De Coração

5 Berê: Realizadora de Sonhos


Notas iniciais
OOOOOI, MINHA GEEEENTE!! Tudo bem com vocês? Tô ótima, fiz uma prova de matemática e fiquei revigorada, praticamente gabaritei, olha o orgulho, HAHHAHAAHHA! Me desculpem mesmo pela demora, o tempo pra mim tá difícil de administrar, geralmente eu escrevo quando tô no ônibus, ou seja, uns cinquenta minutos escrevendo (isso quando não tem gente enxerida bisbilhotando, essa semana mesmo uma moça ficou lendo. Sempre me recuso a escrever com terceiros por perto, parece que começo a escrever chinês HAHAHAHAH!) Finalmente, quero agradecer imensamente por todos os reviews recebidos capítulo passado, eu realmente amei todos eles! Obrigada por estarem comentando, fofinhos! Espero que gostem do capítulo, ele é apenas o início de tudo... E de até mesmo um novo shipp, conseguem adivinhar antes mesmo de ler? HAHA! Boa leitura!

Se a bengala de Kai pudesse soltar raios lasers, metade da população havaiana residente de Honolulu já estaria a sete palmos da terra.

Às cinco e vinte e sete da tarde, entrou como um furacão no Aloha Coffe, bufando em puro ódio e caminhando até se acomodar em seu lugar típico. Dobrou a bengala com raiva e enfiou-a no bolso com brusquidão, mesmo que a coitada não tivesse culpa de nada.

Seu aparecimento completamente fora de hora aterrorizou Luana, que caminhava na direção da mesa cinco com uma bandeja pesada. Não desgrudou os olhos de Kai enquanto botava o pedido do cliente sobre a mesa, entregando-lhe canudinhos para seu refrigerante e correndo na direção do garoto.

– Kai?! — Chamou-o enquanto sentava-se ao seu lado, logo abraçando-o num aconchego protetor. — Aconteceu alguma coisa?!

Kai retribuiu o abraço como pôde, apertando os cotovelos da amiga enquanto seu queixo tremia.

– Eu tive uma discussão feia com a minha mãe, Luana — explicou a situação, chateado, raivoso e temeroso ao mesmo tempo.

Luana relaxou os ombros, olhando-o com pesar, encostando suas testas.

– Ah, Kai… — Ela temeu o pior. — O que aconteceu?

– E-eu comecei a falar para ela sobre o assunto que mais falo do universo, você sabe, tentar convencê-la de me deixar surfar. A-aí, do nada, ela surtou, começou a gritar comigo e jogou na minha cara que era impossível, que não haviam instrutores pacientes o suficiente para ensinar a um cego, e aí ela falou que eu estava estressando ela cada vez mais, que já estava perdendo a paciência… — Terminou com os olhos ardendo. Queria chorar. Não de tristeza (talvez um pouco) mas sim de raiva.

Sua mãe deveria apoiá-lo, e não jogar em sua cara coisas que já estava ciente e conformado desde que nascera. Fungou, passando as costas da mão no nariz, se desgrudando de Luana e apoiando-se ao estofado azul e confortável do banco.

Luana não sabia o que responder. Ficava extremamente triste por Kai e mal podia entender como era aquele sentimento — se estivesse no lugar dele, com toda a certeza se sentiria rejeitada, jogada de escanteio e ferida emocionalmente.

Abraçou-o forte, apoiando seu queixo em seu ombro.

– Ah, Kai, eu sinto tanto. Eu queria fazer algo por você, mas não sei o quê...

– Uma bebida gelada grátis iria ajudar bastante... — Ele tentou sorrir, mas o máximo que conseguiu fazer foi erguer ligeiramente os cantos dos lábios.

Luana riu fracamente, afagando os cabelos macios de Kai.

– Vou te trazer um chá gelado, o que acha? — Indagou, ignorando o chamado de um cliente reclamão da mesa sete.

– Chá gelado? Não pode ser uma Coca? — Kai aproveitou-se da bondade dela.

