De Coração
8 Shakespeare e Beijos
Notas iniciais
Kale e Kai não conversavam (nem por mensagem, ligação, pessoalmente…) há exatos quatro dias. Ambos hesitavam para mandar um simplório "oi"; Kai tinha mais motivos de hesitar que Kale (já que o surfista havia contribuído parcialmente com o seu desarmamento), mas, inesperadamente, quem hesitava mais era o próprio surfista.
Em plena sexta-feira, oito da manhã, Kale decidiu esfriar a cabeça e não pensar (coisa na qual era muito bom). Decidiu deixar as coisas rolarem naturalmente, sem tentar esquentar os miolos pensando em soluções para o seu problema.
E a melhor forma de se fazer isso? Obviamente, era surfando, coisa que mais amava fazer em toda a sua vida.
Lucas, que se sentia um mofo no apartamento, decidiu ir junto com ele. Então, às oito da manhã, lá estavam os dois, num dos litorais havaianos mais lindos do estado — talvez, até mesmo do mundo. O míope aproveitou para tirar muitas fotos daquela vista paradisíaca, vendo a transição plácida de turistas e nativos pela praia.
A competição iria ocorrer dali a pouco menos de duas semanas, e o palco aonde os jurados iriam se alojar estava quase pronto. Alguns coqueiros haviam sido movidos, dispostos estrategicamente próximos ao palco, resguardando o local de incidência solar.
Kale se desfez da camiseta, jogando-a para o míope, livrando-se em seguida da bermuda. Lucas olhou para os lados, cético, vendo aquela grande movimentação de pessoas ao redor deles, porém nenhum pingo de pudor do amigo.
– O que você está fazendo?! — Indignou-se, chocado ao vê-lo jogar a bermuda em sua cara. — Kale! É um local público! Tomara que você seja preso por atentado ao pudor, seu desgraçado! — Bradou em plenos pulmões quando o viu correr com a prancha sob o braço esquerdo em direção ao mar.
Muitas pessoas se chocaram ao vê-lo correndo quase nu para o mar, mas poucas delas reclamaram, de fato. O surfista mergulhou de cabeça nas águas plácidas, a prancha posta sob si, acompanhando o movimento de seu corpo. Sentiu a iminente onda de tranquilidade que o mar lhe trouxe, logo emergindo à superfície com uma golfada de ar.
Seus músculos braçais trabalhavam para remá-lo sobre a prancha, acostumados com aqueles movimentos, sempre rígidos, acabando por ficarem úmidos e amorenados. O amanhecer estava espetacular, a água beirando os vinte e sete graus acomodando-o como o melhor lugar na Terra, e nada no universo poderia fazê-lo se sentir tão bem como o mar.
Assim que chegou longe o suficiente, próximos às ondas já mais fortes, Kale apoiou-se em sua prancha e deixou os joelhos na parte de trás dela, usando em seguida toda a sua força nos músculos do abdome e das pernas, levantando os quadris e logo ajustando seu pé direito ao meio e o esquerdo atrás, a uns vinte centímetros da borda traseira de sua prancha.
Só necessitou manter o equilíbrio. Kale, mesmo depois de tantos anos, não conseguia se cansar daquilo. Somente suspirou, semicerrando os olhos e dando uma espiada na praia. Seguia o ritmo de uma onda razoavelmente fraca e inicial. Podia, ainda ali, enxergar aquele pontinho de fios negros com camiseta verde, mais conhecido como Lucas. A praia estava pontilhada com turistas, todos eles com camisetas floridas e câmeras em mãos, apontadas para o mar — talvez até mesmo para ele, visto que não havia muitos surfistas àquela hora.
Kale inclinou-se um pouco, saindo da rota que aquela onda estava traçando, pulando-a com um movimento preciso e seguindo em direção a uma maior, que estava em formação. Quando chegou perto, conseguiu senti-la empurrando-o, a borda da prancha se levantando ligeiramente, o corpo se inclinando estrategicamente, os dedos dos pés apertando-se sobre a superfície úmida da prancha. O som gostoso das ondas se revirando, chocando-se e criando espuma encheu sua cabeça, como se houvesse um ampliador em seus tímpanos.
