De Coração
17 O Cego, o Mudo, o Surdo e o Surfista
Notas iniciais
– Lucas, cê sabe onde estão meus óculos de sol? — Foi exatamente daquele jeito que o míope foi acordado naquela manhã de terça-feira. Gemeu, virando-se com os olhos miúdos, observando enquanto o surfista vasculhava desesperadamente por todos os cantos do quarto, bagunçando gavetas e escavando a cesta de roupa suja. — Cara, cadê essa porcaria de óculos?!
– Mano, eu te odeio muito — Lucas expressou seu discurso de ódio matinal habitual, espreguiçando-se e virando-se de lado, ignorando-o, abraçando seu travesseiro.
– Me odeie depois que você me disser onde estão meus óculos — pediu Kale, andando até o míope e chacoalhando seu ombro desnudo e suado por conta do calor noturno. — Vai, mano, pensa um pouco!
– Puta que pariu, Kale, me deixa em paz! — Lucas grunhiu, tentando afastá-lo, enfiando a cara no travesseiro. — Você já tentou procurar na porra do banheiro?! — Grunhiu, ainda sentindo a mão do surfista empurrando-o no ombro.
– Ah, é! Pera, vou ver — disse ele, correndo na direção do banheiro, sorrindo satisfeitíssimo ao encontrar seus óculos pendurados no armário. — Achei, Lucas! Valeu! — Agradeceu-o num grito, colocando-os e correndo na direção da sala, pegando as chaves e carteira. — Eu vou voltar à tarde, o.k.?
– Para aonde cê vai? — Lucas virou-se de repente, ainda grogue e mal-humorado.
A cabeça de Kale apareceu na porta, os óculos refletindo a luz que vinha da janela, contrastando com sua barba mal feita.
– Vou com o Kai encontrar os amigos dele e depois iremos no zoológico — sorriu largamente, feliz por estar vivo.
– Ah, entendi. — Lucas resmungou, virando-se para o outro lado. — Boa sorte em tentar não se manter com uma cara de paisagem enquanto evita pensar em beijá-lo — desejou de forma sincera, mas acabou rindo quando Kale lhe lançou uma toalha de rosto.
– Isso não vai acontecer, Lucas! Eu tô de boa, já disse — reforçou a ideia que sustentava há dias, sumindo na porta. — Até mais tarde!
Lucas apenas inspirou e se virou, forçando-se a dormir novamente.
***
Kale estava mais bonito que o normal. E isso só era possível porque estava terrivelmente feliz. Como se era de costume, comprou um picolé de maracujá no sorveteiro em frente ao Fort Ruger Park, os fones latejando com Scar Tissue; vestia uma regata verde água cavada mostrando parte de seu abdômen e uma bermuda camuflada. Os óculos lhe davam uma aparência terrivelmente madura.
Era impossível não olhá-lo.
Mal era nove da manhã e o Sol estava implacável, castigando todos aqueles que não haviam passado protetor. Na rua se via famílias, turistas com roupas floridas e algumas dançarinas de hula, as placas multicoloridas indicando avenidas e o nome de praias.
O mar era como uma tela pintada. As ondas dançavam conforme o vento as conduzia, quebrando na costa de forma suave. Via-se alguns surfistas, criancinhas com seus pais, moças divertindo-se e casais sentados na areia, todos eles contemplando a grandeza do mar.
Kale mordeu o último pedaço de seu picolé no instante em que chegou na frente do prédio de Kai, apertando o interfone. Retirou um dos fones, tomando um susto quando o portão se abriu de repente. Olhou para o porteiro, que acenou, indicando para ele entrar. Cumprimentou-o com um ‘positivo’, trancando o portão atrás de si e dando uma corridinha para entrar no prédio.
Kale compreendeu o porquê de Kai morar ali. Os botões tinham braile e uma voz robótica anunciava o número apertado. No corredor havia um trajeto amarelo para cegos, alcançando cada porta, independentemente se as pessoas eram deficientes visuais ou não.
Apertou a campainha do apartamento trinta e dois, esperando pacientemente, guardando os fones nos bolsos. Só levantou a cabeça quando abriram a porta de repente, surpreendendo-o.
Deu de cara com uma senhora baixa, de cabelos acastanhados e rosto surpreso.
– Hã… Bom dia, senhora Mason? — Desajustado, cumprimentou-a da melhor forma possível. Quando a senhora inclinou levemente a cabeça, ele continuou: — eu sou o Kale, amigo do seu filho.
– AH! - Ela exclamou de repente, como se um lampejo de ideias lhe atingisse. — Mas é claro! Entre, por favor… — Convidou-o, abrindo um grande espaço para que o surfista pudesse passar. — Estou muito surpresa, Kale. Eu não sabia que você era tão… — Procurou palavras para defini-lo. — Alto – decidiu-se, vendo que sua cabeça batia nos ombros do garoto. — Vocês jovens hoje em dia, cada vez mais altos e bonitos!
Elizabeth estava encantada. Não conseguia parar de olhá-lo, admirada com tudo no surfista — desde a ideia dele ser amigo do seu querido Kai até o fato dele ser realmente bonito e educado. Para ela, saber que Kai estava andando com gente que não iria levá-lo ‘para o mau caminho’ era mais do que gratificante.
Guiou Kale à base de tapinhas afetuosos no bíceps até a cozinha, empurrando-o levemente para onde Isaac, pai de Kai, se encontrava, tomando suco natural de maracujá e comendo algumas torradas.
– Olhe como ele é lindo! – Disse sem som, mantendo-se atrás de Kale, apontando para o surfista enquanto Isaac se levantava, encarando-a enquanto o cumprimentava.
Revirou os olhos, rindo para Kale.
– Bom dia, Kale, é um prazer finalmente conhecê-lo — disse num tom formal, apertando a mão do surfista. — Aceita algo para comer?
– Bom dia, senhor Mason. E, ah, não, obrigado — recusou de forma educada, retirando os óculos e enfiando-os na gola da regata.
Ficou parado no meio da cozinha, desajeitado, evitando encarar a mãe de Kai, que o fitava tão avidamente que ele pensou que alguma parte de seu rosto iria derreter e cair no chão.
– Eliza, por que você não faz o favor de avisar ao Kai que o amigo dele está aqui? — Isaac propôs, abrindo o jornal calmamente, percebendo o desconforto do garoto.
– Ah, claro, é para já — disse ela, prática, sem desgrudar os olhos do surfista. Elizabeth deu uma leve corridinha pelo corredor, ainda afetada.
– Ela é meio grudenta, mas quando a conhece melhor, descobre que ela é uma boa pessoa — Isaac gracejou, sorrindo para o surfista.
– Eu não posso falar nada, também sou um grude — riu, apontando para o local em que ela estava há alguns instantes. — E eu provavelmente seria um grude ao quadrado se fosse pai de uma pessoa tão especial quanto o Kai — deu de ombros, enfiando ambas as mãos nos bolsos da bermuda.
Isaac permaneceu encarando-o, inexpressivo. Somente ergueu uma sobrancelha quando Kai apareceu na cozinha, a bengala em mãos.
– Eu só quero ouvir essa espécie de discurso no meu enterro, obrigado — começou o dia bem, tateando o balcão à procura de um paninho na qual pudesse polir o metal de sua bengala. — Aí nesse dia cês podem fazer quantas dedicações quiserem, e é para chorar, viu?
Kale começou a rir, puxando o garoto para um abraço afetuoso e apertado, praticamente espremendo-o.
– Eu tô levando minha máquina para tirar foto até das plantas lá no zoológico, então prepare-se para ter praticamente um book teu na minha máquina — gracejou, desapertando-o um pouquinho.
– Meus quinze anos já passaram faz tempo, Kale — riu, dobrando sua bengala e guardando-a no bolso.
– Faz muito bem, Kale! Tire muitas fotos dele mesmo, e me mande todas! — Elizabeth também entrou na brincadeira, mesmo que tivesse um forte fundo de verdade. — Ele odeia foto – ela moveu os lábios, apontando para Kai.
Kale sorriu, mantendo o braço ao redor do garoto, disposto a fotografar cada cantinho daquele lugar.
– Vocês vão de ônibus? — Isaac perguntou depois de alguns segundos de conversa jogada fora entre Kale e Elizabeth, chamando a atenção de todos.
– Até termos asas, sim — Kai respondeu, sem papas na língua.
Isaac levantou-se, ignorando o humor ácido do filho, tirando uma chave do bolso.
– Kale, você tem habilitação? — Perguntou, mostrando a chave a ele.
Impressionantemente, a resposta era positiva. Kale retirou de dentro do bolso sua carteira de motorista, entregando-a a Isaac, que sorriu ao vê-la por conta da foto.
– Quantos anos você tinha aqui?
– Dezesseis — Kale respondeu com uma careta, às vezes sentindo ânsias de rasgar o documento só por conta da foto. — Eu tô parecendo uma marmota nessa foto — grunhiu, desgostoso, guardando a habilitação na carteira.
– Pois bem — Isaac lhe entregou a chave, parecendo muito sério. — Estou lhe confiando meu carro, Kale. Espero que ele seja devolvido intacto.
– Pode deixar, senhor Mason. Aliás, valeu. — Agradeceu-o, levando um susto quando Eliza lhe puxou para beijar-lhe a bochecha. — Até mais, dona Eliza — riu, andando atrás de Kai, que escapuliu antes que a mãe o agarrasse e o enchesse de carinhos desnecessários e, muitas vezes, vergonhosos.
