De Coração
3 Cicatrizes de Lego
Notas iniciais
Kai acordou cedo naquela quinta-feira. O despertador tocava em cima do criado-mudo, programado para despertar às oito da manhã. Resmungou, desgostoso por não estar acordando depois de uma hora da tarde. Remexeu-se na cama, coçando o abdome e esticando a mão para poder desligar o alarme.
Ficou parado na cama por um tempo, sonolento. Coçou os olhos, abrindo-os, não se surpreendo ao notar nenhuma diferença. Sentou-se, jogando as pernas para fora da cama, sentindo o piso amadeirado sob seus pés. Levantou-se, coçando desta vez a coxa. Como todo jovem, dormia apenas de cueca — o calor era intenso, mesmo que nestes dias de chuva estivesse apenas abafado.
Abriu a janela de seu quarto, sentindo a brisa da manhã afagar-lhe o rosto gentilmente. Bocejou, ouvindo o arrulhar dos pombos que se acomodaram na única árvore de seu prédio.
– Kai? — Ouviu a voz de sua mãe no corredor. — Kai, já acordou?
– Já, mãe! — Respondeu, andando pelo quarto em direção à porta. Tateou a madeira, encontrando a maçaneta e abrindo-a. Sorriu quando sua mãe beijou-lhe a bochecha, entrando em seu quarto.
– Óh, filho, acabei de recolher a roupa, vou deixar o cesto aqui para você arrumar no guarda-roupa — avisou, depositando o cesto cor-de-rosa ao lado da cama do filho. — Se veste e vem tomar o café porque seu pai tá fazendo suco de laranja, seu preferido. — Avisou, saindo do quarto em seguida.
Kai encostou a porta depois que sua mãe saiu. Encaminhou-se até o guarda-roupa, abrindo-o e tocando nas pilhas formadas por suas peças de roupa. Acariciou uma pilha, sentindo que era malha. Acariciou outra, e abriu um sorriso quando o algodão encontrou seus dedos. Pegou a camiseta, passando seus dedos sobre ela, sentindo-a. Percebeu um brasão no peito, mas não conseguiu distinguir o que era. Ela tinha colarinho e alguns botões. Fez uma careta — estava calor demais para colarinhos.
Dobrou-a e aconchegou-a numa outra pilha, pegando a camiseta abaixo. Era lisa, sem brasão, sem nada. Não havia colarinhos e Kai percebeu que era gola em V. Decidiu vesti-la, mais confortável. Fechou a porta do guarda-roupa e abriu a primeira gaveta, puxando a primeira bermuda que conseguiu alcançar.
Vestiu-se por completo e encaminhou-se para a cozinha, descalço. Gostava de sentir as variações de temperatura do chão, era uma outra forma de distinguir cozinha, sala e quarto. Quando a sola de seus pés tocaram um chão extremamente gélido, notou adentrar a cozinha.
– Bom-dia, filho — seu pai cumprimentou-o. Estava na pia, cortando laranjas que acabara de comprar na feira. — Gostei da sua camiseta. — Elogiou-o.
– Valeu, pai — agradeceu, tateando e acalçando uma cadeira, puxando-a e sentando-se à mesa. Sua mãe, Elizabeth, deixou um prato com torradas na frente do filho, que percebeu por conta do cheiro. — Tem requeijão?
– Tem, aqui — disse ela, guiando a mão do filho para o copo. — Kai, tô me mordendo de curiosidade, mas quem era o jovem que estava conversando contigo no portão ontem? — Indagou, contrariando toda a conversa que tivera mais cedo com seu marido sobre não indagar as amizades de seu filho. Era um direito de Kai, no fim. Mas Eliza não conseguia. Era uma verdadeira mãe coruja.
– Ah, é o Kale — respondeu, indiferente, passando o requeijão na torrada. — Um garoto vindo de Big Island que conheci na lanchonete — explicou, mordendo o alimento. — Ele é muito legal.
– Ele é surfista? — Indagou novamente, as mãos enroladas num pano de prato.
– Sim.
– Sabia! Percebi pela pele bronzeada! — Eliza disse, sorrindo, sentando-se à mesa. — Manu não participa mais das competições anuais, participa?
– Não, mãe. Desde que ele começou a trabalhar na lanchonete, não quer mais saber de surfar — disse, indiferente, mas em seu âmago queria matá-lo. Como alguém pode desistir de surfar? E Kai ali, só na vontade… — Mas Kale, eu suponho, irá participar. Tenho que conversar com ele sobre isso — disse, comendo o último pedaço de sua torrada. Pegou outra para passar o requeijão. — Ontem ele estava surfando quando eu cheguei lá, à noite. Como voltou inteiro só Deus sabe — disse, abrindo um sorriso involuntário.
