De Anima

1 O mundo humano


Notas iniciais
Em Seltece*, no Império de Ronefin*

Eu acompanhava meus irmãos até o salão principal do palácio real, onde o rei e a rainha nos esperavam. Os corredores continuavam com as longas cortinas fechadas, e por isso eram sempre escuros, nunca sabia dizer se era dia ou noite. Durante o longo trajeto as empregadas continuavam a me encarar, como sempre faziam, mas dessa vez não era por causa de eu estar andando ao lado de meus irmãos, mas sim porque nossos pais nos convocaram, elas temiam algo. O reis de Ronefin me olhavam com um olhar sério e frio de sempre. Mamãe nem ao menos se dava ao esforço de olhar para mim ou me dirigir uma única palavra, mas sempre que Kay estava presente ela era horrivelmente carinhosa com ele, como se fosse seu único filho.

– Ah, meu querido Kay — a rainha demonstrava um sorriso gentil ao meu irmão mais velho e se aproximava dele — Tenho algo muito importante para lhe informar — Ela pousou a cabeça sobre o peito de Kay e sussurrou algo que pouco me importava.

– Madrasta maldita — sussurrei para mim mesma.

A rainha pareceu me ouvir, pois logo comecei a sentir dores mas minhas marcas nas pernas.

Aquela bruxa, sempre se aproveita de mim… Seduziu meu tolo pai e agora acha que tem poder sobre o reino dos demônios.

– Cale-se filha de humana insolente! — Ela vociferou e ecoou pelo salão principal, minhas dores apenas aumentavam — Você é apenas a pobre filha de uma humana meretriz!

Minhas marcas na perna em forma de cobras agora andavam pelo meu corpo e me apertavam cada vez mais. Quanto estavam quase enroladas em meu pescoço, prontas para me sufocar, papai se intrometeu. Ele tocou em meu ombro, o que fez as tatuagens de cobras voltarem para seu devido lugar: minhas pernas.

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Fui obrigada a ser trancada em meu quarto pelo resto da semana, sempre que digo algo sobre a Rainha recebo a mesma punição. Chega até a ser chato.

Sentei em minha mesa de mármore e abri meu livro, um que papai comprou para mim de um mercador suspeito. Novamente voltei a escrever nele.

“Então, sem ter o que fazer e acorrentada as correntes da maldosa rainha, Mira estava a um passo da morte, seus dois irmãos estavam sendo feitos de reféns enquanto ela profanava aos ouvidos de Kay para hipnotiza-lo, assim como fez com o nobre imperador…”

Ouvi um barulho na sacada e rapidamente fechei meu livro, as cortinas obstruíam minha visão e apenas a silhueta do invasor aparecia. Já era o suficiente para saber quem estava lá.

– Adrielle, o que faz aqui? — Perguntei guardando o livro em uma das gavetas da mesa.

– Q-que? E-eu não estou aqui! — Vi ela se esconder em um canto, mesmo assim ainda via sua luz.

– Estou de castigo até o resto da semana, ninguém sai e ninguém entra, essas são as regras da rainha. — Abri a cortina para ver Adrielle melhor. Ela não estava lá.

– Jura? Você? Obedecendo aquela velha?

Rapidamente olhei para trás, e lá estava minha prima. Sentada em minha cama, comendo meus biscoitos.

– Ela é a imperatriz depois de tudo

– Não. Ela é apenas um anjo que tem a capacidade de controlar suas cobras, tirando isso ela é apenas a rainha

Assistia ela dizendo várias coisas que Sarah “apenas” era e o que era capaz de fazer, a cada palavra ela sujava ainda mais meus lençóis enquanto comia meus biscoitos.

– Adrielle pare.

– O que foi? Eu sei que sendo a imperatriz, digo, rainha ela pode te penalizar mas é só isso, não é como-

– Estou dizendo para PARAR DE COMER EM CIMA DA MINHA CAMA, SUA DESGRAÇA EM FORMA DE ANJO!!!

Acabei me irritando, ela sabe muito bem que gosto de minhas coisas limpas e arrumadas. E como sempre: despertei a “sombra”. Um espirito que traz a escuridão por onde passa, Mihael diz que ele mora dentro de mim, por isso, quando fico irritada ele acaba despertando e destruindo tudo ao meu redor…

Dessa vez apenas meu quarto foi destruído pela “Sombra”, Adrielle desapareceu e mamãe me culpou por isso — até parece que realmente se preocupou com o desaparecimento dela.

A punição dessa vez foi ficar de castigo durante cinco anos celestiais, ou seja, cinquenta anos de castigo. Como não tenho mais um quarto, terei que ficar presa em um lugar desconhecido e assustador…

O mundo humano.

Notas finais
Seltece: Mundo dos Mortos em De Anima Ronefin: Império dos Demônios em De Anima (e também onde vai às almas de humanos que fizeram mal em vida)