De Coração

4 Como Chegar Em um Cego


Notas iniciais
Oláaa, queridos leitores! Antes de mais nada, peço perdão pela demora deste capítulo, espero mesmo que ninguém tenha desistido de ler ;U; (Quem me acompanha há um tempo sabe que às vezes eu tenho mesmo dessas coisas... *sorriso colgate*) Segundo, quero agradecer imensamente aos comentários divosos que recebi no capítulo passado, de verdade, obrigada, amei todos! *www* JOAOJAOAJOJAO É isso, não tem muito a dizer por aqui (ainda, já, já começa as notas colossais), só espero que gostem do capítulo! Boa leitura! :*

Kale não podia estar mais animado. Acordou, por incrível que pareça, completamente disposto de manhã, às sete em ponto. Fez sua higiene matinal, tomou o café e saiu do apartamento antes mesmo de Lucas acordar.

Foi ao banco, pagou a taxa de inscrição da competição já ganha e vagou sem rumo por aquela parte da cidade. Estava animado demais com sua estadia em Honolulu para ficar parado. Havia conversado praticamente a tarde inteira com Kai no dia anterior, podendo conhecê-lo melhor. Haviam falado sobre tudo; sobre como a sorveteria ao lado do Fort Ruger Park era boa e em como seu sorvete preferido era de chocolate com calda de caramelo ou como gostava de ouvir os pombos de manhã.

Sempre que podia, Kale insistia (mesmo que indiretamente) no assunto sobre Kai subir em sua prancha. E, em todas as vezes (mesmo que indiretamente) ele negava. Negava por motivos justos, não por medo, não por hesitação e nem por insegurança com seu condutor — mesmo que fosse plausível ter quando seu condutor é Kale.

Negava porque seus pais ainda o tratavam como um pássaro recém-nascido, resguardando-o sob suas asas, mesmo que Kai já estivesse com algumas penas.

Mordeu seu picolé de menta enquanto passeava pela cidade, atraindo olhares de muita gente, principalmente o de moças. Kale era um jovem extremamente atraente, e não importava o que ele usava, sempre parecia bem vestido e bonito. A barba mal feita por puro desleixo o deixava com a aparência mais madura.

Acabou andando até o litoral. Tirou seu tênis quando estava a um passo da areia, carregando-o em suas mãos e caminhando descalço pela praia. Odiava sujar a areia com os resquícios da cidade, como se estivesse poluindo-a de certa forma. Assim como grande parte dos surfistas, a coisa mais confortável a se fazer, na opinião de Kale, é caminhar na linha demarcada da água. Sentir a maré afagando-lhe os dedos e recuando, como se não gostasse do que sentia.

Parou um pouco de andar, mordendo seu picolé, estreitando um pouco os olhos por conta do vento. Observou o horizonte, distraído. Seus pensamentos voaram longe, soltos, e acabaram pousados em Kai. Por um momento, imaginou-se em sua situação: cego.

Fechou os olhos, pondo à prova seus pensamentos. “Não deve ser fácil…” concretizou, suspirando e imaginando o quanto alguém podia ser forte.

Só abriu os olhos quando sentiu alguém tocando-lhe o cotovelo. Virou a cabeça, dando de cara com uma jovem bonita, vestindo biquíni, sorrindo docemente a ele.

– Oi, você tá sozinho? — Ela indagou, sua mão parecendo minúscula perto do braço de Kale.

Kale permaneceu quieto, olhando para a garota, mas não enxergava nada. Seus pensamentos ainda estavam em Kai e em como ele lidava com tudo em sua vida. Virou as costas para a garota, deixando-a à deriva e confusa, encarando-o enquanto ele andava calmamente pela areia. Kale sentou-se num banquinho de mármore perto da calçada, tirando seu celular do bolso e discando o número de Kai sem pensar.

Kai atendeu depois de cinco toques:

– Hm, alô? — Parecia morto de sono, completamente grogue.

– Kai?

– Quem é?

– É o Kale, oi. — Ele riu, imaginando o estado do outro.

– Kale, são… — Kai esticou a mão em direção ao seu criado-mudo, tocando em seu relógio especial. O relógio de cegos era bem peculiar. Os números eram escritos em braile, com ponteiros bem definidos. — Oito horas! Oito!

– O que é que tem?

– Por que diabos está me ligando às oito da manhã?!