– Surfar à noite? — Isaac, o pai de Kai, perguntou, surpreso. — Ele é doido, por um acaso?
– Ele tem uns parafusos meio soltos, sim — Kai respondeu, divertido. Seu pai colocou um copo com suco natural na sua frente, avisando-o. — Valeu, pai. Ah, eu vou na casa da Luana hoje, o.k.? Ela e o Manu me convidaram ontem à noite pelo facebook. — Avisou, tomando o suco em seguida.
– Daqui a pouco eu tô saindo para o trabalho, quer que eu o leve? — Sua mãe perguntou, indiferente, levantando-se e indo à geladeira pegar água.
– Eu vou aceitar, mas por pura fadiga — confessou, ouvindo as risadas de seus pais. Terminou de comer algumas torradinhas e foi escovar os dentes. Aproveitou e penteou levemente os cabelos, indo para seu quarto em seguida, pegando a bengala que estava sobre o criado-mudo e dirigindo-se para a porta de entrada.
Despediu-se de seu pai com um grito e acompanhou sua mãe pelo corredor do terceiro andar, chegando até o final e ficando esperando pacientemente o elevador.
– Então, Kai, vamos continuar aquele assunto que falávamos sábado… — Retomou, fazendo Kai bufar em desgosto. — Não faça esta cara! Faculdade é um passo importantíssimo! Você sabe que eu e seu pai iremos dar todas as coisas necessárias para que você faça o que deseja, temos dinheiro para isso — garantiu, passando as mãos pelos braços do filho. — Diga para a mãe o que você quer fazer, querido.
– Artes Visuais.
– Estou falando sério, Kai! — Sua mãe recriminou-o, achando um absurdo de tão sem graças aquelas piadinhas que Kai vivia fazendo. Deu um tapinha em seu ombro, suspirando ao ver um sorriso de satisfação no rosto de seu filho. — Kai, não estou brincando. Faculdade seria maravilhoso para você… Pessoas novas, novos horizontes… Ah, você se daria tão bem em administração, logística… — Disse, sonhadora.
– Mãe, nós já conversamos sobre isso. — Falou, entrando no elevador vazio. Sua mãe apertou o botão do térreo. — Você sabe que meu negócio é outro.
– Surfar– Eliza disse com certo deboche. — Surf, Kai? Surf?! Pelo amor, você é mais capacitado que isso. Tudo bem, concordo que este esporte é bom para passar o tempo, mas para levar a vida? Absurdo! E você, Kai, sendo cego, não irá se arriscar, de forma alguma. — Concretizou num tom que não dava espaço a objeções.
– Você não faz ideia de como me faz triste quando fala isso — Kai admitiu, sentindo o coração pesar ao ouvir tais coisas. Saiu do elevador quando ele se abriu, andando pelo piso asfaltado, seguido por sua mãe.
– Ah, meu amor, não diga isso! — Sua mãe pediu, agarrando-lhe o cotovelo. — Faço tanto por ti!
– Eu sei — Kai encerrou o assunto, não querendo parecer ingrato. — Só vamos, tá? — Pediu, sem falar mais nada. Sua mãe destravou o carro, contornando o veículo, um pouco triste pela conversa que acabara de ter. Kai abriu a porta, acomodando-se no banco do passageiro e fechando o carro em seguida juntamente com sua mãe.
– Cinto — Elizabeth disse, colocando seu próprio. Kai obedeceu-a, sem vontade de discutir naquele momento. Tateou a porta, achando o regulador do vidro, rodando-o para abaixá-lo. Sentiu um ventinho afagar-lhe o rosto e percebeu que já estavam fora do estacionamento. — Então, o que vocês pretendem fazer hoje? — Sua mãe tentou iniciar um diálogo.
– Não sei.
– Vão convidar seu amigo, Kale? — Indagou enquanto girava o volante, encaminhando-se para Poka Street, local onde ficava a casa de Luana.
– Sei lá. — Kai foi evasivo, inclinando-se e ligando o rádio. Acomodou-se ao ouvir Jason Mraz, aumentando o volume propositalmente para que sua mãe parasse de falar. Não conversaram o caminho todo, o que Kai agradeceu internamente. Elizabeth estacionou na frente do edifício, suspirando. — Tchau, mãe — Kai despediu-se, tirando o cinto e abrindo a porta do carro.