Os dois desceram conversando calmamente a respeito de tudo, Kai agarrando o bíceps de Kale quando pisaram no estacionamento. O surfista apertou o botão para destravar o carro, ouvindo o som típico e vendo os faróis piscarem num canto do estacionamento.
– O seu pai é muito bacana — comentou enquanto abria o carro preto, pensando em ajudar o garoto, mas travando ao vê-lo abrir a porta do carro sem dificuldades, entrando e sentando no banco do passageiro antes mesmo que pudesse pronunciar um ‘a’.
– Ele é muito legal, mesmo — Kai concordou, fechando a porta com um solavanco, sentindo o peso de Kale balançar o carro, piscando por instinto quando o surfista fechou a porta com tranco forte. — O rei da sutileza, realmente — murmurou, rindo quando Kale lhe apertou as costelas.
– Eu nunca me daria a chave de carro algum — sorriu, ligando o automóvel, ouvindo o motor e sentindo-o tremer. Colocou novamente os óculos de sol, sabendo que a luminosidade lá fora estaria catastrófica.
– Realmente… — Kai concordou, levando um susto quando o carro foi para trás num solavanco brusco, agarrando-se ao vidro para não voar para frente. — Por Deus, Kale, eu estou torcendo no meu âmago que você dirija tão bem quanto surfa… — Desejou, pressionando os olhos, sentindo o carro mover-se mais lentamente, obviamente para fora do estacionamento.
– Ah nah, eu surfo melhor, acredite — propositalmente, Kale decidiu apavorá-lo: — sabe há quanto tempo eu não dirijo, Kai? Dois anos — falou, tentando omitir qualquer coisa que denunciasse sua mentira.
– Puta que pariu, vamos de ônibus! — Kai realmente se desesperou, tocando na trava da porta.
– Isso, gênio, abre mesmo a porta enquanto estamos em movimento e quando você está sem o cinto. Vamos ver o que acontece, nunca tentei — Kale tentou abafar a risada, uma mão firme no volante enquanto a outra serpenteava por cima dos ombros de Kai, alcançando o cinto e o puxando, fechando-o para protegê-lo.
Os portões do edifício se abriram, permitindo a saída do carro para a rua. Quando Kale acelerou um pouco, as mãos firmes no volante, notou o quão nervoso Kai estava, obviamente crédulo no que havia contado. Sorriu, abrindo seu vidro inteiro, aliviado por estar recebendo rajadas refrescantes de vento.
– Relaxa, Kai. Só tava brincando, tá? — Admitiu, encolhendo os ombros quando o garoto lhe deu um soco verdadeiramente doído nos deltoides, fazendo-o exclamar um grunhido dolorido. — Ah, é assim, então? — Sua mão proclamou vingança, infiltrando-se na roupa do mais novo, lhe fazendo cosquinhas horríveis e torturantes.
– Não, porra, Kale, sai! Sai! – Kai se debatia no banco, tentando fugir dos toques dolorosamente bons, gargalhando, mas chorando por dentro. Kale apertava sua pele branca da cintura, deslizando os dedos para as costelas à medida em que ele se esquivava, possibilitando sua subida até perto das axilas. — Pelo amor de Deus, piedade! – Pediu, seus movimentos limitados por conta do cinto, sofrendo horrores na mão do surfista.
Kale ria como um garoto travesso de nove anos que acabara de fazer traquinagens, não desgrudando os olhos da estrada, a mão esquerda firme e forte no volante, mas não parando nem um segundo de lhe fazer cócegas com a mão direita, sentindo certo prazer sádico ao vê-lo sofrendo em cócegas eternas.
– Pelo amor de Deus, eu tô morrendo! — Kai estava inclinado no banco, os olhos lacrimejados, as mãos tentando proteger seu corpo inutilmente, já desistido.
Kale afastou-se com uma gargalhada malévola, batucando os dedos no volante como se quase não tivesse matado o pobrezinho há cinco segundos.
– Já tá recuperado? — Perguntou com um sorriso enorme, seguindo caminho até a Rota Diamond Head, que ficava a menos de um quilômetro. — Vamos, nosso passeio mal começou, preciso de você no seu cem por cento.
– É, disse o cara que acabou de me torturar — resmungou, nada nervoso de verdade. — E, pelo amor de Deus, esse carro tá com um ar fúnebre, liga aí o rádio — pediu com certa urgência, abrindo apenas dois centímetros do seu vidro, o calor sufocante castigando-o.
Kale acatou ao pedido quase que instantaneamente, ligando o rádio. Ergueu uma sobrancelha quando o som de um violino preencheu o automóvel, mergulhando-os numa melodia, que, em seus pontos de vistas, era piegas e sem graça.
– Eu quero que essa música toque no meu enterro, porque vai ser o único lugar onde eu vou estar com saco para ouvi-la — Kai resmungou, esticando a mão e começando a tatear o painel, à procura do rádio. Quando encontrou-o, começou a mudar de estação, motivado a encontrar alguma música que prestasse. Parou quando ouviu Wonderwall na metade, relaxando no banco. — Cara, eu adoro essa música. Por que diabos o meu pai não tem um gosto… Normal?
– Todos os pais têm gostos suspeitos para música. O meu, senhor, só gosta daquelas músicas que falam sobre como é bom fumar maconha e que você tem que ser good vibes. Porra, até eu que sou surfista e sou de humanas tenho um gosto menos suspeito para música — riu, balançando a cabeça, ficando cada vez mais animado à medida em que a rota Diamond Head ia se aproximando.
Diziam que aquela era uma das vistas mais lindas de Honolulu.
Kai riu também, abrindo mais o vidro por conta do calor, que já estava fervendo suas pernas.
– O seus pais também são surfistas? — Perguntou o garoto, sentindo a brisa violenta atingi-lo gostosamente, os fios castanhos agitados.
– Eram — Kale respondeu-o com um sorriso. — O meu velho já está aposentado e a minha mãe… Bom — ele riu, dando de ombros. — Ela meio que tá aposentada também.
– E ela tem o mesmo gosto para música? — Kai coçou a bochecha ao sentir o sol queimando-o.
Kale ajeitou-se no banco, o assunto tocado lhe fazendo sorrir de nervoso.
– Hm, pior que eu nem sei — deu de ombros, vago, sentindo e vendo a estrada descendo com todos aqueles carros acompanhando-o.
– Você não sabe o gosto musical da sua mãe? Insensível – gracejou, também sentindo a estrada descendo e fazendo uma curva.
Era incrível.
O mar estava do lado esquerdo, perturbado e maravilhoso, enquanto o vulcão extinto, colossal e inclinado para o mar, estava do lado direito. Diamond Head protegia todos os carros que faziam aquela curva do sol, projetando uma sombra que alcançava o mar, devastador. Kale estava boquiaberto, encarando aquilo tudo com um semblante perdido e maravilhado, a sensação da descida com a vista lhe causando um formigamento agradável no estômago.
– Meu pai também fica quieto quando viramos na Rota — Kai murmurou, acariciando a barra de sua bermuda. — Ele diz que a vista é indescritível. E deve ser, mesmo. Porque, só pelo aroma do mar e das árvores dá para perceber como é recheado de detalhes. E também tem o fato de como tudo parece mergulhar num silêncio absoluto, como se todos os passantes por aqui ficassem admirados demais para pronunciar alguma coisa. — Contou o seu ponto de vista, quieto no banco.
Kale assentiu, batucando os dedos no volante quando Stand by me começou a tocar. Voltando à realidade e à pergunta que Kai lhe fizera, o surfista inspirou baixinho, relaxando os ombros.
– Eu não sou insensível, tá? — Defendeu-se, dando em Kai uma cotovelada indolor. — É que eu nunca a conheci, para início de conversa, então fica meio difícil saber qual era o gosto musical dela.
Kai juntou as sobrancelhas, confuso.
– O quê? Como assim, você nunca a conheceu?
Kale sorriu, achando-o engraçadinho por não perceber. Decidiu ser direto, batucando os dedos no volante.
– Minha mãe se suicidou quando eu tinha três meses, Kai. Eu não me lembro de absolutamente nada relacionado a ela. Tudo o que eu sei, na realidade, é que ela era foda. – Resumiu tudo o que pensava acerca de sua falecida mãe, não guardando nenhum rancor dela.
Kai estava em choque. Tentou proferir algo, mas calou-se, inapto. Apertou bem forte os lábios, sentindo-os secos.
– D-desculpa te chamar de insensível — tentou, morto de vergonha. — É-é sério, eu não fazia ideia… S-se eu soubesse, nunca que eu-
– Tá tudo bem — Kale espremeu sua mão contra a dele, apertando-a bem forte, mostrando que, de fato, estava tudo bem. — Eu não consigo me sentir mal, triste ou afetado por alguém que eu nunca cheguei a criar laços, Kai. Minha mãe é como… Hm, como eu posso dizer? — Procurou inspiração, olhando para o mar. — Ela é como um talismã da sorte, se eu assim posso dizer. Porque eu tenho muito dela, mesmo sem conhecê-la. Eu não consigo amá-la, e ela sabe que não é proposital, da mesma forma em que eu não consigo odiá-la.
– Qual era o nome dela? — Kai perguntou baixinho, apertando a mão gélida do surfista com força.
– Mahina. Cara, ela era muito foda — Kale começou a rir, lembrando-se das histórias que seu pai o contara, erguendo as sobrancelhas com certo entusiasmo. — Mas, desculpa, acho que você não tá nem um pouco interessado, né? — O surfista olhou-o de esguelha, sentindo-se meio idiota por despejar sua vida pessoal em um alguém que provavelmente não queria saber.