Aquela onda não era uma das maiores, mas isso não significava que ela era pequena. Kale manteve o equilíbrio enquanto ela ia crescendo, sentindo-se deslizar suavemente por sua superfície plácida e instável. Inclinou-se um pouco mais, pegando velocidade para subir, os braços bem posicionados para que conseguisse realizar uma de suas manobras preferidas: off the top, que consistia, basicamente, em chegar ao topo da onda, agachar-se na prancha, e deslizar lateralmente por ela, chegando novamente à base com mais velocidade.
Obviamente tinha cuidado com os braços, pois qualquer movimento extra poderia fazê-lo facilmente cair. Respirou fundo, retirando alguns fios do rosto, jogando-os para trás enquanto sentia-se sendo empurrado por uma segunda onda. Com a velocidade que conseguiu atingir, não foi difícil subir e descer sobre ela, sua prancha deslizando doce, suave e controladamente; Kale agachou-se, tomando impulso e subindo até o topo daquela onda, saltando completamente, girando o corpo, os pé e trocando a posição dos pés, um aéreo lindo, que foi muito bem executado quando o surfista caiu como uma pluma na prancha novamente, esticado, o tronco ligeiramente inclinado para frente.
Lucas, que estava caminhando pela areia úmida observando o desempenho do amigo, revirou os olhos ao assistir aquilo e ouvir uma salva de palmas de muitos turistas e telespectadores que estavam encantados ao ver Kale surfar.
– Hm, exibido…– Grunhiu para si mesmo, acionando sua câmera digital e dando certo zoom, enquadrando Kale. — A posição das pernas tá ruim e o tronco meio torto, como não caiu, sortudo filho da puta? — Continuou a resmungar, desta vez rindo e tirando algumas fotos do amigo.
Lucas afastou-se da beirada, encaminhando-se para o centro da praia, ainda observando as fotos com nostalgia. Jogou a camiseta de Kale na areia e sentou-se em cima dela, deslizando os dedos por baixo de sua própria veste, hesitante defronte à ideia de retirá-la. Lucas não gostava nadinha de ficar sem roupa perto de outras pessoas. Era um poço de insegurança, ainda machucado emocionalmente desde o dia em que sofreu aquele acidente.
Mesmo assim, tirou a camiseta rapidamente, para que ninguém notasse, e dobrou-a discretamente, olhando para os lados, flexionando sua perna boa. Sua ideia inicial era ficar alguns momentinhos naquele sol fraco da manhã, para pegar uma corzinha básica.
Coçou o bíceps, ainda meio envergonhado em relação a si mesmo, mas ignorou (ou tentou ignorar) isso. Pegou seu celular e logo fotografou a vista paradisíaca que estava a sua frente, não perdendo tempo e postando as fotos em redes sociais. Gostava de fotos, principalmente de tirá-las, mas odiava aparecer nelas. A câmera era para fotos em conjunto, que tiravam no objetivo de revelá-las em seguida, e o celulador de Lucas, obviamente, era para um fim mais pessoal.
Arqueou uma sobrancelha quando recebeu uma notificação avisando-o que curtiram uma de suas fotos.
– Eu acabei de postar… — Resmungou, perguntando-se o quão viciado aquele povo poderia ser. Lucas não poderia levar susto maior quando leu que Antony Thomas havia curtido uma foto sua. Ficou estático, encarando com ceticismo aquela notificação.
Não soube exatamente quanto tempo ficou ali, idiota, encarando aquela mensagem, porque só acordou para a vida quando sentiu uma gota d’água cair em seu pé. Piscou, atônito, olhando para cima e encarando um Kale encharcado.
Obviamente seu momento de magia acabou quando viu aquilo.
– Tô vendo suas bolas daqui, Kale — grunhiu, desligando e guardando o celular, espremendo os olhos por conta da luminosidade. — Você sabia que sua cueca é branca, né? Acho que o povo ali tá adorando tirar umas fotos da sua bunda.
O surfista riu com gosto, olhando para os lados e dando de ombros.
– Não tenho culpa se sou gostoso. — Gracejou, rindo mais ainda quando Lucas atacou sua bermuda em sua cara. Vestiu-a rapidamente e observou-o com curiosidade. — Pera aí… Lucas Rodrigues sem camiseta?!– Alarmou-se, fazendo o maior teatro. — Jesus, é hoje que chove! — Ergueu os braços exageradamente. O míope apenas revirou os olhos, cruzando os braços, extremamente incomodado com a atenção que eles estavam recebendo.