Kale pensou pela primeira vez depois de algum tempo. Ficou mudo, sem respostas.

– Hã… Não sei, eu só queria conversar com você. Ouvir a sua voz, eu acho… — Admitiu, coçando a nuca, completamente encabulado.

Kai engoliu em seco, pego de surpresa pela fala do outro. Ficou, por cinco segundos — talvez seu recorde — sem resposta, apenas apertando com mais força seu celular entre os dedos. Não queria passar a imagem de pessoa completamente desconfortável e sem graça (coisa que ele estava) e sim de gente confiante.

– V-você é muito estranho, Kale. — Disse o habitual, revirando-se na cama. — Se queria falar comigo, poderia ter ligado mais tarde.

– Mais tarde, tipo…?

– Às uma da tarde eu estou pensando em acordar, geralmente — riu, acomodando a cabeça no travesseiro.

– Não brinca!

– O quê?! Cala a boca que eu tenho certeza que você dorme até tarde também! — Resmungou, contrariado.

– Eu, não! O máximo para mim são dez horas da manhã, diferente de algumas pessoas — gracejou, ouvindo a risada sonolenta de Kai na linha. Então, um pensamento ocorreu-lhe: não tinha nada para fazer naquele dia, provavelmente Kai também não. — Kai, tá a fim de dar umas voltinhas comigo? Tem um pessoal preparando uma espécie de palco aqui perto, quer observá-los comigo?

Kai sorriu. Estava tão acostumado com aquelas situações meio tocas.

– Sim, Kale, com certeza vou observar caras construindo um palco contigo, da mesma forma que eu observei semana passada a passagem dos pterodátilos cruzando o oceano Pacífico.

Kale bateu em sua própria testa, querendo se enfiar na areia e ficar ali para sempre.

– Eu sou um idiota.

– Me conta uma novidade agora — Cutucou-o, rolando na cama de novo, sorrindo como um boboca.

– Sem problemas, eu vou te contar uma novidade. — Deu ênfase desnecessária a última palavra. — Às dez horas eu tô aí para te buscar, para nós dois sairmos e passearmos um pouco. Pronto, novidade para você. — Avisou num tom que não permitia objeções.

– O quê?! Espera, Kal- — foi interrompido bruscamente quando o surfista desligou na sua cara. Apertou com força e um pouco de raiva o celular, jogando-o no colchão e enfiando a cara no travesseiro, de bruços. Nem adiantaria, pelo visto, negar.

Kale era do tipo de pessoa que não permitia “não” como resposta. Kai, inconscientemente, sorriu. Levantou-se da cama devagar, rindo consigo mesmo.

***

O garoto bateu o portão com força, a fim de trancá-lo, quando saiu do prédio. Empunhou sua espa-, digo, sua bengala, apoiando-se pacientemente às grades do edifício. Havia tomado banho e botado uma roupa fresca antes de descer, faltando dez minutos para as dez. A ideia de sair com Kale, repentinamente, tornou-se algo agradável para Kai; ficar mocozado o dia todo dentro do quarto ouvindo as peripécias fantásticas de Kelly Slater em seu rádio de pilhas não era muito incentivador.

Levou um susto quando foi pego com força pelo cotovelo e, quase que automaticamente, acionou sua bengala, batendo em quem quer que seja com toda a força que possuía. “Não é desse jeito que se chega num cego!!” gritou para si mesmo caso fosse um conhecido, defendendo-se.

– Caramba, Kai! — Era a voz rouca de dor de Kale. O garoto fora atingido bem em cheio no estômago. Kai virou-se, alarmado, querendo tocá-lo para verificar onde ele estava. — Já disse para deixar esta arma mortal longe!

Kai, ao contrário de se desculpar, apenas riu, achando aquilo muito engraçado.

– Bem feito! Quem mandou chegar desse jeito num cego? Vai que fosse um ladrão, um estuprador ou um maníaco! — Defendeu-se, apertando contra si a bengala, o sorriso de gente orgulhosa expresso em seus lábios.

Kale estralou a língua, esticando o braço e apertando as bochechas de Kai com força medida, fazendo-o produzir uma espécime de bico.

– Você tem um sorriso debochado que me faz ter vontade de te esganar. — Disse, brincando com a bochecha do garoto.

