter seu coração partido, iria simplesmente tentar juntar os cacos e esquecer.

— Como você sabe que ninguém estaria aqui para me receber? — Troye retrucou, finalmente, erguendo o olhar para encará-lo. Só conseguia tal coisa porque seu orgulho e teimosia típicos do Owen não tolerava menos que isso.

— Lindsey já deixou bem claro que não liga mais pra você, Troye. E, bem, o Trent… — Deu de ombros, sem precisar terminar sua sentença. — E não é como se você tivesse muitos contatos no seu celular.

— É, tá, foda-se. — Deu de ombros, fingindo indiferença. — Quando eu vou poder sair daqui?

— Eu vou chamar o médico. — Começou, dando um passo para trás para conseguir sair da sala.

— Brandon? — Troye o chamou antes que ele saísse. Brand se virou, um pouco surpreso pelo chamado repentino.

— Sim?

— Pegue as suas coisas antes de sair daqui. Eu não quero mais olhar para a sua cara, de qualquer forma.

Só não doeu porque Brandon notou a insegurança em sua fala. Era mínima e era quase invisível, mas ele conseguiu notar.

No lugar de sentir mágoa, Brandon sentiu, pela primeira vez em muito tempo, pena dele.

Troye Owen era um grande mentiroso. Mentiu tanto para si mesmo e para os outros, que conseguiu se convencer de tudo o que dizia. Parte de suas mentiras não vieram de si, e sim de sua mãe, que conseguiu convencê-lo de muitas coisas — coincidentemente, muitas das coisas na qual fora convencido a abominar já estavam dentro de si.

Brandon não disse nada; apenas ergueu a cabeça, andando na direção da poltrona para pegar sua jaqueta.

— Você claramente me odeia agora, Troye. Se é porque eu te beijei, peço desculpas. — Começou, sentindo um nó em sua garganta. — Eu deveria ter te pedido permissão.

— Vai se foder, Brandon. Eu só tô nessa bosta dessa maca por sua causa! — Grunhiu, agarrando o copo com força, só não o atacando em Brand porque sua energia era zero.

— Por minha causa? — Ele sorriu, o encarando com descrença. — Não fui eu quem te bati.

— Não se faça de desentendido. Só fui espancado porque enchi a cara tentando esquecer a porra daquele beijo nojento que você me deu! — Grunhiu com ódio e amargura, balançando a cabeça em descrença ao ver a inexpressividade de Brandon. — Realmente, viado só faz merda, mesmo.

— Ah, nisso tem razão. — Brand caminhou de forma calma até a porta, apertando a jaqueta contra o corpo com força. — Nós temos você de exemplo, Troye.

Fechou a porta com um solavanco quando o copo que estava nas mãos do garoto voou em sua direção, o barulho do vidro se chocando contra a porta chamando a atenção de uma enfermeira, que passava pelo corredor. Brandon apertou a maçaneta da porta com força, ignorando o ‘aconteceu algo?’ vindo da moça, encarando o vazio por alguns segundos, pensando em que merda havia acabado da acontecer.

Tudo estava desmoronando ao seu redor gradual e dolorosamente, e a pior parte é que havia acabado de perder a única pessoa em que poderia se apoiar.

Brandon não sabia se tinha alguma culpa. Não sabia quem era o errado ali, para ser sincero: Troye não se amava nem um pouco, e por não se amar, era incapacitado de amar aos outros de forma correta (inclusive seus próprios irmãos, na qual ele amava mais do que ele mesmo). E Brandon, por outro lado, acabou preenchendo a falta de amor próprio de Troye com o seu amor, coisa que lhe custou tudo.

***

Nick não entendeu o porquê de Leo não aparecer naquele sábado. Sua escola estava tendo a primeira aula de reposição do ano, e isso ao ar livre, num parque ali perto. Todas as crianças foram, exceto Leo.

— Por que você tá tão avoado, Nick? — Rose, sua coleguinha de sala, o perguntou com uma expressão curiosa.

— Eu tô pensando no Leo. — Admitiu, pintando as flores de sua árvore com rosa.

— Leo? — Ela espremeu as sobrancelhas, confusa. — O garoto meio duvidoso do segundo ano, que usa vestido? E, Nick, por que sua árvore é cor de rosa? Nem a minha árvore é cor de rosa. — Ela sorriu, voltando a pintar as folhas de seu desenho de verde.