– Seu imbecil, cê tá chamando muita atenção, vamos embora… — Grunhiu, tentando se levantar com certa dificuldade.
Kale, notando o esforço do outro, esticou a mão para ajudá-lo, e Lucas acabou aceitando de bom grado. O míope entregou a camiseta suja de areia para o surfista, que fez uma careta ao recebê-la.
– Eu vou esfregar a sua cara na areia, quero ver se você vai gostar — resmungou, vestindo-a mesmo assim. Mas, quando Lucas passou na sua frente, Kale aproveitou a chance para cutucá-lo com o “bico” da prancha na base da coluna, quase na nádega.
Lucas tomou um susto, dando dois passos rápidos para frente, virando-se com a mão sobre o local cutucado, um olhar ferino preenchendo seu rosto. Kale riu, não encontrando maldade na ação além de importuná-lo.
– Sabe o que você faz com essa prancha, Kale? — Mastigou as palavras, pronto para cuspir na cara do surfista, que apenas encolheu os ombros e riu pelo nariz, como se fosse uma criança levando sermão. — Pega ela e engole, para te rasgar ao meio — grunhiu, passando de normal para mal-humorado em questão de cinco segundos. Casual, pescou o celular do bolso da bermuda e leu novamente a notificação que Tony havia curtido uma foto sua.
Lucas odiava se sentir daquela forma. Curtir uma foto era um ato idiota, besta e casual, que você faria com até desconhecidos; mas tinha um peso grande e singelo para ele, principalmente por vir de Antony — um de seus maiores defeitos era, sem dúvidas, se importar demais com coisas pequenas.
O surfista, notando que Lucas devaneava ao encarar o celular, espiou por cima de seu ombro, tentando saciar sua curiosidade. Abriu um sorriso de quem sabe demais das coisas ao ler aquela notificação.
– Lucas atacante… — Gracejou com malícia, erguendo uma sobrancelha ao encará-lo.
O míope deu um pulo, assustado por ser acordado de seus devaneios tão de repente, guardando o celular depressa.
– Cala a boca! — Grunhiu, mordendo os lábios, extremamente embaraçado.
– Antony Thomas, é? — Começou, fazendo uma ondinha com as sobrancelhas. — Por isso que você estava todo felizinho esses dias, né, seu safado?
Lucas não conseguiu. Abriu o maior sorriso culpado do universo, fazendo Kale entreabrir a boca, chocado e surpreso.
– Ah, eu sabia! — Começou, empurrando-o com o ombro, os olhos arregalados de curiosidade. — Há quanto tempo você vem pegando ele?
– O quê? Não, cala a boca! — Riu de nervoso, evidentemente constrangido. Acabou por explicar toda a sua situação com Antony Thomas para Kale, que apenas o ouvia com atenção. — Ele tem um irmãozinho, aliás, e acho que ele é o responsável por fazer eu e Tony conversarmos… — Retomou, acompanhando o amigo quando ele foi de encontro ao sorveteiro.
– Nick, certo? — Kale perguntou, entregando uma nota de cinco dólares ao dono do carrinho, que lhes entregou um picolé de melancia e um sorvete de chocolate. — Obrigado — agradeceu, sorrindo, logo retomando à caminhada.
– Aham — Lucas assentiu, pegando o sorvete da mão do amigo e abrindo-o. — Ah, aproveitando o assunto, você conversou com o Kai? — Perguntou despreocupadamente, mordendo o doce.
Kale suspirou pesadamente, pendendo a cabeça para o lado, como se um peso de noventa quilos caísse de repente em sua cara.
– Não… — Resmungou, triste. Mas, Kale, como num surto, arregalou os olhos, virando para encarar Lucas como se tivesse a ideia do século. — Quer saber? — Parou de andar, pegando seu celular, começando a discar e, como um morto de fome, enfiando metade do picolé na boca. — Vou ligar pra ele, foda-se. — Falou meio engasgado por conta do doce.
Lucas ergueu as sobrancelhas, rindo de lado.
– Tá, e vai falar o quê?
– Vou bancar a moça carente, vou falar mesmo que tô com saudade, que quero conversar com ele, que sinto falta das piadinhas sem graças dele, que quero encontrá-lo hoje mesmo pra gente conversar. — Despejou, franzindo as sobrancelhas, mordendo o picolé e logo arrependendo-se quando seus dentes gelaram e tremeram.
