De Coração
7 A Aflição de um Poeta
Notas iniciais
Kale entrou como um tornado em seu apartamento. Jogou Berê em cima do sofá e fechou a porta com um estrondo. Lucas, que estava sentado à mesa, encerrando as contas, apertou a caneta entre os dedos, revirou os olhos e pediu paciência à divindades.
– Lucas, eu sou um idiota! — O surfista começou a dizer, passando a mão pelos cabelos molhados, andando de um lado para o outro dentro do cômodo.
– Agora me conta uma novidade… — Lucas grunhiu, sem se virar para encará-lo, zerando a calculadora e desligando-a em seguida, juntando os papéis e alinhando-os.
– Não, você não tá entendendo… — Disse, dramático, aproximando-se do míope e pescando-o pelos ombros, virando-o e obrigando-o a olhá-lo. Lucas revirou os olhos, perguntando-se o que poderia ser daquela vez. — E-eu chamei o Kai de ‘fofo’.
Ficaram um minuto em silêncio, Kale encarando o amigo ferrenhamente, enquanto Lucas perguntava internamente se havia grudado chiclete no cabelo de Jesus para merecer aquilo.
– E daí? — Desprezou a situação com a maior cara de bunda do universo. — Tá, você chamou ele de fofo… Não precisa se desesperar se você, de fato, achá-lo, ué. — Simplificou, olhando-o por cima dos óculos.
– Meu Deus, Lucas, às vezes eu tenho vontade de jogá-lo da janela! — Desesperou-se, chacoalhando-o pelos ombros. — Você com a sua neurose me deixou neurótico também! — Se pôs a explicar, fitando-o nos olhos. — Se eu tô morto de vergonha, imagina ele!
– Kale, ele não é você… Sabe, você não pode ler as mentes das pessoas. — Novamente, desprezou a situação, afastando-o. — Acredite em mim, não irá demorar para vocês voltarem a se falar de novo... Realmente, Kale, temos algo em comum, sempre nos importamos com pequenas coisas. — Murmurou a última parte, mais para si mesmo do que para ele.
O surfista afastou-se, deixando-se cair no sofá, largado na vida.
– Eu não quero que ele me odeie ou que me ache estranho. — Confessou, apoiando a cabeça numa almofada. — Eu temo em dizê-lo que sou bissexual e ele achar que estou me interessando romanticamente por ele.
– E não está? — Lucas atacou novamente.
Kale revirou os olhos, cansando de discutir sobre aquilo. Quando, num quase choque, lembrou-se de um assunto que julgava ser crucial. Levantou-se num salto, assustando Lucas, que encarou-o com surpresa.
– Aliás, Lucas, sobre aquela conversa que tivemos na lanchonete… — Kale começou como uma criancinha ansiosa, agachando-se perto do míope. — Por que você acha que ele seja… Gay?
– Eu não disse isso, Kale. — Lucas resignou-se a dar um suspiro cansado. — Eu não sei explicar, mas não acho que ele seja hétero, sabe? Não sei, só gays notam certas coisas — tentou, referindo-se a si mesmo. — Agora, chega disso, se você está curioso, vá e pergunte diretamente a ele. — Encerrou, curto e grosso, levantando-se.
– Ah, não, Lucas, não faça isso! — Pediu, teatral, agarrando-o pelo pulso. — Necessito de respostas para a minha aflição!
Lucas gargalhou, olhando-o com incredulidade.
– Você vira poeta quando aflito, Kale? — Ironizou, rindo. — Larga de ser idiota e vai fazer algo que preste nesta vida, vai. Vou sair pra pagar as contas deste mês e aproveitar pra comprar umas frutas — avisou-o, chutando-o na perna para que ele o largasse.
Kale se deitou no chão pateticamente, e somente assentiu quando Lucas mostrou as chaves de casa e andou em direção à porta.