Luana sorriu, revirando os olhos e levantando-se devagar.

– Vou lá pegar pra você, o.k? Já volto. — Avisou, começando a andar quando Kai anuiu, encolhendo-se no banco.

Luana suspirou, andando pelo corredor de mesas até chegar ao balcão. Driblou um garçom e empurrou a porta branca, flexível e com uma janela redonda acima, que dava acesso à cozinha. Logo avistou Manu em frente ao fogão, chacoalhando uma frigideira sobre o fogo alto, imerso em pensamentos.

Só notou a presença da garota ali quando ela apoiou-se ao balcão perto de onde ele estava com um sonoro suspiro e desleixo. Deu um breve olhar nela, logo voltando a encarar a frigideira.

– Já está cansada? — Indagou, surpreso. Luana tinha, geralmente, energia e disposição para dar e vender; vê-la cansada antes do fim do expediente era algo raro e um pouco esquisito.

– Não — ela respondeu, massageando as têmporas. — É o Kai, Manu. Ele teve uma discussão horrível com a mãe, você sabe como ela é imatura com a deficiência do filho, logo jogou na cara dele que ele nunca poderá surfar porque, veja só que ridículo, não há instrutores pacientes para ensiná-lo. — Jogou as mãos para cima, implorando às divindades. — Eu é quem necessito de paciência para não descer a mão na cara da tia Eliza, viu!

Manu riu. Sua risada era extremamente ímpar e particular; o som era quase rude, o timbre grosso como o rugido de um leão, alto e escandaloso. Luana assustou-se com aquilo; era difícil ver Manu rir daquele jeito. Ele olhou-a, os olhos miúdos por conta do sorriso.

– Calma, Luana. Nós não temos que nos meter nos assuntos familiares de Kai, somente apoiá-lo. Ele já é homem e crescido, tem de lidar com isso com suas próprias mãos. Ele não tem culpa se os pais são imaturos e não o aceitam do jeito que é, mas nós o aceitamos. — Respondeu, deslizando a comida que fazia para um prato transparente, botando-o sobre o balcão, ao lado de Luana. — Porque, você sabe, deficiência não é sinônimo de dependência. — Disse, abrindo dois botões de sua camisa social por conta do calor vigoroso que fazia ali dentro.

Luana sentiu o estômago embrulhar; virou a cabeça lentamente, encarando suas sapatilhas trançadas, evitando olhar para Manu.

– Você tá certo, obrigada por me ajudar. E-eu vou pegar uma Coca pro Kai — alegou, ríspida, saindo de perto do balcão e andando rapidinho para a geladeira dos funcionários.

Puxou de dentro do eletrodoméstico a Coca Diet que comprou no Costco perto de sua casa mais cedo, apertando a latinha entre os dedos e sentindo-a gelada. Observou-a por dois instantes, perguntando-se se Kai gostava daquele tipo de bebida.

Levou um susto quando Manu apareceu atrás de si, mostrando-se um verdadeiro gigante em comparação a ela. Ficou paralisada, suas costas batendo em algum lugar de suas costelas, enquanto ele fuxicava dentro da geladeira. Alcançou uma latinha de Coca normal, pegando em seguida a bebida que estava nas mãos de Luana, comparando-as.

– A normal é muito melhor — ele constatou, inclinando-se consideravelmente para baixo para poder dizer isso rente ao ombro dela, quase de forma sussurrada, seu timbre de voz grave e rouco. — Fica com a sua Diet desnecessária, eu vou dar a minha a ele. — Disse num tom que não permitia muitas reclamações, já que as pernas de Luana acusaram ceder.

Manu saiu da cozinha em seguida, sem dar tempo à Luana contrariá-lo. Odiava ser contrariado, principalmente pela nanica. A ideia de deixá-la sem sua bebida diet, sabendo de suas condições complexadas com estética corporal o deixavam, no mínimo, angustiado. Não gostava de ver Luana naquele estado, principalmente porque a achava uma mulher atraente.