– Toma cuidado, Kai! — Eliza disse, mas a porta foi fechada com força antes que pudesse, de fato, se despedir.
Assim que o porteiro o viu, abriu sem pensar duas vezes o portão. Kai vivia ali, já eram praticamente conhecidos. O garoto puxou o portão, entrando no edifício, cumprimentando o porteiro e encaminhando-se para os elevadores.
Pediu gentilmente para que um homem ao seu lado apertasse o número “quatro” para ele — só para poupar a fadiga, é claro. Caminhou pelo corredor do quarto andar, contando os passos até chegar ao apartamento 47. Tocou a campainha, esperando pacientemente.
Luana, entre os três, era a única completamente nativa. Seus pais, avós e bisavós eram todos filipinos, mas há quem diga que sua avó, na juventude, tivera algumas aventuras com um alemão — a perversão era de família, pelo visto. Luana não era uma jovem linda de morrer e nem feia de matar; era, simplesmente falando, normal. Os cabelos eram negros como ébano, ondulados. A pele já era amorenada naturalmente, mas por causa da constante exposição ao Sol, acabou queimando-se.
Quem atendeu Kai fora Manu. Manu era um jovem incrivelmente alto, com seus belos e orgulhosos um metro e noventa e dois centímetros. Era um verdadeiro poste humano se comparado à Luana, com seus vergonhosos um e sessenta e sete. Manu era realmente intimidador, os olhos finos, dignos de um lince. O corpo era musculoso e bem trabalhado. Em sua família, várias etnias misturavam-se; seu pai era hispânico, porém sua mãe era japonesa — uma junção agradável aos olhos, já que Manu era, de fato, bem bonito. Ranzinza, mal-humorado, rude e grosso, porém bonito.
– Chegou rápido, sua mãe te trouxe? — Indagou ao ver Kai parado ali.
– Nem me fale dela, pelo amor — Kai lamuriou-se, entrando na residência de Luana. — Ela já veio de novo com aquele papo de faculdade, sobre ser importante, não sei mais o quê… Não suporto mais! Quantas vezes tenho de dizer que não quero fazer faculdade?! — Exaltou-se, jogando-se no sofá de Luana, afundando seu rosto nas almofadas. — O que eu faço, Manu?
– Não sei. — Manu respondeu, sem jeito para conselhos. — Fale com Luana quando ela sair do banho, já que não sou bom em lidar com estes problemas. Quando meus pais começaram a me indagar sobre a faculdade, saí de casa — explicou como se fosse a coisa mais simples do mundo. Espremeu os olhos, recriminando-se por dá-lo tais ideias idiotas. — Apague da sua mente o que eu acabei de dizer… Fale com Luana depois — desistiu. — Vou… Hã… Ir para a cozinha.
E, deixando Kai sozinho e imerso em pensamentos sobre tudo o que estava acontecendo, encaminhou-se para a cozinha.
***
Lucas sorriu, malévolo, quando encontrou Kale deitado de bruços na cama, o torso nu e roncando como um porco. Seus dedos coçaram… Chegou bem perto do amigo e, sem pensar duas vezes, deu-lhe um soco doído nas omoplatas, fazendo-o acordar horrorizado, aos gritos, tentando levar as mãos às costas, sentido.
Lucas acabava-se de rir, sádico e vingativo. Ainda faria mais crueldades com Kale naquele dia, o que ele lhe disse ontem à noite não passaria despercebido.
– Por que, Lucas? Por quê?! — Kale indagou, magoado e grogue, encostando as costas à parede. Dramático.
– Vou sair para comprar algumas coisas para esta semana, se você comer como um porco e acabar com tudo, juro por Deus, Kale, vou botá-lo para fora — avisou, duro, dando meia volta e saindo do quarto.
– Hum, tá bom… — Kale respondeu, bocejando e conformado, afundando a cara no travesseiro, meio sentado, meio de lado, meio tudo. — Traz para mim um doce de abóbora! — Gritou de repente quando ouviu Lucas abrir a porta.
Lucas revirou os olhos e saiu do pequeno edifício. Admitia que tinha mais sorte do que tudo, já que conseguiu arranjar um pequeno prédio em uma área urbana bastante movimentada com um aluguel não tão salgado assim, já que no Havaí, sendo um estado puramente turístico, as coisas não eram tão baratas.