Desde quando se conheceram, o pai do surfista sempre dizia que Lucas era racional demais para ser amigo de Kale, o jovem irresponsável e quase delinquente que vivia aprontando pelas ruas de Big Island. Às vezes Lucas se perguntava o porquê de ser amigo de Kale, já que ambos eram bem diferentes, e lembrava-se, em seguida, que era exatamente por serem tão diferentes que eram tão amigos.
Era como se Kale fosse um livro medicinal aberto e Lucas um hematoma gigante e pulsante. O surfista tinha uma personalidade doce e simpática, já Lucas era amargurado e anti-social. Não sabiam exatamente quando um começou a compreender o outro, mas entendiam que isso não quebraria cedo, talvez nunca.
Foi com este tipo de pensamento que Lucas pagou as contas e rumou direto ao Costco relativamente perto de casa. Novamente, o local estava lotado, pessoas andando de lá para cá com carrinhos cheios, um falatório colossal e uma voz ignorada nos altos falantes. Era impressionante a quantidade de produtos brasileiros vendidos ali, mesmo o Havaí sendo um estado norte-americano. O café era caro como um pulmão, mas, ao menos, era vendido.
A seção onde se encontrava as frutas era bem ao lado da seção onde se encontrava os produtos refrigerados, como laticínios, refrigerantes, tortas e carnes. Lucas passou sem muita opção por aquele extenso corredor frio, olhando com certo interesse a grande variedade de iogurtes oferecidos por aquele Costco.
Concentrou-se num em especial: tinha apenas um único pote em toda a prateleira. A embalagem era vermelha, sinalizando a presença de morangos no meio do laticínio. A fruta que Lucas mais gostava no universo era morango. O.k., talvez gastar alguns dólares num potinho de iogurte não iria pesar nada nas contas do fim de mês.
Andou até perto da estrutura gélida e esticou a mão, a fim de pegar a pequena embalagem. Porém, no lugar de apenas pegar a pote, levou um susto de brinde. Alguém também pegou o iogurte no mesmo tempo em que ele. Ficou tenso por um segundo, vendo seus dedos envolvidos na mão da pessoa. Virou-se de supetão, pronto para lutar pela comida.
– Eu peguei antes. — Afirmou, a voz dura. Mas toda a sua grosseria escorreu para o ralo quando viu que era Antony ali, encarando-o, sério.
Era impressionante como algumas pessoas eram lindas sem ao menos tentar. Para Lucas, ficou claro a diferença de altura quando percebeu que Antony mal esticava o braço para alcançar a prateleira, diferente de si, que quase se erguia na ponta dos pés para conseguir.
Os olhos intensos do surfista também expressavam surpresa, como se fosse uma loucura encontrar Lucas novamente e de forma tão convencional. Tá certo que sua expressão mantinha-se impassível, mas a leve tremulação de seus lábios denunciavam seu sobressalto.
– Ah... — Começou Lucas, meio perdido, desviando os olhos dos de Tony e soltando o iogurte. — Oi...
Tony sorriu, apertando a embalagem, encarando-a em seguida.
Iria falar alguma coisa, talvez se desculpar ou simplesmente cumprimentá-lo, mas se esqueceu por segundos que não estava sozinho. Assim que abriu a boca, Nicholas, seu irmãozinho, brotou bem atrás de si, correndo em direção à Lucas com os braços abertos.
– Olha, olha, é o moço da cicatriz, Tony! — Exclamou, completamente animado e energético, os cabelos loiros queimados despenteados. Enlaçou a perna lesada de Lucas, colando a bochecha na cicatriz, observando-a com admiração.
Tony teve vontade de cavar um buraco e se enfiar ali por toda a eternidade, plenamente constrangido por causa de seu irmão sem noção. Fez um 'facepalm', querendo realmente sair correndo dali.
Lucas apenas riu, acariciando o topo da cabeça do menino, achando-o fofo, apesar de ser um pouco inconveniente — mas ele era uma criança, então isso era completamente relevante.