Achava, na realidade, sua obsessão por ter um corpo retilíneo e seco ridícula. Com este pensamento em mente, acabou por apertar a latinha mais forte, passando entre as mesas quase hipnotizado. Atraiu a atenção de todos os clientes por conta de sua altura absurda, a cara amarrada, quase predatória, e o avental imundo de óleo.

Deslizou pelo banco azul especial, onde encontrou um Kai apoiado ao vidro, batucando na mesa de maneira impaciente.

– Oi, Kai — cumprimentou-o, botando a latinha perto de seu dedo. O garoto assustou-se com o objeto gelado e úmido perto de si, mas acabou por pegá-lo e abri-lo. — Luana me contou o que aconteceu. Quer conversar sobre isso? — Foi rápido e objetivo.

– Não, obrigado — Kai tomou um gole da bebida. — Ah, você trouxe normal, valeu, tenho certeza que Luana traria diet — o pensamento o fez expressar uma careta de desgosto.

Manu sorriu, terminando o que tinha de fazer ali.

– Você sabe como ela é, releve. Vou indo — encerrou, talvez meio seco, levantando-se. — Te trarei um hambúrguer daqui a pouco, cê tá com cara de quem tá com fome — deu um último aviso, andando de volta à cozinha sem maiores cerimônias. Aparentemente, era um alguém seco, sem muitos nhenhenhéns. Se importava de um jeito bem particular.

No caminho, viu Luana andando no sentindo contrário ao seu. Passaram paralelamente, esbarrando-se levemente de forma proposital. Sorriram ligeiramente um para o outro, logo tomando seus devidos rumos.

***

Kai passou a tarde no café. Ignorava com maestria as ligações e mensagens de sua mãe, não estando com vontade alguma de conversar com ela, nem naquele momento, nem nunca.

Mordeu com força seu hambúrguer, prestando mais atenção na conversa da mesa atrás da sua — era sua única forma de distração. A discussão que ocorria ali era bem interessante, quase digna de uma novela mexicana. Sorriu consigo mesmo, achando-se um verdadeiro enxerido. Não era algo a se orgulhar, mas não podia fazer nada a respeito.

Juntou as sobrancelhas quando sentiu o celular em seu bolso vibrar. Não era a sua mãe, já que havia programado para que "Queens" tocasse toda a vez que ela ligasse.

Atendeu no terceiro toque, as sobrancelhas ainda bem juntas.

– Sim?

– Não me lembro de você ser tão formal ao telefone — a voz de Kale na linha o fez sentir-se bem.

– Apenas com desconhecidos.

– Ah, é verdade, eu tô ligando do celular do Lucas, o meu tá carregando. — Explicou, indiferente. — Deixa eu adivinhar, não tocou "Ele é demais" quando liguei, né? Por isso você estranhou — gracejou, convencido. Kai soltou, pela primeira vez depois da briga que teve com sua mãe, uma risada.

– Só você mesmo pra me fazer rir em meio às tragédias que me cercam — suspirou, apoiando o cotovelo na mesa e inclinando a cabeça com desânimo para o lado.

Kale por um momento não soube o que responder.

– Ah, assim você me deixa envergonhado... Diga mais, diga mais — pediu, quase infantilmente.

Kai riu de novo, espremendo os olhos.

– Besta.

Passou-se cinco segundos antes de Kale indagar, desta vez com preocupação não disfarçada em sua voz:

– Você tá bem? Te liguei pra saber disso, mas de uma forma, eu me perdi.

– Não — Kai logo admitiu, cabisbaixo.

– Por quê?! — Kale saltou do sofá onde estava deitado, completamente inquieto com a sentença, logo caminhando em direção à sua sandália. — Não, espera, não fala, tô indo aí, isso não é algo a ser tratado pelo telefone.

– Espera, Kal- — o garoto tentou, aumentando o tom de voz, mas em vão.

O surfista desligou em sua cara. Kai ficou atônito por um momento, confuso demais para processar a situação.