Teve mais sorte ainda ao encontrar um Costco quando estava indo para casa ao sair do Aloha Coffee, aonde poderia comprar mantimentos por preços milhões de vezes mais acessíveis em uma quantidade maior. Mesmo tendo supermercados, era óbvio a preferência das pessoas pelo Costco. Em plena manhã o local estava lotado.
Não era impossível de andar, mas Lucas estava se esbarrando em muitas pessoas com carrinhos ao caminhar. Logo de cara já achou o primeiro item de sua lista mental: bolachas. Kale era um viciado em bolachas, em principal as recheadas, por isso pegou três pacotinhos, dois para o amigo (que provavelmente acabaria com eles em menos de um dia) e um para si.
Não pegou muitas coisas, apenas o essencial para a semana; arroz, feijão, macarrão, salada, tomate e alguns outros vegetais. Mesmo a contragosto, pegou o maldito nabo, coisa que odiava com todas as forças. Ajeitou os óculos e leu com atenção as informações nutricionais de um refrigerante suspeito no congelador. Pegou-o quando notou que não havia gorduras saturadas e nem trans — pelo amor, quem lia o valor nutricional em pleno século XXI?
Lucas Rodrigues, é claro.
Encaminhou-se ao caixa, pagou tudo por preço razoável e saiu de lá lotado de sacolas penduradas em seus antebraços e mãos. Não era um peso leve, mas não é como se Lucas fosse um fracote.
Bocejou, entendiado, sentindo o Sol pinicar-lhe a nuca. Deveria ter passado protetor, maldita seja sua memória. Lucas, diferente da maior parte da população havaiana, era alvo e não bronzeado. Após seu acidente, acomodou-se em casa e acabou perdendo todo o bronze que um dia já ganhara.
Suspirou ao lembrar-se disso. Não é como se ele estivesse cem por cento conformado, mas sua ficha já caíra há muito tempo. Foi andando lentamente em direção à faixa de pedestres.
– Olha, Tony, aquele moço anda engraçado! — Disse um garotinho ali perto, apontando avidamente para Lucas, com uma singela e inocente surpresa. Lucas apenas sorriu, acostumado com aquelas coisas vindas de crianças; não se sentia nem um pouco ofendido, apenas constrangido.
Virou a cabeça, olhando para outra coisa, evitando cruzar olhares com as pessoas a sua volta, que encaravam-no com curiosidade.
Mas percebeu quando um jovem agachou-se ao lado do garotinho, pegando seu dedo que ainda estava indicando Lucas e puxando-o para baixo, recriminando-o.
– Que feio da sua parte, Nicholas. As pessoas têm dificuldades, assim como você. Gostaria que os outros te apontassem e dissessem uma dificuldade sua em alto e em bom som? — Indagou, muito sério, nada feliz com o comportamento do pequenino.
O garotinho ficou encarando-o, meio sentido. Olhou para Lucas, agora envergonhado consigo mesmo. Então, por si só, aproximou-se devagarinho do míope, puxando a barra de sua bermuda, chamando-o.
Lucas olhou para baixo, vendo aquela criança perto de si.
– Desculpa, moço — pediu, realmente ressentido. Lucas sorriu, achando aquela ação muito bonitinha de sua parte.
– Tudo bem. — Respondeu, e, como prova que realmente estava tudo bem, puxou do bolso de sua calça uma balinha de chocolate que havia ganhado do caixa. Entregou-a à criança, que simplesmente pegou-a e correu de volta para o lado do jovem, abraçando-se às suas pernas.
– Como é que se fala, Nick? — O maior instigou, movendo o joelho.
– Obrigado… — Nick respondeu, escondendo-se atrás do irmão.
O maior apenas riu quase orgulhosamente, olhando para Lucas, que encarava-os, um sorriso patético no rosto. Gostava de ver aqueles laços familiares em ação, seu lado sensível e, um pouquinho fofo, se ativava. Mas não durou muito tempo. Logo o sinal fechou e Lucas começou a atravessar juntamente com várias pessoas, incluindo o garotinho e seu irmão — ao menos, foi isso que Lucas deduziu.
Aquela parte Ke’ahamoe era dividida em duas avenidas paralelas de sentidos opostos, uma indo em direção à Diamond Head e outra indo à praia. Lucas apenas atravessara junto com tanta gente a avenida de sentido praia, por isso parou mais uma vez numa saliência de cimento alto, cheio de árvores, à espera do sinal fechar para poder atravessar a segunda avenida.
