De Anima
2 Shinigami
Notas iniciais
A goteira que caia perto de mim me acordou em meio da noite, respingando em cima do meu rosto, ainda estava muito escuro, mais além dos muros do beco onde me encontrava, havia uma luz vermelha andando de um lado para o outro, ouvia um som alto e irritante, mas o melhor de tudo: sentia uma alma se esvaindo de seu corpo, logo seria apenas uma concha.
Fui andando lentamente até a entrada do beco. A primeira coisa que me chamou atenção foi uma carruagem. Não as que eu costumava ver em Ronefin, mas uma carruagem completamente branca com um sinal de cruz vermelha na lateral, e o mais estranho de tudo era que ela não era guiada por cavalos. Aproximei-me da estranha carruagem humana e logo mas perto havia um homem morrendo, era pequeno e carregava algo, ele vestia roupas muito gastas, seu cabelo estava embaraçado. Se assemelhava aos escravos do palácio real. Outros homens tentavam reanimá-lo. Em vão. A criança já não mais vivia.
Ah! Um sentimento tão bom novamente, uma pequena alma, mas o suficiente para satisfazer minha fome de vida.
Todos param. Havia uma mulher chorando ao lado da carruagem humana onde se lia "Ambulância", um homem, como os que tentaram reanimar o menino, tentava consolá-la. Vi tudo aquilo com um sorriso no rosto, e por alguma razão... Tive um sentimento estranho no corpo.
Não era mais fome, sono ou ódio... Lágrimas corriam por meu rosto.
Me sentia... Triste?
– Miranda Elluer Deux Ronefin– Disse uma voz suave e acolhedora, leve e macia como seda, mas a mesma voz que eu detestava ter por perto — Quarta princesa do Império Ronefin, filha de Ronald Tamyn e Naomi Elluer, já falecida, irmã de Kay Solenux, Meia Solenux e Mikhal Deux, já faleci-
– O que você é agora? Um stalker? — Interrompi-o
– Cale-se filha de humana, nunca te reconheci como prima, ou mesmo parte da família imperial — A forte luz branca que descia do céu tomou forma de homem, meu primo usava um terno branco e seus cabelos loiros estavam bem penteados para trás. Ele veio em minha direção, ainda mantendo certa distância — Criaturas como você devem viver no décimo quinto distrito de Seltice
– Não me trate como lixo, primo — Encarei-o, sorrindo falsamente — O que você quer aqui? Crianças são o trabalho de Meia.
Levi me ignorava enquanto verificava seu pergaminho de nomes. Os nomes das pessoas que, por pouco, não morreriam naquela noite.
– Ei! Por que está aqui? — Novamente gritei, mas dessa vez joguei uma pedra em direção a ele, junto com minhas palavras. E ele simplesmente desviou.
– Pare com isso, tola, se não podem nos ver, não seria estranho que uma pedra simplesmente voasse?
– O estranho aqui é você! Por que não vai arrumar uma vida pra salvar, hein? Se você é o anjo que protege almas, porque não salvou a criança? Ela estava viva até há pouco! Você deveria ter chegado mais cedo, idiota!
– Eu salvo quem eu bem entender — Ele me olhava com desdém — Se você importava-se com ele, porque o matou?
Depois disso, Levi novamente desapareceu, do mesmo modo que chegou, ele partiu para o norte, provavelmente alguém morria lá a esta hora.
Quando me dei por mim, percebi. Eu não conseguia parar de chorar, como se a dor da perda daquela mulher estivesse sendo passado a mim.
Mal conhecia a criança. Então porque eu choro?
– Isso é porque você se sente ligada aquela criança.
Alguém aparecia por trás de mim, diferente da chegada de Levi, o estranho aparecera silenciosamente pela sombra. Ele era grande e peludo, suas pernas e braços eram pretos enquanto o resto era branco, ao redor de seus olhos estava preto, com o se tivesse levado um soco, carregava balões em uma das mãos, e com a outra tinha apenas um balão, dentro todos os balões brancos, aquele era o único preto. A figura na sombra se aproximava e logo reconheci meu irmão, apesar de estar em sua forma verdadeira, a que eu ainda não me acostumei a ver.
– Você sabe que não gos-
Meu irmão me interrompera, como sempre fazia.
– Miranda, você não devia comer almas do mundo humano — Meia veio mais a luz, onde podia vê-lo claramente, meu irmão mais velho havia se transformado em um panda– Levi veio aqui certo?