Kale era maluco. Pirado. Doido. Era do tipo de cara que sua mãe sempre atravessava a rua quando avistava. Todo lugar tinha um pirado, e Kale representava todos que residiam em Honolulu.

Descansou o celular sobre a mesa, tateando-a em busca de seu hambúrguer provavelmente frio. Quando conseguiu achá-lo, praguejou alto ao sentir a vibração emitida de seu dispositivo eletrônico na mesa. Tateou a madeira, conseguindo encontrá-lo e atendendo-o.

– Alô?

– Ocorreu um problema técnico — era, novamente, Kale.

Kai riu e revirou os olhos, já imaginando que seria bobeira.

– O que aconteceu?

– Hã… Onde você tá? — O surfista perguntou, sentindo-se extremamente bobo.

***

Era inevitável. Mesmo quando Kale não queria chamar atenção, de uma maneira ou de outra ele sempre chamava. Puxou as portas duplas de vidro, percebendo tarde demais seu erro quando Lucas — que decidira acompanhá-lo, já que não gostava muito de ficar sozinho em casa — caiu na gargalhada.

– Quantas vezes você irá cometer este erro antes de aprender? — Cutucou-o enquanto andava para dentro do estabelecimento atrás do amigo.

Todos os olhares se dirigiam a Kale, acompanhados de sorrisinhos, risadinhas e cochichos mal disfarçados. Em principal risadinhas, muitas delas originadas da mesa onze, repleta de garotas do Ensino Médio.

Assim que o surfista avistou o corpo encolhido e a expressão vazia de Kai, não perdeu tempo e deu uma breve corrida até ele, jogando-se com quase brusquidão ao seu lado, assustando-o, e envolvendo-o com os braços fortes, dando-lhe um abraço confortador.

Kai sentiu sua bochecha amassada contra o peito gélido de Kale, rindo em seguida quando ele lhe afagou os cabelos de maneira gentil.

– Por que você é gelado desse jeito? — Indagou com singela curiosidade.

– Sangue de mar, é assim mesmo — explicou, apertando-o mais contra si, sentindo vontade de, com aquele abraço, tomar-lhe para si todos os males que o rodeavam. — Agora sim você pode me contar o que te aflige.

Kai sorriu uma última vez antes de despejar tudo. Kale ouviu e compreendeu o que o outro dizia com verdadeira atenção, sem desabraçá-lo, mantendo-o perto sempre. Sentia-se péssimo por Kai. Nem sabia como era aquele sentimento, gostaria de falar que estava tudo bem, mas ele sabia que não era bem assim. Nunca teve esses problemas com seu pai, nem fazia ideia de como iria lidar com aquela situação caso estivesse no lugar do outro.

– Eu sinto muito… — Foi o que disse, aconchegando-se mais, apoiando sua bochecha entre o emaranhado daquele cabelo liso. — Mas, você sabe, já conversamos sobre isso. Eu, particularmente, teria toda a paciência do mundo e, caramba, seria um prazer te ajudar a concretizar seu desejo de subir numa prancha.

Kai suspirou, sentindo-se um pouco sufocado pelo aperto confortável, admitia, mas extremamente imobilizador e até possessivo.

– Ah, Kale, nós já... — Então, como se a ideia mais genial da face da Terra o atingisse, Kai parou de falar. Ficou quieto, a expressão vazia, pensando seriamente no assunto.

Kale entreolhou Lucas, que estava sentado em frente a eles, mexendo o açúcar em seu suco de laranja natural, observando a cena em silêncio. O míope deu de ombros, sem ter ideia do que Kai viria a dizer.

– Eu... Eu acho que... — Começou, desgrudando-se de Kale e apoiando os cotovelos na mesa. — E-está na hora de tomar uma decisão por mim mesmo.

Tanto Kale quanto Lucas se surpreenderam. Olharam um para o outro com os olhos esbugalhados, logo encarando Kai como se ele tivesse criado chifres bovinos.

