De Almas e Chamas
1 Prólogo
Notas iniciais
Até que morrer não era tão ruim assim.
Deitada de bruços sobre as costas ásperas do deserto, Wadije se deleitava com os últimos sopros de ar. Passou a língua seca sobre o lábio rachado, fazendo com que cada ferida ardesse como mil pontos de fogo. Não havia desespero, muito menos tristeza.
Era uma profunda paz em si. Ela buscara tanto aquela paz que nem acreditou ao senti-la tão fácil no peito, sem a menor cobrança. Quer dizer, talvez estivesse cobrando o preço de sua vida. Mas não se importava. Aquela pequena dose de morte se mostrava melhor do que vivera grande parte do tempo.
Lá no alto, o sol era uma bola imponente acima do seu rosto. A pele descascada queimava em carne viva. Depois de perder o contar dos dias sobre as dunas, começou a achar que a sensação era boa — a dor dizia que ainda estava ali; só não sabia dizer até quando.
A mão roçou no punho da espada jogada ao seu lado. Olhou-a de soslaio. A arma tinha uma lâmina do tamanho de suas pernas e uma largura superior ao próprio pescoço. Imaginou o que um andarilho pensaria ao vê-la, raquítica como estava, arrastando aquela coisa gigante pela areia. Tentou rir como ele riria; de fato, era uma visão ridícula.
Sorte a dela que ninguém a viu desde que fugira do navio pirata. Ainda conseguia sentir a terrível presença de Aro Fabul, o líder da tripulação, escoltando-a naquele mar de areia. Queria não pensar nele, não antes de morrer — gostaria que o corpo fosse apenas seu, ao menos naquele último momento.
A vista já era turva quando uma silhueta surgiu sob as ondas de calor. Wadije tinha apreciado várias miragens durante aqueles dias — algumas belas, outras nem tanto. Animou-se um pouco, perguntando-se o que o deserto havia preparado antes da sua partida. Então a figura aproximou-se, mais e mais.
Sorriu. Seria uma das belas.
Um rapaz admirável caminhava para a sua direção, deslizando por baixo de sua longa túnica verde-água. Tinha cabelos escorregadios, tão negros quanto nanquim, que lhe alcançavam o queixo. A cada passo, o verde gelado de seus olhos crescia na imensidão de areia.
Wadije se confortou, de certa forma, não morreria sozinha. Ele parou diante seu futuro túmulo, sua face era tão serena quanto a paz que havia florescido nela. Notou que seus pés estavam descalços, sem sinal de mancha ou ferida; sem dúvida, só poderia ser uma sombra. O rapaz agachou-se e a observou de perto.
Olhos tão lindos, foi tudo o que conseguiu pensar. Arrepiou-se quando ele tocou nos cortes em seu braço, deixando-lhe uma sensação formigante e gelada.
“Você é tão fascinante”, ele falou sem falar, pois sua boca não mexeu. “Como é?”
Wadije fez um esforço para franzir as sobrancelhas. “Como é o quê?”, ela perguntou, também sem usar a boca.
“Estar viva. Dói, não é?”
Ela balançou levemente a cabeça. “Demais.”
Os cabelos pretos esvoaçavam, mas não havia brisa naquele lugar. Ele virou-se para a espada, e um reflexo luminoso clareou as íris verdes. “Isso é seu?”
Com dificuldade, inclinou a cabeça para ver a espada melhor. “Não.”
“Se quiser, posso ajudá-la a devolver”, ele sugeriu, plácido feito o espelho de um lago.
“Acho que não consigo”, respondeu, sentindo a respiração pesar cada vez mais. “Mas se quiser, você pode levá-la.”
Ele pesou a resposta, fitando-a diretamente nos olhos. Parecia real, mas tinha certeza que isso não era possível — a beleza se apresentou a ela somente através de sonhos — e agora em miragens também.
“Se quiser, pode me acompanhar. Apenas se quiser”, ele frisou. “Mas entendo se escolher ficar por aqui. Talvez eu também escolhesse, em seu lugar.”
Wadije olhou para o céu, azul como o mar na janela de seu antigo quarto. Talvez quisesse ver o mar uma última vez, e respirar o vento de sal sobre o rosto.
“Eu até gostaria, se ao menos conseguisse andar…”
O rapaz sorriu e tudo ao seu redor foi iluminado.
“Garanto que não será preciso.”
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