– Cê tá de brincadeira, né? Me conta logo! — Puxou a mão do surfista com certa urgência, virando-se no banco para ouvi-lo melhor.
Kale apenas anuiu em concordância, não se importando em contar aquilo ao garoto.
– Bom, para início de conversa, meus pais se conheceram quando tinham vinte e cinco. O meu pai tinha acabado de ganhar um campeonato estadual na Austrália, o que levou olheiros a o chamarem para participar de uma competição mais séria em North Shore, aqui em Honolulu. Ele chegou aqui duas semanas antes dessa competição começar, e acabou por ficar hospedado numa casinha muito simples na praia, caindo aos pedaços, mas ainda assim útil. No dia seguinte à sua chegada, ele acordou antes mesmo do sol nascer para treinar para a competição, sendo, em seu ponto de vista, um dos primeiros a entrar no mar. Ele estava errado. – Se interrompeu para rir, divertindo-se muito com a história. — Assim que ele conseguiu achar uma onda boa, se preparando para se erguer na prancha, uma maldita de uma mulher passou como um raio na frente dele e a roubou na cara dura. Ele decidiu não criar intriguinhas por causa disso, já que precisava se preparar psicologicamente para a competição e aceitar que adversários prepotentes iriam mesmo aparecer, então ele somente ignorou e continuou a procurar alguma coisa na qual pudesse surfar.
“Mas, infelizmente, todo o plano dele foi por, literalmente falando, água abaixo, já que essa mesma maldita mulher aparecia todos os dias, no mesmo horário, por duas malditas semanas, roubando a maioria das ondas dele. Ele obviamente ficava puto, e até mesmo chegou a xingá-la uma vez, mas a única coisa que ela sempre fazia era esboçar um sorriso torto e extremamente arrogante, ignorando-o completamente. No bendito dia da competição, lá estava ela: implacável, o sorriso torto e arrogante pendurado no rosto como se ela fosse a rainha daquela merda toda, os cabelos cor de ébano presos num coque firme no alto da cabeça com uma margarida de adorno. Ela simplesmente destruiu na competição, ganhando em primeiro lugar fácil, fácil. E, só de sacanagem porque ela já sabia que havia ganho, ela roubou, novamente, uma onda do meu pai. Mas é aí que ele ficou realmente emputecido, já que além de ter milhares de ondas roubadas, acabou ficando em quinto lugar na classificação geral.”
“Ela era irritantemente melhor em tudo. Ela sabia nadar melhor, as técnicas dela eram melhores, o equilíbrio dela era perfeito, a posição dos pés, das mãos, do tronco… Tudo era irritante e absurdamente perfeito. Ela era surreal de tão perfeita, e o pior é que ela sabia disso. Meses vão, meses vêm, a casinha onde meu pai estava hospedado foi simplesmente destruída por conta de uma tempestade que atingiu a costa de North Shore. Agora ele estava desiludido, pobre, desabrigado e sozinho. A única coisa que ele possuía era sua velha e boa prancha, que sobreviveu firmemente à tempestade. Pois bem, para resfriar a cabeça, meu velho decidiu ir surfar um pouco, apenas para botar os pensamentos no lugar e pensar acerca do que estava acontecendo. E exatamente nessa hora, a rainha daquela porra toda apareceu. Diferentemente de todas as outras vezes, ela estava com o cabelo cor de ébano solto, a ponta dos fios mergulhadas na água, como se ela fosse uma espécie de sereia, o rosto plácido sem o sorriso arrogante e prepotente lhe dando um ar, surpreendentemente falando, angelical.”
– Ele se apaixonou por ela? — Kai sussurrou, ansioso demais para guardar a questão dentro de si.
– Não, mas só porque o meu pai não acredita em amor à primeira vista.
– Nem eu — Kai rebateu com um sorriso irônico de quem adorava brincar.
Kale revirou os olhos, ignorando aquele comentário.
– Enfim, continuando… Aquela figura estranha apenas o olhou com certa surpresa, apiedada por conta do rosto miserável do meu velho, deixando de lado sua carranca habitual e o oferendo uma cama para dormir, pelo menos até ele encontrar algum lugar. Mas foi praticamente impossível o meu pai arranjar algum lugar, já que estava pobre e não tinha um currículo bom o suficiente para conseguir um emprego, então ele acabou por ficar seis meses nos aposentos da senhorita complexada, que ele acabou por descobrir mais tarde que era muito mais simpática e gente fina do que ele pensava. Quando finalmente ele conseguiu arranjar um emprego e melhorar sua situação financeira para sair da casa da Mahina, aconteceu o inesperado: ela pediu para que ele ficasse.
– E ele foi inteligente e ficou, né? — Kai se empertigou, ansioso por saber mais.
– Mas é claro — Kale riu, girando o volante, virando na Avenida Paki, chegando perto de seu destino. — Os dois se envolveram de um jeito que nunca pensaram que pudessem ficar envolvidos. Foi quando minha mãe teve a brilhante ideia de deixar North Shore, já que as coisas eram caras demais, e se acomodar em Big Island. Dito e feito, os dois se mudaram para Hilo, a capital, onde começaram a viver de forma mais simples, mas extremamente mais feliz. Depois de cinco meses acomodados lá, minha mãe ficou grávida, e foi onde tudo desandou, Kai. Toda aquela… Fachada, pose arrogante, aqueles sorrisos prepotentes, tudo aquilo era para camuflar a doença dela. Minha mãe tinha Transtorno Bipolar Tipo I, Kai. Ela não queria que meu pai soubesse, mas, no instante em que ela ficou grávida, a depressão veio com tudo. Ela não saía da cama, chorava o dia inteiro, não dormia, não comia, tinha uma culpa excessiva sobre sua situação e sobre a minha situação, não conseguia formular ideias e tinha um cansaço enorme. E é exatamente por isso que eu a acho badass, porque, apesar de tudo, ela me teve sem cesária, enfrentando cada gotinha de suor.
O surfista, então, estacionou o carro na frente do centro, encarando o rosto expectante de Kai.
– Eu tinha três meses quando meu pai saiu comigo para o mercado, deixando-a em casa. Quando ele voltou, ela não estava mais lá. A casa estava vazia, com nenhum sinal dela e nem de sua prancha. Ele procurou, até que encontrou um bilhete no meu berço. Havia escrito apenas um: “Me desculpe, eu amo vocês” e um número composto por quatro algarismos. Eu nem preciso dizer que o meu pai ficou louco atrás dela, preciso? Ele me deixou com a vizinha e foi atrás dela no único lugar onde ele sabia que ela estaria: no mar. Mas, quando ele chegou na costa, a única coisa que ele encontrou foi a prancha dela enfiada na areia e suas roupas boiando perto da costa. O corpo dela foi encontrado duas semanas depois, a três quilômetros de distância do local onde ela havia se afogado propositalmente. O pior não foi encontrá-la morta, afogada, desidratada e queimada, e sim encontrá-la sorrindo, Kai. Ela havia retornado ao local que sempre pertenceu. Depois de alguns dias, meu pai descobriu que aqueles números eram a senha de sua conta bancária, conta na qual ela vinha depositando dinheiro para mim há bastante tempo. É por isso que eu a acho foda.
Kai ficou quieto no banco, o impacto daquela informação sendo grande demais. Nunca, nem em um bilhão de anos, iria adivinhar que Kale tinha aquela carga toda atrás de si. Inspirou fundo, sentindo quando ele lhe puxou pela mão, acordando-o de seus devaneios.
– Mas, e aí? Chegamos. Cê vai entrar, chamar por seus amigos…? Decide aí.
– Hã… Claro, vamos lá — disse no automático, sentindo-se zonzo por conta da toda aquela informação. Destravou o cinto, abrindo a porta do carro e saindo sem dificuldades, fechando o carro com um solavanco forte, sendo imitado por Kale. A diferença é que o surfista fez o carro inteiro tremular com a pancada que deu na porta. — Isso, derruba mesmo a porta do carro… — Resmungou apenas para provocá-lo.
Kale deu a volta do veículo, passando seu braço sobre os ombros do garoto, começando a arrastá-lo para perto do centro. O local era grande, cheio de pessoas andando calmamente de um lado para o outro, muita gente com deficiência, como cadeirantes subindo rampas, pacientes com Síndrome de Down brincando de cubo mágico sob algumas árvores, surdos conversando por libras entre si e cegos batendo suas bengalas no caminho amarelo que guiava para todos os cantos. Kale observava tudo com muita curiosidade, quase derretendo ao ver os cãezinhos guias brincando enquanto seus donos conversavam calmamente, olhando para Kai com certa amargura.
– Por que você não tem um cãozinho guia fofinho? — Disse num tom acusatório, puxando-o para andarem mais rápido, vendo digitar em seu aparelho celular.
– Porque são caros, difíceis de cuidar e de se achar, e porque tem gente que precisa mais deles que eu. — Resumiu toda a situação, recebendo uma resposta de Alex, dizendo onde eles estariam os esperando. — Eles estão no refeitório.
– Quem? Os cachorrinhos? — Kale juntou as sobrancelhas, confuso por um instante, rindo quando Kai revirou os olhos, expressando uma careta de “sério?”.
– Claro, Kale, os cachorrinhos estão no refeitório, comendo bolo e fazendo uma festa.
– É exatamente assim que eu imagino o Paraíso. — Gracejou, cutucand-o, que riu pela besteira massiva do surfista.