– V-você está dizendo que… — Kale começou, incerto.

– Eu quero fazer isso, Kale. — Kai se decidiu num tom que não permitia objeções. — Por favor, me ajude.

Kale riu rouco, quase emocionado. Abriu os braços e envolveu-os em Kai, apertando-o com volúpia.

– É claro, Kai! — Exclamou, rindo, extremamente contente. — Não se preocupa, ninguém precisa saber.

Lucas pigarreou, sentindo-se ofendido pelo "ninguém".

– Tem certeza que não vai nem contar pra Luana e pro Manu? — Indagou, incerto, perguntando-se se aquilo era mesmo uma boa ideia.

– Tenho. M-mas e você...

– Ah, não se preocupe, eu sou um túmulo. — Garantiu-se. — Só tô meio preocupado, o Kale não é confiável...

Kale virou a cabeça como se fosse a garotinha do Exorcista, encarando com ceticismo misturado a indignação o rosto do branquelo à sua frente.

– Como assim?! — Exclamou alta, escandalosa e indignadamente. — Eu sou o melhor surfista do Havaí! O mundo só não me conhece porque eles irão me eleger o cara mais lindo do planeta! Cê sabe, muito assédio, gosto de evitar a fadiga. — Disse como se acreditasse mesmo naquilo.

Lucas apenas revirou os olhos enquanto Kai ignorava aquela parte, pulando para o foco:

– Então, podemos começar amanhã? — Indagou mais animado impossível.

– Podemos começar quando você quiser. — Afirmou, quase galante.

Lucas ergueu uma sobrancelha, surpreso por aquele momento. Olhou para os lados, estranhando. “Será que sou apenas eu, ou…” devaneou, perdendo-se por um instante, ajeitando os óculos com o indicador. Só foi acordado quando Luana aproximou-se da mesa, pegando com um sorriso simpático sua xícara vazia.

– Posso? — Indagou antes de retirá-la.

– Claro! — Lucas abaixou os braços, como se eles fossem atrapalhá-la de certa forma.

– Kai, nós iremos ir mais cedo, o.k.? Nosso amado chefe vai fechar mais cedo hoje — avisou, recolhendo a xícara e logo andando para outra mesa, recolhendo os utensílios já usados.

Kai anuiu para o nada, certo que Luana ainda estava ali.

– Kale, então, nos encontramos amanhã em frente à sorveteria, o que você acha? — Sugeriu, um pouco hesitante.

– Pode ser. Mas, Kai, você terá que sacrificar uma coisa. — Avisou, talvez sério demais.

Kai estreitou as sobrancelhas, um pouco preocupado com o que ele se referia. "Sacrificar o quê? Um rim, uma córnea ou o negócio dele é medula?" imaginou horrores erroneamente.

– Seu sono. — Kale riu. — Ondas de manhã são melhores para amadores — declarou, agora entrando num assunto que entendia de cabo a rabo. -

O mar fica mais lisinho, você não levará muitos caldos.

– De manhã tipo…? — Kai iniciou, já querendo procrastinar.

– Oito, sete horas. — Respondeu, erguendo uma sobrancelha frente à preguiça do outro. — Ah, nada dessa cara de quem comeu e não gostou! Vamos, Kai, é para um bem maior…

Kai bufou, sem argumentos para debater.

– Tá bom… Oito e meia, vai? — Ainda tentou, pendendo a cabeça para o lado.

Kale riu e entreolhou Lucas, que estava com os olhos miúdos de tanto segurar o riso.

– Tudo bem, então, às oito e meia a gente se encontra na frente do Fort Ruger Park, ao lado da sorveteria, o.k.? Só não te busco porque tenho que ajeitar a Berê de manhã — explicou.

– Berê? — Boiou, alheio.

– Uma das minhas pranchas. Eu ganhei ela do Lucas, por isso ela foi batizada brasileiramente. — Explicou, rindo como um bobo só por se lembrar da sua filha.