– Oi, Nick. — Cumprimentou-o, sorrindo largamente, a mão ainda repousada em seus fios queimados. Evitou levantar a cabeça para encarar Antony, já que sentia o olhar do surfista repousado em si, quase atravessando sua alma. Riu nasalado quando Nick cutucou sua cicatriz novamente. — Cuidado, Nick, se você apertar um pouquinho mais forte, é bem capaz de me atingir numa área ainda sensível… — Avisou-o quando sentiu uma leve pontada na patela.
– Ainda dói? — Nicholas perguntou, observando-o, espantado.
– Bastante… Quando tá frio, então… — Lucas fez uma careta.
– Ainda bem que aqui é quentinho, né, Lucas? — Nicholas comentou, encostando a testa na coxa do míope. — Ah, eu sei que seu nome é Lucas porque o Tony tava te procurando no Facebook esses dias! — Disse com animação, apontando orgulhosamente para o irmão mais velho. — Ele ficou horas na frente do computador tentando te encon-
– Nicholas! — Antony tapou a boca de seu irmãozinho antes que ele desse com a língua nos dentes, entregando completamente o fato de que estava stalkeando Lucas fervorosamente desde que se encontraram nas avenidas. Estar com Nicholas era a mesma coisa que andar nu com seus segredos vergonhosos escritos na pele. Puxou-o para perto de si, mostrando uma carranca de quem não gostou nada daquilo a ele.
– Muito engraçado, Nicholas... — Grunhiu com uma pontada de exasperação, subindo a cabeça e encarando Lucas, que parecia um mármore. — Desculpe por isso...
Lucas não sabia o porquê de Tony estar se desculpando, mas chutava que era porquê havia entregado que estava stalkeando-o há algum tempo. De qualquer forma, se sentia extremamente constrangido, e agradeceu internamente por não ser do tipo que era sujeito a corar, porque, caso fosse, já havia virado um tomate maduro.
Riu constrangido, ajeitando os óculos sobre o nariz com o indicador, quase metodicamente.
– Ah, não, tudo bem… — Respondeu, abanando as mãos de forma banal. Mas por dentro, sentia sua parede estomacal derreter. Realmente, deveria ter deixado aquelas fotos vergonhosas, que seus familiares viviam o marcando, no privado.
Deuses, tinha aquela com a família de Kale, que tiraram bem quando abrira a boca para comer o hambúrguer…
Bateu a cabeça na prateleira mentalmente, recriminando-se por ser tão burro e mandando chegar logo em casa e apagar todas aquelas fotos anteriores ao ano presente.
Antony e Nicholas Thomas eram duas criaturas adoráveis provindas da Austrália. Possuíam certo sotaque, assim como Lucas, que costumava “abrasileirar” algumas palavras. Não sabia ao certo como tinha acontecido, mas viu-se seguido pelos irmãos Thomas o caminho todo pelo Costco, recebendo ajuda ao escolher as frutas e comprando alguns cachinhos de uva para Nick comer quando saíram do atacado.
– Vocês moram há muito tempo aqui? — Lucas perguntou enquanto andavam pela calçada, segurando uma sacola na mão.
– Há uns sete meses. — Antony respondeu, prático, mantendo o olhar fixo à frente.
– O Tony quer ser surfista, por isso ele veio pra cá! — Nick incrementou, enfiando uma uvinha na boca. — Não sei porquê ele me arrastou junto, todos os meus amigos ficaram em Camberra... — Lamentou-se, segurando mais fortemente os dedos de seu irmão.
Lucas sorriu, um pouco comovido pela declaração de Nick. Deixou o Brasil ainda criança, então sabia como era nunca mais ver seus antigos ‘amiguinhos’.