Neste meio tempo, Nicholas, talvez a criança mais curiosa da face da Terra, aproximou-se novamente de Lucas sem seu irmão perceber, vendo que o moço que andava engraçado estava distraído.
Nick, tomado por toda a coragem que tinha, cutucou a cicatriz chamativa na patela de Lucas. Se surpreendeu com a textura áspera que tinha — nunca havia visto uma cicatriz deste porte, pois a única que havia visto era a de seu irmão mais velho, resultado da cirurgia que teve de fazer quando ele engoliu uma peça de Lego ainda na infância.
– Hã… — Lucas começou quando finalmente sentiu alguma coisa cutucando-lhe o joelho. — Com licença?
– Nicholas! — Seu irmão mais velho bradou com fúria mesclada de vergonha, andando a passos rápidos na direção de seu irmão.
Lucas não pôde deixar de reparar — era inevitável, no fim das contas — o quão bonito era aquele jovem. Aparentava ter a mesma idade, mas seu tipo físico era completamente diferente. Era alto, forte, os cabelos louros queimados e a pele levemente bronzeada. “É surfista, de certeza” concluiu, certeiro. Também percebeu tatuagens em seu braço esquerdo quando ele chegou bem perto, agachando-se e arrastando o irmão pelo braço.
– Não acredito no que está fazendo, Nicholas! O que acabamos de conversar?! — Indagou, duro e furioso, olhando para o irmão com repreensão. Então ele olhou para Lucas, desfazendo do olhar duro e mostrando uma face envergonhada, levantando-se. — Desculpe, meu irmão é assim com todo mundo, muito curioso, o que o torna, muitas vezes, inconveniente. Me desculpe — sua vontade era de cavar um buraco e se enfiar lá.
Nicholas não se sentiu impedido. Cutucou novamente a perna de Lucas e, desta vez, perguntou:
– Como conseguiu esta cicatriz? — E complementou, baseando-se no seu conhecimento a respeito de cicatrizes: — você se ajoelhou numa peça de Lego? — Ergueu o olhar em seguida, encarando-o repleto de inocência.
Lucas explodiu em risadinhas incontroláveis; tanto pela pergunta desfuncional de Nicholas, tanto pela careta de horror que seu irmão fizera.
– Por Deus, ignore-o, por favor — Tony, o irmão mais velho, pediu, pegando Nicholas no colo. — Chega de ser inconveniente, Nick, não sei o que está acontecendo contigo hoje. — Resmungou, extremamente envergonhado. — A vida pessoa dos outros não te-
– Caí da prancha enquanto surfava. — Lucas, quietamente, aproximou-se dos irmãos, olhando Nicholas e interrompendo, mesmo sem querer, Tony. Ambos os irmãos olharam-o, surpresos e chocados. — Caí ajoelhado em cima de um rochedo embaixo do mar. Tá aí o resultado.
– Ai! — Nick, imaginando a dor do outro, levou sua mãozinha ao joelho, fazendo uma careta. — Doeu muito?
– Muito. Tipo, muito mesmo. Um mês inteiro recebendo morfina na veia — disse, mordendo os lábios. — Não foi uma época nada fácil — riu nervosamente, parando para pensar segundos depois o porquê de estar falando aquilo a estranhos.
– Você gostava de surfar? — Nick novamente indagou, cada vez mais interessado.
– Você gosta do seu irmão? — Lucas indagou, erguendo uma sobrancelha.
Nick assentiu fervorosamente, abraçando a cabeça de Tony, talvez com medo de perdê-lo ao vê-lo cair numa rocha malvada escondida pelo mar.
– Então… — Começou, suspirando. — Este era o quanto eu amava fazer aquilo.
Lucas evitava encarar Tony. Evitava porque podia sentir seu olhar intenso, persistente e quase pesado pousado sobre si. Não gostava de encarar desconhecidos, sempre se sentia subjugado ou esquisito, como se a pessoa, em seu âmago, estivesse rindo dele. Agradeceu a todas as forças universais quando o sinal fechou.
Atravessou a última avenida, mudo, percebendo os irmãos logo ao seu lado. Quando pisou na calçada, sentiu a mão pequena de Nick apertando-lhe o ombro. Virou-se, encarando, agora, o rosto sorridente de ambos os irmãos.
– Tchau, tchau, moço! — Nick despediu-se, acenando para Lucas. — E não compre mais Lego! — Avisou, muito sério, quando seu irmão virou-se para ir embora.