— E daí que a sua árvore não é cor de rosa? Eu não tô nem aí para o seu desenho, então por que você tem que se importar com o meu? — Seu mau humor o assolou repentinamente, formando um bico de três metros. — E o Leo não é um garoto meio duvidoso! Ele é muito confiável! — Grunhiu, guardando seu material e se levantando, não querendo mais se sentar perto dela.

— Espera, Nick, não foi isso o que eu quis dizer! — Rose se ergueu, porém não foi atrás dele. Nicholas se virou, inflando as bochechas. — Eu quis dizer que ele é meio… Gay, sabe?

Umas crianças ali perto riram, olhando para Nick com certo deboche. Ele já sabia o que as pessoas falavam sobre Leonard, sendo que uma vez já fora avisado por um dos garotos do terceiro ano que, caso ele continuasse a andar com Leo, ele também iria sofrer, apesar de ser um menino legal.

Mas Nicholas não estava nem aí.

— E VOCÊ É MEIO RIDÍCULA! — Extravasou num berro, jogando seu caderno no chão, o rosto corado tamanha sua raiva. Rose entreabriu a boca, dividida entre choque e incredulidade. As crianças que antes riram o olharam com espanto, não esperando tal reação do garotinho.

— Você é o ridículo aqui! — Rose retrucou num grito, magoada. — Vocês dois parecem uma porcaria de um casalzinho, andando para lá e para cá de mãos dadas enquanto o Leo coloca aquele vestido horrível dele!

Nicholas não entendeu aonde estava a ofensa ali, mas apenas aproveitou a oportunidade para xingá-la ainda mais.

— O Leo com o ‘vestido horrível’ dele é mais bonito do que você jamais vai ser, sua cara de cera branca! — Gritou de volta, apontando para ela com seu lápis vermelho. — Você quer isso aqui emprestado pra dar um pouco de cor nesse mármore que é a sua cara?!

— PROFESSORA!! — Rose abriu a boca para chorar, as lágrimas saltando de seus olhos como duas grandes cachoeiras. A grande verdade era que Rose (assim como praticamente todas as garotinhas do primeiro e do segundo ano) tinha uma quedinha por Nick, e tudo porque ele parecia um mini príncipe. Ser ofendida por ele era pior que a morte, segundo sua lógica.

Nicholas bufou quando a professora veio correndo na direção da garota, a amparando.

— O que aconteceu, querida?

— O… O Nick me ofendeu! — Ela gritou, tentando enxugar as lágrimas.

— Nick?! — A professora se virou de supetão, realmente surpresa. Nicholas era o grande queridinho do primário, sempre um docinho com seu extenso interrogatório sobre a vida e universo. Até fora, uma vez, levado na sala da diretora por suas três professoras. Tomou café amargo, perguntou a ela o porquê de seu coque ser tão arrumado, riu e foi chamado de “amorzinho”.

— Ela se referiu ao Leonard em tom que eu não gostei, professora. — Tentou explicar, voltando a ter calma, inspirando fundo.

— Leonard? Querido, ele nem está aqui…

— Exatamente por isso! Você gostaria que uma pessoa qualquer falasse mal de seu amigo pelas costas?! Que ela crie coragem e vá dizer isso na cara dele, e não como uma covarde e justamente pra mim!

— Mas a escola inteira já sabe que ele não passa de uma mocinha, então por que eu gastaria saliva falando isso pra ele, sendo que ele já sabe?! — Rose tentou gritar, sua garganta congestionada por conta do choro.

Nicholas a encarou, completamente inexpressivo. Seus olhos, que antes chamuscavam em raiva, passaram a expressar o mais puro e singelo tédio.

Ele não soube e provavelmente nunca iria saber, mas ele nunca pareceu tão maduro.

— São todos esses os argumentos que você tem? — Se ajoelhou, pegando o caderno que há segundos havia jogado no chão, recolhendo seus lápis e os botando no seu estojo do Flash. — Parabéns, você acabou de provar para toda essa gente o quão sem noção e burra você é. Porque, em primeiro lugar, se ele é ou não uma mocinha não é problema seu. E, em segundo, qual o problema caso ele for? Nossa professora é uma mocinha e eu gosto muito dela, então, caso o Leo quiser ser uma mocinha, eu vou gostar dele ainda mais. Mas, espera, você está dizendo isso com base em quem? Se for baseado em você, realmente, vai servir mesmo como uma ofensa.