– Como sabe? — Hesitei ao declarar, evitando olhar para meu irmão — Ele estava bravo como sempre, porque eu matei a crian-
– Certo, você matou uma alma que deveria ser salva, e segundo a lei 10276, você deverá ser levada e julgada no Império Vidoni*.
Meia estourou o único balão negro que possuía, após isso foi embora.
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Não se passara nem uma semana e eu voltei para Seltece, mas dessa vez como acusada. Mantiveram-me acorrentada enquanto passávamos pela praça de Vidoni, todos aqueles anjos e as pouquíssimas almas de heróis me olhavam com curiosidade de nojo.
O palácio imperial de Vidoni era tão grande quando o palácio de Ronefin, mas lá não havia as cortinas grandes e grossas que atrapalhavam a entrada de luz, as empregadas não me observavam com medo e haviam mais pessoas lá. Chegando ao salão principal, o imperador me esperava. Era a primeira vez que eu veria meu próprio tio, e ele era igual ao meu pai, que também me olhava com frieza.
– A acusada, Miranda Elluer Deux Ronefin, está presente senhor – Disse um dos homens que me escoltou — Ela é acusada de assassinar uma alma sob a proteção do terceiro príncipe imperial de Vidoni, Levi Benvoly Vidoni.
Até então o imperador, meu tio, não havia se direcionado o seu frio olhar a mim tão diretamente.
– E pensar que um dia eu condenaria o sangue de meu sangue — Ele sorriu — Diga-me, filha, porque tomou a vida da pequena criança?
– Porque eu quis — Encarei o imperador desafiando-o
– Não é porque você é filha de meu irmão, que irei lhe darei um punição mais leve — ele apoiou a cabeça na mão direita e direcionou um sorriso sádico — Soube que perdeu sua tatuagem... O que acha de fazer o trabalho de Levi durante os seu cinco anos celestes de castigo?
– Prefiro ser jogada a correnteza do que trabalhar junto a ele!
– Então que seja jogada a correnteza.
O imperador deu sua ordem, e os guardas estavam prontos para me carregar até o penhasco da tartaruga.
Alguns anjos riam de mim, outros sussurravam aos ouvidos dos outros, mas todos se calaram quando o primeiro príncipe imperial de Vidoni chegou ao salão principal
– Pai, o que faz com minha prima? — O príncipe fechava o livro que lia.
O imperador permitiu que ele se aproximasse, e assim o fez.
– Sinto muito por você, meu filho, mas apenas estou impondo as leis do império.
– Ela não é uma criminosa, nunca foi além dos muros do palácio de Ronefin, como saberia que fez algo errado? Dê uma segunda chance a ela, pai.
O imperador não respondeu. Apenas ordenou que me soltassem.
– Pela piedade de meu filho, você, acusada, está livre, mas arcará com as consequências trabalhando como guia das almas no Mundo humano.
O julgamento acabou pela tarde e eu voltaria para o mundo humano sob a responsabilidade do primeiro príncipe. Agora eu não seria apenas uma exilada, tenho que trabalhar ao lado dos humanos, tomando sua vida. Sendo um...
Shinigami*
Naquela noite o céu está negro, e a lua, vermelha. Minha madrasta me privava do mundo exterior do palácio, contando com esta, é a segunda vez que saio das propriedades do império. A balsa nos levava para a maior ilha do Ronefin: Ilha Stige*. E de lá, eu partiria para o mundo humano.
Os monges do templo de Stige formavam um círculo ao redor de mim, todos eles diziam coisas em uma língua que eu não intendia.
– O que é isso? — Perguntei ao meu pai, que assistia tudo de camarote.
– Sua passagem para seu castigo — Sarah, minha madrasta, respondeu.
– E porque eu estou algemada e acorrentada? Vou apenas para um mundo de mortais, não é mesmo velha maldita? — Dei um sorriso malicioso.
Imperatriz Sarah se irritou, mas dessa vez minhas pernas não doíam. Minhas tatuagens de cobra não estavam mais em minhas pernas, no lugar delas havia, tatuagens de correntes.
O largo sorriso passou do meu rosto para o dela.
– Ora ora, querida descendente de mortal, agora é um eles de qual tanto desprezo.
Antes que me desse conta, já estava partindo para o mundo humano, a última coisa que vi foi meu pai com um olhar aliviado...
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