***
Kale, pela primeira vez em toda a sua vida, sentiu-se deslocado. Sempre foi bom em se enturmar, mas, naquele dia, foi botado totalmente de escanteio, mexendo em seu celular enquanto jogava joguinhos de encaixar bloquinhos, bem no estilo Tetris.
Os amigos de Kai eram legais, ele não podia negar. Alexander era baixinho, pálido, loiro e com olhos escuros e sombrios, sendo impossível distinguir sua pupila da íris. Era bem magricelo e vestia roupas caras com um perfume enjoativo, os dedos finos fazendo gestos. Já Derek era o oposto; era alto, os olhos claros, a pele morena, os fios castanhos escuros muito provavelmente queimados pelo sol, um pouco menos musculoso que o surfista, muito quieto e possuidor de um estilo desleixado e quase maloqueiro.
Jogado num sofá circular em volta de uma mesa, Kale não podia deixar de notar que todos que passavam por eles miravam em Derek e, surpreendentemente, nele. Algumas garotas passavam aos cochichos, outras se cutucavam e algumas só encaravam descaradamente, como se duvidassem no que seus olhos viam.
O surfista estava sentado ao lado de Kai, praticamente abraçado a ele, muito concentrado em seu joguinho. Foi quando sentiu-o se mover ao seu lado, tocando em seu braço, como se estivesse chamando-o.
– Hm? — Respondeu, sem tirar os olhos da tela de seu celular.
– O Alex está perguntando quando é a segunda parte da competição. — Explicou, o rosto inexpressivo.
– Neste sábado, eu acho. Ou domingo. Sei lá, quem sabe é o Lucas — deu de ombros, desleixado, nada preocupado com a situação, e sim se aquela pecinha de três bloquinhos poderia se encaixar em algum canto. — Puta que pariu, amiga, cê tá pior que eu na vida — resmungou para si mesmo, vendo o “Game Over” jogado em sua cara quando não teve espaço para encaixar a pecinha.
– Você não tá nem um pouco preocupado, né? — Kai decidiu puxar assunto com Kale, que manteve-se quieto há bastante tempo.
– Nops – Kale respondeu-o vagamente, apertando o botão “try again” para tentar ultrapassar seu recorde. Viu quando Alex começou a digitar loucamente, e em poucos segundos uma nova mensagem chegou a Kai. Ouviu a voz robótica a lendo:
“Ele não se preocupa em perder a primeira colocação?”.
– Não, ele não se preocupa — bobo, Kale gracejou, sorrindo para Alex, que pareceu congelar por uns segundos, como se estivesse extremamente surpreso.
Kai sorriu, pronto para dizer alguma coisa, e, de fato iria dizer alguma coisa se uma voz feminina não o interrompesse.
– Ai, meu Deus, espera, é o Kale, do noticiário?! — Uma jovem que acompanhava um senhor cadeirante parou repentinamente de andar, encarando o surfista com tremenda admiração. — Eu não acredito!
O surfista sorriu, claramente feliz pela ‘bajulação’. Não gostava quando as pessoas ficavam em cima dele, mas adorava esses tipos de ‘ataques surpresas’, com gente brotando de todos os cantos, reconhecendo-o.
– Quanta gente assiste esse noticiário? Tô começando a ficar preocupado… — Brincou, guardando o celular e pulando o sofá, indo de encontro à moça, que pediu gentilmente por um abraço. Kale obviamente a envolveu com os braços, simpático e afetuoso, ouvindo dela gritinhos de animação.
– Praticamente a Honolulu inteira assiste! — Ela sorriu, tirando do bolso seu celular. — Você poderia tirar uma foto comigo e com o meu vô? Ele também era surfista!
– Sério?! Caraca, que legal — Kale obviamente estava animado com a situação inteira, estendendo a mão ao senhor na cadeira de rodas, que olhou-o fragilmente antes de corresponder ao toque, encarando-o quando o surfista se agachou ao seu lado, sorrindo, pronto para a fotografia.
– Muito obrigada! — A moça o agradeceu após tirar a foto, ainda sorridente por encontrá-lo ali. — Você também tem parentes aqui? — Perguntou, curiosa e querendo manter o máximo de contato possível.
– Ah, não, eu vim acompanhar um amigo — explicou-se, enfiando as mãos nos bolsos, olhando de relance para Kai. Surpreendeu-se quando deu de cara com Derek, que fitava-o incessante e intensamente, como se quisesse ler sua alma.
E, de fato, Derek tentava decifrá-lo. Estava meio que óbvio para ele que o surfista gostava romanticamente de Kai (só os olhares que ele lançava ao garoto explicitavam aquilo), mas ao mesmo tempo não deixava que aquele sentimento se apoderasse dele, talvez com medo de ser rejeitado pelo garoto.
Olhou para Kai, observando quando ele acionou sua bengala, talvez incomodado com algo.
“O que ele tem?” perguntou por meio de libras a Alex, que deu de ombros, também confuso. O loirinho, então, começou a digitar, perguntando a ele se estava bem.
Kai não respondeu. Mantinha-se sério, o rosto virado estrategicamente para ouvir melhor a conversa de Kale — o que era ridículo, já que nunca foi enxerido. O que lhe interessava as conversas que Kale tinha? E daí se ele estava conversando com uma moça que possivelmente estaria interessada nele? Aquilo não era o seu problema.
Nada daquilo era o seu problema, ele tinha certeza. Seu lado racional dizia que as coisas que aconteciam com Kale não lhe diziam respeito. Que ele não deveria se importar nem um pouco com o quer que aconteça com o surfista, independentemente de tudo.
Se Kale gostava dele, isso não era problema seu, tecnicamente. Os sentimentos que o surfista possuía não interessavam a ninguém exceto ele mesmo, correto?
Então, por que demônios o coração de Kai estava tão apertado naquele instante? Por que sentia que a qualquer momento aquela mulher iria chamá-lo para sair com ela, e ele iria deixá-lo ‘sozinho’ ali?
Aliás, aquela não era a maior questão a ser discutida. Por que diabos se importava?! Ele não queria de jeito nenhum que Kale o deixasse naquele momento para ir seja lá para onde for com aquela moça, porque somente a ideia o deixava terrivelmente perturbado. Machucava.
Machucava muito, na realidade. E machucava ainda mais perceber que ele simplesmente não tinha explicação para aquela dor ilógica; era uma dor irracional que parecia cutucar seu coração com alfinetes, enfiando-os lentamente, entupindo suas artérias.
Sim, era doído, sufocante e inexplicável.
Apertou sua bengala, mordendo os lábios, o coração ainda recheado daquela dor irracional. Levantou-se de supetão, assustando Alex e Derek, que estavam observando-o por todo aquele tempo. Com a ajuda de sua bengala, guiou-se até onde o timbre rouco de Kale emanava, chegando perto o suficiente para agarrá-lo no cotovelo.
– Kale! — Exclamou de repente, afoito, segurando a bengala com força desnecessária.
– Que foi? — O surfista ergueu as sobrancelhas, assustado e surpreso, mirando Derek e Alex, que deram de ombros, como se também não soubessem o que estava acontecendo.
A moça, que já havia se apresentado como sendo Rebecca, também se assustou, olhando para o garoto com curiosidade.
– Vamos para o zoológico — aquilo não soou nada como um pedido. Na realidade, soou como uma ordem desesperada, como se quisesse retirá-lo dali imediatamente.
Kale olhou-o atordoado, sem saber como prosseguir. Queria apresentá-lo a sua mais nova amiga, Becca, mas perdeu-se na palavra ‘zoológico’. Olhou para a garota, sorrindo e começando a andar, afastando-se suavemente.
– Eu vou indo, Becca, mas mais tarde a gente se fala, o.k.? — Despediu-se brevemente, continuando sendo puxado por Kai.
Derek, percebendo a estranha movimentação, também se levantou, puxando consigo Alex, que, meio atordoado e perdido, começou a digitar para Kai, sendo puxado pelo moreno. Derek tentava acompanhar as passadas rápidas de Kai, que guiava-se para fora do estabelecimento por sua bengala.
– Kai, você tá bem? — Kale perguntou, realmente preocupado, observando-o enquanto ele se mantinha reto enquanto andava, caminhando corretamente para fora dali. — Cê tá meio pálido…
– Eu tô bem — mentiu, tentando camuflar a confusão que sentia naquele instante, que era realmente muita. Ignorou a mensagem de Alex, continuando andando como se nada tivesse acontecido.
Mas todo aquele estupor repentino parou no exato instante em que os quatro pararam em frente ao zoológico. Kale era, obviamente, o mais animado de todos. No momento em que eles pisaram na calçada do local, ele retirou sua personalidade de surfista e vestiu uma face de garotinho animado de nove anos, tirando de sua carteira enquanto eles andavam até a pequena fila uma nota de vinte dólares, colocando os óculos de sol e puxando conversa com os garotos, já que seu nível de animação passou de quatro negativos para cem pulsantes.
– Mas, e aí, como vocês se conheceram? — Perguntou para Alex e Derek, que estavam atrás dele na fila, lado a lado. Kai abafou uma risadinha, cutucando-o com a bengala. — Eu já disse para você tirar essa arma mortal de perto de mim!
– Você sabe libras, Kale? — Kai ignorou-o, curioso com a resposta.
– Eu sei ‘falar’ pênis em libras, serve? — Gracejou, mas, no fim das contas, era verdade. Kale ergueu a mão direita, esticando todos os seus dedos, como se estivesse pronto para rezar. Então, tocou apenas com o polegar seu queixo, nivelando seu dedo médio com o nariz. Sorriu quando Alex e Derek riram. — Viu, eu disse que sabia!