A única coisa que Kale não esperava, era o fato de que Kai já havia acordado há tempos, e que atendeu ao telefone no instante em que o surfista começou a dizer “tô com saudade”, acabando por ouvir tudo. Não resistiu: soltou uma risadinha, ainda meio que constrangido.
– Por mim, tudo bem. — Disse, assustando Kale, que deu um pulo, quase deixando o celular e o picolé se espatifarem no chão. Kai ouviu aquela exasperação do outro lado da linha, e limitou-se a rir rouco. — Tô sozinho na casa da Luana, você sabe onde é, não quer vir aqui?
Sim, Kai estava passando por cima de seu constrangimento; caso não abrisse a boca sobre o ocorrido, nunca que Kale iria saber. O surfista entreabriu a boca, olhando, pálido, para Lucas.
– Ow, eu tenho que te ajudar em alguma coisa hoje? — Perguntou para o amigo, que apenas encarava-o, presunçoso, um canto da boca sujo de chocolate.. Quando Lucas deu de ombros, Kale suspirou. — Tô indo praí agora. — Anunciou, desligando o telefone logo em seguida, não dando chances para Kai mudar de ideia. Lucas lançou a Kale um olhar sabido, pegando a prancha do surfista, um sinal implícito de que cuidaria dela enquanto estivese fora. — Valeu, Lucas, te trago alguma coisa na volta — avisou, começando a andar rápido para a faixa de pedestres.
– E depois ele tenta negar… — O míope resmungou, revirando os olhos e caminhando em direção ao apartamento.
***
Kale chegou como um trem bala no apartamento de Luana, apoiando-se no portão e enviando uma mensagem a Kai, avisando que já havia chegado. Instantes mais tarde, o mais novo apareceu no hall de entrada do apartamento, descendo os poucos degraus com a ajuda de sua fiel escudeira, encaminhando-se ao portão.
– Você veio rápido, tava na vizinhança? — Indagou assim que chegou perto do surfista, entregando as chaves a ele por entre as barras pintadas. Ouviu o portão ranger e se surpreendeu quando Kale abraçou-o com força, afundando o rosto em seu cabelo desgrenhado.
O surfista adorou o cheiro adocicado do xampu de Kai, apertando-o com mais força entre os braços molhados, realmente saudoso. Só não notou que simplesmente estava esmagando o pobre coitado, que ria consigo mesmo, pego completamente de surpresa, perguntando-se o porquê de Kale ser sempre tão gelado.
– Pensei que você iria bancar a moça carente e dizer que sentiu minha falta. — Disse, quebrando o clima. Ouviu a risada de Kale contra a sua cabeça. — E aí? Não vai me dizer? — Cutucou-o, inabalável na arte de atiçar os outros.
Kale sorriu, afastando-se um pouco, encostando seus lábios na orelha de Kai, para apenas sussurrar, rouco:
– Senti sua falta. — Voltando a apertá-lo contra seu corpo úmido.
O garoto ficou entre chocado e absurdamente arrepiado, com pensamentos do episódio onde chegou ao ápice lembrando-se dos toques de Kale inundando a sua mente. Tamanha sua perplexidade, acabou dando uma bengalada na canela de Kale, completamente impulsivo e elétrico.
O surfista deu um berro, largando Kai imediatamente, extremamente magoado, acariciando sua canela freneticamente, encarando o mais novo e perguntando-se o que havia feito de errado.
– O qu-
– Vamos entrando, Kale, acho que o bolo de chocolate tá queimando… — Anunciou com ênfase, começando a andar com naturalidade. O surfista decidiu deixar para lá aquela questão e se concentrar em outra:
– Você cozinha? — Perguntou, os olhos esbugalhados, acompanhando, manco, os passos rápidos do mais novo para dentro do apartamento. Kai riu enquanto se dirigia ao elevador, adentrando sem demora na cabine, sentindo a presença do outro (molhado) perto de si.
– Aperta o quatro — pediu, mantendo a bengala entre as pernas. Kale prontamente pressionou o númerozinho azul, voltando e encarar o garoto. — Sim, cozinho… Quero dizer, não sai uma comida maravilhosa como a do Manu, mas é mais comestível que concreto… — Deu de ombros. — Por quê?