– Sério? — Tentou indagar, mas saiu uma espécie de ‘xério’, já que seu rosto era apertado. Kale diminuiu o apertão, apto a escutar o que ele tinha a dizer. — Ótimo, vou utilizá-lo mais vezes.

– Você e sua linguinha irônica iriam apanhar muito nesta vida se não fosse cego.

– Olha que ótimo, o primeiro item do tópico ‘vantagens da cegueira’. — Gracejou, apoiando-se na bengala.

Kale revirou os olhos, contornando seu braço em volta dos ombros de Kai, um meio abraço caloroso, iniciando uma caminhada.

– Aonde você pretende me levar? — Kai indagou, guiando-se tanto por Kale, tanto por sua bengala; não era hora de aceitar apenas a ajuda do surfista doido, apostava que seria um caminho meio longo, por isso sentiu-se mais seguro ao utilizar sua arm-, digo, bengala.

– Vamos tomar sorvete e andar pela praia. Aí podemos nos sentar na areia e discutir sobre… — Pensou no assunto. — Coisas.

– Não me parece uma má ideia — Kai anuiu, batendo a bengala no chão para se guiar. — E, nestas coisas, estão inclusas o quê?

– Não sei, talvez mais coisas.

Ótima resposta, já pensou em ser professor? Você se daria muito bem na área pedagógica, todas as crianças iriam sair da escola bem informadas e cheias de dúvidas resolvidas — disse com um sorriso enorme.

Kale revirou os olhos, parando de andar e esperando o sinal vermelho para poderem atravessar.

– Um dia eu te deixarei mudo, sem essas respostas irônicas, você verá. — Garantiu-se, apertando-o contra si quando uma mulher passou à base de ombradas.

– Mal posso esperar — e, pela primeira vez, sua covinha de um único lado despertou com a expansão de seu sorriso.

Conversaram muito enquanto andavam em direção à barraquinha de sorvete. Kai, como de costume, pediu uma casquinha de chocolate com calda de caramelo, recebendo o auxílio de uma colherzinha de plástico, enquanto Kale pediu um picolé de abacaxi. Daquela vez, Kai estendeu o braço ao mais velho, que recebeu-o de bom grado.

– O palco tá quase pronto, mesmo que a competição demore — Kale comentou, mastigando os pedaços gélidos. — O pessoal daqui é bem organizado.

Kai deu de ombros, enfiando a colher na boca.

– Nunca saí da capital, não faço ideia de como a infraestrutura é nas outras ilhas. Em Big Island a coisa é mais diferente?

– Sim, muito — Kale sorriu. — Menos carros, mais vulcões ativos e letais… — Mencionou banhado em bom humor, olhando para as ondas pintadas com surfistas aqui e ali. — Mais surfistas… Porém, em termos de paisagens paradisíacas, digamos que Big Island vence.

Pararam de andar quando ameaçaram pisar no litoral. Kale, com seus princípios protetores da areia, não demorou e tirou seu tênis. Kai foi surpreendido quando sentiu a mão forte do surfista em seu ombro.

– O que houve?

– Tira o chinelo.

– Por quê? — Indagou confuso, espremendo as sobrancelhas.

– Não vai pisar com este calçado sujo de cidade na praia — argumentou, inclinando-se. — Vai, segura no meu ombro.

Kai nem teve tempo de contra-argumentar, pois perdeu o equilíbrio ao ter sua perna esquerda levantada. Agarrou-se às costas de Kale com rapidez, derrubando uma gotinha de sorvete em sua camiseta. O surfista retirou logo os calçados de Kai, segurando-os e agarrando seu pulso para começaram a andar de novo.

O mais novo suspirou ao sentir a superfície morna e macia da areia acariciar-lhe os pés. Confessava que, daquele jeito, era muito melhor andar na praia, ainda mais quando seu tato era mais aguçado do que a dos outros. Mordeu sua casquinha, comentando com Kale o quanto era difícil tomar sorvete sem se lambuzar todo.

– Por isso que eu prefiro picolé — o surfista admitiu, lambendo os resquícios de abacaxi no palitinho. — Óh, fica esperto que nós vamos caminhar com água agora — avisou quando viu a primeira onda aproximando-se.

Kai riu em cócegas ao sentir a água gélida banhando-o até os tornozelos. Deus uns pulinhos para se acostumar, agarrando-se ainda mais às vestes do outro, talvez com medo de tropeçar e cair de cara no chão.