– Não veja por este lado, Nick. Veja pelo lado bom: agora você tem a chance de conhecer novas pessoas, fazer novos amigos. Não é como se você fosse uma planta… — Sorriu, tentando reconfortá-lo. Lucas parou um pouco de andar, esperando os irmãos passarem primeiro para que pudesse continuar, já que aquela parte da calçada era danificada demais para sua perna enferrujada.
Lucas estava percebendo que Tony nem ao menos virava a cabeça para encará-lo, sempre andando reto e quase ignorando sua presença ali. Então um pensamento extremamente doloroso cutucou sua cabeça. “Será que ele está com vergonha de andar comigo?”. Oras, decerto ele estava, não é? Lucas chamava indesejável atenção ao andar daquela maneira desengonçada, mas não podia evitar, era o único jeito que conseguia se locomover sem sentir uma dor terrível. O único que nunca achara desconfortável ficar perto de si enquanto andavam era Kale, mas Kale era quase obrigado a não se sentir incomodado, então relevava.
– Viu, Nick? — Tony, então, despertou-o de seus devaneios subjulgativos. — O Lucas está certo, eu já tinha te dito a mesma coisa antes, não tinha? — E, dito isso, lançou um olhar positivamente avaliativo a Lucas, tentando transmitir um agradecimento visualmente.
Nick soltou um muxoxo, chateado por ter de lembrar de seus coleguinhas deixados para trás em Camberra. Então ergueu o olhar, encarando o míope.
– Você deixou muitos amigos quando veio pra cá, Lu? — A intimidade precoce facilitava a criação de apelidinhos.
– Na realidade, não. — Lucas riu, sorrindo com os olhos. — Quer dizer, depende… Eu já me mudei duas vezes… — Coçou o queixo, rolando os olhos para cima. — Bom, de Recife eu fui para Big Island com meus pais, e de lá eu vim para cá, com o meu melhor amigo… E ele veio para cá pelos mesmos motivos que você, Tony… — Explicou, ousando olhá-lo. — Mas, não, não sinto falta dos meus amigos de Recife.
– Recife? — Antony perguntou como se fosse o cu do mundo. E para alguém que morava na Austrália, de fato era. Somente alguns quilômetros de um profundo Oceano Pacífico separava ambos os continentes onde costumavam morar.
– Ah, sim, Recife é capital de um estado brasileiro. — Explicou, mordendo os lábios ao recordar-se de sua querida terrinha natal. — Presumo que você amaria aquele lugar, se você for igual ao Kale... — Constatou, balançando levemente os ombros. — Lá tem praias espetaculares…
– Você é brasileiro?! — Nick exclamou, parando de andar para encarar Lucas, uma expressão de espanto no rosto. — Mas por que você era surfista? Não deveria ser jogador de futebol? — Indagou, realmente confuso, completamente ingênuo.
Lucas começou a rir descontroladamente, e acabou por caminhar ao lado dos dois até as duas avenidas explicando ao pequeno que, só porque ele era brasileiro, não significava em nada que gostava de futebol — na realidade, achava um esporte entediante e superestimado.
Tony mantinha os olhos frios e intensos em Lucas, como se pudesse observar cada detalhe de seu corpo, numa excursão minuciosa sobre a pele nívea, porém coberta de cicatrizes do míope.
Antony evitou encará-lo por todo este tempo pois queria evitar constrangê-lo; mas, agora que ele estava imerso naquela conversa com Nick, era como se o surfista nem estivesse presente.
Só acordou para a realidade quando seu irmão e Lucas viraram-se para encará-lo, como se tivessem lhe feito uma pergunta importantíssima e crucial. Piscou, atônito.
– Hein, Tony? — Nick o incentivou a falar. O mais velho piscou novamente, mostrando-se avulso. — O Lucas perguntou se você vai participar da competição de surf daqui algumas semanas, você não ouviu?