– Um poliglota, realmente — Kai gracejou, rindo alto quando Kale contornou seu pescoço com o braço, apertando-o num abraço sufocante, porém nada dolorido. O surfista fechou o punho e, com os ossinhos dos dedos, bagunçou completamente os fios curtos de Kai, rindo ao vê-lo se contorcendo e tentando escapar de seu braço de ferro, sem sucesso, felizmente.
Alex e Derek se entreolharam. Se já estava óbvio somente para Derek, foi naquele momento que se tornou óbvio para Alexander. O loiro deu um passo para trás, não querendo atrapalhá-los, chegando mais pertinho de Derek, mas para apenas sinalizar um “Kai me disse que não gostava de garotos, mas com certeza o Kale não está de acordo com isso”.
Derek revirou os olhos, olhando novamente para ambos, que pareciam de fato um casalzinho ou algo muito parecido, já que Kale mantinha seu braço envolto no pescoço de Kai, bem abraçados na fila.
“Ele é um livro aberto” D gesticulou para Alex, que assentiu, concordando plenamente. “O Kai realmente não notou ainda?”. Alex deu de ombros, acompanhando quando a fila andou, olhando em volta, vendo todas aquelas pessoas, desde crianças a idosos, esperando pacientemente para entrar no local.
Derek permaneceu com o olhar fixo no loirinho, gostando da forma como o cabelo cor de areia se movimentava com o vento, de como ele pressionava os olhos por instinto e de como sua camiseta social de manga curta ondulava no corpo esguio. Alex era o protótipo perfeito de ‘mauricinho’, porém sua personalidade muito simpática, doce e sorridente o distinguia da maioria dos babacas que moravam na parte elitista da cidade, North Shore — ou, como ele gostava de chamar, o ninho dos riquinhos chorões.
Derek envolveu-o num abraço apertado, surpreendendo-o. Alex olhou para ele com os olhos esbugalhados, como se estivesse perguntando o que raios ele estava fazendo.
“O que foi? Amigos se abraçam, não é?” D respondeu-o simploriamente, sem se abalar.
Mas Alex não encarou aquilo como amizade. Conhecia Derek, conhecia sua fama e seu jeito de agir. Não queria ser ‘mais um’ na sua listinha pessoal, por isso afastou-se bruscamente, cruzando os braços e mantendo-se na frente dele, atrás de Kale e Kai.
Só por causa daquilo, Alex percebeu que aquele simples ‘passeio’ seria bem complicado de lidar.
***
Kale foi o único a pagar, sendo o acompanhante de deficientes. Passaram por uma das roletas de entrada, começando a descer as escadas que os levavam às trilhas de cimento largas, compridas e recheadas de pessoas, que andavam de lá para cá, à procura dos habitats dos animais, banheiros ou até lojinhas para comprarem alimentos e ou lembrancinhas.
O dia estava maravilhoso, a temperatura amena, um vento delicioso com cheiro de chuva perpassando pelo arquipélago. Nuvens passeavam pelo céu, sem pressa, sendo empurradas gentilmente pelo vento. Kale enlaçou Kai pela mão, começando a puxá-lo enquanto o mais novo acionava sua bengala, assustado pela ansiedade do surfista, batendo sua fiel amiga pelos degraus, tendo conhecimento do tamanho da descida, já que, no estado de euforia em que Kale se encontrava, perguntar qualquer coisa diferente de ‘aonde vamos?’ não traria resposta alguma.
Um dos funcionários do zoológico estava bem ao lado deles, conversando animadamente com Kale, guiando-os até o programa especial para cegos, onde Kai e o seu acompanhante (no caso, Kale), teriam a chance de acariciar determinados animais.
Alex e Derek acompanhava-os de pertinho, também tendo a oportunidade de acariciar os animais por serem deficientes, mas nenhum dos dois conseguiria aproveitar cem por cento da experiência, já que ela era designada especificamente a cegos.
O Zoológico de Honolulu possuía dezessete hectares com mais de mil e duzentos animais, todos eles habitando áreas extremamente fieis ao mundo selvagem.
– Kai, você já conheceu um elefante? — O funcionário, que se chamava Henry, perguntou, contagiado com a energia completamente positiva que Kale emanava.
– Infelizmente, não — Kai respondeu, desgrudando da mão do surfista para apenas envolver seu braço esquerdo com seu próprio braço, odiando deixar ambas suas mãos ocupadas. — Vou conhecer um hoje? — Pressupôs, animado com a ideia.
– Com certeza! — Henry sorriu, passando por aquela multidão com certa dificuldade.
– O Zoológico de Honolulu só é o que é hoje por causa de um elefante, sabia? — Kale, muito entendedor acerca de zoológicos, comentou com Kai, que ergueu as sobrancelhas, surpreso.
– Não, não sabia.
– Pois é. Em 1914 um fulaninho chamado Ben assumiu a administração deste parque onde tá o zoológico. Aí, do nada, ele decidiu transformar isso aqui numa coisa mais legal. Mas, para ele conseguir construir um zoológico, precisava de animais, é óbvio. E foi aí que, dois anos depois, uma elefante africana chamada Daisy chegou, e o governador da cidade decidiu construir um zoológico aqui. Infelizmente a Daisy foi sacrificada porque ela pisoteou o treinador dela — e riu, achando engraçado o fato de sacrificarem um elefante inocente por conta da burrice de um ser humano.
– Wow, um zoólogo, realmente — Kai gracejou, mas bem no fundo estava impressionado com o conhecimento de Kale acerca do local.
– Quando eu era pirralho, um dos meus sonhos era trabalhar num zoológico — Kale contou, muito animado, passando o braço por sobre os ombros de Henry como se fossem amigos há milênios. — Deve ser demais, sério — adivinhou, acompanhando-o quando ele virou à direita.
Henry abriu um cercado com uma das chaves que carregava consigo, empurrando as grades e dando espaço para que os quatro passassem, trancando-a logo em seguida. Caminharam por um largo caminho de cimento que fazia uma curva num enorme carvalho que sombreava o caminho inteiro.
Kai podia sentir o cheiro de plantas, chuva e animais selvagens. O aroma exótico de muitas flores também inundava seus sentidos, atordoando-o por um instante.
– Apresento a vocês, Sarah! — Henry anunciou com muita animação quando eles chegaram numa área enorme, reservada apenas a deficientes e acompanhantes. Existiam poucas grades, e uma delas era baixinha, separando Sarah, uma elefante africana de quatro toneladas e meia, dos humanos. Sarah estava perto da entrada, se alimentando de folhas, desinteressada.
– PUTA QUE PARIU! — Kale exclamou, parecendo mesmo uma criancinha de dez anos, apoiando-se na grade baixinha e olhando com encanto para a elefante. — Ela é enorme! Olha esses olhos! Puta merda, ela é linda! — Repetiu, desconexo, tendo ânsias de pular a grade e ir abraçá-la. — No dia em que aprovarem o casamento com animais, Sarah, eu caso com você! — Garantiu, apontando para o elefante.
Alex gargalhou (obviamente sem som) quando Kai fez um ‘facepalm’, envergonhado.
– Isso soou muito errado, Kale. Muito errado. – Kai escondeu o rosto nas mãos, balançando a cabeça negativamente.
– Por quê?! Eu só disse que eu quero casar com- — calou-se quando notou. — Ah, não, soou errado mesmo.
Henry riu da besteira dos dois, destravando com um cartão especial a grade de Sarah, abrindo-a levemente.
– Kai? — Tocou-o gentilmente no antebraço, guiando-o. Vamos?
– Espera, vamos… Entrar? — Perguntou, hesitante e com um pouquinho de medo. Estaria perto de um animal que pesava toneladas e não conseguiria ver seus movimentos caso se movesse e o atingisse.
– Sim. Mas não se preocupe, ela é extremamente mansa e bem velhinha. É muito experiente com o contato humano e quase nunca se assusta — sorriu, tentando tranquilizá-lo.
Kai inspirou fundo, andando, sentindo-se melhor ao receber aquelas informações. Havia ainda um friozinho em sua barriga à medida em que andava, já que sentia a presença colossal dela.
Henry tinha consigo um balde cheio de maçãs, por isso largou Kai, colocando o balde no chão e tirando de lá uma maçã, colocando-a sobre a mão do garoto.
– Sarah? — Chamou-lhe, tocando seu corpanzil com gentileza, despertando nela interesse. — Oi! Olha quem temos aqui hoje… — Começou, observando quando ela se virou devagarzinho e com a sutileza de, bem, um elefante. Sarah observou Kai por alguns instantes, quase com desinteresse, mas aproximou-se, muito calma, esticando sua tromba e lhe tocando nos cabelos.
Kai levou um susto, estremecendo da cabeça aos pés, tremulando.
– Ai, meu Deus, o que é isso?! — Gritou, afastando-se por instinto. Só notou ser algo inofensivo quando Kale gargalhou atrás dele, ouvindo um ‘calma, ela só te tocou’ de Henry, que estava bem do seu lado. Sarah puxou os fios macios de Kai com um pouco de brusquidão, um cafuné doído. — Acho que ela quer comer meu cabelo — Kai riu, mas sentia uma ardência no couro cabeludo.
– Você pode tocá-la, se você quiser — Henry instruiu, fazendo um carinho atrás da orelha enorme da elefante que continuava repuxando os fios castanhos de Kai, como se visse neles ou algo terrivelmente errado, ou algo terrivelmente delicioso.