Kale riu com a reação exagerada do outro. Segurou-o mais forte pelos pulsos, sinalizando implicitamente que não havia motivos para agarrá-lo daquele jeito.

– Se você me disser que é a primeira vez que faz isso, juro que te darei uns tapas — gracejou, sentindo, agora, a panturrilha sendo molhada pela água.

– Claro que já molhei os pés! — Kai exclamou, divertindo-se muito ao perceber que já andava pesadamente. — Só que nunca permaneci muito tempo, sabe? Andando e coisa e tal. Geralmente a Luana vem comigo, molhamos os pés e voltamos à lanchonete, apenas. — Sentia a barra de sua bermuda ensopa. Inclinou-se um pouco quando engoliu o último pedaço de seu sorvete, fazendo uma concha com as mãos e molhando o próprio rosto. Fez uma careta involuntária ao sentir a água escorrendo por seu corpo, gelando-o inteiro.

– Isso foi uma ideia razoável — Kale riu, fazendo o mesmo que Kai, só que desta vez molhando os cabelos também. O surfista percebeu muita movimentação naquela área, turistas tirando fotos sem parar, fazendo biquinho, paz e amor e outras coisas; estavam quase invadindo o espaço (pelo menos na cabeça de Kale) que as águas ofereceram aos dois e exclusivamente para eles. — Kai, tá enchendo de gente aqui, vamos nos sentar na areia… — Sugeriu, segurando o braço magro do garoto.

Kai se arrepiou ao sentir os dedos gélidos segurando-o de repente. Agora, muito provável, começaria a assemelhar dedos gélidos aos dedos de Kale, que, por uma razão coerente, sempre estavam assim. Concordou com a ideia e ambos se sentaram na areia, perto da calçada, aproveitando a companhia um do outro.

– Se arrependeu de vir? — Kale perguntou, inclinando o corpo para o lado, apoiando-se em Kai.

– Não, na realidade — ele confessou com um sorriso. — Foi melhor do que eu imaginava. A única coisa que falta agora é mais sorvete.

– Sorvete vicia mais que cocaína, cuidado — Kale alertou-o com um sorrisinho, apoiando-se nas mãos e inclinando o corpo ligeiramente para trás. Viu quando Kai riu, apoiando o queixo em seus joelhos. O cabelo liso estava levemente molhado, com gotas ameaçando cair em seu rosto.

– Kale.

– Hm?

– Você poderia descrever o que está acontecendo para mim?

O surfista ficou em silêncio. Seria rude de sua parte dizer algo como ‘não faria muito diferença para você, faria?’. Kai, notando o silêncio, decidiu prosseguir:

– Não, você entendeu errado. Não quero que narre o que está vendo. Quero que narre o que está sentindo ao poder olhar o que quer que seja. — Explicou, batucando os dedos em sua tíbia.

– O.k., tudo bem. — Tentou, olhando atentamente em volta. — Eu vejo… Hã… Eu me sinto bem ao estar contigo agora, em frente ao mar. Um sentimento de calma me atinge neste instante, como se eu pudesse deitar aqui na calçada e me esquecer do resto do mundo, apenas ouvindo a maré e o que quer que você tenha a dizer. Desde muito tempo eu me sinto bem só por estar perto do mar, como se eu tivesse raízes sirenas, uma espécie de tritão pernudo e sem escamas — brincou, arrancando uma risada do seu acompanhante.

– Foi melhor do que eu imaginei que seria — Kai admitiu, brincalhão, dando uma leve ombrada em Kale.

O surfista ia retrucar, mas foi impedido pela chegada de um grupo de garotas. Todas elas olharam para os dois como se estivessem prestes a devorá-los.

– Com licença, estão sozinhos? — Perguntou uma moça mais à frente, a pele queimada e os cabelos presos num rabo de cavalo. Ela sorria docemente, mas Kale jurou ter visto presas e um par de chifres escondidos entre os cabelos encaracolados.

Também viu claramente quando uma garota de cabelo platinado só faltou comer Kai, enrolando uma mecha brilhante no dedo enquanto olhava o pequeno de cima a baixo com um ar de satisfação.

– Se vocês estiverem sozinhos, conhecemos uma lanchonete ali perto da costa-

– Não, obrigado — Kale foi negando, erguendo uma mão. — Agradecemos pelo convite, mas já estamos indo embora — mentiu, apressando as coisas; não queria elas ali, seria desagradável para ambos os lados, já que ele queria conversar com Kai sozinho.