Kale encolheu os ombros, metendo as mãos no bolso da frente de sua bermuda, constrangido.
– Desculpa a minha ignorância, para mim cegos não cozinhavam. — Admitiu, achando-se idiota por pensar que deficiência visual eliminava as atividades culinárias.
– Tudo bem — Kai deu de ombros, indiferente à questão. — É normal esse tipo de pensamento, Kale. Uma vez me perguntaram se eu tomava banho sozinho. — Riu-se, andando quando a porta do elevador abriu. — Quase perguntei se a pessoa achava que eu ainda bebia leite no peito da minha mãe.
Kale gargalhou, tentando reproduzir a cena na sua cabeça. Ainda sorria quando entrou no apartamento seguindo Kai, que fechou a porta e fez um gesto amplo, mostrando o apartamento.
– Bem-vindo ao apartamento da Luana. Manu odeia este lugar porque ele me disse que as paredes são rosas. — Anunciou, tirando as sandálias e preferindo andar descalço pelo local. — Ele insiste em me dizer, mesmo eu argumentando que não sei o que é rosa… — Encerrou, caminhando em direção à cozinha.
Kale olhou em volta, não achando nada demais as paredes rosas bebê, os diversos quadros de paisagens e as cortinas paparicadas com borboletas. Era um local feminino, mas extremamente aconchegante, os sofás de tecido com almofadas roxas cheias de coraçõezinhos, os tapetes de bolinhas brancas, o piso de madeira.
– É um local bem feminino… — Disse, mirando um porta retratos com a foto dos três: Kai estava bem no meio, sendo esmagado pelos dois num abraço apertado e cheio de afeto. Sorriu, pegando o objeto, olhando-o com atenção. Kai parecia extremamente feliz na foto, mesmo sendo esmagado; Manu mantinha o rosto feroz, mas Kale conseguiu ver um vestígio de sorriso brotando dos lábios; e, Luana, como sempre, sorria abertamente, os braços curtos tentando abraçar aos dois.
Mas seu momento apreciativo acabou no instante em que uma coisa saiu correndo de um dos cômodos. Kale arregalou os olhos e deu um berro, assustado com a feiura daquilo. Afastou-se depressa, encostando as costas na porta, o bichinho do Demônio aproximando-se rápido, farejando o ar como se quisesse devorar sua perna. Era miúdo, pelado, magricela, a língua para fora sendo mordida por seus dentes afiados e desalinhados. Tinha uns pelos cinzentos e horríveis na cara, brotando da cabeça deformada, uma orelha mordida e a outra torta.
– Meu Jesus, Kai, que porra é essa?!– Pediu arrego diante daquele bicho, assustado quando ele se ergueu nas patas traseiras, apoiando-se em sua perna, farejando-o descontroladamente.
Kai apareceu da cozinha, alarmado com o tom hesitante do surfista.
– O que foi?!
– Tem um bicho que saiu do Inferno me farejando, acho que ele veio para me levar… — Dramatizou, apertando o porta-retratos no peito, fazendo caretas ao sentir as patinhas finas e frágeis apoiando-se em sua coxa.
– Ah! — Kai começou a gargalhar, sua ficha já caída. — Kale, essa aí é a Pono, a cadelinha da Luana. Ela estava dentro de um bueiro quando Luana a resgatou, há um ano. Manu fala que tacaram fogo nela e apagaram com paulada, por isso ela é “assim”. — Riu-se, dando de ombros. — Não consigo imaginar quão feinha ela é, mas, agora, com sua reação, imagino que ela seja mesmo… — Admitiu. — Mas, relaxe, ela é inofensiva.
– Bom… — Kale olhou-a mais um pouco. — Vendo por este ângulo, ela chega a ser um pouco simpática… O-olá… — Começou, esticando a mão para acariciá-la. — Favor não comer minha mão… — Disse, acariciando o tufo de pelo. — Ah, o.k., ela é simpaticazinha. — O surfista ergueu a cabeça quando notou uma coisa. — Kai, isso é cheiro de queimado?
Kai ficou parado por um instante, processando a informação. Quando finalmente sentiu o cheiro, deu um grito de desespero, correndo aos tropeços para a cozinha. Obviamente Kale não deixaria um cego pegar uma forma extremamente quente, correndo o risco de se queimar, por isso o seguiu correndo, a fim de ajudá-lo.