Nicholas manteve a cabeça erguida o tempo todo, não deixando e não dando brecha para que mais comentários ridículos sobre seu amigo surgissem. Olhou para a professora, que parecia chocada, lhe dando um sorrisinho.

— Eu vou embora agora, professora. Se quiser ligar para o meu irmão, tudo bem, eu não me importo. Diga para ele que vou estar na casa do Leo. Tchau, até segunda. — Se despediu de forma rápida, girando nos próprios calcanhares e caminhando rapidamente para fora do parquinho, abraçado a seu material escolar, indo o mais rápido possível para a casa de Leonard.

***

A verdade era que a família Martinez tinha um entendimento distorcido de Paraíso.

Pelo menos, era isso que Leonard pensava.

Acompanhava seu pai e sua irmã à igreja aos domingos, sentando-se sempre no primeiro banco. Rezava a missa, era elogiado pelo padre por seu bom comportamento e, às vezes, quando a enrolação era grande demais, perdia-se nos mosaicos altos, grandes e luminosos.

Jesus era um bom garoto, na sua opinião. Vejamos, ele tinha um cabelo comprido, era simpático e transformava coisas em outras coisas.

Qualquer um de bom coração poderia ser aceito ao seu lado, segundo o padre. Qualquer um que praticasse o bem poderia ir para o Paraíso, ele dizia.

Com todas essas informações, Leonard ficava confuso. Ele era uma boa pessoa, não era? Nunca fez algo de ruim — bom, colar chiclete no cabelo de Nina Collins há dois anos não era um pecado tão grotesco assim, certo?

Então, por que, segundo seu pai, ele jamais iria para o Paraíso?

— Eu mal posso acreditar que você fez isso comigo, Leonard. — Ele dizia, abrindo a fivela de sua cinta. — Eu não posso acreditar. Eu te crio bem, não crio? Te dou comida, um cama pra você dormir. E você me aparece vestido com um maiô? — Seu tom de voz era calmo, mas seus olhos ébrios e vermelhos diziam outra coisa naquele sábado de manhã.

A voz de Esther, do outro lado do quarto, tremia, olhando com os olhos marejados para a pose de seu pai.

— Pai, por favor…

— E você vai ter o que merece mais tarde, Esther. Por permitir isso. Eu deixei ele sob sua guarda, não deixei? Pedi pra que você o impedisse de se tornar um viadinho, uma mocinha, e você deixa que ele me compre a porra de um maiô?! — Não se deu ao trabalho de se virar para ela, seus olhos grudados na criaturinha agachada no chão, os joelhos encostados no queixo, as lágrimas translúcidas escorrendo por suas bochechas rubras. — Eu não te criei pra ser um viadinho, Leonard.

Eu vou te bater até tirar isso de dentro de você.

O que tinha de errado com o que possuía dentro de si?

Não era o que possuía dentro de si a coisa mais valiosa? Não era isso o que importava?

Então, por que ele queria retirar isso de dentro dele? Por que se esforçava tanto pra odiar o que Leonard era? Ser seu filho não bastava?

Não conseguia entender.

Não conseguia entender o porquê de ir ou não para o Paraíso importava tanto assim.

Se seu pai se esforçava tanto para “corrigi-lo”, queria dizer que ele pretendia tornar Leo igual a ele, correto? Se, seguindo essa lógica, pessoas como Leonard jamais iriam para o Paraíso, mas pessoas como ele iriam, Leo repensou se queria mesmo ir para lá.

“Talvez eu não queira perder o que eu tenha dentro de mim para satisfazer seus caprichos. Talvez eu não queira ir para o mesmo lugar que você.”

Ele soube, quando a metal frio da fivela o arranhou pela quinta vez nas coxas, que o que possuía dentro de si jamais “desapareceria”.

Não conseguiria nunca se livrar do que era. Não conseguiria, nunca, se livrar de sua essência.