– Ah, perdão, não ouvi… — Tony sorriu, assentindo com a cabeça. — Mas vou participar sim… — Informou, pigarreando em seguida. — O único problema é que preciso treinar, porém não arranjo tempo… — Disse, e, discreta e quase codificadamente, olhou para Nick, como se explicasse para Lucas que o motivo de não ter tempo para seus treinos era porquê tinha de cuidar do irmão.
Lucas fez uma expressão de entendido, olhando para Nick, que havia chamado a atenção de ambos.
– Não sei porquê você está preocupado, era um dos melhores da liga! — Nicholas deu uns pulinhos de animação, olhando em seguida para Lucas. — Ele era um dos melhores de Camberra, já até foi chamado para a liga nacional uma vez! Lu, você vai torcer pro Tony comigo, não vai?! — As maçãs do rosto do pequeno já estavam avermelhadas de tanto pulinhos e ofegos que ele estava dando.
Lucas sorriu, assentindo.
– Claro que vou, Thomas — disse, referindo-se a ambos. — Eu... Bem, estarei lá por meu melhor amigo também, então não há problema nenhum torcer por vocês.
Nicholas pareceu ter recebido uma resposta boa o suficiente, por isso agarrou-se às mãos de Lucas e Antony, começando a saltitar enquanto atravessavam a avenida sentido Diamond Head. O pequeno estava arrastando-os, assim como fazia com seus pais em Camberra, mas sem o detalhe que geralmente os dois corriam para atravessar, aos risos, erguendo o pequeno quando chegavam na guia. Lucas não podia correr e Tony era rabugento demais (ambos eram rabugentos demais, mas Lucas ficava especialmente feliz perto deles).
Assim que chegaram do outro lado, Nicholas ergueu os braços para Antony, logo sendo pego com facilidade e ajeitado confortavelmente nos braços fortes do irmão.
Lucas sorriu para os dois, sabendo que tomariam caminhos opostos.
– Bom, eu vou indo, Kale já deve estar bem preocupado comigo... — Começou, ajeitando a sacolinha na mão. Olhou de Nicholas para Antony. — Nos vemos por aí, certo?
– Se não nos esbarrarmos por aí, até a competição. — Antony, curto e grosso, respondeu, ajeitando Nick nos braços. Lucas assentiu, acenando para os dois, vendo Tony dar meia volta e seguir em direção à praia.
Foi diretamente para casa após isso, despejando as coisas sobre a mesa da sala, ouvindo o chuveiro ligado em companhia de um mal cantor Kale. Pegou seu iogurte e decidiu fuxicar na internet, não conseguindo reprimir um sorriso ao perceber que havia recebido uma notificação de amizade de Antony Thomas.
***
Assim que abriu a porta do apartamento de Luana, Kai não perdeu tempo ao retirar sua camiseta. Estava podre e a coisa que mais precisava era de um banho – com água tratada e quente, sabonete e xampu. Jogou-a num canto da sala e se encaminhou para o banheiro assim que conseguiu uma toalha limpa e um sabonete novo.
Kai não sabia direito se gostava ou se odiava tomar banho. Claro, do ponto de vista higiênico, era mais do que necessário, visto que morava num lugar extremamente quente e que suava como um bode velho todos os dias.
Mas, do seu ponto de “vista”, tomar banho era como explorar a si mesmo. Pois bem, ele nunca havia se visto na vida, mas podia imaginar como era ao se tocar durante o banho. Sabia que era magro, ossudo e que não possuía bíceps salientados. Sabia que seu cabelo era razoavelmente comprido (e que estava na hora de cortá-lo) e que tinha pelos por todos os cantos.
Mas, Kai, assim como qualquer outro jovem da sua idade, adorava a ideia de explorar determinada área do seu corpo. Obviamente, para um jovem que podia ver, aquele tipo de coisa era fácil de se realizar e imaginar. Bastava lembrar-se de algum vídeo ou situação, e lá estava a barraca armada.
A técnica de Kai já era um pouco diferente. Acessava sites específicos para essas atividades e simplesmente ouvia com atenção o que os participantes diziam ou… Grunhiam.