Kai estava ajoelhado em frente ao forno, sem pano, sem nada, já esticando a mão para abri-lo. O surfista empalideceu-se, praticamente se atirando no chão, pegando as mãos brancas de Kai e impedindo-o de abrir o forno. Mas Kale nunca foi a inteligência pura, então, quando foi abrir ele mesmo o forno, esqueceu-se de pegar um pano para proteger seus queridos dedinhos.
Se queimou, soltando um exclamação de dor enquanto escancarava o forno, uma fumaça preta escapando, inundando toda a cozinha. Kai tossiu, abanando na frente do rosto, confuso sobre o que havia acontecido. Podia ouvir os grunhidos de Kale ao se lado, e, preocupado, perguntou o que havia acontecido e se ele estava bem. A resposta que recebeu foi um:
– Me queimei e o bolo virou carvão — grunhido.
***
Kale estava sentado no sofá, apertando levemente os dedos, ainda com dor. Pono encarava-o freneticamente, o tufo de seu rabo balançando, como se estivesse excitada ao vê-lo ali. Kai retornou do quarto de Luana, trazendo consigo uma caixinha de primeiros socorros.
Sentou-se ao lado do surfista, abrindo a caixinha, tocando os objetos à procura de uma gaze. Kale já havia resfriado a queimadura leve e superficial sob a água corrente, e agora só precisava cobri-la.
– Dê a sua mão — pediu Kai quando achou a gaze. O surfista esticou o punho, sentindo o toque delicado dos dedos do mais novo apalpando sua mão, cobriando-a gentil e delicadamente com a gaze. Prendeu-a com fita adesiva, tomando cuidado para não prender forte demais e suspender a entrada de oxigênio na queimadura. — Melhor?
Kale suspirou, realmente agradecido.
– Sim, muito obrigado… E, desculpa pelo bolo, se eu não tivesse te chamado aquela hora com a Pono, nada disso teria acontecido.
Kai sorriu, acariciando o pulso de Kale quase que inconscientemente.
– Tudo bem. Mas você está me devendo um bolo de chocolate. — Gracejou, sentindo quando Pono apoiou as patinhas frágeis em cima de sua perna.
Kale concordou com os termos, rindo, vagando a cabeça por entre a estante recheada de Luana. Arqueou as sobrancelhas quando leu “Romeo e Julieta — Braille”. Seguiu para o livro ao lado: “Otelo, o Mouro de Veneza — Braille”, e para o outro “Hamlet — Braille”, “Macbeth — Braille” para o último: “Sonho de uma Noite de Verão — Braille”. Kale ficou boquiaberto.
– Olha só, alguém aqui é fã de Shakespeare… — Começou, realmente impressionado.
Kai arqueou os cantos da boca, encostando-se preguiçosamente no sofá.
– Culpado. — Gracejou — e olha que estes são apenas uns poucos que eu trouxe para a casa da Luana. Tenho todos as obras de arte de Shakespeare, desde audiobooks até amostras físicas em casa… — Deu de ombros. — Sou sim um fã de carteirinha… Mas, quero dizer, não leio apenas Shakespeare. Gosto de Camões, Tolstoi… E, hm, um pouquinho assim – deixou o dedo indicador e polegar próximos — do revoltadinho Poe…
– Ah, meu Deus, temos um nerd entre nós. — Kale realmente se impressionou; Kai era somente um bichinho adorável e, quando estava sem a bengala, inofensivo, porém tinha um gosto bem peculiar para livros.
– Por quê? Você tem algum problema com nerds? — Indagou, procurando uma posição mais confortável no sofá, seu joelho roçando no joelho do surfista (era, como sempre, gélido).
– Muito pelo contrário! — Kale antecipou, não querendo passar uma mensagem errada. — Aliás, meu melhor amigo é nerd. Pra você ter uma ideia, o Lucas já fez faculdade de contabilidade. Tem coisa mais nerd que faculdade de contabilidade? — Riu-se, olhando mais uma vez para a estante. — Eu sempre quis ver um livro que é composto por braille… — Admitiu, assustando-se quando notou que Kai se levantou do sofá.