Se acomodou no piso frio ao lado da cama, o rosto coberto por uma bagunça de lágrimas, sangue e fios de cabelo. O corpo inteiro doía, desde sua boca ensanguentada até os dedos cortados do pé. Tremia, agarrado em seus joelhos, o queixo batendo descompassadamente enquanto sentia o gosto férreo dominando seu paladar. Sua visão se embaçava com a tontura que sentia juntamente com suas lágrimas contínuas que expressavam nada menos que tristeza, rejeição e mágoa.

Chorou ainda mais forte quando o primeiro grito de Esther se alastrou pelo apartamento, o barulho do metal gélido e molhado de seu sangue fresco entrando em contato com a tez até então imaculada de sua querida irmã.

Chorava de raiva de si mesmo — ela nunca apanharia se o que possuísse em seu interior agradasse seu pai.

Fechou os olhos, tampando as orelhas e repetindo “vai ficar tudo bem” bem baixinho diversas e inúmeras vezes, tentando abafar o som dos gritos agudos de sua irmã.

“Ela terá marcas para sempre”, pensou com um soluço, o nariz escorrendo. “Exatamente como as minhas. E tudo por um motivo que nem eu entendo.”

Abriu os olhos quando ouviu um barulho estranho em seu quarto. Permaneceu boquiaberto, em choque demais para dizer ou expressar qualquer coisa.

Nicholas Thomas estava ali, parado diante dele, mochila nas costas e uma expressão horrorizada em seu rosto, os cabelos louros bagunçados como se um redemoinho tivesse passado por eles, as bochechas tão rubras quanto as suas.

— N-Nick… — Começou, gaguejando, olhando chocado para o garoto à sua frente. — O que está-

— E-Eu… — Ele começou, as mãos abrindo e fechando à medida em que ia falando, perdido no fio de sangue que ia da boca de Leo até seu joelho, suas roupas ensanguentadas e seu rosto marejado. Estremeceu quando ouviu um grito na cozinha, os ombros se encolhendo, virando a cabeça rapidamente na direção da porta, parecendo ainda mais horrorizado com os gritos que estava ouvindo. — O que- o que está acontecendo? — Reuniu coragem o suficiente para perguntar, virando-se para Leo. — Por que você tá tão machucado assim?

Nick se agachou, a mochila ainda nas costas, tocando com carinho a bochecha úmida de lágrimas do mais velho. Leo não aguentou manter contato visual. Juntou as sobrancelhas, denunciando que voltaria a chorar.

— Como você entrou aqui? — Tentou dizer entre os soluços, a vergonha de ser visto naquele estado frágil e deplorável por Nicholas somado a todas as outras coisas.

— Eu entrei pelo banheiro do seu quarto… Pulei a caixa d’água do quintal e passei pela janela, eu passo ali… — Explicou, aproximando-se mais dele, pegando com delicadeza seus braços e os fazendo se desencostarem de suas pernas. Cortes recentes inundavam os antebraços do garoto, alguns mergulhados em gotículas de sangue, outros apenas superficiais. — Por que ele fez isso com você? — Perguntou baixinho, voltando a encará-lo.

Leonard fungou, tentando limpar algumas lágrimas de sua bochecha, mas a única coisa que conseguiu fazer foi se sujar mais de sangue.

— E-ele viu… Viu o maiô, Nick… — Contou, não precisando dizer mais nada. — Mas, p-por favor, vá embora… Se ele te pegar aqui, ele vai-

— Que ele me bata, mas daqui eu não saio, não com você desse jeito. — O jeito de seu irmão voltou a inundá-lo, o olhar sério de quem não desistiria nunca de opinião inundando-o. — O seu pai é um monstro, Leonard.

— Por favor, vá embora… — Tentou de novo, retirando as mãos do mais novo de seu corpo, o empurrando com a pouca força que tinha naquele momento. — Eu não quero que ele te machuque, Nick. Por favor, só vá. Podemos conversar segunda-feira, mas vá embora.

Nicholas olhou-o por um momento, quieto. Leonard odiava quanto ele fazia isso: nunca conseguia desvendar o que ele estava pensando. A voz de seu pai machucou seus tímpanos novamente, seus passos zonzos denunciando que ele estava vindo para o quarto. Leo abriu a boca, em pânico, mas antes que dissesse alguma coisa, Nicholas abriu as portas do guarda-roupa e se enfiou lá dentro, as fechando logo em seguida.