Kai assentiu, e, tímido, ergueu a mão, tocando na tromba de Sarah. Sua pele era grossa, rugosa e áspera, cheia de pelinhos grandes e macios. Subiu a mão, sentindo como se sua pele fosse recheada de cavidades suaves.
Sarah desistiu de tentar arrancar os cabelos de Kai, tocando sua orelha. O garoto riu, a ponta de sua tromba sendo extremamente gelada e úmida, lhe fazendo um carinho no lóbulo da orelha, muito curiosa e prática.
Kai lhe ofereceu a maçã, coisa que ela aceitou de muito bom grado, enfiando a fruta na boca com o auxílio de sua tromba, deixando-o de lado por um instante. Henry puxou-o para que Kai lhe acariciasse nas orelhas imensas, sentindo a pele em formato de meio coração, também com uma textura muito áspera e grossa.
Depois de Sarah ainda tentar arrancar alguns tufos de seu cabelo, o garoto se despediu dela com um abraço, coisa na qual ela correspondeu ao inclinar sua cabeça para baixo, apertando-o gentilmente sob a supervisão de Henry, para que ela não pudesse machucá-lo sem querer.
– Tem mais foto sua do que minha na minha câmera — Kale contou assim que Kai passou pela grade com um enorme sorriso, completamente feliz pela experiência que acabara de ter. — Meu Deus, ela acabou com o seu cabelo — o surfista riu, enfiando as mãos nos fios acastanhados, ajeitando-os.
– Tudo bem, ela pode — deu de ombros, já apaixonado pela elefante. — E, Kale, pelo amor, cê não vai fazer mesmo um book meu, né? — Conversou enquanto Alex e Derek interagiam com Sarah.
– Eu, não. Mas sua mãe sim — decidiu irritá-lo propositalmente, muito satisfeito ao vê-lo boquiaberto.
Ergueu a câmera, fotografando-o enquanto ele permanecia estático e boquiaberto — era quase fofo.
– Você não faria isso! — Kai quase acusou-o, incrédulo.
– Faria sim. Faria muito. Ela me pediu, não foi?
– Tá, então se alguém pedir para você se jogar da ponte, você se joga?
– Depende. Se for alguém que eu considero importante, provavelmente pular da ponte é a alternativa mais viável. Por exemplo, se estivermos no meio da uma apocalipse zumbi, pular iria ser a melhor alternativa e a pessoa só disse isso porque me ama — gracejou, passando a mão infantilmente pelo rosto do mais novo, que se afastou, um pouquinho raivoso.
Henry voltou com Alex e Derek ao seu encalço, ambos ainda encantados com a elefante Sarah. Papeando, o grupinho locomoveu-se pelo local, Kai segurando o braço esquerdo de Kale, que acompanhava os passos calmos de Henry.
– Vocês gostam de hipopótamos? — Ele decidiu perguntar, aproximando-se do habitat de Gaspard, o maior e mais velho hipopótamo do zoológico. Gaspard vivia com com mais uma fêmea, Eleonora, e um filhote extremamente curioso, Alastor. — Porque a gente tem um bem grandão aqui… — Sorriu, olhando para Gaspard, que se encontrava submerso no grande lago destinado a hipopótamos.
Uma criança tocava gentilmente a cabeça de Alastor, que era segurado por um dos funcionários do programa. Ele guiava as mãos da garotinha, que parecia muito curiosa ao tocar as orelhas minúsculas do filhotinho. Os olhos da menina eram disformes, parecendo bolinhas de gude soltas dentro do crânio. Um era azul e o outro era castanho opaco. Mas, indiferentemente aos olhos, ela parecia completamente feliz, rindo quando Alastor levantou a cabeça e começou a cheirá-la, muito curioso.
Kale olhou de esguelha para Gaspard, que observava tudo na surdina, talvez desafiando-os a irem perto dele. Apertou Kai contra si, ignorando o animal e chamando Henry.
– Ele não tem uma cara muito simpática… — Começou o surfista, olhando em volta. — Olha, olha, tem um aviário ali, não tem? — Mudou rapidamente de assunto, não querendo de forma alguma que Kai tocasse num bicho tão grande como um hipopótamo, ainda mais depois de perceber que sua boca tinha uma abertura de quase cento e oitenta graus.
Não, nada de mãozinhas indefesas perto de Gaspard.
Kai soltou um muxoxo contrariado, como se quisesse acariciar o hipopótamo, mas, quando se deu conta, já estavam descendo à caminho do aviário. Henry lhes contou que havia mais de vinte espécies de pássaros dentro do local, todas elas muito receptivas.
Rápidos como raios, os cinco entraram na grande estrutura abobadada de aço, coberta por uma tela fina. A estrutura era recheada de árvores, arbustos e troncos limpos no chão, para que as pessoas pudessem se sentar.
Kai permaneceu estático. A cada canto, um assobio diferente atraía sua atenção. Tudo cheirava exoticamente, numa mistura de frutas, folhas de orvalho e, querendo ele ou não, titica de passarinho. Riu com a observação, sentando-se no tronco ao lado de Kale, prestando muita atenção em todos os sons que lhe rondavam.
Ouviu um pardal, depois uma cacatua, seguida por um tucano, araras, sabiás, canários, calopsitas, cardeais, diamantes mandarins, e, se não tivesse ouvido demais, um leve ‘piu’ de uma coruja. Os sons o invadiam de todos os cantos, de todas as formas, em diversos timbres. Eram encantadores e produziam uma sinfonia ajustada e muito bonita.
– Kai, eu não queria falar nada, mas tem um calafate do seu lado — Henry riu com a curiosidade do passarinho, que parecia encará-lo como se estivesse se perguntando “quem é você, estranho?”. – Aqui, tome — Henry tirou do bolso um pacotinho de sementes, pegando na mão e obrigando-o a formar uma espécie de concha, despejando-as ali. — Kale, você pode ajudá-lo? Eu vou falar com o Alex e o Derek — sugeriu, vendo Kale assentir com entusiasmo.
O pássaro com o bico vermelho esgueirou-se para perto de Kai, voando em sua perna. O garoto hesitou, dando um leve espasmo, assustado. Kale pulou o tronco, alojando-se atrás do mais novo, que permanecia sentado. O surfista tocou nos ombros de Kai, inclinando-se para sussurrar perto de seu ouvido:
– Calma, relaxa, é só um passarinho.
– E-eu não sei onde ele está — Kai admitiu, assustado com a possibilidade de ser bicado.
– Ele está na sua perna direita, te encarando — riu, tocando com gentileza o antebraço do garoto, empurrando para baixo. — Ele viu as sementes… — Narrou tudo bem baixinho, sorrindo quando o calafate aproximou-se, voando para os dedos do garoto e começando a bicar as sementes.
Kai sentiu o peso extra em seus dedos, além da temperatura elevada do corpo do passarinho. O bico alcançando as sementes lhe fazia cócegas nas palmas das mãos, mas não era, nem de longe, desconfortável. Sentia Kale atrás de si, seu queixo apoiado em seu ombro esquerdo, parecendo velá-lo.
Levou outro susto quando ouviu asas batendo do seu lado, num pouso nada delicado. Outra ave aproximou-se, interessada na comida, desta vez um canário pequenino, gordinho e todo amarelinho. Decidida e nada tímida, a ave voou em cima do pobre calafate, bicando as sementes que haviam caído em suas plumagens.
– Meu Deus, o que tá acontecendo? — Kai indagou num sussurro, assustado com o peso sobre suas mãos.
– Um canário pousou sobre o calafate… — Contou o surfista, rindo quando o canário se desequilibrou e caiu direto nas sementes, fazendo Kai se assustar e elevar as mãos. Ambos os pássaros, mais assustados ainda, levantaram voo, espalhando sementes para todos os lados. — Caraca! — Kale gargalhou, vendo um Kai cheio de sementes e ainda assustado.
– O que diabos aconteceu?! — Decidiu perguntar, rindo, podendo sentir as sementes em suas roupas. Kale pulou novamente o tronco, ajoelhando-se na frente do mais novo, começando a recolher as sementes perdidas em suas roupas.
– Aconteceu uma treta, só isso — simplificou a situação, colocando todas as sementes recolhidas em sua mão esquerda. — Cara, você tá cheio de semente… — Riu, olhando em volta. — Daqui a pouco um monte de passarinho vai voar em você.
– Ah, meu Deus! — Kai desesperou-se um pouquinho, já pensando na possibilidade de ser atacado por milhares de pássaros, tendo seus olhos arrancados e seu cérebro bicado pelo ouvido.
Kale riu de novo, espremendo os olhos, afetado pelo desespero do garoto. Então, impensavelmente, o surfista simplesmente deu de ombros e levou ambas as mãos acima de sua cabeça, despejando todas as sementes que havia recolhido sobre si mesmo.
– Prontinho! — Disse ele como se tivesse descoberto a resposta para a hipótese de Riemann, muito satisfeito. — Despejei as sementes em mim. Agora os pássaros irão vir a nós dois… — Contou, sorrindo de lado.
Kai fez seu segundo facepalm naquele dia, incrédulo que Kale tivesse realmente feito aquilo. Iria chamá-lo de idiota, mas foi interrompido quando ouviu um par de asas nervosas perto de si. Sentiu uma rajada de vento, por isso se encolheu, certo de que aquela ave era potencialmente maior que todas as outras.
E, realmente, era.
Um secretário de um metro e meio aproximou-se devagarzinho dos dois, atraído não pelas sementes, já que se alimentava de serpentes ou até mesmo anfíbios e roedores, e sim pela presença dos dois.