Lucas voltou a rir, tentando acenar de melhor maneira possível enquanto carregava tantas sacolas. Começou a andar na direção oposta da deles, caminhando como se estivesse visto o passarinho verde.
Abriu a porta de seu apartamento enquanto assobiava, empurrando-a com a cintura, colocando as sacolas de compra no chão.
Kale, que estava sentado à mesa, conversando com Kai via celular, comendo uma pera e mexendo em seu notebook, ergueu o olhar para encarar, mais cético impossível, Lucas. O míope estava agindo como se acabasse de ser curado de todos os seus problemas.
– Meu Deus do céu, quem é você e o que fez com o rabugento Lucas?!
– Ah, Kale, menos, por favor — resmungou, sem se abalar, botando as sacolas em cima da mesa. Kale esticou a mão para fuxicar uma das sacolas, mas Lucas lhe deu um tapa doído, lançando-lhe um olhar ferino. — Já te avisei de manhã, não avisei?! Coma como três mendigos que eu te ponho para fora!
– Tenho um corpo jovem, preciso mantê-lo! — Defendeu-se com um bico.
– Corpo jovem é o cacete, isso que você tem é verme! — Grunhiu, começando a tirar as coisas da sacola e botá-las em cima da mesa. Viu quando Kale secou com olhos famintos o doce de abóbora. — Encosta um dedo neste doce, Kale… — Ameaçou, realmente assustador.
Kale começou a resmungar como uma velhinha, pegando seu celular e vendo as mensagens recebidas de Kai.
– Lucas, cê tá sabendo que vai ter uma competição de surf daqui a quatro semanas?! — Indagou completamente animado, esquecendo-se de como estaca chateado com o amigo, pegando seu celular e praticamente esfregando-o na cara de Lucas, mostrando as mensagens que recebera de Kai. Lucas ficou um pouco vesgo com aquilo. — Óh, óh! O Kai me disse via mensagens sobre isso! Ele me mandou o link e agora eu tô fazendo minha inscrição nessa bagaça! A grana é alta e é o suficiente para nos sustentarmos por, pelo menos, três meses inteiros. É SÓ GANHAR AGORA! — Rugiu de repente, assustando o amigo, que deu um pulo. — O ruim é que tem uma pequena taxa de inscrição a se pagar… — Resmungou, voltando seus olhos à tela do notebook.
– Taxa de inscrição? — Lucas perguntou, desconfiado. — Quanto é isso? — Kale não respondeu. Ficou quieto, meio tenso, os olhos pregados no home do site. — Kale? Quanto é? — Lucas pressionou-o, achando aquilo estranho.
– É uns s… — O resto ele murmurou.
– Não ouvi.
– Ses…
– Fala mais alto, Kale.
– Ah, é uns se…
Lucas suspirou, tentando manter a calma — estava, na realidade, especialmente calmo naquele dia; se fosse ontem, por exemplo, já teria gritado com o amigo há décadas.
– Cacete, fala mais alto, tá com problema na voz?!
– É SESSENTA! — Kale, novamente, berrou, explodindo por conta da tensão acumulada. Viu os olhos de Lucas se arregalarem. — Eu sei que é meio salgado, mas é por uma boa causa e, aliás, vou repor tudo ao ganhar a competição, ué! Não há com o que se preocupar! — Falou com convicção, ouvindo o celular vibrar. Sorriu amarelo para Lucas e viu a mensagem de Kai.
“Ele ficou bravo com vc?”
– Ah, quer saber? — Lucas acionou o botão mágico. — Dane-se, o dinheiro é teu. Faça o que quiser com ele, Kale. Vou para o quarto — encerrou, andando à passos lentos até o cômodo e fechando a porta atrás de si ao entrar.
Kale ainda estava cético e até mesmo pensou em ir até lá perguntar se o cérebro dele estava funcionando no Modo Lucas e não no Modo Eu Sou Legal. Mas, por via das dúvidas, sorriu largamente, pegando seu celular e ligando a mensagem de voz.
– Impressionantemente falando, não. Ainda acho que ele foi raptado por aliens e foi vítima de experiências envolvendo troca de cérebros. Tô pensando em ir lá e perguntar se ele precisa de uma mãozinha para arrumar alguns fios desorganizados — falou com a boca próxima ao celular.
– Tô ouvindo essa porra, Kale! — Lucas gritou do quarto, fazendo Kale se encolher e rir como uma criança levada que aprontou, enviando a mensagem de voz para Kai.
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