– Ah, verdade, a Berê é uma longboard¹, né? — Lucas lembrou-se, surpreso pela memória de elefante do Kale. — Caramba, ela deve 'tar enfiada lá no quartinho que nem uma condenada.

"Quartinho" era um cômodo abandonado dentro do apartamento deles, cheio de tralhas e coisas que eles não usavam há décadas, porém mantinham por comodismo. A Berê era um exemplo clássico.

– Por isso mesmo que eu vou arrumá-la de um jeito que ela fique... Surfável. — Kale brincou, todo risos.

Kai respirou pesado, mal podendo acreditar no que estava acontecendo. O fato era que estava acontecendo. Ele iria mesmo fazer aquilo. Realizar o que por dezoito almejava fazer e nunca pôde... De repente, Kai sentiu como se pudesse morrer. Sentiu como se sua vida estivesse, pela primeira vez, completa.

Até pensou em desmaiar ali mesmo, mas segurou-se. Nada podia dar errado. Pelo menos não até o dia seguinte. Depois disso, os vulcões poderiam entrar em erupção e explodir o Havaí, Kai não ligaria.

A ideia de que o seu maior desejo iria realmente ser cumprido o alegrava tanto que chegava a assustar.

Respirou fundo outra vez, chamando a atenção de Kale. O surfista olhou-o com dúvida.

– Nervoso?

– Um pouco — admitiu, respirando mais fundo que a última vez. — O.k., muito...

Kale assentiu, compreendendo-o.

– Não se preocupa, nada de mal vai acontecer com você enquanto estiver comigo. Eu não vou deixar. — Afirmou, resoluto.

Kai, querendo ou não, sentiu aquilo. Sentia-se seguro perto de Kale, como se ele fosse o irmão que nunca teve. O surfista esticou a mão e acariciou os fios arrepiados da nuca do outro, tentando lhe passar conforto. — Sério, você não precisa se preocupar com nada além de acordar cedo, tudo bem? — Explicou quando avistou Luana retirar seu avental e dobrá-lo, vindo na direção deles. — Luana está vindo, Kai. Vou te encontrar amanhã, sem falta. — Prometeu antes de se desgrudar dele e sorrir, simpático, para um dos anjos da guarda do garoto ao seu lado. — Oi, Luana.

– Oi, Kale… Lucas… — Cumprimentou o outro também, sorrindo largamente para eles. — Kai, vamos? — Chamou-o, erguendo uma sobrancelha. Percebeu a hesitação em seu rosto, porém ele cedeu, levantando-se.

Kai despediu-se rapidamente dos dois, animado demais para prolongar-se muito em coisas desnecessárias. Queria dormir logo para acordar disposto para o próximo dia. Mal podia esperar… Seus dedos formigavam quando tocou o antebraço macio de Luana, permitindo-se ser guiado pela garota entre as mesas, podendo sentir o olhar duradouro do surfista em suas costas.

Aquilo estava acontecendo. Era real, e nada existente iria atrapalhar aquele momento.

Notas finais
Nota 1: "Longboard: São as famosas pranchas grandes, com tamanho a partir de 9 polegadas. Eram as mais usadas até a década de 70. São boas para iniciantes, sendo também usadas por profissionais, principalmente os das antigas e os experientes." Fotinho: http://i.ytimg.com/vi/2--jKvMNat0/maxresdefault.jpg Informações retiradas do site: http://www.cenasurf.com.br/tipos-de-prancha-de-surf/ Enfim, explicações dadas! Espero, de verdade, que vocês tenham curtido, eu particularmente adorei escrever este capítulo, mesmo ele sendo um pouquinho filler JASKAJSKAJSAKS Mas o próximo já irá rolar umas tensões entre Kai e Kale, só imagine-os em cima de uma única prancha, awn, lindos! Tô louca para escrever os feelings do Kai enquanto entra na água, que amor! Desejo que não tenham desistido de ler, vou ficar muito feliz se receber um review, hihi! Beijooos! :3