Kale estava boquiaberto, ajoelhado na frente de Kai, indefeso. Aquilo tinha o seu tamanho agachado, parecendo não ofensivo, apenas curioso. Kale envolveu os cotovelos do garoto, puxando-o para perto de si, a fim de levantá-lo e tirá-lo de perto daquele bicho.
O surfista de fato conseguiu levantar Kai, que indagava baixinho o que estava acontecendo. Não desgrudando os olhos daquela ave, Kale começou a empurrar gentilmente o mais novo, virando as costas para o animal, que pregou os olhos em seu corpo.
E foi assim que uma catástrofe aconteceu.
Parecendo ofendidíssimo por lhe virarem as costas, o secretário eriçou suas plumagens da cabeça, batendo as asas com violência e voando na direção de Kale. Suas garras agarraram sem machucar ambas suas panturrilhas, apoiando-se nele enquanto se inclinava.
Bicou-o o mais dolorida e profundamente que pôde na nádega esquerda, sem piedade, utilizando-se da mesma força que usaria para bicar uma cabeça de serpente da savana.
Kale nunca urrou tão alto quanto urrou nessa hora. Assustou absolutamente todos os pássaros do aviário, deficientes, animais e funcionários que estavam ali perto — talvez seus urros tivessem alcançado a recepção do zoológico. Apertou o pulso de Kai, que também gritou, assustado e perdido, sem saber o que diabos estava acontecendo.
Era uma confusão seguida por outra, incessantemente.
***
Kai estava morrendo.
Seu oxigênio já estava escasso por conta de sua gargalhada muda e muito gostosa, sufocada inutilmente por sua mão.
Estava encolhido num dos bancos da enfermaria, rindo sem parar há mais de vinte minutos, o rosto completamente afogueado, os olhos marejados e os músculos faciais já doloridos de tanto rir.
Alex tentava contê-lo, lhe mandando mensagens textuais com “isso não é engraçado”, “pobrezinho, pare de rir dele” e “você vai para o inferno”.
Kai só estava rindo porque sabia que não havia sido nada sério. Era impressionante como Kale atraía desgraças, mas se salvava de todas elas. Se não fosse por sua bermuda jeans, com toda a certeza ele teria de levar alguns pontos; mas, graças ao tecido, a única coisa que aconteceu foi um pequeno machucado doído, com direito a sangue, e peças de roupa rasgadas.
– Eu realmente não sei o que aconteceu — Henry tentava se explicar para o chefe do aviário. — Eu me afastei cinco minutos para mostrar a cacatua para o Alex e o Derek, e, boom, gritos e gritos e o serpentário em cima do Kale… — Explicou tudo com muita sinceridade e desespero, com medo de ser despedido.
O diretor do aviário iria se pronunciar se Kale não saísse da ala hospitalar, esfregando a bunda com uma careta dolorida, mancando levemente. Disse um ‘tá tudo bem’ evasivo para o diretor engravatado, ignorando-o parcialmente e sentando-se torto ao lado de Kai com um gemido dolorido.
– Eu ainda amo zoológicos — contou para o garoto, que não se conteve; soltou um ‘pff’ estrangulado para gargalhar de novo, batendo a cabeça contra a parede da enfermaria, rindo que se matava.
– Melhor passeio de todos – Kai tentou dizer, apertando a barriga forte, encolhido e dolorido de tanto rir.
Kale foi contagiado pela risada gostosa de Kai, rindo também de sua própria desgraça com muito gosto, não se importando se estava dolorido ao sentar — se Kai estava feliz, então estava tudo bem. Henry, para compensar o seu erro, deu a Kale a jaqueta oficial do zoológico e alguns broches, sabendo bem do amor incondicional do surfista pelo local.
Obviamente Kale aceitou tudo com a maior felicidade, vestindo a jaqueta e colocando os broches nos bolsos, muito bem protegidos de qualquer coisa. Nem esperou que ninguém lhe perguntasse mais nada; simplesmente se levantou e puxou Kai pela mão, disposto a sair dali rapidamente para ir ver as zebras junto com o garoto.
Kale saiu num pique tão grande que esqueceu-se momentaneamente de Alex e Derek, puxando Kai pela trilha de cimento acima, embaralhando-se entre as pessoas. Sua nádega ainda doía, a bermuda e a cueca furadas discretamente, mas isso não o impediu nem um pouco de andar rápido entre a multidão, arrastando Kai consigo.
E, de fato, Kai foi arrastado. Arrastado por todo o zoológico, desde o habitat das zebras até quando o leão saiu da sua toca e ignorou todo mundo, lambendo suas partes íntimas em público. Kale comprou lembrancinhas apenas para Lucas e para Kai, já que odiava gastar dinheiro com as pessoas, fotografando absolutamente tudo – desde as nudes do leão até uma tanajura que carregava uma folha seca no chão.
Comprou uma touquinha com galhadas de pelúcia para ele e para Kai, vestindo-a nele mesmo e no garoto, que lutou por um instante, mas acabou desistindo com um sorriso. Depois comprou uma camiseta regata com pandas, mais alguns broches com “I Love Zoo”, e, por último, comprou de presente para Kai um hipopótamo enorme e fofinho de pelúcia, pedindo desculpas a ele por não terem ido acariciar Gaspard.
–Tudo bem — Kai sorriu, apertando contra si o bichinho. — Em homenagem a Gaspard, vou chamá-lo de Gepeto — decidiu, lembrando-se repentinamente de Pinóquio, seu conto infantil preferido.
– E depois eu sou o imaturo — Kale resmungou, girando os calcanhares para sair da lojinha. Estavam perto dos sensores de movimento das portas quando ambos tremularam sob o som estrondoso de um raio que pareceu atravessar o arquipélago, iluminando o céu e ofuscando a todos.
Gritinhos de susto se alastraram pelo local, muita gente surpresa e assustada com o raio que havia caído no mar. Kai era um deles, estático e perplexo, os ouvidos processando o som absurdamente alto que acabara de se pronunciar. Já Kale, dramático, pulou, todos os pelos do corpo eriçados, agarrando Kai num abraço protetor, esmagando Gepeto.
– Porra, eu não acredito que vai chover! — Exasperou-se, incrédulo, ainda agarrado ao garoto. Semicerrou os olhos quando uma rajada de vento fria e cortante perpassou por eles, lhes afagando rudemente o rosto. — A moça do tempo mentiu para mim — alegou, sentindo-se profundamente traído.
– A gente tem de sair daqui antes que comece a chover — Kai começou a dizer, recuperando-se do choque. Podia sentir o cheiro de terra molhada trazido pelo vento, assim como ouvia perfeitamente as árvores do zoológico fazendo barulho ao se balançarem por conta da brisa forte. Muitos animais sentavam-se ou simplesmente entravam em suas tocas, prevendo a chuva.
Kale nem precisou concordar; começaram a andar rápido entre a multidão apressada, todos muito afobados para saírem correndo dali antes que uma tempestade se iniciasse.
A primeira gota de chuva atingiu Kale na nuca quando eles começaram a subir a trilha que passava pelos leões, bem longe da entrada. Com um xingamento característico pelo susto e pela forma como a gotinha escorreu por entre sua camiseta, Kale acelerou o passo, levando consigo um Kai muito descontente por ter de andar tão rápido, sendo obrigado a enfiar Gepeto sob sua camiseta, protegendo-o. Mas, como eles haviam previsto, era tarde demais.
A tempestade começou a atingi-los em cheio, sem piedade, afeto ou clemência. Enxurradas e mais enxurradas faziam curvas por entre as trilhas sinuosas, levando consigo barro, folhas secas e lixo das pessoas. A chuva era espessa, quente e muito densa, cada pingo parecendo medir uma cabeça inteira.
Ambos estavam ensopados, porém o surfista estava muito mais, já que, assim que viu o chuvisco espessar, retirou sua jaqueta e envolveu Kai nela, sua regata cavada sendo inútil para protegê-lo da chuva.
Era uma chuva típica de verão: muitos raios, ventania, densidade e alguns pontos azuis no céu, distantes e parecendo indiferentes à toda a confusão que ocorria dali a alguns quilômetros.
Kai e Kale pareciam dois cães molhados quando chegaram na entrada do zoológico, passando pelas catracas livres e indagando um ao outro se o melhor era esperar passar, ou, já que estavam ensopados mesmo, ir correndo até o carro e voltar para casa.
– Vamos esperar.
– Vamos voltar para casa — disseram ao mesmo tempo, tentando solucionar aquela incógnita.
– Ah, não, Kale, vamos esperar!
– Por quê?! A gente já tá todo fodido mesmo, se a gente ficar aqui, além de ensopados, iremos ficar com frio. Pelo menos no carro dá para nos aconchegarmos melhor! — Seu argumento foi forte e muito plausível, apontando com indignação para a cortina úmida que caía além da entrada.
Kai mordeu os lábios, pensando no assunto. Se sentia apertado, pesado e grudento. Kale percebeu que havia vencido a batalha quando o garoto deu de ombros.
Correram feito loucos sob a chuva, as pernas doídas, pesadas e cansadas, o barulho incessante das gotas caindo em massa, nublando parcialmente o caminho inteiro. Kale, apesar de molhado dos pés a cabeça, ria, divertindo-se muito com a situação toda.
Adorava tomar banho de chuva com Lucas quando eram pirralhinhos, sempre chegando encharcado em casa e doente, mas muitíssimo feliz e satisfeito.