— Eu vou sair agora, sua bichinha. Vou ir tentar esquecer que tivemos essa discussão, assim como você. Você já sabe o que vai fazer, não é mesmo? Vai tomar um banho, trocar de roupa e irá dormir. Amanhã, quando acordarmos, te quero ver como um homem de verdade. Estamos entendidos, Leonard? — O obrigou a assentir de forma frágil, apontando para ele com um sorriso ébrio. — Bom menino.

Nicholas Thomas nunca se arrependeu tanto de ter apenas sete anos. Queria estar na casa dos vinte, assim como seu irmão: porque, caso acontecesse, poderia sair daquele guarda-roupa e encher a cara daquele homem de socos.

Abriu a porta e pulou para o chão assim que ouviu o pai de Leo ir embora, jogando sua mochila no chão e indo novamente até o garoto.

— Você consegue se levantar? — Indagou de forma calma, agachando-se até ele.

Leo o olhou mais uma vez, dolorido em todas as partes de seu corpo. Não sabia se conseguiria, na realidade. Tinha medo de tentar e perceber que suas pernas não funcionavam mais.

— Eu te ajudo, Leo… — Começou assim que percebeu que ele não conseguiria sozinho. Envolveu seus braços ao redor de seu tronco, o ajudando a levantar. Não conseguiu controlar uma expressão penosa ao perceber que os joelhos do garoto estavam marcados, assim como suas coxas e tornozelos. — Tá doendo muito?

— N-não muito… — Mentiu, enxugando outra lágrima.

— Por que você está mentindo pra mim? — Nicholas parou de andar, o encarando o mais profundamente que pôde. Se ele não servia para ouvir o que Leo tinha a dizer, então que raios de amizade era aquela?!

Foi o suficiente.

Apenas uma frase foi o suficiente para que Leo desistisse e, nos braços do mais novo, quebrasse.

Sentiu que se quebrou em milhões e milhões de pedacinhos, todos eles se derramando pelo chão, sendo pisados pelos dois à medida em que andavam pelo banheiro.

— Tá doendo muito, Nick… — Começou, afogando o rosto em suas mãos, recebendo ajuda do mais novo para retirar suas roupas. Nicholas entendeu que ele não apenas se referia a dor física, mas também a dor que sentia em seu coração. — O que eu posso fazer pra ele gostar de mim? O que eu posso fazer pra ele não me olhar mais com desprezo? Eu não quero ser como ele diz para eu ser! Eu quero ser eu mesmo, mas é muito difícil escolher entre ser aceito e ser você mesmo, Nick!

O mais novo mordeu os lábios, se recusando a chorar também.

— Eu tenho vontade de dizer pra ele que eu posso dar orgulho pra ele mesmo sendo assim, que eu não preciso que ele mude nada em mim, porque eu não quero ir para o Paraíso mais! Eu não quero! — Encerrou, aos prantos, os soluços quase o impedindo de falar.

Talvez Leonard não tivesse a capacidade de notar aquilo ainda, mas ele não precisava querer ir para o Paraíso; ele já estava lá, há muito, muito tempo.

Existiam certos tipos de pessoas: pessoas como Troye, que renegavam.

Pessoas como o pai de Leonard, que queriam.

E pessoas como Leonard, que já estavam lá.

Notas finais
Eu chorei tanto escrevendo esse capítulo :(((( ele me faz meio emo, admito. Espero que eu tenha conseguido passar todos os sentimentos a vocês. GENTE, VAMOS FAZER UMA BRINCADEIRINHA? *animada* Eu sempre quis fazer isso! HAJKAKDJASKA Vamos fazer assim: deixem nos comentários perguntas para qualquer personagem, que, no final do review, "ele" irá responder! Por favor, especifiquem pra quem é xD Façam quantas perguntas quiserem, sejam elas quais forem, pra quais personagens quiserem! HAHAH AAAH, por favor, caso receberem alguma resposta meio grossa do Manu ou do Troye, não me batam, eles são umas víboras mesmo AJSAKLSA Espero que vocês participem comigo, tenho certeza que vai ser bem divertido! HAHAH Novamente, os agradeço imensamente por serem esses docinhos de coco comigo! Os adoro mesmo! Beijoos~! ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.