As garotas pareceram terrivelmente decepcionadas, mas desistiram de insistir. O grupo se despediu dos dois com beijinhos amistosos na bochecha, indo embora rindo e olhando para trás vez ou outra.

– Kale pegador… — Kai gracejou, rindo e dando-lhe uma leve ombrada.

Kale deu uma gargalhada curta, também dando-o uma ombrada sutil, aproveitando a chance e jogando todo o seu peso para cima de Kai, praticamente largado.

– Não era a mim que uma loira platinada tava secando… — Resmungou como se a ideia não o agradasse muito.

Kai sorriu, um pouco feliz pela informação.

– Sério?

– Sério. Eu pensei que ela ia pular em cima de você e começar a te lamber.

Kai riu, muito surpreso.

– Você tem barba?

– Eu não diria barba… — Kale coçou o queixo. — Eu diria “porcaria grudada no rosto que eu tenho preguiça de tirar”.

– As mulheres daqui gostam de rostos mais másculos. — Kai argumentou, abraçando os joelhos. — Eu com dezoito anos pareço um bebê, por isso elas nunca se aproximam de mim.

– Verdade. Você tem cara de treze anos, provavelmente elas não querem ser presas por pedofilia.

– Obrigado pela parte que me toca — ele resmungou, desgostoso. — Mas minha mãe me diz que minhas sobrancelhas grossas entregam, em parte, minha idade. Suas sobrancelhas são grossas?

– Descubra por si mesmo — Kale deu de ombros, pegando a mão de Kai e guiando-a em direção ao seu rosto. Kai sorriu ao sentir a sobrancelha do surfista. Acariciou aquela linha irregular com cautela, arrepiando os pelos, sentindo. — E aí? Grossa ou não?

– Não tenho certeza… — Disse, acariciando sua própria sobrancelha para poder compará-las. — Não sei… Comparada a minha, sua sobrancelha é meio fina. Você tem sobrancelha de mulher, Kale? — Riu, impedindo-o de dar uma resposta ao deslizar sua mão pelo rosto do surfista, querendo sentir como ele aparentava ser.

O garoto gostava de fazer isso com as pessoas que pegava amizade. Era sempre bom “ver” com quem você está falando, no fim das contas.

Kale respirou pesado, o corpo tenso ao ter Kai tocando-o tão avidamente e tão próximo a ele. Os dedos finos e macios (muito diferente dos seus, calosos e grossos pelo manejo da prancha) acariciavam-lhe o rosto numa espécie de inspeção minuciosa e muito séria. Kai sentiu o nariz um pouco arrebitado e fino do surfista, os olhos levemente puxados, os cílios longos e, aproximando-se mais e investigando mais, tocou suas orelhas. Sentiu a respiração quente do outro em sua bochecha, e notou o quão próximos estavam. Afastou-se sutilmente, não querendo criar problemas, e deslizou os dedos até o maxilar de Kale. A barba mal feita cutucou-o nos dedos de forma um pouco incômoda. Seu maxilar era forte, combinando com o que havia sentido.

Então, lento como uma tartaruga, escorregou dois dedos sobre os lábios de Kale — eram frios, e ele se indagou se todos os lábios de surfistas eram gélidos também.

Kale não conseguia desgrudar seus olhos daquelas orbes acastanhadas de Kai. Ele mantinha-se inexpressivo enquanto examinava-o; seus rostos estavam próximos a ponto de apenas uma nesga de ar separá-los. Precisava afastá-lo.

Pegou-o delicadamente pelos ombros e distanciou-o alguns centímetros, engolindo em seco. O Sol ardia lá em cima, queimando-lhe a cabeça; mas Kale não suava apenas pelo calor irradiado pelo astro.

– Foi estranho pra você? Quando eu fiz isso com a Luana, acabei machucando o olho dela — Kai riu, se acomodando melhor ao sentar-se, afastado estrategicamente de Kale, mesmo que não percebesse.

O surfista ainda respirava pesado, tenso com o que aconteceu. Sentia o coração aos pulos e, automaticamente, passou seus dedos sobre os lábios, ainda podendo sentir o toque cálido de Kai.