– Não seja por isso… — Começou, encaminhando-se com habitualidade à estante, esticando o braço e passando os dedos pela lateral dos livros, sentindo-os. Quando tocou em Romeo e Julieta, o pegou, voltando a se sentar no sofá. Kale sorriu, aproximando-se do mais novo, que havia sentado como um indígena, abrindo o livro. — Aqui, convosco, Romeo e Julieta para cegos… — Sorriu, mostrando as páginas em branco recheadas de bolinhas salientes.
Kale inclinou-se mais, passando um braço por trás das costas de Kai, apoiando-se quase jogado em cima do garoto, observando com atenção o livro. Folheou, colocando numa página aleatória, passando a mão sobre elas.
– É gostoso ficar passando a mão pelas bolinhas…. — Disse Kale, avulso.
– As “bolinhas” se chamam células… — Explicou o garoto, pegando a mão do surfista e esticando seu dedo indicador. — Aqui, me acompanhe, é fácil… — Kai deslizou os dedos pela página. — Ah, é uma cena bem clássica. Veja… — Começou, pressionando o dedo do surfista numa célula. — “J” é assim… Um único ponto abaixo, à esquerda, e dois pontos à direita. — Explicou, fazendo o mesmo com todas as letras que compunham “Julieta”. Kale não prestava atenção em nada. Só encarava Kai, que mantinha o rosto sério, como se apreciasse explicar a ele o que cada símbolo significava. — Assim… Podemos ler nesta cena “Sim, peregrino…” — Continuou, deslizando o dedo de Kale pelas células. — “Lábios que eles devem usar.” Óh, a fala trocou, agora é o Romeo… “Ah, então, minha santa criatura, permite que os lábios façam o que as mãos fazem…” Veja como o “ponto e vírgula” é usado, agora, com dois pontos à direita. “Tens de concordar comigo em que elas se unem em prece, para que a fé não se transforme em desespero.” Viu? É fácil, só tem que decorar…
Mas Kale não prestou atenção em nada. Seus olhos estavam presos no rosto plácido de Kai, quase prisioneiros. Não conseguia desprender sua atenção de seus lábios, que se moviam de maneira vagarosa, e nem da sensação cálida de seus dedos finos pressionando seus próprios.
Então, quase subitamente, como se levasse uma rajada no rosto, Kale teve uma quase incontrolável vontade de beijá-lo.
Bem ali, naquele instante. Teve um desejo voraz de esmagar os lábios de Kai usando seus próprios, de circundar sua cintura usando os braços, de pressioná-lo com força contra o sofá e simplesmente beijá-lo, de chupar seus lábios até deixá-los inchados, de fazer Kai se perder enquanto o apertava fortemente, deixando seu rosto alvo vermelho por conta da barba mal feita.
Era exatamente isso o que queria fazer com Kai.
Teve um colapso de sanidade quando sentiu seus dedos serem apertados por ele. Olhou-o, assustado, pensando como poderia pensar uma coisa dessas de uma criatura tão… Adorável.
Sentiu-se um velho necessitado ao olhar para criancinhas inofensivas. Engoliu em seco, piscando repetidas vezes, chacoalhando sua cabeça como se pedisse a si mesmo para acordar para a vida. Kai sentiu aquela movimentação brusca do surfista.
– O que foi isso? — Indagou, sorrindo. — Teve uma síncope tamanha sua emoção? Eu sei que é um trecho impactante, mas não é para tanto…
– Não é por causa do trecho… — Disse, sorrindo enviesado; todos os seus problemas desapareceriam caso fosse. — Mas, Kai, puxa, já são quase meio dia, eu preciso mesmo ir. — Começou, levantando-se.
Kai pareceu levemente desapontado.
– Já? Mas você acabou de chegar… Nem te mostrei minha coleção de audiobooks ainda.
– Fica para outro dia, o.k.? — Prometeu, esfregando a cabeça pelada de Pono — até mais, menina… — E, inclinando-se perigosamente, segurou com ambas as mãos a cabeça do garoto, dando-lhe um beijo gostoso na bochecha, a barba causando cócegas no mais novo. — Até mais, Kai.
– Ah, hm, até… — Despediu-se, ouvindo os passos arrastados de Kale até a porta. Ouviu quando ela se fechou, afundando no sofá, colocando uma mão sobre o peito, que parecia completamente fora de controle. Sentiu o rosto esquelético de Pono em seu antebraço, implorando por um carinho, mas a única coisa que Kai conseguiu fazer foi suspirar, completamente perdido em pensamentos.
Fale com o autor