Atravessaram correndo a avenida Leahi, que virou praticamente um rio. Kai despediu-se de seu tênis naquele momento, assim que sentiu a água invadindo o tecido do calçado, sua meia e dedos já completamente úmidos. Kale tirou do bolso enquanto corriam a chave do carro, destravando-o e abrindo a porta correndo, até tendo o reflexo de circundar o carro para abri-lo a Kai, mas, quando piscou, o garoto já estava dentro, fechando a porta, enquanto ele ainda estava do lado de fora, molhando o estofado.
Entrou com tudo, fechando a porta com um estrondo, encostando a cabeça no banco e inspirando profundamente, aliviado por estar num local seco.
– Meu pai vai ficar puto com a gente — Kai admitiu, acomodando-se no banco úmido do veículo, retirando Gepeto de dentro de sua camiseta, jogando-o no banco traseiro. — A gente molhou o carro dele inteirinho.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Tecnicamente, não o molhamos. A chuva nos molhou, e nós, como passageiros, apenas passamos para ele. Faz parte — suspirou, enfiando a chave para ligá-lo. Ouviu o motor gemer, logo sentindo o carro tremulando suavemente.
– Tá o.k., mas você vai explicar isso para ele — Kai jogou os termos com um sorriso, retirando alguns fios úmidos do rosto, ouvindo as gotas de chuva baterem contra o vidro.
– Ah nah, eu não me lembro de ter lido isso no contrato — Kale fez uma careta, saindo da vaga devagar e com cautela, com medo de atropelar alguém. O limpador de para-brisa trabalhava feito um louco enquanto eles passavam pela avenida que se tornava, aos poucos, um rio.
Diamond Head estava maravilhoso como sempre, e Kale quase provocou um acidente ao observar as ondas furiosas lá embaixo, embriagadas pela ira que o céu lhes lançava em forma de água; agitadas, turbulentas, altas, esplêndidas e maravilhosamente mortíferas. Aquilo lhe trazia um tesão quase incontrolável, como se ele pudesse parar o carro no acostamento e se jogar da avenida direto para a água, nem que seja por uma última vez.
Foi puxado bruscamente de volta ao mundo real pela mão de Kai, que tocou-o gentilmente no ombro.
– Você ouviu o que eu disse?
– Ah, não, desculpa… Eu tava vendo o mar, que tá maravilhoso. Mas, fala aí, tô prestando atenção. — Assegurou, voltando sua atenção à estrada congestionada.
– Minha carcereira, quer dizer, minha mãe acabou de me ligar para perguntar onde estávamos. Respondi que a gente tava a caminho, e ela quase surtou porque ela tá vendo na TV que alguns locais estão alagados, por isso ela nos apressou. Já estamos chegando?
– Nem – Kale respondeu, evasivo, apoiando o cotovelo na janela do carro, descansando a mão no volante, impaciente pela demora em se moverem. — Tá todo mundo com pressa, mas nem tem como se mover rápido nesse chuvão. — Explicou, passando os dedos por entre o cabelo ensopado. — Acho que em uns vinte minutos a gente chega — previu, limpando o embaçado do vidro.
Kai se afundou no banco, nada feliz com a previsão. A única coisa que queria e precisava era de um banho quente e muito digno. Kale até tentou distraí-lo, ligando o rádio, lhe contando piadinhas bestas e ousando lhe tocar na cintura com um vestígio de cócegas — isso lhe arrancou risadinhas e até papearam sobre coisas antes de chegarem no apartamento. A chuva tinha dado uma leve trégua, típica de climas tropicais, mas ainda havia algumas gotinhas salpicando o solo.
Kai pisou no chão da garagem ensopado, seu tênis completamente encharcado. Kale bateu a porta do carro, contornando o veículo e envolvendo o pescoço do garoto com o braço, puxando-o para que andassem até o elevador.
– Bom, eu vou deixá-lo aqui — anunciou, afastando-se um passo.
– Para de ser idiota, entra e se seca — Kai segurou-o na barra da regata por instinto, não querendo que ele fosse. Sabia que alguma hora o seu maravilhoso dia iria acabar, mas queria adiar isso o máximo que podia.
Kale enfiou suas mãos na cabeleira encharcada do garoto, esfregando-a com volúpia, embaraçando e arrepiando todos os fios.
– Eu prefiro me secar na minha casa, Kai. E também porque os meus fones estão molhados e eu não quero os perder, então é melhor eu ir indo, sério – enfatizou a última palavra, prendendo sua cabeça entre as mãos, forçando seu rosto a se virar em sua direção. Os olhos de Kai estava dispersos, mas sabia que ele o ouvia claramente.
– Hm, o.k., se você acha que é melhor assim… — Kai deu de ombros, mesmo que, no fundo, estivesse levemente chateado.
Kale riu, percebendo em seu tom de voz como ele havia ficado afetado. Afastou gentilmente com o polegar alguns fios que grudaram em sua testa, acariciando involuntariamente a pele nívea, úmida e extremamente macia — mesmo que ele considerasse um pecado acariciá-lo com seus dedos calosos.
Kai não podia enxergar, e, teoricamente, era para que seus olhos se tornassem opacos, inúteis. Mas sua íris possuía uma resplandecência inigualável, ímpar. Ninguém no universo podia transmitir tanto apenas com um olhar — mesmo que, ironicamente, não tivesse ideia disso.
Kale aproximou-se e, por puro impulso, beijou-lhe na testa. Não foi um beijo de dois segundos; foi demorado, com direito a um leve fechar de olhos. Conseguiu transmitir muito mais do que um “até logo”; transmitiu certeza, confiança. O toque de suas mãos era firme e nada trêmulo. Nada sobre ele demonstrava hesitação.
Kai entrou no elevador, sentindo-se estupidamente zonzo. O toque de suas mãos, de seus lábios e de sua barba rala ainda estava impregnado em sua memória, como se Kale ainda estivesse ali, perto dele. O cheiro do surfista estava por todos os cantos, até porque ele ainda permanecia com a jaqueta do zoológico.
Elizabeth quase teve uma síncope ao vê-lo naquele estado, mas Kai somente a ignorou e se trancou no quarto, disposto a se esquecer daquilo tudo. Retirou a jaqueta, colocando-a sobre um banquinho ao lado de sua cama, para logo em seguida jogar no cesto de roupas sujas todas suas peças encharcadas, permanecendo apenas de cueca.
Vestiu uma camiseta limpa e bermuda de algodão, pronto para ir tomar um banho bem quente antes de ir direto para a cama. Isto é, claro, se os seus pensamentos não estivessem completa e totalmente embaralhados. Kai parou no meio do quarto, esquecendo-se do que iria fazer, porque concentrou-se num único e exclusivo pensamento: o cheiro de Kale.
Estava por todos os cantos, impregnado em todas as paredes, em todos os tecidos, em todos os malditos objetos. Seu guarda-roupa foi infestado pelo aroma que ele exalava, forte e marcante, fixando-se nele e em tudo que lhe pertencia.
De novo aquela sensação estranha de ser observado. Era como se o surfista estivesse ali, bem próximo de si, onipresente, inundando seus pensamentos, possuindo seus sentidos e deixando de forma clara demais para ser implícita que sempre estaria ali, velando-o.
Sentia-o tão próximo que até mesmo podia…
Mordeu os lábios quando sentiu uma fisgada em seu baixo ventre, impiedosa e surpreendentemente boa. Foi obrigado a se sentar, as pernas trêmulas pelo impacto da sensação. Inspirou fundo, a incredulidade atingindo-o juntamente com a arrebatadora sensação que borbulhava em sua virilha.
Era ridículo.
Juntou as pernas, arfando ao sentir um formigamento atigindo-o em todos os cantos. Podia sentir em suas coxas sua ereção desperta, e tudo isso o assustava de uma forma que nunca pensou que poderia ficar — Kai era adepto à ideologia de que, caso algo acontecesse uma única vez, era porque realmente deveria acontecer. Mas, se acontecesse de novo, era porque você gostaria que acontecesse.
Era isso o que ele gostaria que acontecesse? Realmente pensou nas possibilidades lógicas, mas perdeu-se no meio do caminho assim que uma nova pontada o fez se contorcer, quase obrigando-o a se tocar. Gemeu entre dentes assim que se acariciou sobre a bermuda, uma onda de calor irradiando de cada milímetro de sua pele.
Era deliciosamente irracional, ele sabia disso. Mas, apesar de todos os avisos de “isso é ridículo, pare” assobiando e sua mente, Kai não conseguia. Jamais iria compreender a complexidade de sentimentos que cercavam Kale, e, mesmo ele estando tão longe, o sentia extremamente perto.
Tateou à sua esquerda, procurando pela jaqueta molhada, a causadora de todo aquele sufoco nauseante que era o cheiro do surfista. Era um cheiro quase afrodisíaco, contaminando todo o cômodo. Kai acariciou a jaqueta, podendo senti-la; e, apesar de úmida, era macia e muito confortável. Mergulhou o rosto na capuz da jaqueta, sentindo mais de pertinho todo aquele aroma.
Tudo remetia a ele, Kai sabia disso. Lembrou-se do surfista quase que imediatamente, do som de sua risada, do toque gélido de suas mãos e até mesmo da gostosa sensação de sua barba roçando em sua pele. Mordeu os lábios à medida em que ia se lembrando de todos esses detalhes, suspirando quando encontrou seu membro nada adormecido sob a cueca, inspirando com dificuldade, tocando-se com zelo, o rosto ainda afundado no tecido macio que revestia o capuz.
Definitivamente estava louco, mas procurou não pensar muito no assunto.
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