– Não foi estranho, pode relaxar — mentiu, coçando a barba. — Então, Kai, é quase uma hora, cê já quer ir para casa?

– Já?! — Kai surpreendeu-se; ficar com Kale era o mesmo que ficar perdido no tempo e espaço.

– É, – Kale grunhiu. Queria ficar mais tempo com Kai, mas nada do que outro passeio não resolvesse. — Então, você quer que eu te leve?

– Você faria isso?

– Sem pensar duas vezes. — Sorriu, levantando-se e dando tapas na bermuda para retirar a areia. Pegou o pulso de Kai, auxiliando-o a se levantar, rindo ao ver suas pernas amarelas de tantos grãos grudados em sua pele. — Quando você rolou na areia, Kai? — Brincou, dando um tapinha na barra da bermuda do outro, tirando o excesso. — Você vai ter que tomar banho quando chegar em casa.

– Quem disse? — Kai resmungou. Era meio neurótico no quesito gasto de água. Tomar dois banhos por dia era quase uma morte para ele.

– Eu, ué. Ou você vai dormir com a bunda cheia de areia? Beleza então, quem sou eu para contrariar? — Levantou os braços em sinal de rendição, mas notou depois de segundos que ele não perceberia. Sentiu-se idiota, como de costume. — Mas vamos passar na farmácia para comprar Hipoglós, tá com dinheiro aí?

– Depois o Lucas é o sem graça… — Kai resmungou, ouvindo Kale gargalhar, sentindo em seguida seu braço sendo tomado com delicadeza. Foi puxado de leve e iniciou a caminhada ao lado do seu guia, agarrando-se ao braço dele.

Mentiria na cara dura se dissesse que não havia se divertido. Na realidade, divertiu-se tanto que cogitava a ideia de repetir a experiência mais vezes — isto se, claro, Kale estivesse disponível e, essencialmente, com vontade de acompanhá-lo. Não era muito simples acompanhar Kai para passeios, tanto por sua língua afiada, tanto por seu desgosto em acordar cedo.

Ah, claro, também tinha o fato de que ele era cego, mas este era o menor de seus problemas, aparentemente.

Foram o caminho todo rindo, conversando e brincando entre si como se já fossem amigos há décadas.

– Chaves — Kale pediu quando pararam em frente ao prédio.

Kai sorriu e vasculhou em seus bolsos — desta vez até o da bermuda. Mas, como de costume, suas chaves estavam no bolso da camiseta. Entregou-as a Kale, que abriu o portão e enfiou as chaves de volta em seu bolso.

– Tchau, Kai. — Despediu-se, talvez até um pouco ríspido. — Falo contigo amanhã?

– Com certeza. Só que nada de me acordar antes das dez, o.k.? — Avisou-o, realmente traumatizado. Iria desligar seu celular aquela noite, só por precaução.

Kale riu, afagando levemente os cabelos do garoto.

– Tudo bem, juro que te ligo às dez e um, o que acha?

– Você é horrível, Kale — o garoto brincou, pegando as barras do portão e entrando em seu edifício. — Até amanhã. — Despediu-se com um sorriso.

Kale ia acenar, mas notou que Kai não iria perceber, novamente. Ficou observando-o enquanto subia cuidadosamente os degraus, entrando no edifício e desaparecendo. Kale encarou o nada por alguns segundos, acariciando subconscientemente seus lábios outra vez.

Não havia sido um toque ruim, não sabia ao certo o porquê de sua preocupação.

Não” pensou, dando um suspiro, enfiando as mãos nos bolsos da bermuda e começando a andar. “Não foi ruim, e é exatamente por isso que eu tenho que começar a me preocupar.”

Notas finais
Já estou apaixonada por esses dois OAJAJALABNSUASJAK /morre As coisas estão meio paradinhas ainda, mas no próximo capítulo já teremos umas tretas familiares e o senhor-sou-bonzinho-Kai vai mostrar seu lado mais rebelde, hehe, como já dizia a sinopse. Espero conseguir passar as emoções dele corretamente pra vocês, nada mais frustante pra mim do que não conseguir transpassar determinado sentimento pro texto, humpf. Espero, de verdade, que estejam gostando, por favor, não deixem de dar aquele incentivo nos reviews, me ajuda muito! Qualquer errinho bobo, não deixem de me avisar, por favor! Algumas coisas passam batidas mesmo com a revisão :33