Encostou sua testa no azulejo frio do banheiro, sentindo a água quente bater diretamente em sua nuca, logo se derramando lenta e relaxantemente por toda a parte posterior de seu corpo, esquentando suas omoplatas, quadris, nádegas e coxas.
Kai deslizou sua mão por seu abdome, acariciando lentamente sua pele aquecida. Afastou um pouco suas pernas, pressionando bem os olhos quando envolveu seu membro ainda adormecido com cuidado. Então, lenta e inexperientemente, Kai iniciou uma massagem prazerosa em si mesmo. Soltou o ar dos pulmões com força, o vapor da água quente tornando aquilo estranhamente sensual.
Sua outra mão deslizava por todo o seu corpo, acariciando sua coxa, apertando-a vez ou outra, para apenas subir novamente em direção ao seu pescoço. Sua boca estava entreaberta, soltando ofegos e gemidos baixos e tímidos, que eram facilmente ecoados por todo o banheiro.
Sua mão aumentava lentamente a velocidade da massagem, o polegar encarregando-se de pressionar sua glande, desenhando círculos estrategicamente localizados. Kai gemeu quando circundou um de seus mamilos, esfregando-o avidamente enquanto pressionava suas pernas, a testa dolorida de tanto ser forçada contra o azulejo.
Muitas vezes Kai, por ser alguém com deficiência, era colocado numa posição “angelical” da sociedade, como se não possuísse libido algum e, consequentemente, nenhuma vontade de fazer sexo. Mas o que acontecia era justamente o contrário: Kai era um jovem normal de dezoito anos, possuía hormônios e órgãos (pelo menos, a maioria deles…) normais e funcionais como qualquer outro garoto da idade. Não havia motivos para ele se sentir desinteressado sexualmente.
Pressionou ainda mais os olhos, aspirando o cheiro adocicado do sabonete perto de si, sentindo-se inebriado por alguns instantes, pressionando ainda mais seu membro nos dedos. Suspirou, recordando-se dos gemidos das atrizes que já ouvira, seus suspiros, as falas desbocadas e o som do choque de corpos.
Seu corpo estremeceu todo, um arrepio prazeroso escorregando por sua coluna, transparecendo em sua pele. Kai conseguiu imaginar a tez delicada e macia sob os dedos, ouvindo ao longe o som libidinoso saindo daquelas bocas perfeitas.
Conseguia sentir o clímax aproximando-se, e a cada segundo que se passava, acelerava mais o movimento de suas mãos. Mordeu os lábios com força, ofegando mais e mais. Era quase como se pudessem tocá-lo, ali, naquele exato instante, de tão reais que estavam sendo aqueles sons retumbando em sua mente.
“Kai”. Mordeu ainda mais forte os lábios, juntando os joelhos, o corpo todo estremecendo com aquele simples chamado. Não era, nem de longe, feminino — era grave, rouco. Mas, mesmo assim, conseguiu atingi-lo mais do que qualquer outra voz que já ouvira até agora em seus mais profundos anseios fantasiosos.
Levou um susto tremendo quando a sensação e a lembrança de ser envolvido pelos braços de Kale tomaram-lhe a mente. Era como se o surfista estivesse ali, abraçando-o por trás, chamando-o rouco e gravemente, a sensação áspera e estranhamente boa de sua barba mal-feita roçando atrás de sua orelha.
Um gemido mais alto se pronunciou quando seu clímax chegou. Suas pernas ficaram mais moles que macarrão, e por muito pouco não cederam. Kai ficou ali, apoiado aos azulejos, completamente incrédulo, tentando processar o que havia acontecido e o porquê daquilo ter acontecido.
– Ah, não… — Murmurou para si, completamente chocado e assustado, encostando suas costas na parede fria.
Kai estava louco, e esse era o único motivo para isso ter acontecido…
Bem, ao menos era o único motivo plausível.
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